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“Ai quem me dera que uma feliz mentira,

Fosse uma verdade pra mim!”

J. Dantas

Um Noturno de Chopin

Giordana Bonifácio

Já não mais posso crer em fantasias,

Pois me foi muito cruel a realidade.

É certo que sabia não ser verdade,

Mas, na dor, era só tu que me sorrias.

 

Eras-me a luz de imagens fugidias,

O tão luzidio sonho da deidade.

Hoje, tenho, daquele amor, saudade,

Mas no meu peito restam-me só angústias

 

E a certeza tão amarga da solidão.

Bate só agora, o meu rude coração,

Pois, noutro peito, não tem acolhida.

 

Sabe bem toda a mágoa que em mim chora.

E se eu pudesse cantar seria agora

Um Noturno de Chopin… Triste vida…

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O homem na multidão

Giordana Bonifácio

Saindo de casa acendeu um cigarro e trancou o portão. Pensou em como a cidade pulsava fora de si. A cidade vive. Como o monstro criado pelo Dr. Frankenstein. De repente se lança o homem no mundo, então o mundo se torna homem. O homem do tamanho de um planeta inteiro. “Mas, na verdade somos tão pequenos…” Suspirou. E pensando nisso saiu caminhando pelas ruas, repletas de sonhos, cobertas de mágoas. Sentia que sofria, porém não sabia ao certo por que. Não sabia se era a vida que lhe doía como um punhal encravado no peito. Mas viver não mata. Na maioria das vezes não. Sentir é oposto de pensar. A razão é nossa pequena maldição. Gostava de coisas concretas. O silêncio  é  concreto. Duro, pesado e, às vezes, fere. Talvez porque o silêncio é companheiro inseparável da solidão. Por isso, que, quando só, gostava de ouvir música bem alto. Para esconder de si mesmo que a vida pesava mais quando estamos por nossa conta. Queria muito, mas querer apenas é um erro. Os sonhos são ‘querências’ que adormecem em nós. Nesse longo caminhar, ainda consegue ver o que as pessoas escondem de si mesmas. Gostaria ser um mágico para tirar desilusões da cartola. Lenços coloridos que saem sem fim do nosso peito. “O nosso coração suporta muita coisa.” Suspirou. Às vezes, precisamos ficar quietos para ouvir nós mesmos. “O que eu sou?”  Ele ainda se questiona sem resposta. Não nos conhecemos tão bem quanto imaginamos. Queria encontrar um espelho que mostrasse mais que seu próprio reflexo. Pois não nos queremos ver refletidos, queremos nos ver desvendados. Somos a icógnita da criação. Um grupo de macacos privilegiados com a razão. Mas nem sempre somos racionais. Somos estúpidos, horda de loucos que destroem tudo ao seu redor. Queremos ser livres, mas nos submetemos a um governo porque tememos a nossa própria espécie. Viver é um perigo mortal. Respirar nos mata lentamente. Podemos apressar ou atrasar o processo. Depende da nossa própria vontade. A vontade é nosso livre arbítrio. Podemos escolher. Mas só a experiência nos ensina quais caminhos tomar.

A multidão seguia a correnteza das ruas. Ele enfrentava a força das águas puxando-lhe não se sabe para onde. Se ele deixasse-se levar, aonde chegaria? O corpo é um máquina perigosa e frágil. É necessário sabermos como usá-la, contudo, ela não vem com nenhum manual. Somos lançados na vida à nossa própria sorte. Sem salva-vidas num mar em tormenta. Náufragos desesperados numa luta sem fim contra nós mesmos. Ainda há possibilidade de salvação? Talvez. Pelo menos é o que asseveram as várias religiões disseminadas pelo mundo. Mas, não há certeza absoluta disso. Isso é o que chamam de fé. Ele pensa que certas coisas são um tanto estúpidas, mas no fim das contas é bom acreditar que algo vai nos salvar quando estivermos à morte. Ele ainda tenta caminhar contra o curso das pessoas. Vozes soam desconexas, algumas contam histórias engraçadas, outras reclamam da vida ou falam de futebol. Por que não lhe viam? Seria ele invisível ao mundo? Pareciam ignorar-lhe por completo. Ele sempre contra o fluxo. Contra o mundo. Contra a dor de ser mesmo quando se é. Entretanto, não se quer ser. A vontade conta muito. Mas não é tudo. Ele sabe disso. As pessoas também, todos o sabem. Todavia, ele ainda crê que pode vencer a força inexpugnável da multidão. Ele versus o mundo. Ele com seu óculos quadrados, sua barba por fazer e suas milhares de teorias. Na prática, não contam muito. Afinal, por mais que cultivasse ideias, elas não tinham o poder de debelar a multidão insensata. A multidão que pulsa, que vive e não pode ser vencida. E se ele seguisse a favor da corrente e fosse absorvido por esse corpo de múltiplos corpos, que segue comandado pelas antenas de tevê? Quem poderia culpá-lo por desistir? Saíra de casa com tantas certezas e agora, já absorto pela multidão, vê-se com tantas dúvidas e não entende por que agora começa a pensar como aqueles que lhe cercam. Um sentimento conjunto de pertença. Como se fosse assimilado pela massa. Agora ele era massa. Ele sentia como todos. Tinha time de futebol, torcia pela mocinha da novela e conversava sobre o último reality show.

Jogou todas suas teorias no lixo. Nada mais de ser contra o mundo. Ser como o mundo, ser o mundo, é muito mais fácil. Sem o silêncio aterrorizante da solidão. Sem a autenticidade massacrante de sua individualidade. Agora a multidão o absorve. Ele pensa como o mundo a sua volta. Veste-se como todos. Não precisa mais pensar como um só. Agora ele é como todos. O mundo o percebe agora. O mais estranho é que não mais diverge da monotônica multidão. Como, só agora que se assemelha a todos, conseguem vê-lo? Por que era ignorado até então? Acreditava que poderia manter-se só quando nenhum homem é uma ilha. Ele foi derrotado pela vontade geral. E nossa vontade não é o bastante. Deve-se desejar como todos. Desejar ser, quando não mais se é. Desejar ter quando tudo se tem. Agora, veste-se em tons de cinza. Faz a barba. Gosta de músicas com letras fáceis e cuja melodia leva a dança. Por que ser um só quando se pode ser muitos? “Ainda há tempo?” Foi seu derradeiro pensamento como ser individual. Permitiu-se sua derradeira teoria: “seria mais feliz se pudesse entender completamente a vida”. Mas nada sabemos de nós. Nada sabemos do mundo. Somos uma pequena particula de poeira no universo. E fora de nós há o infinito que se alimenta de nossa fé. Vamos rezar para conseguirmos ser acolhidos em morte. Vamos imaginar que o futuro é uma promesssa quando, na verdade, é nosso infortúnio. Ele faz parte do todo. Ele é o todo. Caminha sem destino, ao sabor das correntes. Levado de um lado para outro. Sentia saudades de suas teorias, mas já se conformara em pensar em grupo. Não tinha medo, mas aceitava um governo que manipulava as massas com esmolas. “Não deveria ser assim”, ainda se ressente. Mas aceita o assistencialismo como modo de calar seus anseios. Por que querer ser diferente? Ele agora é um como todos, não um só. Um na multidão acolhedora. Um que não mais pensa por si. Ele era milhões. Ele era. Foi alguém que se poderia ouvir. Mas desistiu de si.

E quando saiu pela manhã ainda imbuído da coragem de vencer o poder da unanimidade, não teria imaginado que se deixaria derrotar pelo mundo. Sem a mágica da cartola que faz surgir respostas quando todos duvidam. Nesse jogo de cartas marcadas, sabe que não mais será discriminado por suas ideias. Não mais. Já que agora está integrado ao sistema. Deixou-se debelar pela potente massa de pensamentos homogêneos. Nada mais pode extrair-se do homem que foi. Com a multidão, foi sendo levado diretamente contra seus antigos ideais. E, como Pedro, negou três vezes sua antiga solidão. Ainda conseguia visulizar a dor que sentia. Mas agora está mais feliz, anestesiado pela morfina da ignorância. Assiste televisão, sem discordar da voz sonora do âncora do jornal. Não mais consegue se ver, agora só enxerga a massa. Um por todos, mas não todos por um. A dor agora é passado. Ela vive no passado como todas as mágoas. Ele perdeu a memória ou só quer esquecer as lembranças? Chegou em casa, apagou o cigarro. O vazio dizia-lhe um tanto de coisas que não queria ouvir. Preferia ignorar o chamado de sua solidão. Ligou o rádio para ouvir a música curar-lhe as feridas. Ainda lhe restam várias no espírito. Seria uma recaída? Será que ainda pode pensar por si, sem o auxílio da televisão que nos venda os olhos?  Sentiu as lágrimas escorrerem-lhe pela face. E a fé? Será que ela poderia responder porque ele ainda se sentia tão triste? E ainda havia medo. Ainda havia dor. Esquecer de si mesmo não cicatriza as feridas que perseveravam a latejar-lhe no espírito.

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Julgue-me

 Giordana Bonifácio

Julgue-me pelos meus erros ou meus pecados.

Julgue-me por meus sonhos ou por meus atos.

Julgue-me por ter sempre a tudo isto ignorado.

Julgue-me por não ser por minha sorte grato.

 

Julgue-me por ser fraco diante deste mundo.

Julgue-me pela cruz que meu povo carrega.

Julgue-me por meu corpo leve e moribundo.

Julgue-me por toda esta raiva que me cega.

 

Julgue-me pela fé que na vida guardo ainda.

Julgue-me por meu espírito ou por minha dor.

Julgue-me com seu medo, que na alma não finda.

 

Julgue-me por fomentar no peito a esperança.

Mas, por favor, não me julgue só por minha cor.

Pois é isto que deduzo do olhar que me lança.

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Arritmia

Giordana Bonifácio

Ainda me perguntam por que meu blog se chama Meu coração selvagem. Primeiramente, o meu intuito foi somente prestar uma singela homenagem à Clarice Lispector, mas pude perceber, depois, que tal título condiz perfeitamente comigo. Meu coração vive em eterna arritmia. Indomável, sofre as influências do mundo e reage a elas. São provações, testes em minha grande jornada. Será que sobreviverei a tudo? Meu coração está aos saltos, muitos perigos rondam-me. Não sei como proteger-me, meus escudos se perderam no campo de batalha. Estou numa corrida desesperada pela vida. Sou um soldado que deserta da guerra. Sei que minha dor é deveras pungente. Tenho de resistir, mesmo que as condições se mostrem bastante adversas. Peço que meu coração mostre-se mais forte do que é, que enfrente tudo com armas em punho. É a minha derradeira fortaleza nessa imensa contenda. Eu solicito que tal músculo involuntário seja a minha força que surge não sei de onde. Pois, é ele que me resgata do risco mortal. Meu coração é um cavalo jovem que a tudo enfrenta. Ele se ergue invencível, sustenta um corpo todo com seu espírito guerreiro. Tal qual Peri, é forte selvagem, índio herói que sobrevive dentro de mim. Meu cérebro ordena, mas meu coração age. Seu bater pungente diz-me: viva! E, obediente, prossigo. Enquanto minha cabeça é toda razão, no meu peito, o órgão insano é todo emoção. Confrontam-se, constantemente, razão e sensibilidade. Na maioria das vezes quem vence é o sentimento. Não importa o momento. Faz-me uma pobre louca, esse músculo indomesticado. Não se mostra a melhor escolha. Seria mais acertado seguir o que me dizem os neurônios em sinapses. Mas ignoro a tudo. Ouço apenas meu coração. Em meio ao silêncio, meus ouvidos perscrutam o campo de batalha. Nada se move a não ser uma leve brisa que levanta as folhas caídas. Eu sou invencível. Quer me fazer acreditar o mestre que o sangue bombeia por meu corpo. Contudo, sei-me frágil. Conheço meus limites.

Estou frente a mais difícil de todas as minhas lutas. Não acredito que meu corpo possa a ela sobreviver. Creio que pereceremos. Pois não existe qualquer salvação. Somos culpados. O coração é meu cúmplice. Cometemos juntos todas as faltas. E agora? Por ser indomável, ele me faz escolher as vias mais estranhas. Nem sempre são as mais acertadas. Na maioria das vezes, não o são. Por que ainda ouço os maus conselhos que tal selvagem dá-me, ainda não sei. Já que sempre me levam para as vias mais adversas. Mesmo assim, homenageio meu coração. Todo sentimento, conduz-me por onde não devo ir. Vamos juntos. Eis o perigo. Neste labirinto da vida, a razão deveria prevalecer. Mas não consegue vencer a arritmia do tirano de meu corpo. Este último, que deveria viver em saudável democracia, foi sobrepujado pela força do ditador fonte dos sentimentos. Nada segue o curso correto. Tudo corre aos borbotões. Como um rio que leva em seu leito todas as coisas. É assim que me sinto. Levada pelas correntezas da vida. Sem poder escolher o melhor curso de minha nau. Estou à deriva neste imenso oceano. Apavorada frente ao desconhecido. Cerca-me um infinito que ainda não foi desbravado. E por todo lado há medo. Quero ter em mãos alguma carta náutica ou mesmo um astrolábio, talvez um sextante. Porque aqui, estou suscetível aos perigos do mar. Os monstros marinhos que vivem nessas águas podem, a qualquer momento, me surpreender.  Eis o instante certo para reagir. Tenho de arriscar. Concentro as forças no peito. A arritmia conduz ao medo. Somos um só. Pois, o coração é-me interno e ele governa-me. Poderoso ditador numa terra sem lei. Todavia, agora estamos encurralados. Não há escapatória. Resta-nos o cérebro, ignorado durante todo este tempo, e que pode achar uma saída razoável. Mas ele também está confuso. Aturdido diante de tamanhas dificuldades. Sem escapatória, temos somente de rendermo-nos ao exército inimigo.

Assim, feitos prisioneiros, eu e meu corpo inteiro, somos levados a julgamento por nossos crimes. Somos inocentes, mas culpados. Inocentes porque não tínhamos ciência do que fazíamos e culpados porque o fizemos. Seria uma verdadeira exculpante? Não, porque ninguém pode alegar desconhecimento da lei. A norma é clara. Porém, a ignorância sobrepuja a luz. É a noite que se abate sobre a razão dos homens. O coração ordena, obedecemos. Ao arrepio do que dita a lei. Inconscientes de nossa culpa. Não há dolo, mas persiste o crime. Precisamos do auxílio de um bom advogado para encontrar uma brecha no que dita os códigos e a Carta Magna. Será que há uma mínima chance de sermos absolvidos? Por que fui ouvir as necessidades de um coração vadio? Este tirano, que por muito tempo me governa, é famoso por sua crueldade. Não escuta o que diz os clamores do resto do corpo. O cansaço, que consome os demais músculos, é ignorado. Obriga-nos a prosseguir. O sono, que faz pesar as pálpebras, é desprezado. Um único dever nos determina: continuem! Assim, sobra-me um físico deteriorado pelos desmandos desse órgão tirano. E o pior, eu ainda o venero. Homenageio-o em meus escritos. Disserto sobre sua devastadora arritmia. Ele controlar-me-á para todo sempre? Estou condenada a seguir pela eternidade o que me diz o coração? Será possível fugir dessa pena atroz? Não quero mais agir por impulso. Quero sondar todas as consequências de meus atos antes de praticá-los. Escapar da tolice que envenena minha alma. No breu das alucinações que me comandam, ainda existe uma tênue luz.  É uma mínima chama de esperança. Um pequeno grão que pode vir a germinar ou não. Lampejos de racionalidade ainda existem. Pequenas faíscas das sinapses persistiram em meio à escuridão da loucura. Será possível resistir? O cérebro, que diversas vezes tentou dar um golpe de Estado, mas foi eternamente sobrepujado, não desiste. O coração é sempre mais forte. Sempre?

O que farei, se o corpo não pode vencer as investidas do exército da emoção?  É, por seu tremendo poder sobre mim, que denomino meu coração de selvagem. Pois, ele que me condiciona a suas normas. Estou submetida ao seu alvedrio. Nada posso fazer. Agora que estamos detidos pela realidade, alego domínio da fantasia. Inútil tentar desembaraçar-me da culpa. Pois, as ações foram insanas, motivadas por minha inconsciência, mas foram minhas. Eu devo assumir toda a responsabilidade. E, mais uma vez, o coração é agraciado pela impunidade. Não se pode apenar um órgão, ainda mais, que não pensa ou age. Por mais que sustente o poder dele sobre mim, não me dão crédito. Julgam-no indefeso. E o cérebro sozinho assume todos os crimes. “Foi premeditado.” Dizem alguns. Outros aludem ao poder de racionalizar todos os crimes. “Como pode agir dessa maneira?” “Será que imaginou que sairia impune?” É o que a maioria interroga. E quem recebe sobre si a carga de todos os meus erros é o inocente cérebro, que sempre me tentou alertar para a consequência de todas as faltas. E o coração, continua a bater. Feliz, porque não foi considerado o mandante dos crimes. Livre, ainda me provoca arritmias. Eu queria não o ouvir mais. Assim, sairia ilesa da avalanche de realidade. Porque ele só me responde com ilusões, só me governa com fantasias. E sua força dominadora é tremenda. Ele é poderoso e invencível. Todas às vezes, se levanta ainda mais sedento de aventuras do que quando caiu. É um forte do qual protejo minhas terras. Não importa a frota de canhões apontados em minha direção. O poder bélico do coração é sobremaneira mais vigoroso. Ninguém poderá jamais o dominar. Por isso, quando mais quero fazer-me razão, sou apenas sensibilidade. Não há como desfazer-me desse tirano que me domina. Assim, admito que meu coração é selvagem, mas não há quem consiga domá-lo. E ao conferir um nome ao meu blog, tive de fazer menção a este bravio órgão que a tudo domina.

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O palhaço triste

Giordana Bonifácio

Este palhaço que sorri ao grande público.

Tem um coração bom e sentimentos ricos.

Porém lhe dói um coração partido no peito.

Para ter tal ferida curada não há jeito.

 

A dama que povoa seus impossíveis sonhos.

Também é a razão de seus olhos tão tristonhos.

Ele cujo trabalho é cativar ao mundo.

Vive num abandono deveras profundo.

 

Se lhe fosse possível sorrir por dentro ainda…

Mas no coração todo seu júbilo finda.

Pobre desse palhaço que ao Pierrot imita.

 

E na alva lua é onde toda sua dor está escrita.

Triste palhaço, vítima da Colombina.

Não vê que com tal fria alma seu amor não combina?

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Saudade

Giordana Bonifácio

Entre a confusão de meus pensamentos

Não compreendo estes loucos sentimentos.

É tão estranho isso que se passa em mim.

Como entenderia tal amor sem fim?

 

Antes fosse somente alguma doença.

Qualquer coisa que um remédio vença.

Mas e essa dor perene aqui em meu peito?

Pena é por algum mal que tenha feito?

 

Essa solidão que muito perdura…

Serei apenas eu a sofrer tal tortura?

O vazio dói-me muito, e esse silêncio?

 

Será que este tamanho horror eu influencio?

Já sei o que sinto, sei toda a verdade,

Sei o nome dessa dor: é só saudade.

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Viver sem amar

Giordana Bonifácio

A minha cônjuge é a minha estável solidão.

Eu sei que quando juntos minhas dores findam.

Diversas vezes fui obrigado do meu peito,

Arrancar meu coração, pois foi o único jeito,

 

De sofrimentos nunca mais vir a padecer.

Mas sinto falta dele ao mirar o amanhecer.

Sobreviver sem amor cria até ser possível.

Porém, sem amor, viver, mostrou-se impossível.

 

Os dias passam somente, com terríveis penas.

Meu desejo era o de não mais sofrer apenas.

Mas tive de renunciar à doçura de amar.

 

Por isso, não suspiro ao observar o vasto mar.

Não me acontece qualquer emoção fugidia.

Sinto falta do tempo, em que sonhar eu podia.

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Anjo

Giordana Bonifácio

É verdade que existe um tanto de coisas que não podemos fazer na realidade. É por isso que a ficção, a obra infinita da nossa imaginação, nos concede poderes dos quais somos desprovidos. Aqui, nessas linhas tortas em que minha onisciência me concede o poder de escrever certo, posso muito bem ouvir os pensamentos dos passantes. Sou convertida em anjo, que pousa o ouvido no peito dos homens e pode escutar-lhes sonhar. Sou das milícias celestes, voo sobre a cidade e assim, sou levada pelas ondas invisíveis dos desejos humanos. Um homem sisudo e bem vestido entretém-se no fixo pensamento de resgatar sua honra. Como? Não sei, ouço um tanto aqui, outro tanto acolá. Não quero revelar a intimidade desses personagens, mas alguns retratos de solidão. Não há lugar mais solitário do que dentro de nós mesmos. Uma mulher balbucia uma música enquanto, com olhos marejados, sonha com um passado inalcançável. “Why do you come here/when you know it makes things hard for me?” Sibila sem sentir, uma canção nem tão antiga assim. Uma criança que, desde cedo, foi submetida à dura rotina da vida, imagina um mundo muito diverso, com heróis e heroínas saídas das páginas de uma história em quadrinhos. Continuo penetrando no lugar mais intrínseco de suas almas. Deixando-me estar ali, bem ao lado de suas frustrações. Uma moça enxuga uma lágrima que desavisadamente se desprende dos cílios e corre-lhe sobre a face. “Haverá ainda tempo de concertar tudo?” Vejo a desolação em sua fisionomia. Porém prossigo. Não devo deter-me com as mágoas, como não o posso fazer com os sonhos. Não posso me apropriar da dor nem mesmo da felicidade alheia. Anjo que sou, não devo interferir no livre-arbítrio.

 Agora caminho ao lado de um velho. Ele segue lentamente, passos trôpegos auxiliados por uma bengala. Ele suspira recordações de um tempo em que poderia correr mais rápido que qualquer menino de sua rua. E o presente dos anos é a decrepitude dos corpos. Ele resmunga um palavrão e continua sua longa e árdua caminhada. Sou um “ser de luz”, (como convém denominar aos anjos), um tanto andarilho. Com minhas longas asas voo rápido para estar ao lado dos homens, para protegê-los do mundo, dos medos, do frio, e de si mesmos. Contudo, não posso evitar que se sintam abandonados. É que, nos momentos em que a dor surge, acham-se tão desprotegidos que terminam por se crer sozinhos. Justamente no momento em que nós, anjos, seguramos-lhes as mãos para aliviar o sofrimento que sentem. Cobrimos-lhes com nossas asas e tentamos reconfortar-lhes o espírito. E aqui, ao lado deles, tentamos ser um abrigo, mesmo que não nos vejam, mesmo que não nos ouçam e, também, que não acreditem em nossa existência. Por esses vales sinuosos de perigos que circundam a humanidade, somos a força que mantém o eterno equilíbrio entre o bem e o mal. E queremos ajudar nas escolhas das pessoas, todavia não nos é possível fazê-lo. No momento crucial, os seres humanos estão por sua conta. Já tentei sussurrar aos ouvidos de uma garota a solução de seus dilemas, mas ela não depositou sua fé em minhas palavras. Acreditou que só poderia estar enlouquecendo e não optou pela alternativa que lhe vislumbrava. Um motorista liga o rádio no engarrafamento, afrouxa o nó da gravata e tenta acompanhar a canção que escuta. “I used to be on an endless run./ Believe in miracles ’cause I’m one. /A have been blessed with the power to survive./ After all these years I’m still alive.” Sento-me ao seu lado, ele pensa em um tanto de problemas. E reza para que Deus lhe ajude a conseguir uma solução para os entraves em sua vida. Segura o crucifixo em uma corrente em seu peito e pede auxílio ao Pai. Queria podermos fazer mais, mas nossa função é tão somente conferir serenidade para que os homens consigam achar sozinhos a saída.

Olho em volta para  essa cidade que se crê esquecida por Deus e entregue ao pecado. Não, não nos desfizemos de mais nenhuma cidade desde Sodoma e Gomorra. Ainda estamos com os olhos fixos nesse planetinha azul. Continuamos a escutar as orações e pedidos. Tenho pena dos seres de carne e osso porque a vida é tão frágil e inesperada. Tudo acontece sem aviso. Ninguém está preparado. E são surpreendidos pelas “curvas” da vida, porque não se trata jamais de uma linha reta. Não, a vida é uma estrada sinuosa. Há subidas íngremes, buracos na estrada, descidas abissais e despenhadeiros ameaçadores. Tudo que torna a viagem perigosa e difícil. Mas eles prosseguem. Tenho de confessar que lhes invejo a coragem e fé. Fé mesmo que não seja a ligada a essa ou aquela religião. Uma esperança tão forte que lhes impulsiona a prosseguir, quando, confesso, eu não conseguiria. Esse homem mesmo, cujos problemas são tão volumosos, continua cantando e sorrindo ao espelho que lhe mostra uma imagem feliz. Como consegue? Inicia uma nova música e agora ele canta com mais afinação por lhe ser bem mais conhecida e em seu próprio idioma: “Quando o sol bater/ Na janela do teu quarto,/ Lembra e vê/ Que o caminho é um só,/ Porque esperar/ Se podemos começar/Tudo de novo?/ Agora mesmo,/ A humanidade é desumana/ Mas ainda temos chance,/ O sol nasce pra todos,/ Só não sabe quem não quer…” E o engarrafamento não foi suficiente para minar-lhe as forças. As preocupações não foram fortes o bastante para vencer-lhe e as dificuldades não esmoreceram sua fé. Agindo novamente contra as regras, murmuro a resposta que ele necessitava para seus problemas. Ele coça o ouvido, faz uma cara de incredulidade e logo telefona para esposa: “Você não sabe a ideia que tive!” Sorrio, deixo-lhe com a nova onda de alegria que lhe toma o espírito. Seria isso que se denomina esperança? Algumas vezes, nós anjos gostaríamos de ser dotados de sentimentos como os humanos, ser frágil e consciente. Ter esse corpo sólido que comporta algo tão superior e mágico como o espírito. O homem não tem consciência do milagre que ele é. E queria poder chorar, mesmo de tristeza, mas me seria melhor de alegria e entender como uma dor ou uma felicidade é tão grande que extrapola o corpo. Extravaza pelos olhos em gotículas de alma, que salgam a boca e materializam também no paladar a emoção sentida.

Na esquina, uma velha prostituta vende seu corpo, mas mantém para si, somente, seu espírito. Ela masca chiclets já sem sabor há uma hora. Uma maneira de enganar a fome. E rezar para ela é uma forma de absolvição. Procurar salvação, quando entre os homens foi esquecida nas sarjetas a esmolar dinheiro para alimentar-se. É certo que haveria outras profissões um tanto mais dignas, para pessoas iguais a ela, gente a quem a humanidade fecha os olhos. Mas será que a humilhação de uma vida de doméstica seria um tanto melhor que o preconceito sofrido por ela ser uma “mulher da vida”? Escuto as penas dessa pobre mulher. Desse corpo deformado pelo tempo e tomado por doenças venéreas. Ela nem sabe que coloco minha mão sobre seu ombro. A mulher sente um leve frio e um formigamento. É o que nós anjos costumamos provocar nos seres em que tocamos. Lanço sobre ela meu perdão. Sei que cometerá mais uma série de vezes o mesmo pecado. Mas toda a alma é digna de ter suas falhas remidas. E os homens tem razão para errar. São muito fracos! Não nos enxergam, portanto é difícil crer. Por tudo isso, eu tenho piedade para com esses seres solitários. Pois não estão em conexão com outros de sua espécie como nós membros das milícias celestes estamos. Um garotinho passa veloz em seu skate, posso ouvir seu pavor de chegar atrasado em casa. “Minha mãe vai me matar!” Divirto-me com sua preocupação. A mãe apenas ralhará com ele e ordenará que se deite mais cedo. Os jovens são exagerados. “Há algum tempo atrás/ poderíamos mudar o mundo.” Como diria a canção. Na juventude os homens creem-se invencíveis. Só tomam consciência de si mesmos com o amadurecimento. Então, se recolhem ao seu corpo frágil. Preocupam-se com o futuro. Detêm-se a organizar um lar. Formam uma família. Não querem mais ser sozinhos. Conectam-se ao toque por não poderem fazê-lo com o imaterial. Uma jovem garota corre com uma pilha de livros nos braços. “Poderia ter sido diferente…” Dizem-me seus pensamentos. Ela toma uma caneta escreve algo numa caderneta. E vou ao seu encontro. Seu coração bate machucado. E, sem respostas para as dúvidas que lhe assaltam, corre como se assim pudesse fugir do mundo que a persegue. Eu a deixo prosseguir. Acho que, nesse exato momento, é melhor para ela estar apenas consigo mesma. É hora. Meus poderes “ficcionais” estão acabando, não sou mais anjo, retorno a minha personagem, a escritora, que sangra e chora, a que não tem mais a onisciência dos seres divinos. Pecadora que sou, resigno-me à posição de obra de Deus, agora ouço tão somente meus próprios pensamentos. Desejando, porém, a visita de um anjo que me murmure as respostas de minhas próprias questões ao pé do ouvido.

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