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Soneto de um coração selvagem

Giordana Bonifácio

Ó coração selvagem, aonde vais?

Não vês que outra vez erras o caminho?

Será que seguirás sempre sozinho

Nesta estrada que não termina mais?

 

Ó meu coração, quantos sonhos irreais…

Não sabes que da rosa o amor é o espinho

Cujas mágoas não findam como o vinho?

Ó tolo, o passado já não volta mais!

 

Não lamentes as noites mal dormidas,

Nem mesmo cubra tuas muitas feridas.

Pois vai brilhar-te a luz clara do dia.

 

Ó coração, tão doce e torturado,

Tu choras num soluçar murmurado,

Tua dor amarga, a tua imensa agonia.

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Canto de amor de quem não ama ninguém

Giordana Bonifácio

Ouça, ó Lua, este meu tão amargo lamento.

Que as Musas façam limpa minha voz,

Que não me roube a fala a paixão atroz,

Para assim narrar todo meu tormento.

 

Ó Diana, como apagar meu pensamento?

O passado foi sempre o meu maior algoz,

Fruto de um tempo que caminha veloz,

Que à vida apaga como à chama o vento.

 

Ó, não sabe da minha vã agonia:

Ter a alma cheia de mágoa ao fim do dia,

De um penar que não sei de onde vem.

 

Ouve o que digo com tão rudes versos?

São rimas pobres, são sonhos dispersos,

Canto de amor de quem não ama ninguém.

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O universo todo ao meu redor

Giordana Bonifácio

Os sonhos não terminam jamais. Na verdade, expandem-se como o universo. Por isso dizem cobiçoso o homem que luta por seus sonhos e que, ao alcançá-los, já possui novas metas. Há sempre um vazio em nós que não se preenche. A nossa alma anseia por algo. Anseia por universos infinitos. Meu desejo é ser. Seguir sendo cada vez mais, cada vez menos. Ser uma simples união de coisas complexas. Algo traduzível num sorriso. Algo que apenas se diz numa lágrima teimosa. Ser foi-me sempre muito difícil. Pois querem que eu seja como todos os outros seres. Mas eu sou. Isso somente me conceitua. Sou.  Deixem-me ser. Ser entre sonhos infinitos. Ser fora dos moldes que limitam. Ser aberto. Ser vazio que se preenche. Ser entre estrelas que brilham ofuscantes, ser nebulosa colorida. Sou isto. Sou menos que tudo. Sou um tanto mais que nada. Pois a massa dos corpos surgiu de algo ínfimo, mas que explodiu rasgando o nada. Ainda quero, mas querer é um sentimento tão comum… Vivo só, só vivo. Embora, saiba que isso não me satisfaz. Somem as entrelinhas em palavras fatalistas demais. Backspace, por favor, apague meus erros. Não sei usar as palavras. São elas que me usam, pois sou um objeto descartável e elas vão subsistir a mim. É certo, tendo em vista que homens não se reciclam. Eu queria continuar sendo, sem ser o que fui quando não me entendia e queria definir-me em fórmulas. Mas sonhos não são exatos. Seres de sonhos são humanos e seres humanos são definidos pelas ciências das palavras que não conseguem definir. O todo resta sem solução.

 O universo todo ao nosso redor e quanto sabemos dele? Não sabemos nem ao menos sobre nós nesse mundinho minúsculo que nos é uma enormidade. Queria saber mais e mais, porém, quanto mais sei, menos sei, pois a inteligência expande-se em vazio também. Numa explosão de entendimento, tudo se torna menor. O saber faz-nos reconhecer nossa insignificância. Não sei descrever esse fenômeno de forma breve. As palavras multiplicam-se na ferida aberta em meu cérebro. É que os homens creem-se superiores aos seus pares em função de coisas ínfimas. Desconhecem ou ignoram a realidade? Somos minúsculos e ainda se julgam tão importantes… As pessoas ainda não compreendem a fragilidade da vida humana. Algo tão diminuto… Ninguém será ovacionado por suas conquistas. O que se obtém em vida aqui resta e não é possível transportar consigo em morte. Por isso, continuo sendo, sendo apenas, sem pretensão de ser mais, mas sim, menos. Ser sozinho, pois não procuro seguidores. Ser sem anseios. Ser sonhos infinitos que ao fechar meus olhos continuam lá. Sou isto mesmo que não me entendam. Mesmo que me discriminem dos demais. Sou a minoria das minorias. Enjeitado pelos rejeitados. Tentei cultivar relações sociais. Mas a sociedade é a homogeneidade dos seres. Igualam-se em comportamentos e em sonhos. Eu não procurei a originalidade, ela me perseguiu. Acabei por aceitá-la tarde demais. Perdi muito tempo tentando ser o que não sou. Quando me sabia diverso, mas não queria diferir-me. Tinha medo. Medo do comportamento dos homens homogêneos. Fui apontado na escola, o sou também no trabalho. Porque não me submeto a convenções tolas. Porque penso quando os homens querem manter-se no interior da caverna, possuindo visão tão somente das sombras do mundo.

Quero ver o que Ícaro viu mesmo que a queda seja fatal. Quero transmitir aos homens o que sei, mesmo que, tal qual ocorreu a Prometeu, seja acorrentado e devorado por abutres. Quero cruzar os liames da razão. Ainda que saiba bem dos riscos. As palavras fervilham, sei que não posso retê-las.  Despregam-se de mim. Vão dizer o que sou. Mesmo que ainda não o saiba ao certo. O que aqui escrevo, sacia a fome dos homens. Multiplica-se em pão e peixe. Converte-se em vinho. Inebria os sentidos. Talvez, também seja crucificado por minhas verdades. É que não se pode dizer ao mundo tão abertamente o que devíamos fazer segredo. Ser é uma incompletude perigosa. Sei que não quero ser o que os outros são. Não mais. Aprendi a aceitar o que sempre fui, mesmo que fuja aos padrões. Sorte que nunca fui contra meus ideais. Ser me custa muito. Ser é uma agonia que ora dói, ora afaga. Sabidamente, sempre me resta a possibilidade de desistir de tudo. Até de mim. Divirjo sobremaneira em minhas opiniões. É que nunca aprendi a ser fora dos paradoxos. Vivo de contradições, sou a contradição mais perfeita que existe. Por isso, necessito de definições que nunca me conceituam. Mesmo assim, ainda quero entender-me. Ainda que não diga a ninguém o que descobrirei de mim. Apaga-se o sol de meus sonhos, a noite dos temores se aproxima. Tenho de fazer-me firme frente às possibilidades sombrias.  O que dizer do futuro quando ele é uma condição remota? Por que ainda espero um amanhã que nunca vira hoje é o que não compreendo. O passado passou rápido demais, mas o presente estende-se infinitamente. Quando o futuro porque tanto anseio enfim vai chegar?  Sinto uma confusão de sentimentos, que ora pendem para a tristeza e ora pendem para euforia. Sou vítima de minhas próprias divergências.

Fui tolo inúmeras vezes. É que os erros são necessários ao nosso amadurecimento.  Fui tropeçando em meus caminhos. E sempre me foi difícil abrir as portas trancadas da esperança. Ainda creio em milagres que nunca ocorrem. Mas agora com menos frequência. Quando quis me aproximar, o sonho se recolheu. Fui desanimando, desistindo de tudo, juntando os restos de vida que ainda me havia. Prossigo, sobre meu rocinante, com a lança em punho, pois sei que ainda há muitos moinhos de vento para se combater. Quisera ainda amar a Dulcinéia, mas já fiz serenatas demais ao coração errado. Hoje, creio estar melhor sem suspirar por amores impossíveis. Sei que todo Fausto tem sua Margarida, mas penso que a solidão é meu maior capricho. Sempre consigo me ouvir melhor no silêncio do quarto, quando estamos somente eu e a tela em branco do computador. Aos poucos vou dedilhando as cordas do meu violão. Muitas notas confusas se organizam na pauta musical dos meus sentimentos. Quebro paradigmas, dedilho canções. Sinto música e canto sem versos. A música se acomoda entre meus silêncios. No universo não se pode ouvir qualquer som. Espaço de vazios em que o som não pode propagar-se. No silêncio, observando a enormidade do que me é exterior, compreendo melhor os desígnios de Deus. Um Deus que me transcende, que não explica as razões do meu penar, mas que me dá a mão e me auxilia a prosseguir na minha Via Crucis. É a ele que peço por meus torturadores, pois não sabem que o que fazem a mim, vai pesar para eles.

Seria o homem um rascunho? Algo que em vida se prepara para uma existência superior? Sei que não devemos ser bons por temer a consequência de nossos pecados. Mas pela compreensão do mal que podemos causar às outras pessoas. Não há o que se faça em vida que não reste registrado, ao menos em nossa consciência. Não há seres insignificantes, cuja vida é menos importante ao mundo. Raskólnikov cometeu essa falha. Creditou-se uma importância que não possuía e sofreu um castigo auto-imposto por seu crime. Vamos nós também viver nosso crime e castigo? Melhor é construir o nosso caráter e conduta sem esperar por penas futuras ou presentes. É assim que se fincará realmente as bases de um porvir mais justo e equânime. Não sei se devo crer em Deus, mas todas as vezes que penso em todo este universo ao meu redor, mais um grão de mostarda germina em meu peito. Sou o único responsável pelo seu crescimento. Sou eu que devo fazer do solo de minha alma, um bom terreno para que cresça e se multiplique. Tentei muitas vezes negar a fé por temer o julgamento das pessoas. Foram elas que mais me afastaram do caminho que eu achava adequado, pois queriam que seguisse seus tortos passos. Quando desisti de tentar ser mais que deveria ser, foi que encontrei as respostas de minhas questões mais intricadas. Permaneci muito tempo em dúvida. Precisava de algo que me fosse maior, que não me abandonasse por minha aparência, que não me julgasse por minhas opiniões. Somente a fé conferiu-me o que necessitava.

 Há tanto que se compreender. Há tanta vida lá fora. Tanto que não sabemos, que não entendemos, que ignoramos, que desprezamos… Por que então permanecemos imóveis ante tudo que poderia ser feito, ser pesquisado, ser decifrado enfim? Será que tememos as respostas? Será que estamos enclausurados pelo temor do que pode ser encontrado? O que ocorreria se todos os homens no passado limitassem-se por seu pavor? Creio que nada do que hoje existe, seria real. Não teríamos o grau de avanço tecnológico do qual atualmente usufruímos. A enormidade de nossas dúvidas não deve subjugar nossa ínfima vontade. Ser diferente num mundo de seres iguais é uma batalha colossal. Porém, resolvi enfrentá-la. Armei-me com minha força e meu espírito. Eu ainda sinto medo. Sou frágil, sou carne e sangro. Sei que as palavras ferem com força de paus e pedras. Mas não posso negar meus ideais. Meus sonhos que se convertem em palavras, são disseminados pela teia de pessoas que estão conectadas, mas não se veem. Ser num mundo de seres sem rosto é ainda mais difícil. Nesse mundo de anônimas opiniões, os meus sonhos espalham-se sem destino. Seguem desbravando países que desconheço, não há fronteiras que os limitem. São livres como não o sou. Tenho em volta de mim, barreiras que me impedem ser inteiramente livre. Ainda que tenha assumido minha originalidade, falta-me vencer tais barreiras com que o mundo me enclausurou. Abro meu coração, mesmo que seja alvo de eventuais condenações. Dizem-me que sozinho não poderei vencer um mundo inteiro, que devo ser como todos os demais, que sonhar é dádiva para poucos e que o mundo é feito de duras realidades. Mas ser foi a vitória mais colossal que poderia ter alcançado. Ser num mundo de pessoas que não são, que seguem o que dita modas e leis extravagantes, é a batalha que enfrento e tenho sido vitorioso. Vou preservar minha individualidade, minha personalidade, sendo o que quero ser e não o que me dizem para ser. Com um universo todo ao meu redor, não posso deixar-me influenciar por opiniões alheias que se perderão nas areias do tempo.

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Soneto da despedida

Giordana Bonifácio

Adeus, dizia-te, enquanto o trem partia.

Via o meu passado ficar para trás,

Tão lindos sonhos que não teria mais.

Toda saudade em lágrimas vertia,

 

Mas a minha dor, já pouco valia.

Deixei tão só o que levar não fui capaz,

Lindas lembranças que o tempo rarefaz.

Recordar, para alma, é uma regalia,

 

Pois o tempo das horas faz deserto,

E o ontem termina num amanhã incerto.

O que será de nosso amor tão terno?

 

O trem range, ainda aceno para o nada,

Nas mãos, levo uma foto bem amassada,

De quando críamos que o verão seria eterno.

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“O tempo tudo tira e tudo dá;
tudo se transforma,
nada se destrói.”
Giordano Bruno

Oração ao tempo

Giordana Bonifácio

Ó tempo, tão cruel rei e senhor das horas,

Faze de meu passado um áureo presente,

Pois a alegria no agora me está ausente.

Ó tempo, por que tanto ainda demoras?

 

Não vês, que, após as noites, já não há auroras?

Não vês quanta dor este poeta sente?

Ó tempo, de mim, seja condolente,

Não vês o quão tais mágoas são sonoras?

 

Ó tempo, sabes bem o que procuro:

Sonhos nutridos, todos esses anos,

Por minhas malfadadas esperanças.

 

Ó tempo que ao dia claro torna escuro,

Sabes de todos meus tristes enganos,

Mesmo assim, ao futuro ainda me lanças.

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A canção da amargura

Giordana Bonifácio

Meus dias ainda são tristes e cinzentos.

Com meu pobre coração já em pedaços,

Procuro você em todos os espaços.

Nestes dias vagos, sonhos sonolentos,

 

Vêm me acordar. Passam muito lentos…

Dos vultos do passado escuto os passos,

Quem me dera ter ainda seus abraços!

Mas me envolve o vazio em seus sofrimentos.

 

A tormenta traz a canção da amargura.

Não sei mais o que minha alma procura.

Toda a vida o amor foi-me um grande não.

 

Quem me dera não mais a dor recordar,

E não mais no meu peito a mágoa guardar.

Mas, por quê?  Se este meu penar é em vão?

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“De motejo em motejo arrasta a alma ferida…
Sem constância no amor, dentro do coração
Sente, crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.”
Só – Olavo Bilac

 

Amargas quimeras

Giordana Bonifácio

Ter minha alma liberta… Quem me dera!

Nunca mais me recordar do passado.

Deixar como já está: triste e acabado.

O futuro fadado à longa espera.

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Em mim, uma voz ainda reverbera.

Sei que de toda mágoa sou culpado.

Pois o meu medo fez-me agir errado.

Meus sonhos?  Eram só amargas quimeras!

 

Estão a vagar sem rumo no vasto espaço.

No vazio da solidão ergui meu paço.

Agora me resguardo em meus segredos.

 

Fia-se e desfia-se o rancor em saudade.

Sei que o amor é minha única verdade.

Como é a areia que ora foge entre meus dedos.

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Emoção repentina

Giordana Bonifácio

Quero escrever com sangue meu soneto.

Não vou esconder a emoção repentina.

Não vou apagar a luz que me ilumina.

Hoje vou seguir meu anseio mais secreto.

 

Nem que isso me desfaça por inteiro

Aqui derramo toda dor que sinto.

Não é solidão, somente vinho tinto.

A poesia é meu alicerce derradeiro.

 

Quero aqui desenterrar meu passado.

Quando fui, pela vida, derrotado.

Mas tal Via Crucis julgo merecida.

 

Quisera ser ao céu também eleito.

Porém, sou um ser deveras imperfeito,

E a mágoa deixou-me a alma apodrecida.

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O dia depois de amanhã

Giordana Bonifácio

Sem saber fui esquecendo meu passado…

O ontem, que tanto já me feriu, sumiu.

Aquela dor presente há anos a fio,

A que me cria um infeliz condenado,

 

Secou tal qual a flor do amor em mim.

Não mais lhe reguei com minha saudade.

Não mais estava em meio à fria tempestade.

Foi quando vi minha alma liberta enfim.

 

Não forcei nem obriguei meu coração.

Foi-me possível dizer-lhe que não.

Basta, não queria mais de amor padecer.

 

Então recolhi o que de mim restava.

E foi-me bem mais fácil que pensava.

Foi quando vi meu dia, enfim, amanhecer.

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O fantasma dos Natais passados

Giordana Bonifácio

Muitas lembranças povoam-me a memória:

Naquele Natal, não tínhamos muito,

Nada mais havia que uma ceia simplória

E um vago sonho trêmulo e fortuito,

 

Que no passado já me era importante.

Ardia em mim a chama da esperança,

Como somente queima na alma infante.

E a chama que hoje sobre a vela dança,

 

Não mais retrata meu espírito errante.

Eu sei, há ainda muito para ser vivido.

Mas não consigo ver a tênue luz,

 

A voz da vida a dizer: “siga adiante!”.

No espelho, apenas o rosto lívido

De um fraco que não aguenta mais sua cruz.

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