Posts Marcados Com: nas ruas

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Manifestação

Giordana Bonifácio

Vão todos juntos, pelas avenidas,

São muitos jovens tendo como arma a voz.

Num país injusto, eles clamam por nós.

Nossas demandas já não eram ouvidas.

 

O povo pelo poder  ignorado,

negligenciado pelos governantes,

Que a todos julga meros ignorantes,

Não vai mais, em sua, casa restar calado.

 

O nosso povo há muito adormecido,

Despertou frente tanta iniquidade.

No Brasil  não se viu algo parecido.

 

O povo está  nas ruas e enfim protesta .

num caudaloso rio à cidade invade,

Para terminar esta infame festa.

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O mendigo

Giordana Bonifácio

À margem da vida, ele ainda sobrevive,

Pobre, sem lar e sem emprego inclusive.

Sofre porque desumana é esta sociedade,

Pois o homem de seus iguais não é confrade.

 

Lança nas ruas os menos afortunados,

Que imploram nas sarjetas alguns trocados.

Estes desprezados não são embora infelizes,

São alegres e não se incomodam com as crises.

 

Este ser sofrido que apelidam mendigo,

Como rei se mantém, creiam no que lhes digo:

Ele não tem contas ou qualquer dívida a saldar.

 

Não tem chefes, esposas ou outro qualquer radar,

Para a vida importunar. Vivem solitários,

Mas de seus irmãos, sabem ser solidários.

 

 

 

 

 

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“A vida não é senão uma sucessão

de oportunidades para sobreviver.”

Gabriel Garcia Marquez

História para aprender a enxergar

Giordana Bonifácio

Um menino trêmulo de frio deitado na calçada, rente ao meio fio, faz-me pensar nas oportunidades que tive e aproveitei como naquelas que perdi. Para aquele menino, estas talvez não tenham sequer surgido. Seu destino foi escrito bem antes de seu nascimento: uma família pobre e desestruturada. O pai, alcoólatra, gastava todo salário com bebidas, a mãe, sem qualquer formação, trabalhava como diarista para sustentar a família, que conta com cinco filhos e a avó doente. Esse menino até foi matriculado em uma escola pública. Mas a constante ausência dos professores, o ensino de péssima qualidade e a comida escassa provocaram sua primeira evasão da vida. Depois, se envolveu com traficantes, afinal, a droga é dinheiro certo! E ele poderia alimentar melhor sua família… Pagar as contas… E comprar aquele tênis importado que viu na vitrine de uma loja no shopping certa vez.  O problema é: como vender drogas sem ser um usuário? Quando fumou sua primeira pedra de crack, ele evadiu da vida pela segunda vez. E fugir se tornou uma constante. Escapar da polícia, escapar da morte, escapar dos outros traficantes, escapar… Já nem voltava mais em casa. O dinheiro que ganhava com o tráfico de crack sustentava apenas o próprio vício. Depois foi usando tudo quanto era tipo de droga. Passou a viver nas ruas. Sem direção, perambulava pelas avenidas. Dormia sob as marquises.  E as oportunidades que nunca apareceram jamais apareceriam.  Seu mundo é a fome, é o frio, é o desejo interminável de saciar o apelo do corpo pela droga. Ele deitava-se em silêncio e nem sabia mais onde morava a sua família. Também não se recordava do que era uma.

Passou a roubar. Primeiro praticava pequenos furtos: correntes, carteiras, relógios. Mas eis que aparece o revólver.  É quando sente pela primeira vez o poder. Ter em mãos a prerrogativa de tirar a vida de alguém.  Sentiu-se muito mais homem quando carregou a arma na cintura. Gritava e ordenava ações aos outros meninos, tão pobres quanto ele, tão miseráveis e frágeis como ele sempre foi, mas que não tinham uma perigosa arma que tornava o menino, homem. O corpo raquítico aparentava desnutrição. Porém, não comia há dias, o crack era mais importante para ele que o alimento. Quando pedia esmolas na rua, mentia que o destino do que arrecadasse fosse um prato de comida. Na verdade, juntava os centavos para comprar outra pedra, ou seja, outra fuga. E depois? Depois ele nem se recordava do que acontecia. Estava totalmente dopado. Como se não existisse dor, ou, melhor, como se ela nunca houvesse existido. A vida lhe negou oportunidades? Olha o que ele fazia com ela: desperdiçava-a. Sem se lamentar, todavia. Não é culpa de ninguém. Talvez de Deus, mas ele nem rezava mais. Só murmurava orações quando, muito pequeno, sua mãe fazia-lhe pedir saúde e prosperidade a um Deus ausente. Ele jamais entendeu o que seria “prosperidade”, contudo, isso jamais fez qualquer diferença. Agora que era o chefe, aquele que segurava a arma, nem precisava saber todas estas palavras difíceis. Era só apontar e atirar. Os menores tremiam em sua presença. Pobre daquele que resolvesse trair o bando: pois sua morte seria lenta e dolorosa.  A crueldade foi facilmente aprendida. Nem é necessário frequentar a escola para entender as diversas maneiras de fazer alguém sofrer. É um conjunto de perversidades que só se aprende na realidade das ruas. E chorar não é comum. Para que lágrimas? Se a humanidade que ele possuía se esvaiu pelas sarjetas onde dormia. Não havia dor que o crack não consumisse. Pedrinhas que queimavam o cérebro e apagavam toda a memória. Nem sabia mais o nome da mãe. Ele se perguntava se acaso teve uma. Apenas o som compassado das ave-marias ainda era presente, todo o resto, um passado vago e distante. Ele mal sabia entoar a oração. Mas duvidava que algum dia viesse a precisar dela.

O frio do inverno congelava os ossos. Mas ele tinha aquela jaqueta bonita que roubou do playboy que passeava com a namorada. Ele pensava como foi engraçado fazer o “carinha” implorar pela vida na frente da “patricinha”.  Ele matou-o com um único tiro na testa, com a namoradinha foi muito mais divertido. Antes de matá-la se aproveitou do corpo dela como quis. Depois, quando já estava abusado do choro dela, calou-lhe para sempre. A vida era boa. Ele sentia-se realizado como nunca o fora em vida. Compreendeu que deveria ser sempre impiedoso e implacável. O mundo o fez assim, fechando as portas para ele, ou melhor, nunca as tendo aberto. Aprendeu tudo isso na grande escola da rua. E havia um código de ética entre os bandidos que se não seguido poderia causar até morte. Se bem que ele não tinha qualquer temor da ceifadora inevitável. Se ela viesse cedo ou tarde não havia qualquer diferença. Já tinha do mundo o que desejava. E ele sempre quis muito pouco. Queria respeito, a arma semiautomática o concedeu. Queria saber, a vida o doutrinou. Queria felicidade, mas ele nunca soube o que ao certo essa palavra significava, talvez estivesse sendo feliz naquele momento, mas ele não tinha certeza. Às vezes, quando sentia uma angústia crescente no peito, pensava na mãe rezando e tinha certeza que somente naquele momento tinha sido realmente feliz. Era uma memória bonita, arrependido, ficava de joelhos e tentava se recordar da oração, gaguejava algumas palavras, pulava outras e acreditava que tinha sido perdoado. Mesmo que no outro dia enchesse sua alma de novo com os mesmos e terríveis pecados. Era “só se arrepender do fundo da alma”, sua mãe lhe dizia. Ele tentava. Entretanto, só sabia viver daquele jeito. E mesmo que a culpa viesse sorrateira, às vezes, para lhe atormentar, ele dizia ao mundo que era somente o produto malévolo de sua criação. E ele não mentia. Ele era filho da sociedade que fecha os olhos para a pobreza. Não era ele que não enxergava, mas o mundo que não o via. Estava ali, na frente das pessoas esmolando um tanto ínfimo de sua misericórdia. E elas o ignoravam solenemente.

Eu estou aprendendo a enxergar e estou dividindo um pouco do conhecimento adquirido. Naquela criança deitada na calçada, com o corpo hirto de frio, há toda uma história ligada a ela. Não é apenas um ente desprovido de humanidade que está pedindo um ínfimo instante de sua atenção. É o retrato de um problema que se agiganta e toma proporções inimagináveis, mas a sociedade está muito ocupada com suas questões banais, para dar-se conta desse terrível problema de segurança pública. Se os presidentes que assumiram o comando o país houvessem cumprido sua promessa, não persistiria essa questão comum a todas as cidades do Brasil. Porém, aqueles que prometeram diminuir a miséria, apenas maquiaram um feio retrato. Ainda perseveram, nas ruas das cidades, realidades como essa que apenas ilustra a vida de um pequeno esquecido. Por isso denomino esse texto de “uma história para aprender a enxergar”. Pois, é-me aparente que todos usam vendas para não verem o que é patente. Mas é hora de terminar esse pequeno conto. O menino, como era de se esperar, acabou preso. Na cadeia, foi afrontado por diversos inimigos. E diariamente apanhava dos adversários. Até que, em uma rebelião no presídio, foi feito refém. Era ameaçado com uma faca que ninguém sabia como chegou às mãos dos detentos. Sentia a morte chamá-lo de bem perto. E só queria que ela acontecesse de uma vez, que não protelassem sobremaneira seu destino inevitável. E ele que não tinha piedade com aqueles a quem matava, foi vítima da mesma crueldade. Amarraram seu corpo a um colchão e atearam fogo. Uma morte terrível, mas sua vida não foi, entretanto, em nada melhor. Entre os gritos de desespero deste desprezado pelo mundo, ouvia-se uma oração, rezava uma dolorosa ave-maria, como se recordava que sua mãe o fazia. Pedia perdão por suas faltas e ainda perguntava, por que em toda a vida, Deus lhe negou qualquer oportunidade.

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