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SEGURE-MINHA-MAO

Segure a minha mão…

Giordana Bonifácio

“Sei que você consegue, vamos: é só abrir os olhos! Sei que pode. Era o mais forte de nós três. Diziam que éramos o ‘trio parada-dura’.  Lembra?  Você sempre foi o mais bacana, fazendo sucesso com as gatinhas. A gente não se separava. ‘O mais importante é a família’ você repetia. Enfatizava que não importa o que acontecesse, deveríamos permanecer juntos. Quando mais precisei, você esteve efetivamente ao meu lado. Também estou aqui. Não vou deixar-lhe. Não agora que precisa de mim. Posso ouvir sua dor. Sinto-a. É grande, mas você é forte, cara. Vamos: estou aqui ao seu lado. Sempre estive. Como você nunca me deixou. Relaxa, não vai acontecer nada de pior. Você vai voltar a andar de skate radicalizando nas avenidas largas de Brasília. Mas antes disto você vai ficar ‘de molho’ uns tempos. Nem esquenta, você vai ‘tirar de letra’. Além do que, você vai ficar com uma cicatriz na perna que a mulherada vai adorar. Só isso. Não tenha medo. Vamos cara. Meu irmão mais velho e amigo de todas as horas. Confie em mim. Está ouvindo todo este barulho, ambulâncias, curiosos, bombeiros num salvamento desesperado? Está ouvindo as buzinas estridentes? Então, concentre-se nesse som. É para este lado que deve seguir. Sei que na vida tudo é bem mais dolorido. Mas imagina como vão ficar a mãe e o pai sem você… Estou segurando a sua mão. Igual você fazia quando eu tinha medo. Como no primeiro dia do ginásio. Você só me deixou quando viu que poderia prosseguir sozinho. Sou eu agora que vou lhe acompanhar. Segure a minha mão. Coragem, cara. Por acaso, você está ‘amarelando’? Até uma criancinha sai dessa numa boa. Seja forte! Para que serviram tantos anos de academia e alimentação saudável? Vamos lá, sem essa de desistir agora. Sei que você está com medo. Mas eu estou aqui. Seu irmão caçula e mais bonito. ‘Falou, estou só zoando’. ‘Você é o mais maneiro’. Lembra da Aninha do 204? Se você sair dessa ela vai lhe ‘dar bola’! Não vai dizer que não se lembra dela! A loirinha de olhos azuis. Filha da nossa dentista. E ainda tem a Carlinha, aquela morenaça lindíssima por quem você passou um tempão ‘babando’. Vai perder essa, ‘Zé-mané’? Oportunidade não se perde!  E tem outra, nesse momento a Sílvia está telefonando lá para casa. Ela teve um pressentimento ruim. Sexto sentido de mulher é ‘batata’! Ela não era a amiga do Valdo? Você era ‘gamadão’ nela também, né?

Então, vai bancar o ‘panaca’ e desistir? Sem lutar, assim, por W.O.? Deixa de ser ‘molengão’, vamos, é só respirar com força. Abra os olhos, sinta a luz ofuscar mais uma vez a sua visão. Os bombeiros estão lhe dando choques. Hunf, monstra para eles que você é ‘fodão’. Faça bater esse coração malandro. Segura essa: um Fernandes nunca desiste. Está esperando o quê, ‘otário’? Vamos, seja forte! Aí, o pulso está voltando. A equipe de salvamento está sorrindo. Pela sua cara deve estar doendo pacas. Esquenta não, vai doer por algumas semanas, somente. Brincadeira. Logo vai passar. Estão lhe levando para o hospital. Não gosto de hospitais, você sabe, mas vou nessa com você. Até que a ‘Branca de Neve’ esteja fora de perigo. Achava que lhe deixaria assim tão cedo? Não, estamos juntos nessa! Ainda tem uma cirurgia arriscadíssima pela qual você tem de passar. Bem mais difícil que prova de matemática. Mas para você vai ser ‘fichinha’. Eu estou aqui para lhe incentivar. Levar você à vitória. Tirar o máximo do meu melhor jogador. Vamos lá que o jogo é de dois tempos de 45 minutos. Ainda há os acréscimos do juiz. Mamãe, papai e o Alex já devem estar chegando. Um dos bombeiros ligou para eles. Não vai dar vexame, ok? Nada de morrer na frente deles ou antes deles chegarem. Aliás, nada de morrer hora nenhuma! Não é o momento. Você vai casar-se, ter filhos e, depois, netos. Por isso, para de ‘dar uma de donzela’ que só são algumas costelas quebradas, um pulmão perfurado, lesões no baço e uma fratura exposta na perna. Viu, nada com o que se preocupar. Tudo perfeitamente superável. Ainda bem que tem estoque de sangue no hospital. Cara, você está mais roxo que um buquê de violetas. Os médicos são legais, vão deixar você novinho em folha. Que tal aproveitar e pedir para eles fazerem uma lipoaspiração nessa sua ‘barriguinha de chope’? Acabaram de avisar que nossos pais já chegaram e estão preocupadíssimos. Cara, que confusão você arranjou, ein? Se tivesse escutado a mamãe e não ter saído hoje para andar de skate… Viu, aprendeu a lição? Não deixe jamais de ouvir sua mãe! O babaca que atropelou você estava bêbado. Bateu o carro no poste e tentou fugir. Mas as pessoas próximas impediram a fuga. Por que o mundo está cheio de gente idiota? Por isso que você tem de ficar: para tornar essa ‘bagaça’ de mundo algo melhor.

Sem essa de estar cansado. A festa só termina quando ‘O lá de cima’ disser. ‘Aguenta aí’. ‘Aos trancos e barrancos todos vão sair vivos’. Ainda tem outra, lembra aquele emprego maneiro na empresa de publicidade mais ‘da hora’ da capital? Acho que você tem grandes possibilidades ficar com ele. Isto se você deixar de ser ‘fracote’ e vencer essa batalha. O que o Mel Gibson iria dizer de você agora? ‘Honre estas calças’? Não, quem falaria isso seria o papai. Mas dá no mesmo! Vamos, faça um esforço no início que depois a vida ‘vai na banguela’. Está tudo dando certo. Acho que você vai sobreviver ‘manézão’. Boas novas, nada de ‘vestir paletó de madeira’. Depois de passar o efeito da anestesia, os médicos disseram que você vai acordar. Disseram que você tem uma fome de vida fenomenal. Bem, disso eu não sei. Mas se for igual quando você joga futebol, então você é ‘fominha’ mesmo. Não ‘passa a bola’ para ninguém. Não disse que você iria vencer esse jogo? Mesmo que você não tenha perdido a mania de ‘ficar na banheira’. Viu? Ainda me lembro de como você jogava. Sinto saudades de nossas ‘peladinhas’ no Parque da cidade. Vou ficar com você até acordar. Ainda está com uma cara horrível, vê se melhora ela que a Silvia soube do acidente e está vindo lhe ver. Não vai fazer um papel feio na frente dela. Jogue um charme que ela até fica como enfermeira para lhe dar remedinho. Coloque uma cor nessa cara, para ela não pensar que você já morreu. Faça um charminho de doentinho para ela ‘ficar na sua’. Mamãe e papai estão desesperados. Alex não sabe o que fazer. Ele é um irmão tão bom quanto eu. Está tentando manter a calma. Ele sempre foi o mais racional da família. Mesmo assim, é um irmão ‘do caramba’. Confie nele. Vocês devem ficar juntos. Mesmo que já não haja mais o ‘trio parada-dura’. Como você diz: ‘família é o mais importante’. Pelo que vejo, já está abrindo os olhos. Bem vinda de retorno ao mundo dos vivos, ‘Bela Adormecida’. Até mais, meu irmão mais velho.”

-Ma … cof… teus ? Disse tossindo, Hélio.  Seus pais já estavam ao seu lado. O filho por pouco não falecera. Um acidente terrível. Fora atropelado por um carro conduzido por um motorista embriagado. Mas, devido a um milagre, ele sobrevivera, contrariando todas as previsões dos médicos.

-Não, filho, somos nós: seu pai, sua mãe e seu irmão Alex.

– Nossa, eu juro que pensei ter ouvido a voz do Mateus. Disse com dificuldade o enfermo.

-Impossível, cara. Mateus morreu há mais de dois anos. Ele faleceu devido a um câncer. Não se lembra? Não vai dizer que você foi para o outro lado e ele mandou-lhe de volta? Zombou Alex.

-Não sei. Mas penso que ele estava comigo. Senti a presença dele. Não sei como explicar. Disse quase num sussurro Hélio.

-E se tiver sido mesmo seu irmão? Quem pode dizer que não seja verdade?

-Mãe, não vai dizer que acredita nessas coisas?

-Sua mãe está certa, Alex. Quem sabe Mateus não nos devolveu Hélio são e salvo? Respondeu Rubens, o pai dos dois garotos, outrora pai de três. Antes de um câncer ter levado seu caçula.

-Eu sei que senti a presença dele. Mas… Não me recordo do que ele dizia. Sibilou, ainda, Hélio, antes de ser repreendido pela enfermeira que entrou para aplicar-lhe a medicação:

-Chega de emoções por hoje. Você é forte, mas não é dois. Hora de descansar. Você tem a vida inteira para explicar como sobreviveu a um acidente tão grave.

-A Silvia está chegando, ela teve um mau-pressentimento e telefonou lá para casa. Estranho, não é? Tanto quanto a inexplicável presença do Mateus. Bem, não quero provocar discussões. É melhor descansar. Não vai querer estar com essa cara quando a Silvia chegar. Vou ficar aqui ao seu lado, mano. Não se preocupe. Segure a minha mão… Disse Alex antes do irmão acidentado adormecer.

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Lâmina

Giordana Bonifácio

Carrego uma ferida no meu peito,

Pois existe uma lâmina cortante

Encravada na carne de tal jeito,

Que choro a minha dor a todo instante.

 

Esta lâmina é das lembranças o fruto

E também de uma mágoa muito antiga,

Contra a qual há bastante tempo luto,

Porém sua força coíbe que eu prossiga.

 

Pois sou eu mesma o meu mais terrível algoz.

E não há quem vá ouvir minha débil voz,

Num último murmúrio, pedir perdão.

 

Porque ninguém com meu penar se importa.

E a lâmina só à minha carne corta.

Para viver, eu jamais tive aptidão.

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 A verdade sobre o homem

Giordana Bonofácio

A verdade dói, mas a ouvir é necessário.

Pois não é possível viver na ignorância.

E quando for o tempo do nosso inventário,

Do produto de nossa terrível ganância ,

 

Toda a verdade que escondemos virá à tona.

E não haverá clemência neste horrível fim.

E por nossa alma só chorará a boa Madona.

Penas terríveis já a nossa alma esperam enfim.

 

Espadas flamejantes cairão sobre nós.

A verdade vai se tornar muito sólida

Sei que já estamos, nesta realidade, sós.

 

Pois mentimos a nossa vida para o mundo.

Enganamo-nos que não existirá partida .

E que somos bons, mesmo que bem lá no fundo.

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A dor verdadeira

Giordana Bonifácio

A rua, a casa, o quarto, o som, a música.

Depois silêncio e lágrimas, a rima rica?

Talvez apenas este pobre sentimento.

Deste terrível mal, eu sei: não estou isento.

 

Sinto, porque sou humano, só somente.

Lá fora, cai uma chuva fina e persistente.

Não posso viver alheio ao bater do coração,

preso a estas divagações que me atormentam.

 

Queria falar sobre sonhos, queria ser feliz.

Mas a melancolia aparece sorrateira,

como num pesadelo que a tudo prediz.

 

A emoção é fugaz e acontece sem que o queira.

Sangra-me o peito e o que esse vazio me diz?

Somente o que sei sobre a dor: é verdadeira.

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