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CANSEI DA SOLIDÃO

Solidão

Giordana Bonifácio

Chore manso sua imensa e vã amargura.

Não reclame do mal que lhe crucia.

Sofre em silêncio todo fim do dia,

Pois seu pesar nem mesmo o tempo cura.

 

Saiba que é a dor que faz a sua alma pura.

O mundo, de seu penar, só riria.

Ame a dor. Faça dela a sua alegria.

Assim será tão só ela a sua ventura.

 

Abafe o grito, sua mágoa não passa.

Sofre sereno sua dor, sua desgraça.

Guarde no peito sua tristeza inteira.

 

A solidão é a dor que o relógio atrasa.

É das fantasias uma cova rasa

E das noites sem fim, fiel companheira.

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A hora mais escura

Giordana Bonifácio

 Eu conheci muitas pessoas. Andei bem próximo de gente muito importante. Mas, também, acompanho os mais humildes. Visito-os todos de forma inusitada. Mas, antes, procuro conhecer-lhes perfeitamente. Não para julgá-los, pois esta não é minha função, mas para entendê-los. Os seres humanos são a poeira mais complexa do universo. Nunca conheci uma civilização que portasse tantas fantasias. Desejos, sonhos, quimeras… Chamem como quiser. Gosto de tornar-me íntimo deles. Vou perscrutando aos poucos suas vidas tão insignificantes, mas, ainda assim, tão, tão importantes… Acho incrível serem dotados de inteligência, porém, cometerem tantos erros. Muitas vezes, porque ousam ir além. Além das portas fechadas do medo. Seguem confiantes, mas, então, encontram a mim. É meio decepcionante, confesso. Eles pensam que sou bem mais terrível do que sou realmente. O que para muitos é um alívio, para outros já é motivo de descontentamento. Paciência, não se pode agradar a todos. A culpa nem é minha. Eles que imaginam sobremaneira. Desenham o desconhecido com as piores feições. Não sei ainda se são tolos, talvez sejam apenas fracos. Temem o que lhes é estranho. Segregam-se uns aos outros por possuírem culturas, religiões e ideias diferentes. Esse estúpido temor logo se transforma em irracionalidade e violência. Sempre me perguntei o porquê.  São razões tão pequenas para discriminar, ferir e até, mesmo, matar. Esses humanos, somente após muitos milênios, baniram a escravidão de seus costumes. Antes, era usual tratar seus iguais como mercadoria. Seres inferiorizados pela cor de sua cútis. Fiquei muito tempo tentando entender a lógica do regime escravocrata. Jamais o consegui, todavia. Como seres que se gabam por sua racionalidade, são levados a seguir a lei da selva? Aquela em que o mais forte submete o mais fraco? Impossível compreender.  Nesses muitos anos, vi evoluções significativas em sua sociedade. Não posso mentir. Eles estão tentando, mas ainda há muito a ser feito.

Guerras absurdas poderiam ser evitadas se tivessem o mínimo de empatia pelos outros de sua espécie. Assisti muitas cenas de pura covardia e de crueldade sem limite. Se tivesse sentimentos, poderia até mesmo chorar com as imagens que me ficaram gravadas na memória. Ainda bem que posso ver sem me posicionar. Minha função, não se atém a julgar. Já disse. “Isto está fora do meu departamento”, como dizem os humanos. Seguro-lhes a mão na hora mais escura, somente. No instante que a maioria deles tenta evitar. A maioria. Outros me procuram desesperadamente. A vida não satisfaz a todo mundo. Talvez, pelo grau de dificuldades que ela envolve. Nem todos têm coragem de lutar. Provavelmente, não o suficiente. Sentiria piedade de sua covardia. Eles tomam minha mão como quem encontra a saída de um intricado labirinto. Os homens são tão frágeis… Por isso, sentem tanto medo. Eu escuto seus pensamentos no último instante, quando nada mais há a ser feito. Pedem-me mais um minuto. Um minuto que não faria qualquer diferença quando estavam vivos, mas que, antes da hora derradeira, significam uma possível despedida… Uma prece… Uma última lágrima… Mas meus horários não podem ser atrasados. Infelizmente. Vejo o desconsolo dos que ficam. Promessas que jamais se cumprirão, amores desfeitos, famílias destruídas… Eis o que lhes resta. Contudo, ninguém sabe os desígnios do universo. Os homens criaram inúmeras religiões para explicar o que está oculto, aquilo que está muito além de sua ciência e sua inteligência. Querem achar consolo. Querem abrigo no momento mais difícil. Estranho não encararem o fim da mesma forma que enxergam o início. Não são coisas distintas, como pensam. Na verdade, são como o prólogo e o epílogo de um mesmo livro. Queria que soubessem que as mesmas razões de se começar a leitura, fomentam o seu fim. Afinal, são as únicas certezas que possuem. Chegam sozinhos na Terra, mas, quando for o momento, terei de acompanhá-los para longe do que, até então, conheciam.

Não sei também para onde os levo. Como disse, “isto está fora de meu departamento”. A curiosidade é uma característica muito singular dos humanos. É uma benção e uma maldição. Não sou um ser dotado dela. Aliás, nem mesmo sei se sou um ser. Mas, voltando aos humanos, eu os admiro sobremaneira. Eles são incríveis, criativos e imaginativos. Inventam histórias, criam máquinas e sonham… Como sonham…  Podem aprimorar ou mesmo destruir o seu mundo. Pena que a maioria das vezes eles usem seu intelecto para devastar seu próprio lar. Esses pequenos são, também, tão suscetíveis ao vício… Querem encontrar consolo em substâncias que somente lhes abreviam a sua, já curta, vida. Quantos não tive de colher do seio das drogas? Alcoólatras, toxicômanos, fumantes… Seguem todos comigo, mais cedo ou mais tarde. Sei que a fuga que buscam é produzida por seu próprio medo. Não se julgam capazes de prosseguir sem a droga. Quisera poder ajudar-lhes a se encontrar. Buscar a força que existe em cada um deles. Acreditem: não existe problema para o qual não haja solução. As coisas foram escritas para acertarem-se, de um modo ou de outro. Não me perguntem como sei disto. Apenas sei. É um dos mistérios da vida. “A roda da fortuna não para de girar”. Li isto num livro. Não gosto da maneira como os homens retratam-me em seus romances. Quisera ser tão poderoso e inexorável como dizem. Sou, na verdade, um simples funcionário, um despachante, mais precisamente. (Perdoem-me o trocadilho). Levo almas de um lado para o outro. Colho-as, conforto-as, levo-as para seu destino. Simples assim.  Não tem nada do glamour com que me descrevem. Eu gosto de estar perto de pessoas. Sou fascinado por suas bibliotecas. Passo horas lendo seus romances e poesias. Sei, por isto, que cada homem que se vai, leva consigo um mundo tão vasto e inexplorado, que desfalca sobremaneira o universo. Não importa se são desvairados ditadores ou miseráveis mendigos que padecem no frio das ruas. Todos são dotados de uma riqueza descomunal. Pena que poucos saibam disto.

Quando me aproximo, geralmente se assustam. Querem tentar escapar. Mas sou um funcionário muito eficiente. Logo se acalmam e posso levá-los definitivamente. Porém, dias antes, já estou investigando suas vidas. Ouço seus sonhos enquanto dormem. Estou tão próximo deles e nem mesmo desconfiam. Sei o momento certo, muitas vezes, um tanto trágico, de colher suas almas. Não lhes imponho o sofrimento, apenas está escrito. Sabe-se lá por que e por quem. Apenas cumpro minha função. Não há serviço de atendimento ao consumidor ou ouvidorias para atender suas reclamações e dúvidas. Eu só cumpro o meu expediente. Sigo o que me foi determinado, tão somente. Não sou dotado da coisa mais fantástica que os homens possuem: sentimentos. Gostaria de sentir a dor que transborda numa lágrima. Queria sentir o amor que impele esses homens a prosseguirem apesar das adversidades. Queria entender sua fé e sua esperança… E a saudade, então?  Não conseguem esquecer jamais os seus entes queridos que partiram comigo. Estão sempre a recordá-los, até o momento de juntarem-se a eles. Mas, antes disto, maldizem-me dolorosamente. Chamam-me de “ceifadora implacável”. Primeiro, dizem-me ser mulher quando na verdade não tenho sexo. Sou como os anjos de suas religiões. Sou tão somente uma força criada para uma missão determinada. Depois, confesso que minha função não é a mais invejável. É bem difícil ter de ser o causador de tanta tristeza. Devo dizer que, se houvesse uma maneira de trocar de repartição, seguir para a seção de nascimentos, seria-me muito mais aprazível. Ocorre que a minha área não está aberta a mudanças. Mas, apesar de tudo, sinto-me bem por estar tão próximo dos seres humanos. Mesmo que não possa, ainda, os entender. Por mais que leia seus livros, que lhes possa ouvir os pensamentos e sonhos, suas mentes são de tal forma complexas, que me é impossível chegar a um veredicto sobre eles. Não são inteiramente maus, nem completamente bons. Têm falhas imperdoáveis e, ao mesmo tempo, virtudes surpreendentes. Quando lhes trago comigo, lamentam-se por não terem feito tudo que desejavam em vida. Eu apenas lhes digo que a morte não é o fim. É apenas um começo de uma nova história, para os que partem e, também, para os que ficam.

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Uma curta eternidade

Giordana Bonifácio

Esperarei sozinha toda a vida,
Nas noites sem fim, fiando a minha dor?
Na verdade, não soube nunca o que é o amor…
Sinto-me nesse tema tão perdida…

Por isso trago minha alma ferida
E meus sonhos não têm mais a mesma cor.
Desfia-se a solidão em duro rancor.
Tudo parou naquela despedida.

Por quanto tempo posso amar-lhe ainda?
Seria o amor uma luta que não finda,
Da qual todas as pessoas saem vencidas?

O sempre foi uma curta eternidade,
Dele me restou apenas a saudade
E um punhado de cartas esquecidas…

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É bela a chuva

Giordana Bonifácio

É bela a chuva. Penso num suspiro breve.

Sou dona de um espírito que não se atreve,

Cruzar os muros altos de seu próprio medo.

E sempre é tarde quando me parece cedo.

 

A difícil jornada ainda espera por mim,

Para levar-me pelos caminhos sem fim.

Contudo, apavorada, escondo-me do mundo.

E recordo-me agora, num suspiro profundo,

 

Das imperdoáveis faltas que me pesam na alma.

Também me paralisa a dor de um grande trauma.

Cerco-me de altos muros para não me ferir.

 

E não deixo ninguém no meu mundo se inserir.

Temo este infinito que me rodeia: uma imensidão.

Porém, será possível vida na solidão?

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Ainda é hoje.

Giordana Bonifácio

Acordei crente do amanhã ter chegado.

É que ontem esperava o hoje que era feriado.

É que eu pensava tolo que o hoje era o amanhã, ontem.

É que o relógio nos diz: “os segundos contem!”

 

Eu, bem disciplinado, o amanhã sempre espero.

E todos os segundos conto com esmero.

Mas eis que o amanhã chega enfim e me surpreende:

É hoje! Isso é estranho e penso que ninguém entende.

 

O tempo passa sem fim no relógio e é hoje ainda?

Quando será que minha enorme espera finda?

Aguardo este futuro que não chega jamais.

 

E enxergo o ontem sempre que olho para trás.

Se o amanhã hoje será, porque esperar o futuro?

O ontem é o hoje vivido que não mais aturo.

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Mente indomável

 Giordana Bonifácio

Há  muito tempo me ludibria minha mente.

E isso me faz, de toda a gente, diferente.

Minha sina é pela sanidade batalhar.

E nessa luta qualquer apoio viria a calhar.

 

Sei que estou nessa guerra por anos a fio.

A mente é da memória um caudaloso rio.

Já a minha muito mais me faz lembrar o mar

É um cavalo bravio que não se pode domar.

 

Estou agarrada à razão: ela me é bem cara.

Não é assim fácil a cura de doença tão rara.

Não há quem a este terrível mal  consiga entender.

 

Vive-se com a dor num eterno reaprender.

Dessa luta sem fim não sairei derrotada.

Convalescer não é hipótese ora cogitada.

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À meia-noite

Giordana Bonifácio

À meia-noite, enquanto já dormem os demais,

Estou em vigília. Pois dormir não pode jamais,

Quem ama.  Acordado, posso viver os sonhos

Que são alimento de meus suspiros tristonhos.

 

Reconheço os sons da rua e só silencio em mim.

Há como sobreviver a esta noite sem fim?

O coração é o vil ditador que me governa

Vivo numa terrível guerra interna.

 

A razão busca o comando, contudo a paixão

E seu exército as minhas defesas derrubam.

Não há como resistir a esse sentimento.

 

Não se trata de mero pesar que invento.

E, à noite, as lágrimas o travesseiro aquecem,

Toda minha dor e mágoa no breu fenecem.

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