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“Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.”
Cecília Meireles

Ao amor indiferente

Giodana Bonifácio

Foi-se contigo a minha vã esperança

E, desde então, a vida é meu maior tormento.

O que ainda resta em ti de sentimento?

Onde tu estás que minha voz não alcança?

 

De certo, teu desprezo é uma vingança.

Vês este meu tão amargo sofrimento?

É que me dói o teu falso esquecimento.

Sei que subsiste em ti alguma lembrança.

 

Se não, ouve a minha dor que agora canto,

Que te possa relembrar nossa história,

O nosso amor tão puro e verdadeiro.

 

E se estes rudes versos podem tanto,

Tornem vivo o que hoje é tão só memória,

Pois só contigo é que me sinto inteiro.

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O palhaço

Giordana Bonifácio

A minha juventude foi um tormento.

Como um palhaço que, desengonçado,

A todos faz rir com seu sofrimento,

Sempre eu era, pelos demais, humilhado.

 

Creio que a dor, desde então, é meu maior talento.

Saltava tal qual um clown desvairado

E a plateia aplaudia com sentimento.

Quem se lembra do que sofre o caçoado?

 

“Para o povo, tal show não se despreza.”

“Vai, caia palhaço, tão infeliz demente!”

“Vai, que o público ao seu penar não preza!”

 

“Não comove ninguém a sua agonia .”

“Mantém este sorriso, à sua dor mente!”

“Não chore! Não traia a quem lhe prestigia!”

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“Aimez, aimez; tout le reste n’est rien.”

Jean de La Fontainne

Amor

Giordana Bonifácio

Ó amor, nossa prisão inevitável,

Vil penar sem matéria, horror sombrio,

Que envolve todo ser inconsolável,

No mais inexplicável e cruel frio.

 

Ó amor, sentimento obscuro e inefável,

Pesar sobre o qual não se tem domínio,

Força que nos impele imponderável,

Nas noites cheias do mais atroz vazio.

 

Ó amor, dor que nos esfria as tardes quentes,

Vazias da plenitude perfumada.

Ó amor, sonho dos beijos inclementes,

 

Das bocas de deleites e delírios.

Ó amor, feroz volúpia alucinada,

Das lembranças, das dores e dos lírios.

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A hora mais escura

Giordana Bonifácio

 Eu conheci muitas pessoas. Andei bem próximo de gente muito importante. Mas, também, acompanho os mais humildes. Visito-os todos de forma inusitada. Mas, antes, procuro conhecer-lhes perfeitamente. Não para julgá-los, pois esta não é minha função, mas para entendê-los. Os seres humanos são a poeira mais complexa do universo. Nunca conheci uma civilização que portasse tantas fantasias. Desejos, sonhos, quimeras… Chamem como quiser. Gosto de tornar-me íntimo deles. Vou perscrutando aos poucos suas vidas tão insignificantes, mas, ainda assim, tão, tão importantes… Acho incrível serem dotados de inteligência, porém, cometerem tantos erros. Muitas vezes, porque ousam ir além. Além das portas fechadas do medo. Seguem confiantes, mas, então, encontram a mim. É meio decepcionante, confesso. Eles pensam que sou bem mais terrível do que sou realmente. O que para muitos é um alívio, para outros já é motivo de descontentamento. Paciência, não se pode agradar a todos. A culpa nem é minha. Eles que imaginam sobremaneira. Desenham o desconhecido com as piores feições. Não sei ainda se são tolos, talvez sejam apenas fracos. Temem o que lhes é estranho. Segregam-se uns aos outros por possuírem culturas, religiões e ideias diferentes. Esse estúpido temor logo se transforma em irracionalidade e violência. Sempre me perguntei o porquê.  São razões tão pequenas para discriminar, ferir e até, mesmo, matar. Esses humanos, somente após muitos milênios, baniram a escravidão de seus costumes. Antes, era usual tratar seus iguais como mercadoria. Seres inferiorizados pela cor de sua cútis. Fiquei muito tempo tentando entender a lógica do regime escravocrata. Jamais o consegui, todavia. Como seres que se gabam por sua racionalidade, são levados a seguir a lei da selva? Aquela em que o mais forte submete o mais fraco? Impossível compreender.  Nesses muitos anos, vi evoluções significativas em sua sociedade. Não posso mentir. Eles estão tentando, mas ainda há muito a ser feito.

Guerras absurdas poderiam ser evitadas se tivessem o mínimo de empatia pelos outros de sua espécie. Assisti muitas cenas de pura covardia e de crueldade sem limite. Se tivesse sentimentos, poderia até mesmo chorar com as imagens que me ficaram gravadas na memória. Ainda bem que posso ver sem me posicionar. Minha função, não se atém a julgar. Já disse. “Isto está fora do meu departamento”, como dizem os humanos. Seguro-lhes a mão na hora mais escura, somente. No instante que a maioria deles tenta evitar. A maioria. Outros me procuram desesperadamente. A vida não satisfaz a todo mundo. Talvez, pelo grau de dificuldades que ela envolve. Nem todos têm coragem de lutar. Provavelmente, não o suficiente. Sentiria piedade de sua covardia. Eles tomam minha mão como quem encontra a saída de um intricado labirinto. Os homens são tão frágeis… Por isso, sentem tanto medo. Eu escuto seus pensamentos no último instante, quando nada mais há a ser feito. Pedem-me mais um minuto. Um minuto que não faria qualquer diferença quando estavam vivos, mas que, antes da hora derradeira, significam uma possível despedida… Uma prece… Uma última lágrima… Mas meus horários não podem ser atrasados. Infelizmente. Vejo o desconsolo dos que ficam. Promessas que jamais se cumprirão, amores desfeitos, famílias destruídas… Eis o que lhes resta. Contudo, ninguém sabe os desígnios do universo. Os homens criaram inúmeras religiões para explicar o que está oculto, aquilo que está muito além de sua ciência e sua inteligência. Querem achar consolo. Querem abrigo no momento mais difícil. Estranho não encararem o fim da mesma forma que enxergam o início. Não são coisas distintas, como pensam. Na verdade, são como o prólogo e o epílogo de um mesmo livro. Queria que soubessem que as mesmas razões de se começar a leitura, fomentam o seu fim. Afinal, são as únicas certezas que possuem. Chegam sozinhos na Terra, mas, quando for o momento, terei de acompanhá-los para longe do que, até então, conheciam.

Não sei também para onde os levo. Como disse, “isto está fora de meu departamento”. A curiosidade é uma característica muito singular dos humanos. É uma benção e uma maldição. Não sou um ser dotado dela. Aliás, nem mesmo sei se sou um ser. Mas, voltando aos humanos, eu os admiro sobremaneira. Eles são incríveis, criativos e imaginativos. Inventam histórias, criam máquinas e sonham… Como sonham…  Podem aprimorar ou mesmo destruir o seu mundo. Pena que a maioria das vezes eles usem seu intelecto para devastar seu próprio lar. Esses pequenos são, também, tão suscetíveis ao vício… Querem encontrar consolo em substâncias que somente lhes abreviam a sua, já curta, vida. Quantos não tive de colher do seio das drogas? Alcoólatras, toxicômanos, fumantes… Seguem todos comigo, mais cedo ou mais tarde. Sei que a fuga que buscam é produzida por seu próprio medo. Não se julgam capazes de prosseguir sem a droga. Quisera poder ajudar-lhes a se encontrar. Buscar a força que existe em cada um deles. Acreditem: não existe problema para o qual não haja solução. As coisas foram escritas para acertarem-se, de um modo ou de outro. Não me perguntem como sei disto. Apenas sei. É um dos mistérios da vida. “A roda da fortuna não para de girar”. Li isto num livro. Não gosto da maneira como os homens retratam-me em seus romances. Quisera ser tão poderoso e inexorável como dizem. Sou, na verdade, um simples funcionário, um despachante, mais precisamente. (Perdoem-me o trocadilho). Levo almas de um lado para o outro. Colho-as, conforto-as, levo-as para seu destino. Simples assim.  Não tem nada do glamour com que me descrevem. Eu gosto de estar perto de pessoas. Sou fascinado por suas bibliotecas. Passo horas lendo seus romances e poesias. Sei, por isto, que cada homem que se vai, leva consigo um mundo tão vasto e inexplorado, que desfalca sobremaneira o universo. Não importa se são desvairados ditadores ou miseráveis mendigos que padecem no frio das ruas. Todos são dotados de uma riqueza descomunal. Pena que poucos saibam disto.

Quando me aproximo, geralmente se assustam. Querem tentar escapar. Mas sou um funcionário muito eficiente. Logo se acalmam e posso levá-los definitivamente. Porém, dias antes, já estou investigando suas vidas. Ouço seus sonhos enquanto dormem. Estou tão próximo deles e nem mesmo desconfiam. Sei o momento certo, muitas vezes, um tanto trágico, de colher suas almas. Não lhes imponho o sofrimento, apenas está escrito. Sabe-se lá por que e por quem. Apenas cumpro minha função. Não há serviço de atendimento ao consumidor ou ouvidorias para atender suas reclamações e dúvidas. Eu só cumpro o meu expediente. Sigo o que me foi determinado, tão somente. Não sou dotado da coisa mais fantástica que os homens possuem: sentimentos. Gostaria de sentir a dor que transborda numa lágrima. Queria sentir o amor que impele esses homens a prosseguirem apesar das adversidades. Queria entender sua fé e sua esperança… E a saudade, então?  Não conseguem esquecer jamais os seus entes queridos que partiram comigo. Estão sempre a recordá-los, até o momento de juntarem-se a eles. Mas, antes disto, maldizem-me dolorosamente. Chamam-me de “ceifadora implacável”. Primeiro, dizem-me ser mulher quando na verdade não tenho sexo. Sou como os anjos de suas religiões. Sou tão somente uma força criada para uma missão determinada. Depois, confesso que minha função não é a mais invejável. É bem difícil ter de ser o causador de tanta tristeza. Devo dizer que, se houvesse uma maneira de trocar de repartição, seguir para a seção de nascimentos, seria-me muito mais aprazível. Ocorre que a minha área não está aberta a mudanças. Mas, apesar de tudo, sinto-me bem por estar tão próximo dos seres humanos. Mesmo que não possa, ainda, os entender. Por mais que leia seus livros, que lhes possa ouvir os pensamentos e sonhos, suas mentes são de tal forma complexas, que me é impossível chegar a um veredicto sobre eles. Não são inteiramente maus, nem completamente bons. Têm falhas imperdoáveis e, ao mesmo tempo, virtudes surpreendentes. Quando lhes trago comigo, lamentam-se por não terem feito tudo que desejavam em vida. Eu apenas lhes digo que a morte não é o fim. É apenas um começo de uma nova história, para os que partem e, também, para os que ficam.

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Ao sabor das vagas

Giordana Bonifácio

Só.
Silêncio.
Suavemente, a brisa
Meus cabelos acaricia.
Sem medo agora.
O mar.
A fina areia.
Espuma fria e branca.
Sonhos perdidos para sempre.
Onde foi a esperança?
A dor.
A água do mar.
A dor tem sabor de mar.
A lágrima derrama sentimentos.
É só se deixar levar.
Para onde?
Para o azul infinito.
Céu e mar unem-se no horizonte.
O sol beija o oceano.
A noite chega.
Solidão,
Só.
Saudade também.
Coisa esquisita sentir.
A gente ama sem querer…
E amar é sofrer.
Dói.
Sussurra a brisa:
Se fosse tudo diferente?
Sem sofrimentos e saudades?
Sinto muito.
Sinto,
Muito.
O luar pálido.
Luz que cobre meu corpo.
É só um corpo agora.
Sem sentimentos.
Sal.
Sede de mar.
Sorvo imensidão.
A dor é salgada também.
Tem gosto de lágrimas,
Mas é mar.
Triste Escuridão.
A noite tem a cor da morte,
Sem medo agora.
Silêncio,
Só.

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Epifanias

Giordana Bonifácio

Ainda penso muito. Sabe como é, fico deitado olhando o nada e vendo tudo. Assim que exercito o meu poder de compreender o mundo. Mas ainda não sei muita coisa. Falta ainda muito para se entender. Mas confio em mim. A solidão é minha companheira, estamos juntos há décadas. Não sei mais como viver sem ela. Ela auxilia-me nas minhas elucubrações. Sempre passei muito tempo sozinho, gostava de examinar o mundo. É que queria entender o porquê das coisas. Hoje tenho a solução para os mais intricados problemas. Mas ninguém quer ouvir mais minhas respostas. Então as guardo para mim. Algum dia, eu sei que vou usá-las. Não me importa o quanto demore. Sei que chegará o momento de por em prática o conhecimento amealhado com tamanha dificuldade. Eu tenho outro hobby: perco-me nas páginas convidativas de um bom livro. Às vezes escrevo também. Mas são poucos os que se aventuram nas minhas histórias conturbadas. Eu escrevo para ninguém. Eu escrevo para mim. Eu escrevo para achar as respostas que se escondem profundamente no espírito. Não sou muito de acreditar em alma, destino ou qualquer baboseira religiosa… Porém, até que fica bonito citar o espírito como algo interno, uma condição de que o homem não foge. Iria ficar estranho dizer que os sentimentos estão no interior do cérebro. Muito racional, não acha? A gente tem de aceitar o irracional de vez em quando. Ainda durmo muito pouco. É que quero aproveitar o dia o máximo possível, levantar com as galinhas e dormir com as corujas. A vida dói. Mas ninguém quer desfazer-se dela. Estranho, não é? Eu gostaria de mudar muita coisa no mundo, mas isso não me pesa mais. O quê?  Isso tudo: as maledicências da raça humana, as injustiças que recaem invariavelmente sobre mim, a dor que impinge sua força neste corpo frágil de carne e ossos… Não acredito mais na bondade. Deixei de ser ingênuo. Sabe, entendi que as pessoas não pensam nas outras. Vivem isoladas em seu egoísmo. Sei que posso ser melhor, sei que “posso ser a mudança que gostaria de ver no mundo”, mas estou cansado.  A gente desiste de ser o diferencial quando ninguém liga. Ninguém escuta. A gente grita e grita, mas é como se a nossa voz tivesse a força de um simples sibilar.

Gostaria de ser mais forte. Saber-me importante. Contudo, já estou cansado. Não quero mais lutar. Minhas forças faltam-me. Bati muitas vezes contra o muro da incompreensão. Agora quero dedicar-me apenas às minhas epifanias. Minhas revelações internas. Posso dar-me ao luxo de também ser egoísta? Não sou como os outros. Pode acreditar… Eu queria ajudar, mudar o mundo, mas o mundo me enjeitou como um filhote de pássaro que foi lançado fora do ninho. Sofri demais. E não quero mais restar com feridas que não se curam. Antes eu era tolo. Queria demais ser ouvido, queria demais que me percebessem. Mas hoje, sabe, eu desfiz-me de certas ‘querências’ infantis. Não me importo mais. Nem machuca mais. Eu entendi o mundo e entendi a essência dessa vida fajuta que o homem leva por quase cem anos. Agora estou certo que nem espero dos homens e nem eles esperam de mim. Vivo mais feliz. Verdade! A solidão era meu martírio, agora já a considero uma agradável companheira. Eu já disse, as tolices do passado estão enterradas. Meus desejos agora são simples. É, aprendi ser mais humilde. Eu era orgulhoso e minha arrogância feriu-me inúmeras vezes. A gente não acerta sempre. Eu queria estar no comando de todas as minhas ações. Então, descobri que não governo nem a mim mesmo, quanto mais o mundo. Esse planetinha azul é muito grande para minhas pernas tão curtas. Tenho de ir construindo e reconstruindo-me o tempo todo. Gosto de ouvir o silêncio. Não ria. É que sempre restam alguns sons quando estou no quarto vazio. Então fico tentando desvendar de onde viriam. É muito divertido. Você deveria tentar. Minha fome de justiça? Acho que me saciei com o paliativo da justiça: a compreensão. Resignei-me ao exercício do entendimento. Não quero mais que todos pensem como eu penso.  Não posso cobrar que todos tenham a mesma perspectiva que eu tenho. Já estou muito familiarizado com a técnica de “engolir sapos”. O sabor é amargo, mas dá para descer. Meio parecido com jiló. Perdi muito tempo querendo encontrar pessoas que me fossem semelhantes.  Agora estou certo que a mágoa foi-se embora. Nada mais persiste de dolorido. Sei que posso sobreviver sem a dor. E sei que ela ainda me espreita, mas já consigo escapar de suas terríveis garras.

 A minha verdade é que nem sempre a mentira é pior que a verdade. Eu sei que já confiei demais e não deveria ter-me entregado da forma que fiz. A gente tem de se resguardar. Ficar com um pé atrás. Assim não há decepção que fira sobremaneira. Pode até machucar, mas dá para sobreviver. É só catar os cacos do nosso coração e grudar com supercola. Fica como novo. Outro dia ainda, vi uma moça chorando, não lhe perguntei nada, não invadi seu direito de sofrer, apenas estendi-lhe uma flor. Ela aceitou, mas ficou olhando-me de forma esquisita. Acho que não compreendeu que queria ajudar a remendar-lhe o coração. Sabe, ninguém jamais fez algo assim para mim. E eu achei que ela precisava disto, mas creio que me enganei. Tudo bem. Acontece, não é? Há algumas verdades que devem permanecer escondidas. Eu posso guardá-las para sempre. Há muito espaço dentro de mim. Acho que ninguém pode viver sem seus pequenos segredos. Antes, cria ser necessário dizer sempre aquilo que pensamos. E que todos compreenderiam nossos motivos. Todavia, aprendi que nem sempre devemos nos abrir para um mundo míope. É como se fôssemos um livro. Nem todos nos interpretarão como esperamos. É que cada um vê à sua própria maneira. Não podemos condicionar o ser humano. Adestrá-lo feito um cão. O homem é como um animal selvagem, cujo adestramento não retira a selva de si.  É a natureza de cada um. Sou diferente. Tenho noção disso. Por tal razão, sou o avesso dessa sociedade hipócrita. Mas não me zango mais com esta condição. É esta a minha capacidade de não me misturar à massa de sentimentos inumanos. O homem é o animal mais feroz. Perverso, sabe? A raça humana vale-se de sua racionalidade para ferir. Mas agora estou indiferente ao externo. Só o que me é interior importa.

Sei que lhe parece difícil acreditar. Logo eu que gostaria de mudar o mundo para poder inserir-me nele… Hoje estou inserto nesta sociedade, mas compreendo que lhe sou diferente. E nesta solução sou a fase que não se mistura. Um óleo que permanece acima da água, incapaz de aderir a esta por lhe ser totalmente diferente. Sou orgânico. Tenho átomos de carbono em minha composição. O mundo é insípido. E ele trata-me com desprezo. Eu acordei do sonho de reformar os destroços de uma sociedade dizimada. Deixo a homens com mais força do que eu essa difícil tarefa. Sei que pode parecer estranho, mas já não me preocupo com o que pensam sobre mim. Os outros são os outros apenas. Eu sou eu. Eu sou um complexo de sentimentos e desejos que devem permanecer submersos nesse oceano em fúria que é meu coração. Eu prefiro esquecer as dores, os amores, as feridas (apesar delas ainda existirem) e concentrar-me em coisas mais produtivas em minha vida. Tenho tanto ainda para realizar. Eu ainda tenho sonhos. Sei que são um pouco ridículos. Mas são meus. Agora dou mais valor ao que é meu. Ao que eu sou. Ao que ainda tenho a conquistar. Construí um conjunto de metas nesse período que restei isolado nesses quartos brancos. E prefiro estar de volta a massacrante sociedade que permanecer isolado dela.  Permaneço apavorado com alguns desafios, mas estou pronto para enfrentá-los. É que ainda estou aprendendo a vencer. Depois de tantas derrotas, é estranho superar a si mesmo. Eu estou mais consciente do meu papel nessa peça. E sei que faço parte de um elenco estranho, em que nenhum dos atores decorou suas falas, cujas cenas não podem ser refeitas e que não há um diretor para conduzir o espetáculo. Essa é a maldição que nos acompanha. A gente sabe bem disto. Mas ninguém desiste, não é? Eu penso muito nisto. Eu não estou implorando seu consentimento para voltar a viver. Só queria que soubesse destas coisas antes que me libertasse desta concha que faz os sonhos transformarem-se em pérolas. Ainda que aqui permaneça, não pude deixar de falar o que nesta clausura eu aprendi.

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Noite e dia

Giordana Bonifácio

 Quero a alegria das noites calmas, quando sentimentos se acomodam serenos em mim. Deito-me em minha cama, acolhida por sua maciez, e sonho. Tão reconfortante estar segura, entre lençóis e cobertores, sem me preocupar com o futuro. O dia de amanhã chegará, mas nem espero por ele. Nasce o sol e ele ilumina o quarto, invade minhas pálpebras, então, desperto.  E sem saber ou precaver-me, o hoje virou ontem e o amanhã é real. Penso no futuro como uma mera possibilidade. Mas sem avisos, na corrida do presente, alcanço o futuro. Meio difícil de acreditar na fuga do passado. Ele afasta-se de mim de modo que depois de alguns anos, nem me recordo mais do que se foi. O ontem é o que realizo num hoje que já passou. O passado e o presente nos são reais, mas o futuro é “uma astronave que tentamos pilotar, não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar…” O problema é: ele chega. O futuro é inevitável. Mas por enquanto estou aproveitando a comodidade de meu leito, do calor que me envolve, das sensações mornas que me ocorrem. E assim, durmo, sem culpas, sem receios e sonho. Mas não quero sonhar, pois o sonho machuca-me tanto quanto a vida. Não quero lembrar certas coisas que os pesadelos trazem consigo. “Noites de ondas verdes ou azuis e espuma branca que me levam para mundos estranhos. Não quero navegar nesse mar, pois sei que há hidras esperando por minha embarcação e ainda sereias que me usurparão o segredo que trago comigo. E tudo é diferente no sonho. Tudo que escondi de mim mesma está guardado num único pen drive. (Considerava-me mais complexa do que isto.) E anjos me visitam com promessas que não se podem cumprir.” Não admito que me sinta tão desconfortável quando estou sonhando. É como se o tempo todo soubesse que as madrugadas são horas perdidas em alucinações vãs de desejos submersos no mar. E nesses oceanos imprevisíveis não desejo navegar. Quero caminhos sólidos, sentir-me segura nas minhas viagens. Sem o perigo iminente de tudo se revelar uma terrível mentira. Os meus temores são somente meus. Não quero os dividir com ninguém. O perigo das noites insones é a possibilidade do sonho invadir a realidade. Custa-me sobremaneira conviver com ele nas noites em que desejo somente dormir, descansar dos meus pensamentos e de tudo que me fere. Mas Morfeu traz a condição do sonho junto ao sono. É venda casada mesmo, não adianta reclamar no PROCON, pois nosso sonho não é um bem de consumo.

Meu quarto, no silêncio, é calmo como uma lagoa, sem ventos para turvar-lhe a superfície, refletindo como um espelho as estrelas do céu. Se não tenho sono, Virgínia ou Clarice substituem a docilidade do repouso. Posso ler horas a fio, sem fatigar a visão ou a mente. Os sonhos são literatura. Entretanto, prefiro somente estar sob o manto da noite, pontilhado de estrelas longínquas que não poderei jamais alcançar. Noites escuras de nuvens são como um cobertor que se estende sobre nós. Estamos certos dos astros mesmo que não possamos vê-los. A lua mente sua luz para nós. Não reluz, reflete. É como um espelho no céu. “Pede a cada estrela fria um brilho de aluguel.” E enquanto aproveito o conforto desses travesseiros em que recosto sem pesares minha cabeça, espero o sandman depositar a areia do sono em meus olhos. A morte é um sono do qual não despertamos. E se fechar os olhos com força não durmo. Tudo tem de ser feito com suavidade. Dormir é a prática das coisas leves.  Eu gosto de deitar-me em redes, balançar-me o corpo, enquanto a sonolência ocorre aos poucos. Algumas vezes escuto música, é relaxante, mas há dias que me proporciona pesadelos. É que quero deixar o real nesse plano. O sonho é um reino sem as agruras desse mundo. Não quero sentir as dores que me acompanham na vida. Quero que nesse reino encantado apenas seja acompanhada pelas sensações boas, coisas que desejo estarem comigo. Estranho é que jamais sonhei com algo que realmente quisesse. Não queria ver a imagem de meus medos quando estou dormindo. Porém, são as que mais me ocorrem. Não quero a companhia de quem me machucou, mas essas pessoas se inserem no meu sono para produzirem-me pesadelos. Então durmo mal, não descanso. Fico tão alerta quanto estou desperta.

Os franceses denominam pesadelos de couchemal que significa sono ruim. É o que me ocorre. Meu sono é agitado, como se estivesse fugindo sempre da dor, mas até quando estou longe de seu habitat, ela me atinge. Uma flecha apontada para meu coração. Queria poder escapar de mim. Estou sempre perto do que sou. Minhas horas perdidas tentando ser quando não ser é a saída mais viável. Deve ser é o que tudo seria se o mundo não fosse imprevisível. As sementes do sonho não são feijões mágicos. Não nos aguardam tesouros no céu. Queria tão somente descansar. E esquecer, caso seja possível. Não posso esperar a força da borracha do tempo. Estou ansiosa para não recordar todo sofrimento. E quando me vêm as lembranças, as lágrimas molham meu travesseiro. As noites se tornam amargas, facas afiadas cortando-me o espírito. Se pudesse deixar o passado passar. Todavia, por algum motivo retive-o comigo. Os sentimentos represados no coração. E eu dizendo sim. Porque digo sim, mesmo àquilo que me fere. E por isso não consigo deixar o sonho longe de minha vida, nem a vida longe do sonho. Eles se misturam e tudo acaba numa bagunça sem tamanho. Eu quero trazer comigo só a leniência do leito quente, dos lençóis limpos e cobertores acolhedores. Enquanto aconchegada nesse lugar especial, sem o pavor das estradas em que o mundo obriga que eu caminhe, posso repousar. Ainda há quem reclame de sua cama, considere-a muito dura ou, de algum modo, fofa demais. A minha corresponde exatamente ao que espero dela: é confortável e segura. Afastada de sua maciez, é-me impossível dormir. Acabo lendo livros inteiros numa única noite. É que, se a cama é na verdade um ninho de espinhos, não sou uma espécie de faquir para descansar sobre ela. Engraçado é que toda minha família considera o meu leito o mais agradável de dormir. E todos querem aproveitar de minha preciosidade a custo zero. “Minha cama, meu domínio, cara-pálidas!” Mas quando acordo, tem um banho morno a minha espera. Rotaciono o registro do chuveiro e um caminho de água quente percorre-me a pele. O sabão tem um cheiro gostoso de limpeza, fricciono-o contra o corpo até surgir uma espuma branca, tal qual a do mar. As dores e maledicências da noite mal dormida são esquecidas, levadas com a espuma que me escorre pelo corpo.

Então, quando vou tomar meu desjejum, um café amargo aguarda-me sobre a mesa, ainda frutas, bolos e pães. Enquanto sorvo o café, algumas ideias me ocorrem. Fico imaginando como se daria o hoje, que já foi amanhã e que será ontem. Meu sobrinho faz bolinhas com o miolo do pão. Ele é uma criança ainda. Mas não o admite ser, pois agora há novas denominações para os garotos e garotas de treze anos: pré-adolescentes. E já se acham gente. Eu queria que o passado voltasse e pudesse ser menina de novo, sem temores e pesadelos que me acompanhem pela vida inteira. Eu molho o pão no café. Sinto o gosto agridoce da manteiga derretida pela bebida quente. Minha mãe ralha comigo, diz que não devo comer o pão dessa maneira. Meu pai reclama de dores: a coluna novamente. Mas não é suficiente para impedir que ele possa fazer sua caminhada matinal. Meu irmão acorda, vai à cozinha onde bebe leite como o faz todos os dias. Eu observo-os, mas eles não percebem que conheço suas falas diárias. Enquanto meu sobrinho faz bolinhas de pão, ele lamenta que tenha de levantar tão cedo para ir à escola. Eu me recordo dos meus tempos de estudo, algumas coisas, desse período, implicaram no que sou hoje. Atualmente, está em voga a prevenção contra o bullying, mas não é por esta razão que digo o quanto ele é ruim para as crianças. Sofri bullying durante toda minha vida escolar. Posso garantir-lhes que não é nada divertido. E creio que por tal razão tenha me tornado uma pessoa tão insegura. É que fui motivo de chacotas durante toda a infância, diante do que, acho que tudo que faço ou digo é ridículo. Minha literatura é melancólica, mas há muito tempo fui acostumada a ser uma pessoa triste. E sempre que meu sobrinho, um menino alto, forte, bonito e popular na escola, vangloria-se de suas ações deploráveis contra as crianças a quem denomina nerds, eu tento fazê-lo enxergar que as particularidades de cada pessoa é que as deixam belas. “Um mundo de pessoas que atendesse a um só padrão estético seria muito chato.” Digo-lhe. Ele continua a brincar com o miolo de pão. E ainda não são nem sete horas. O jornalista da televisão diz que não vai chover. O dia começa azul, mas faz ainda muito frio.

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A partilha dos sentimentos

Giordana Bonifácio

O que aconteceu conosco, tudo acabou e fim?

E o que fomos? É agora uma amarga recordação?

E o que vivemos? Terá sido mera ilusão?

Na partilha, o amor que sentíamos coube a mim.

 

Eu sei, promessas são muito fáceis de esquecer.

De repente meus sentimentos viraram pó.

E aqui nesse quarto entre mil fotos estou só.

O que fez nosso sólido amor enfraquecer?

 

Eu culpo o tempo, algoz de todas as relações.

Mas foi você que por fim determinou: basta!

E restaram-me apenas estas divagações.

 

Não sei explicar, nossa relação estava gasta…

Paixão perene não é, muda com as estações.

E o terrível cotidiano aos amantes afasta.

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