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A tragédia de Santa Maria

Giordana Bonifácio

Quando acontecem tragédias como a de Santa Maria é que as autoridades param para repensar o que poderia ter sido feito para evitar o desastre. No fim, descobre-se que foi uma soma de erros que, com um pouco de bom senso e moral, não aconteceriam. Na boate Kiss não foi diferente: uma multidão de duas mil pessoas aglomerava-se num espaço com capacidade para apenas mil. Isso demonstra o profundo descaso dos donos da boate com as vidas postas em suas mãos. Pois, é certo que quando qualquer um se propõe a realizar um evento destes tem de compreender que as pessoas que a este comparecerão estão colocando sua segurança sob a tutela dos donos da casa de shows; outro fato escandaloso e reprovável foi os seguranças impedirem a saída da multidão enlouquecida a fim de evitar prejuízos à boate, ao invés de pensar nas vítimas aterrorizadas, levaram a lógica capitalista ao seu ponto mais terrível, quando ela desvaloriza a vida em função do dinheiro; outro erro foi de a saída ser deveras pequena para todos saírem a tempo e a salvo; e, ainda, a banda que se apresentava num local fechado não poderia ter feito um show pirotécnico sem autorização e supervisão dos bombeiros. Todos esses fatores somados provocaram a morte de 245 pessoas e outras várias feridas. Porém, a mais assombrosa foi mesmo a exigência de pagamento pelos seguranças que barrava a saída das vítimas. Em função disso uma montanha de corpos se formou próximo à entrada da boate. Os bombeiros disseram que não conseguiam chegar ao fundo da casa de shows em função dos inúmeros corpos, pessoas que foram asfixiadas pela fumaça do incêndio. Mesmo com a ação rápida dos bombeiros não foi possível dirimir a tragédia. Ocorre que se deveria, desde o início, atentar para os fatores apresentados. Pois só assim não haveria tal contingente de corpos, na maioria de jovens estudantes que não imaginava que perderia a vida de forma tão dramática. É de se imaginar o desespero das pessoas vendo a iminência da morte sem poder fazer absolutamente nada para evitar. Já que a única saída possível estava fechada por seguranças truculentos numa atitude inaceitável.

Resta aos pais somente irem recolher o corpo sem vida de seus filhos. Estudantes que sonhavam com um futuro que nunca chegará. Filas imensas se formam frente ao ginásio usado para o reconhecimento das vítimas. Enquanto isso, na imaginação de seus pais, ainda há uma esperança de seu filho não estar entre os mortos, mas provavelmente ferido em algum dos hospitais da região. Só que o destino é inexorável. Eis que avistam o corpo daquele garoto a quem viram crescer e se tornar um rapaz, sempre bonito arrumado para as gatinhas. Agora jaz ali, o que restou de seu menino. Aquele mesmo com quem o pai ralhou por ter quebrado a vidraça do vizinho, aquele mesmo que lambia a vasilha em que foi feito o bolo. E a mãe daquela bela jovem que marcou para a filha voltar às duas horas da manhã e ela não apareceu. Primeiro, ficou nervosa pela quebra da promessa da garota. Mas ao saber da tragédia, desmoronou. Não encontrou a filha em nenhum dos hospitais. Não queria procurar entre os mortos, pois tinha de alimentar uma esperança infundada que a encontraria apenas ferida. Então, vê ali o corpo da filha com a maquiagem borrada, frio, duro sem aquela aura alegre que sua menina costumava ter. E eles pensam: está tudo acabado. Não sabem como se reerguer após este evento horrível. Sentem uma dor incomensurável.  O governo disponibiliza, então, psicólogos para ajudar a mitigar a dor dos familiares. Mas é pouco. O que deveria ter sido feito, não o foi. Agora, não há como aplacar a dor do descaso, a dor da intolerância, a dor da falta de solidariedade e a dor da morte. Sentados acariciam a cabeça daqueles garoto e garota que lhe deram tantas preocupações e alegrias. Pedem desculpa por não os terem protegido como haviam prometido quando nasceram. Disseram que nada de mal lhes aconteceria. Porém, num simples momento de descuido, a morte ceifou a vida de suas crianças sem poderem ter feito nada para evitar. Agora vão recolher os cacos que não podem ser consertados. É o fim.

E nesse momento, o mundo solidariza-se com as vítimas da tragédia. Os jornais noticiam tudo a respeito para manter todos bem informados da situação. Contudo, o que os espectadores podem fazer senão lamentar e rezar pelos que se foram? Talvez aprendam a lição para que não voltem a ocorrer casos como este, com tantos mortos e feridos. As pessoas, compadecidas, correm para os hospitais a fim de aumentar as doações de sangue para as vítimas. Faz-se o máximo possível a uma sociedade sem ação. Por quê? Porque já é muito tarde. E os mortos não ressuscitarão. Talvez por um milagre como o que ocorreu com Lázaro. Mas já não é tempo de milagres. É tempo de dor e comiseração para com os que hoje choram e precisam de apoio para superar a angústia. Já os que faltaram com a segurança, devem ser punidos. Pois a massa de mortos amontoados na saída da boate só clama por justiça. É necessário atribuir à culpa desse crime vergonhoso aos seus causadores. Imprimir sobre seu nefasto descaso o peso da lei. Para evitar que se repita a cena que hoje não sai das televisões do mundo. As pessoas enlouquecidas tentam encontrar com vida seus rebentos, que faleceram do modo mais banal: em função da ganância dos donos da boate que lhes impediram a saída rápida do local do incêndio. Gente que não é mais gente, são corpos, mas não apenas corpos, são corpos amontoados. Asfixiados pelo capital, mortos pela negligência. O que pode ser feito? Chorar por tantas vítimas inocentes, que deveriam se divertir num show e foram asfixiadas, pisoteadas e queimadas num incêndio que poderia ser evitado por ações simples de prevenção. Agora, as vozes embargadas pela dor perguntam por seus filhos. E seus filhos já não podem ouvir seus apelos. Já não podem responder às suas súplicas. Amontoam-se depois da fuga desesperada. Não havia como sair. Não havia como escapar. Então sua única alternativa foi falecer. O silêncio tomou conta do ar já impregnado de gás carbônico. Não podem mais pedir ajuda. Não gritam apavorados. Aceitaram a morte tal qual aceitaram a vida: sem escolha.

Imagina o que estas pessoas pensaram antes de morrer. Muitas devem ter pensado na dor da família, outras devem ter lamentado pelos sonhos que não concretizariam, e, ainda, há aquelas que pensaram em Deus e clamaram por sua misericórdia ao morrer. Choraram quando se deram conta que não poderiam fugir e que o ar escapava de seus pulmões intoxicados. Pediram por mais alguns minutos de vida que não lhes foram concedidos. Foram caindo, não havia mais dor em seus corpos, agora estavam livres de sua condição humana. Talvez agora estejam compadecidos da dor de suas famílias, querendo auxiliá-los, ao seu lado, sem poder nada fazer. E aquele dia que deveria ser uma data feliz, acabou se tornando o dia de uma das maiores tragédias do país. Os pais vagam sem direção, desnorteados pela dura realidade. Não poderiam mais aconselhar seus filhos a não irem para o show. Não poderiam mais impedir que eles fossem. Só restam cinzas e pó e famílias marcadas para sempre com esta dor. O que há de ser feito? Somente prevenir que outros não morram em desastres desta proporção. O maior crime é o descaso. A vida humana é muito valiosa para ser perdida em função de valores irrisórios. Devem tratar homens como homens e não como coisas. Não são apenas números numa terrível tragédia. Cada um dos que morreram tinha um nome e uma história. Muitos sonhos foram perdidos nessa madrugada de domingo. Foram sufocados pela negligência dos mais ricos. Foram amontoados sob as cinzas da esperança. Em função desses sonhos dourados que nunca mais serão reavidos, uma parte de cada ser humano também morreu hoje. Porque fomos tolerantes quanto a situações inaceitáveis. E em função disso pagamos um preço muito caro. Não são apenas as famílias das vítimas desse desastre que hoje lamentam, mas todo o mundo que nada fez para evitar essa tragédia.

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Mente sã, corpo são

Giordana Bonifácio

Mente sã, corpo são, já há muito se cobrava.

A saúde é essencial à qualidade de vida.

Infeliz gente que das moléstias é escrava,

Cuja dura existência é deveras sofrida.

 

Não há sensação igual à de ter um corpo são,

Ao qual não sobrevenham vãs enfermidades.

Quando doentes, terrível é a nossa confusão,

Pois as doenças subjugam nossa imunidade.

 

Portanto, muito melhor gozar de boa saúde.

Que restar padecendo sobre um alvo leito.

Pode parecer uma declaração rude,

 

Mas cuide de sua saúde como de um tesouro.

Pois só lhe damos valor quando não há mais jeito

De aniquilar a doença e outros males vindouros.

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Domando as musas

Giordana Bonifácio

Quero ver a beleza deste vasto mundo,

E num sentimento deveras profundo,

Reconhecer-me como parte desta Terra.

Um ser humano que sem destino certo erra.

 

Perdendo-me em poesias, produtos de minha arte.

Encontro-me entre versos, estão em toda parte.

O vazio da solidão, preencho com música.

A literatura é o que torna a vida rica.

 

Acreditando ter as musas sob domínio,

Pois as palavras me geram grande fascínio,

Considero-me já uma perfeita poetisa.

 

Mas logo reconheço: a arte é deveras precisa.

Não se resume a criar rimas e versos tortos.

Assim em sua obra ensinam os poetas já mortos.

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Ainda é hoje.

Giordana Bonifácio

Acordei crente do amanhã ter chegado.

É que ontem esperava o hoje que era feriado.

É que eu pensava tolo que o hoje era o amanhã, ontem.

É que o relógio nos diz: “os segundos contem!”

 

Eu, bem disciplinado, o amanhã sempre espero.

E todos os segundos conto com esmero.

Mas eis que o amanhã chega enfim e me surpreende:

É hoje! Isso é estranho e penso que ninguém entende.

 

O tempo passa sem fim no relógio e é hoje ainda?

Quando será que minha enorme espera finda?

Aguardo este futuro que não chega jamais.

 

E enxergo o ontem sempre que olho para trás.

Se o amanhã hoje será, porque esperar o futuro?

O ontem é o hoje vivido que não mais aturo.

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Fotografia

Giordana Bonifácio

O que se esconde por detrás deste sorriso?

Imagem que recorda um perdido passado.

De uma época em que nós não tínhamos juízo.

Pergunto: o que será que fizemos errado?

 

As fotos felizes hoje tristes se tornaram.

O ontem que restou apenas ao papel restrito.

Enche o hoje de profunda mágoa. Só sobraram,

As memórias de um amor que se cria infinito,

 

Mas revelou-se só um terrível engano.

Fui acometido deste sentimento insano.

E minha dor é eterna como a fotografia.

 

Não pode amar quem no ser amado não confia.

Sou eu o culpado? Será este o motivo do fim?

Meu erro foi querer ter você só para mim.

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Dor = Amor

 Giordana Bonifácio

Não sei por quanto tempo tenho lhe esperado.

A culpa é toda minha, creio que entendi errado.

Ou talvez não haja nada a se entender, vai saber…

Restará tudo só entre nós, no que a mim couber.

 

Pudera ser teorema bem mais compreensível,

Mas me parece não ter solução possível.

É com certeza a dúvida que ainda persiste.

Não consigo mais penar é algo que me assiste.

 

Sei que não mais me ferir não é possível jurar.

Mas tenha dó de mim, cansei de me aventurar.

De meu coração só tenho um trapo sofrido.

 

Do amor saiba que há muito tempo tenho corrido.

Porque já estou exausto de sentir tanta dor.

Mas o que fazer? Sofrer é a única razão do amor.

 

 

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Lembranças

Giordana Bonifácio

O doce sabor amargo desta saudade,

Que queima nos momentos em que não me arde,

Mesmo quando não fere o coração, machuca,

E está presente comigo mais do que nunca.

 

Que faço da vida? Mais me vale a morte.

O azar se faz bem mais presente que a sorte.

Minha dor é ter perdido a felicidade.

A horrenda mentira era a sua cumplicidade.

 

E sinto no peito um vazio cheio de amargura.

A minha boa imagem é só uma triste figura.

Agora o que você me diz daquele passado?

 

O que era certo agora você julga errado?

Como pode esquecer daquelas lembranças?

Diz que “somos adultos e éramos crianças”.

 

 

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Divagações

Giordana Bonifácio

Sento-me em frente ao computador. Não temos nada a dizer um para o outro. Ele olha-me interrogativamente. Eu nada respondo. Ele continua a me fitar. Até que resolvo escrever algo. Para quê? Não sei, talvez para quebrar o silêncio que se perfaz entre nós dois. E quando as palavras surgem no papel (que não é o papel realmente, mas uma simples representação), parece-me que a máquina se alegra. Bobinha, mal sabe que em poucos segundos vou apagar tudo. Com o backspace vou destruir a história que teimou em começar. E decepcionada, ela voltará a questionar-me. Não sabe que hoje as ideias me faltam. Não tenho sobre o que falar, nada me instiga a escrever além dessa ausência que se faz presente em meu peito. Agora algumas linhas já governam a tela. Penso se devo “deletar” esse início de crônica, releio o que até agora escrevi. Desisto de desistir. Estranho não é? Ter todos os meios para abandonar uma ideia e conservar-se nela… Acho que faço as coisas dessa maneira. Insisto sobremaneira em todas as situações. Creio que temo abandonar os sonhos, mesmo quando eles já tenham perecido. É um erro, confesso, não devemos temer mudar de caminho. Ainda mais quando as vias que escolhemos não nos representam por completo. Sempre pensei que poderia ser uma boa advogada, mas quando percebi que até o ambiente do fórum era-me desconfortável, deveria ter deixado de lado esse objetivo que se tornou um terrível pesadelo. Persisti procurando um destino que não me pertencia. Estudei sobremaneira para descobrir o que gostava realmente de fazer. Não sei ao certo se será a via mais rentável economicamente, mas é bom quando estamos felizes com o que realmente sabemos fazer. Gosto de escrever. É o que faço melhor.

 Quando o computador encara-me friamente esperando respostas, despejo em sua tela uma quantidade imensa de perguntas. Eu não tenho mais que isso para oferecer-lhe. É tudo que possuo e posso conferir-lhe. Não é a verdade mais agradável, os outros acreditam que os escritores podem fornecer a saída para os mais intricados dilemas. Não sabem que também estamos à procura das soluções para nossos problemas internos. Nunca prometi as respostas que não possuía. Nem para esta máquina que devora meus sonhos, nem para o leitor ávido de resoluções. Querem que lhe revelemos o segredo da vida. O problema que também estamos à procura, talvez de nós mesmos, dos segundos que se esvaem sem que consigamos retê-los. Estamos em busca do tempo perdido de Proust, das mil e uma noites de histórias de Sherazade, da ilha de Robson Crusoé e seu companheiro Sexta-feira, das obras mais inusitadas de Saramago e do mundo fantástico de Garcia Márquez. Alguma coisa para esquecer que estamos vivos e que fora dessas linhas há uma vida a nossa espera. Queremos mesmo é fugir para dentro de nós. Alguma coisa como escapar para si mesmo. Estar em contato com nosso próprio espírito que, há tanto tempo, abandonamos.

A fantasia que guardamos em nós é menos ameaçadora que a realidade que desmitifica a ficção. Quando a leitura do romance termina e somos obrigados a retornar ao mundo. Fechamos o livro, o guardamos na estante e estamos de volta do sonho. Às vezes esse retorno é traumático, não estamos preparados para o choque de realidade. É preciso estar em condições de sair da história, de forma gradual para não incidir em mudanças de comportamento e humor. São os efeitos colaterais de uma boa leitura. Queremos tanto que a narrativa continue que, sem que percebamos, estamos agindo estranhamente e muitas vezes adotamos o humor e as atitudes do personagem do romance que estávamos lendo. É quando a história silencia que procuramos uma nova fantasia para onde possamos escapar. Voltamos à estante, escolhemos algum livro que nos agrade, que na verdade é a chave para nossa imaginação. Há uma porta em nós que não ousamos atravessar quando somos adultos. É a da sala em que guardamos nossa imaginação. Mantemo-la trancada como também àquela que aprisiona nossos sonhos. Os artistas simplesmente tem o poder (e a coragem) de deixar estas duas portas abertas. Libertamos nossa criatividade das amarras de uma realidade limitadora. E apresentamos tudo que pensamos nessa folha em branco tão exigente e voraz.

Essa máquina faminta de pensamentos não se contenta com estas frases que nela despejei. Exige-me mais. Quer sugar de mim todas as minhas fantasias. E eu querendo apenas deixar esta crônica pela metade. Sei que é fraqueza, mas quando as palavras já não nos dizem mais nada? Será que devemos insistir numa discussão sem futuro? Persistir nas estradas sem nome da desilusão, como tantas vezes o fiz? Queriam respostas, assalto-lhes com meus problemas. Eis o que faço. Essa máquina fria que me exige também deve sofrer comigo. Nós duas companheiras e inimigas. Eu estou sempre a contar-lhe histórias, ela a ouvir-me mais que qualquer pessoa já o fez. Ninguém se ocupa muito do que escrevo. Talvez por ser chato e sem sentido. Só esse computador de sonhos binários ainda se conserva ao meu lado. Nele encontro solo fértil em que posso plantar minhas sementes de ilusões. Cultivo muitos hectares, vastos campos dourados de divagações. Sem muita serventia, porque não há quem colha os grãos, e com eles façam o pão que alimente suas mentes. Conservo o trigo de minhas memórias no mesmo local. Sem função também, porque não gosto de reviver o passado, mesmo que sinta saudades dele. É que me fere muito lembrar os meus objetivos de outrora e descobrir que, tudo o que um dia desejei, jamais se concretizará. Talvez por minha própria culpa. Sempre fui muito tola. Desperdicei oportunidades demais. Queria que esse presente fosse realmente um presente e não apenas a pena dos meus erros do passado. Quando tudo que existe hoje era apenas um futuro distante, poderia ter agido diferente para que as consequências de minhas escolhas não me afetassem mais tarde. Mas agora nada mais faz sentido. O passado se foi, o presente se fez passado e o futuro se tornou um presente de grego. Um cavalo do qual saíram Ulisses e suas tropas e destruíram minha Ílion. A cidade de fantasias que mantinha em mim, ruiu sob as forças gregas. Ainda há alguma saída possível? Talvez tenha evadido tantas vezes e das mais diversas formas para mim mesma que não saiba como sair desse calabouço em que me prendi.

Estou encarcerada em minha mente, com todos os meios de sair ao meu alcance sem que consiga usar nenhum deles. Acho que temo a vida e ela me despreza. Estamos discutindo por mais de três décadas e ainda não conseguimos nos entender. Sinto-me traída por ela. O destino subtraiu-me de minhas expectativas. E parece-me que as ideias surgiram de algum modo, ocupei quase duas páginas de minhas lamentações. Está claro que não estou muito feliz com o resultado. Sabe, gosto mais de contar histórias… Falar sobre mim dói demais. É que sou muito sincera, não floreio as palavras não represento quando tenho de falar do que sou. Sempre digo o que sinto. E muitas vezes nem me querem ouvir. Não os condeno por isso. Mas me repreendo por estar sempre a falar sobre a dor de ser eu. É que ser é mais sofrido que não ser, quando ser é o reflexo que não queremos ver no espelho. A verdade é que não queria mesmo escrever hoje. Estou muito gripada e deprimida em razão do meu aniversário na véspera. Apesar de ter sido felicitada por todos meus amigos, há uma ausência que não se ausenta de mim. É sobre ela que estava falando no início dessa crônica. Há um vazio impreenchível em minha alma. Algo que não pode ser completado. Sinto falta de alguma coisa que não conheço. Uma realidade que deveria existir, mas me escapou por completo. Passo os dias abandonada em meus próprios pensamentos, tentando descobrir, entre tudo o que não possuo, o que me faz mais falta. Será que a solidão é que me atormenta ou a escassez de perspectivas para o futuro? Será que, por não estar conformada com a vida que possuo, a melancolia faz-me mais sensível no dia do meu aniversário? O mais provável que seja apenas o efeito dessa doença que se dissemina em meu corpo. Se algo tão pequeno como um vírus pode nos deixar muito doentes, imagina o que pode causar essa terrível ausência que se prolifera no meu espírito como um buraco negro que suga tudo ao redor? Acho que já é o bastante. Contente-se com estas frases, máquina exigente, pois estou muito enferma para criar algo diverso.

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Casa grande e senzala

Giordana Bonifácio

Estava ébrio é verdade, mas não fui eu quem começou aquela briga. Quando dei por mim, cadeiras voavam, sangue e dentes quebrados respingavam por todos os lados. O som de garrafas de vinho estilhaçando acompanhavam os urros de dor e força dos homens que lutavam naquela taberna. Não demorou muito, a guarda real chegou e levou todos presos. Os que tinham “costas quentes”, ou seja, uma pessoa de renome nas altas corporações, como igreja e governo, foram logo liberados. Eu, um mulato filho bastardo do coronel Aguirre com uma de suas negras, fui lançado na prisão sem previsão de liberdade.  Fui despejado numa masmorra úmida e quente que exalava o odor pestilento de fezes e urina. Estávamos na cela, eu, um velho que murmurava algo, (como se rezasse penso eu), e um gordo comerciante acusado de matar a esposa. Éramos todos pobres, mas algo os diferenciava de mim: a cor de sua cútis, a pele que parecia gritar a minha insignificância. Os guardas os tratavam com mais respeito, tinham privilégios como uma cama em que deitar. E acho que até a ração que recebiam tinha menos vermes que a minha. Não me dirigiam, meus companheiros de prisão, sequer uma palavra, como se eu não tivesse o direito de estar no mesmo recinto que eles. Sei que se houvesse um covil para arremessar os negros que cometessem crimes, como uma grande senzala prisional, eu estaria lá. Longe dos brancos, longe do mundo. Esquecido por Deus, desprezado pela sociedade.

Murmurava, toda noite, durante o cárcere, uma canção que minha mãe cantava para mim, nas noites frias de inverno, quando, com os outros negros do engenho, ficávamos na senzala a relembrar nossa amada terra natal: a mãe África. É uma música numa língua que nunca aprendi. Sei proferi-la por tanto ter ouvido minha mãe cantar. Ela dizia que era a voz de um povo muito antigo cheio de honra e glória. Ficava imaginando que, há algum tempo atrás, os negros eram importantes. Não apenas “coisas” vendidas nos mercados como animais. Eu não sabia ainda que era filho do coronel naquela época. É verdade que era muito estranho que eu tivesse olhos verdes. Nenhum negro da senzala os possuía. Nem o bom homem que me adotou como filho. Um negro muito forte, líder não pronunciado dos escravos do coronel. Ele deu-me várias vezes sua ração quando não traziam comida o suficiente para todos os escravos comerem. Minha mãe era uma mulher muito bonita. Foi logo escolhida pelo Coronel Aguirre para frequentar sua cama. Quando ela engravidou, despejou-a na senzala, para sofrer como todas as outras negras. Eu nasci no mês de junho, uma semana depois, a Sinhá dava à luz ao coronelzinho: Benjamin. Eu fui denominado Antônio, pois meu nascimento se deu no dia dedicado ao Santo. Juntos, meu irmão e eu, tivemos vidas diversas, mas brincávamos e éramos muito unidos, quando eu não tinha ciência de sermos parentes. Dividíamos inúmeras aventuras. Porém, mesmo mais novo, ele era sempre o comandante.  Eu não poderia ser jamais superior a um branco. Carrego na pele o peso da minha maldição.

Acontece que o tempo passou. Benjamin foi para escola. Deixou o engenho por muitos anos. Eu permaneci com os outros escravos, cortando cana. Plantando meu sofrimento que adoçaria a boca dos brancos. Entretanto, a juventude me fez rebelde. Não aceitava como não aceitarei jamais ser denominado de sub-raça porque tenho a pele negra. Fiquei semanas na prisão, sem que houvesse quem me concedesse liberdade. (Mesmo que saiba não ser livre na realidade). Quando nem comida recebia mais dos guardas, apareceu um homem muito bem vestido, elegante, creio que é a palavra correta, que me libertou da cadeia. Ele olhou para mim com olhos inquisidores e tive vergonha dos trapos que eu usava. Logo que saímos, perguntou se eu recordava-me dele. Disse que não, ele tirou um cachimbo do bolso, preparou o fumo metodicamente e acendeu-o. Lançava baforadas compassadas e ficou em silêncio por algum tempo. Depois, sorriu e foi quando o reconheci. Não poderia me esquecer daquele sorriso jamais. Era Benjamin, o coronelzinho. E numa efusão de felicidade, quis abraçá-lo. Ele evitou que o tocasse. Então, dei-me conta de meu papel a tempo de me conter. Ele disse-me que havia se formado em Direito e agora era advogado. Soube que o pai dele tinha me dado alforria, (um gesto de grandeza quando minha mãe morreu no parto de minha irmãzinha), e que eu fora feito prisioneiro. Perguntei por que motivo o Doutor havia me libertado. Foi quando ele informou-me que o coronel morrera  e que estava precisando de um negro como eu para trabalhar nas terras que ele herdou. Eu perguntei por minha irmã. Ela já deveria estar uma mocinha àquela altura. Ele disse que sim. Tinha uns dez anos e era dama de companhia da Sinhá. Emocionado, porque não via a minha irmã por tantos anos, chorei. Benjamin ficou irritado que eu o estivesse envergonhando em público, tive de secar as lágrimas e engolir meu sentimento. Aceitei a proposta do coronelzinho, afinal, não tinha aonde viver, nem como me manter, melhor seria trabalhar, mesmo que por uma ninharia, para meu irmão.

Acontece que acabei por perceber que minha irmãzinha não estava feliz. Ela era uma menina muito tímida e chorosa. Ela não era filha do coronel, mas do bom negro que me adotou como filho, que já havia morrido, pois um escravo não possui uma vida lá muito longa. As doenças chegam devastadoras. E nem sempre os senhores de engenho querem gastar com a saúde de seus escravos. Minha irmã se chamava Rebeca e havia herdado a beleza de minha mãe. Pedi para que ela viesse morar comigo na senzala, para ficarmos juntos, mas Benjamin não permitiu.  Ele não sabia que eu também era filho do coronel. Minha mãe contara para mim somente, me fazendo prometer que jamais contaria a ninguém. Eu achei muito estranho a recusa de Benjamin, porque ele não costumava me negar o que pedia. Eu não pedia muita coisa. Dormia na senzala com os escravos porque não cabia a um negro dormir com os senhores na casa grande. Eu só queria minha irmãzinha perto de mim. Isso não era algo muito difícil. Com o tempo percebi que Rebeca estava cheia de hematomas. E partindo disso comecei a averiguar. Acabei por pensar que a Sinhá estava maltratando minha irmã, o que achei muito difícil, visto que ela era uma dama muito calma e solícita. Jamais houve qualquer reclamação sobre ela de nenhuma mucama. O problema era que, por mais que perguntasse à Rebeca quem estava fazendo aquilo com ela, minha irmã jamais me respondia. Dizia apenas que não era nada. Uma noite, entrei na casa grande sem ser visto, para tentar abordar a Sinhá ferindo Rebeca. Sei que poderia ser expulso do engenho, que não é lícito a um negro interferir no tratamento que os senhores dão a seus escravos, porém eu tinha de fazer algo.

Fui caminhando pela casa, aproximei-me dos aposentos da Sinhá e não havia nenhum som. Entretanto, quando estava perto do quarto de meu irmão, escutei gemidos que pude reconhecer como sendo de minha irmã. Não foi possível me conter, eu tinha sangue nos olhos. Arrombei a porta e deparei-me com uma cena terrível. À minha irmã coube o destino de minha mãe: ser a escrava sexual do coronel. Ela era apenas uma criança! Os seios não haviam sequer aflorado!  Não pensei no fato de ele ser meu irmão de sangue, no momento só queria fazê-lo parar! Empurrei-o com toda força para que abandonasse o corpo esguio de minha irmã que ele subjugava. Então começamos a nos engalfinhar. Contudo, eu era mais forte, esmurrava-o com toda a força. Não queria parar. Ele gritava pelos capitães do mato e tentava se safar de minhas mãos. Eu tinha certeza que iria matá-lo. Bati tanto em seu rosto que o sangue pingava desmedidamente. Ele conseguiu soltar-se e tomou um revólver que estava na gaveta do criado-mudo. Ele teria atirado em mim, se eu não houvesse sido mais rápido ao desarmá-lo. Continuávamos nossa disputa. Ele de ceroulas, todo sujo de sangue e eu com os punhos feridos de tanto esmurrá-lo. A essa altura, a Sinhá já tinha despertado com a confusão e corrido para o quarto do filho. Ela gritava desesperadamente pedindo para que parasse e que eu iria matá-lo. Confesso que essa era minha real intenção. Eu queria mesmo ver meu irmão, aquele ser desprezível, morto. Porém, ele não lutava justamente, os capitães do mato chegaram e seguraram-me de modo que não mais agredisse o coronelzinho. Foi tudo muito rápido. Ele se recompôs, enxugou parte do sangue do rosto com um lenço e veio em minha direção. Ele passou a esmurrar-me dizendo que eu estava tentando defender a minha irmãzinha e que ela era a “putinha” dele. E que eu era apenas um negro e que deveria saber qual era meu lugar. Ele falou que minha vida pertencia a ele. E que poderia fazer o que bem entendesse com minha irmã ou comigo. E, por fim, disse que iria me matar na frente de minha irmã. Foi quando ouvi o estampido. Benjamin caiu aos meus pés. Fiquei atordoado, demorou alguns minutos para eu perceber que minha irmã havia atirado no coronel. E quanto ao resto todos já sabem. Essa é toda história Excelência, espero que possa entender o motivo de minhas ações e de Rebeca. Eu suplico: não a condene à forca, mas a mim, que desgraçadamente nasci filho do coronel Aguirre e irmão de Benjamin. Este que se revelou o mais terrível monstro e que, com suas atitudes abjetas, selou sua própria sorte.

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