Posts Marcados Com: passos

relogio-tempo-passa-perda-tempo1

O tempo é o melhor remédio

Giordana Bonifácio

Não vai doer para sempre. Da ferida,

Cuja dor que hoje sente é desmedida,

Restará muito pouco, tenha fé.

Não pague para ver tal São Tomé.

 

Um dia, esta dor, deveras esmaecida,

Será tão só uma crise de sua vida,

Da qual irá se lembrar no café,

E com um tal desdém, rirá blasé.

 

Tudo será esquecido, um belo dia.

Quando findarem todos os lamentos,

Poderá vencer enfim as tormentas.

 

Então, meu amigo, a dor supere e sorria.

Pois o futuro, mesmo a passos lentos,

Chega curando as chagas mais sangrentas.

 

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , , , | Deixe um comentário

Primeiros passos

Giordana Bonifácio

Eu sei que tenho de aprender a andar outra vez.

E isso demanda tempo não apenas um mês.

Sei que devo reaprender a ser isto apenas.

Isto: este ser de posses bastante pequenas.

 

Isto: esta pessoa que só a solidão acompanha.

Isto: esta pessoa que ao mundo se tornou estranha.

Isto: um ser que ser teme muito mais que viver

Tais definições são meu modo de me ver.

 

Não quero que me digam o que sinto agora.

Pois em meu peito a dor eternamente mora.

O problema é que há em mim uma perene mágoa.

 

Não sou daquelas que aos infortúnios apregoa,

Mas por anos estive deveras infeliz.

Hoje, ouço mais o que meu espírito me diz.

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , | Deixe um comentário

Breve assovio

Giordana Bonifácio

E lá vem ele, passos lentos , cabisbaixo,

Como se tivesse todo o tempo deste mundo.

E ao redor parece a rua estar em sono profundo.

Eu que nesse retrato ao certo não me encaixo,

 

Tinha o hábito de seguir este homem com olhar.

Ele andava de sandálias e um chapéu surrado,

Sobre a cabeça e, a menos que esteja enganado,

Seu estranho assovio era como um rouxinolear.

 

Era um pássaro, que já não mais podia voar…

E ouvindo, de seu breve e forte assovio, o soar.

Sua alegria quando livre, ficava nítida.

 

Mesmo que agora sua canção soasse sentida.

Pois a vida privou-lhe de planar no céu anil.

Mas este homem, o pássaro em si, ainda não baniu.

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , , , | Deixe um comentário

A Via Crucis

Giordana Bonifácio

Junto-me ao coro destes loucos infelizes.

Todos nós portamos nas almas cicatrizes.

Não sou a única que neste árduo momento chora.

Peço: afaste de mim esse cálice agora!

 

Foi-se alegria que outrora me invadia os sonhos.

Se ainda me lembro de algo? Havia campos risonhos,

Que brilhavam dourados com a luz da aurora.

São recordações das manhãs que vivi outrora.

 

Sigo, hoje, minha Via Crucis com passos lentos.

Ninguém sequer se condói dos meus sofrimentos.

Esta condenada que sobre a cruz padece,

 

Pede que sobre si caia uma mísera prece.

Não suporta a carne fraca tamanhas dores.

Purgo meus vis pecados, sofro meus terrores.

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , , , | Deixe um comentário

Anjo

Giordana Bonifácio

É verdade que existe um tanto de coisas que não podemos fazer na realidade. É por isso que a ficção, a obra infinita da nossa imaginação, nos concede poderes dos quais somos desprovidos. Aqui, nessas linhas tortas em que minha onisciência me concede o poder de escrever certo, posso muito bem ouvir os pensamentos dos passantes. Sou convertida em anjo, que pousa o ouvido no peito dos homens e pode escutar-lhes sonhar. Sou das milícias celestes, voo sobre a cidade e assim, sou levada pelas ondas invisíveis dos desejos humanos. Um homem sisudo e bem vestido entretém-se no fixo pensamento de resgatar sua honra. Como? Não sei, ouço um tanto aqui, outro tanto acolá. Não quero revelar a intimidade desses personagens, mas alguns retratos de solidão. Não há lugar mais solitário do que dentro de nós mesmos. Uma mulher balbucia uma música enquanto, com olhos marejados, sonha com um passado inalcançável. “Why do you come here/when you know it makes things hard for me?” Sibila sem sentir, uma canção nem tão antiga assim. Uma criança que, desde cedo, foi submetida à dura rotina da vida, imagina um mundo muito diverso, com heróis e heroínas saídas das páginas de uma história em quadrinhos. Continuo penetrando no lugar mais intrínseco de suas almas. Deixando-me estar ali, bem ao lado de suas frustrações. Uma moça enxuga uma lágrima que desavisadamente se desprende dos cílios e corre-lhe sobre a face. “Haverá ainda tempo de concertar tudo?” Vejo a desolação em sua fisionomia. Porém prossigo. Não devo deter-me com as mágoas, como não o posso fazer com os sonhos. Não posso me apropriar da dor nem mesmo da felicidade alheia. Anjo que sou, não devo interferir no livre-arbítrio.

 Agora caminho ao lado de um velho. Ele segue lentamente, passos trôpegos auxiliados por uma bengala. Ele suspira recordações de um tempo em que poderia correr mais rápido que qualquer menino de sua rua. E o presente dos anos é a decrepitude dos corpos. Ele resmunga um palavrão e continua sua longa e árdua caminhada. Sou um “ser de luz”, (como convém denominar aos anjos), um tanto andarilho. Com minhas longas asas voo rápido para estar ao lado dos homens, para protegê-los do mundo, dos medos, do frio, e de si mesmos. Contudo, não posso evitar que se sintam abandonados. É que, nos momentos em que a dor surge, acham-se tão desprotegidos que terminam por se crer sozinhos. Justamente no momento em que nós, anjos, seguramos-lhes as mãos para aliviar o sofrimento que sentem. Cobrimos-lhes com nossas asas e tentamos reconfortar-lhes o espírito. E aqui, ao lado deles, tentamos ser um abrigo, mesmo que não nos vejam, mesmo que não nos ouçam e, também, que não acreditem em nossa existência. Por esses vales sinuosos de perigos que circundam a humanidade, somos a força que mantém o eterno equilíbrio entre o bem e o mal. E queremos ajudar nas escolhas das pessoas, todavia não nos é possível fazê-lo. No momento crucial, os seres humanos estão por sua conta. Já tentei sussurrar aos ouvidos de uma garota a solução de seus dilemas, mas ela não depositou sua fé em minhas palavras. Acreditou que só poderia estar enlouquecendo e não optou pela alternativa que lhe vislumbrava. Um motorista liga o rádio no engarrafamento, afrouxa o nó da gravata e tenta acompanhar a canção que escuta. “I used to be on an endless run./ Believe in miracles ’cause I’m one. /A have been blessed with the power to survive./ After all these years I’m still alive.” Sento-me ao seu lado, ele pensa em um tanto de problemas. E reza para que Deus lhe ajude a conseguir uma solução para os entraves em sua vida. Segura o crucifixo em uma corrente em seu peito e pede auxílio ao Pai. Queria podermos fazer mais, mas nossa função é tão somente conferir serenidade para que os homens consigam achar sozinhos a saída.

Olho em volta para  essa cidade que se crê esquecida por Deus e entregue ao pecado. Não, não nos desfizemos de mais nenhuma cidade desde Sodoma e Gomorra. Ainda estamos com os olhos fixos nesse planetinha azul. Continuamos a escutar as orações e pedidos. Tenho pena dos seres de carne e osso porque a vida é tão frágil e inesperada. Tudo acontece sem aviso. Ninguém está preparado. E são surpreendidos pelas “curvas” da vida, porque não se trata jamais de uma linha reta. Não, a vida é uma estrada sinuosa. Há subidas íngremes, buracos na estrada, descidas abissais e despenhadeiros ameaçadores. Tudo que torna a viagem perigosa e difícil. Mas eles prosseguem. Tenho de confessar que lhes invejo a coragem e fé. Fé mesmo que não seja a ligada a essa ou aquela religião. Uma esperança tão forte que lhes impulsiona a prosseguir, quando, confesso, eu não conseguiria. Esse homem mesmo, cujos problemas são tão volumosos, continua cantando e sorrindo ao espelho que lhe mostra uma imagem feliz. Como consegue? Inicia uma nova música e agora ele canta com mais afinação por lhe ser bem mais conhecida e em seu próprio idioma: “Quando o sol bater/ Na janela do teu quarto,/ Lembra e vê/ Que o caminho é um só,/ Porque esperar/ Se podemos começar/Tudo de novo?/ Agora mesmo,/ A humanidade é desumana/ Mas ainda temos chance,/ O sol nasce pra todos,/ Só não sabe quem não quer…” E o engarrafamento não foi suficiente para minar-lhe as forças. As preocupações não foram fortes o bastante para vencer-lhe e as dificuldades não esmoreceram sua fé. Agindo novamente contra as regras, murmuro a resposta que ele necessitava para seus problemas. Ele coça o ouvido, faz uma cara de incredulidade e logo telefona para esposa: “Você não sabe a ideia que tive!” Sorrio, deixo-lhe com a nova onda de alegria que lhe toma o espírito. Seria isso que se denomina esperança? Algumas vezes, nós anjos gostaríamos de ser dotados de sentimentos como os humanos, ser frágil e consciente. Ter esse corpo sólido que comporta algo tão superior e mágico como o espírito. O homem não tem consciência do milagre que ele é. E queria poder chorar, mesmo de tristeza, mas me seria melhor de alegria e entender como uma dor ou uma felicidade é tão grande que extrapola o corpo. Extravaza pelos olhos em gotículas de alma, que salgam a boca e materializam também no paladar a emoção sentida.

Na esquina, uma velha prostituta vende seu corpo, mas mantém para si, somente, seu espírito. Ela masca chiclets já sem sabor há uma hora. Uma maneira de enganar a fome. E rezar para ela é uma forma de absolvição. Procurar salvação, quando entre os homens foi esquecida nas sarjetas a esmolar dinheiro para alimentar-se. É certo que haveria outras profissões um tanto mais dignas, para pessoas iguais a ela, gente a quem a humanidade fecha os olhos. Mas será que a humilhação de uma vida de doméstica seria um tanto melhor que o preconceito sofrido por ela ser uma “mulher da vida”? Escuto as penas dessa pobre mulher. Desse corpo deformado pelo tempo e tomado por doenças venéreas. Ela nem sabe que coloco minha mão sobre seu ombro. A mulher sente um leve frio e um formigamento. É o que nós anjos costumamos provocar nos seres em que tocamos. Lanço sobre ela meu perdão. Sei que cometerá mais uma série de vezes o mesmo pecado. Mas toda a alma é digna de ter suas falhas remidas. E os homens tem razão para errar. São muito fracos! Não nos enxergam, portanto é difícil crer. Por tudo isso, eu tenho piedade para com esses seres solitários. Pois não estão em conexão com outros de sua espécie como nós membros das milícias celestes estamos. Um garotinho passa veloz em seu skate, posso ouvir seu pavor de chegar atrasado em casa. “Minha mãe vai me matar!” Divirto-me com sua preocupação. A mãe apenas ralhará com ele e ordenará que se deite mais cedo. Os jovens são exagerados. “Há algum tempo atrás/ poderíamos mudar o mundo.” Como diria a canção. Na juventude os homens creem-se invencíveis. Só tomam consciência de si mesmos com o amadurecimento. Então, se recolhem ao seu corpo frágil. Preocupam-se com o futuro. Detêm-se a organizar um lar. Formam uma família. Não querem mais ser sozinhos. Conectam-se ao toque por não poderem fazê-lo com o imaterial. Uma jovem garota corre com uma pilha de livros nos braços. “Poderia ter sido diferente…” Dizem-me seus pensamentos. Ela toma uma caneta escreve algo numa caderneta. E vou ao seu encontro. Seu coração bate machucado. E, sem respostas para as dúvidas que lhe assaltam, corre como se assim pudesse fugir do mundo que a persegue. Eu a deixo prosseguir. Acho que, nesse exato momento, é melhor para ela estar apenas consigo mesma. É hora. Meus poderes “ficcionais” estão acabando, não sou mais anjo, retorno a minha personagem, a escritora, que sangra e chora, a que não tem mais a onisciência dos seres divinos. Pecadora que sou, resigno-me à posição de obra de Deus, agora ouço tão somente meus próprios pensamentos. Desejando, porém, a visita de um anjo que me murmure as respostas de minhas próprias questões ao pé do ouvido.

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , , , | Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: