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A CARTA

Carta

Giordana Bonifácio

Olá, como vai? Como você tem passado?

Eu sei, faz muito tempo… Estou um tanto atrasado.

Mas não me esqueci de você. E lhe escrevi esta carta,

Para lhe informar antes que desse país parta,

 

Que foi um bom camarada. Saiba leal amigo,

Que levo aquelas velhas memórias comigo,

Muito nos divertimos quando éramos crianças.

De um dourado passado só restam lembranças.

 

Foi o frio tempo que separou a nossa amizade.

Mas nestes dias em que  a solidão a tudo invade,

Pensei que deveria mais uma vez lhe escrever.

 

Esteja certo que nada mudou ao meu ver

Seremos para todo sempre companheiros,

Inseparáveis, tal qual os leais mosqueteiros.

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Ainda posso?

Giordana Bonifácio

Será que me é possível amar? Ainda posso sobreviver a mim? Poderia tudo esquecer como à história de um livro que há muito tempo se leu? Serei assim tão forte? Minha alma é tão sensível: sou poeta, sou artista, escrevo um tanto assim de mim. O resto, invento. Não precisam acreditar em tudo que leem aqui. Não posso asseverar a verdade destes tristes sonhos. Pois consistem em ilusões projetadas por meu cérebro para sufragar a força de meus mais íntimos desejos. Por isso, podem creditar a estas linhas a veracidade de uma miragem, haja vista serem tão sólidas quanto. Um nevoeiro onde só se pode imaginar o que está sob a névoa, mas não há jamais a certeza do que se trata. Por esta razão, me pergunto se ainda há espaço para meu coração em mim. Estou abandonada a minha sorte. Sigo por caminhos instáveis no meio dessa densa tempestade, tateando na escuridão de um quarto em breu. Minha solidão é minha breve resposta. Mesmo que por muito tempo tenha se prolongado. Permanece assim, presente, uma ausência que não se preenche. Pode ser uma perda do passado. Aquilo que me escapou de algum modo. As sensações mais estranhas me ocorrem.  Sinto uma melancolia tomar-me o espírito. Seria medo? O que é isto que não compreendo? Dúvida atroz de ser humano quando o mundo que me cerca é inumano. Agarrando-me ao meu pensamento, pois só com ele posso me salvar. Não quero afogar-me numa dor que se perpetua. Ingressa minha alma em caminhos sem volta. Ainda posso escapar?  Quero a saída de meus labirintos mais difíceis. Os enigmas que eu mesma crio para esconder-me do mundo. Mas acabo por não poder me compreender. O que se esconde nas minhas escuras masmorras? (Um pavor de encontrar-me nessas buscas). Serei eu assim como me imagino? Ou apenas um mito que foi erigido para poder satisfazer-me? Ainda posso responder-me sem o perigo de contradizer o que pensam que sou?

Estou preparando as armadilhas para capturar os sonhos perdidos. (Uso apanhadores de sonhos os quais coloco sobre minha cama.) Não é certo que afastarão os pesadelos. A vida se conduz entre delírios. Foram muitos anos que passei sob a expectativa de um fato que não poderia se concretizar. A verdade é que a verdade é real. O restante eram apenas ilusões. Uma mentira que fui me contando, (o mais absurdo é que acreditava em mim). E agora sei o que é certo. O certo é que ainda posso sorver a vida, como uma lata de coca-cola, que é tão prejudicial quanto se embriagar. Mas viver é uma droga lícita. Estamos todos viciados nesse pulsar de nosso órgão selvagem. Coração, ainda posso viver?  (E se ele nos responder que sim?) Estamos na expectativa de uma sobrevida longa. Mas qual a vantagem de estarmos aqui? Por que tememos tanto a morte? Por que a retratamos de modo tão cruel? Será mesmo uma ossada que se apresenta ameaçadora? Acredito que seja apenas um anjo. E este, quando chega o momento, nos liberta a alma desse corpo frágil e à dor suscetível. Então, o que ele nos faz é um favor. Não há qualquer razão para temê-lo. Não estou a sua espera. Mas não me surpreenderei quando ele chegar. Ainda posso contar esta história. E se posso encontrar as respostas de minhas questões, espero que o faça antes de estar condenada a meu último suspiro. Para sempre é quase nunca. E nunca é um sempre que não gostamos. É a falta de algo que não nos ocorrerá pela eternidade. Mas já estou resignada aos “nuncas” e  “sempres”… A vida é uma eternidade muito curta. Quero que para sempre fique em mim o sentimento que não se desfaz. A certeza de estar sã, lúcida, sem o perigo de me perder em novos enigmas. É que vou construindo mistérios. Quero redigir aqui o segredo que me controlou por muitos anos. Revelo que queria um sonho inalcançável. A longínqua possibilidade de ser especial. Todavia sou uma pessoa tão comum que se desfazem de mim com extrema facilidade. É que sou dispensável. Mas isso nem me magoa mais. Ainda posso chorar? Só um pouco?

Meu amigo mais fiel é meu mais perigoso inimigo. Meu cérebro que me garante a inteligência é o mesmo que me ludibria quando dele mais necessito. Estou arriscando-me sobremaneira. Quando deixo as minhas memórias transformarem-se em histórias, há o perigo de perder-me num passado que não passou. Pretérito imperfeito. Mas minha infância foi mais-que-perfeita. Eu já fui tão feliz.  O que ainda há em mim daquela criança alegre e sagaz? (Ainda posso rever aquele álbum de fotografias?) Naquele tempo, o tempo não contava. Os anos eram motivo de orgulho. Ainda amargam as lembranças, coisas estúpidas que fiz e de que me envergonho. Queria retroceder e aceitar que sou uma entre milhões. Um grão de areia, uma gota d‘água em nada representativa. E minha “desimportância” se destaca na multidão. Ainda posso lamentar minha triste figura? Tal qual Dom Quixote, eu andava a enxergar gigantes em moinhos de vento. Agora estou consciente do que sou, ainda do que fui. (E isso me dói). Aguento mais um pouco. Sempre um pouco mais. Mesmo que nunca seja sempre. E o pouco é o muito que nos resta.  É tudo que ainda possuímos. Trabalhamos por uma porção de nada. E o nada é o sempre que nos guia. O tudo é a possibilidade que não se concretiza nunca. Por isso devemos ficar com o interregno entre o nunca e o sempre. O que se limita por estes dois? Será que o tempo ainda decorre quando desprezamos o nunca e buscamos o sempre? Arde-me um coração de sombras. Nas trevas ainda encontro a possibilidade concreta de enxergar a luz. Ainda há certeza que o dia nascerá, mesmo que a madrugada pareça eterna. O próximo segundo é aquele em que vou achar o sentido das coisas que nunca fizeram sentido. Mas não vou contar para mim. (Vai que eu acredito!) Sinto a dor até a última gota. Lateja a mágoa, minha alma está ressentida. O sonho desfez-se como a imagem refletida na superfície da lagoa que a chuva turva. Ainda posso sofrer? Um pouco mais?

Ainda posso dizer: nunca mais? Não vou mais me perder em mim. Não pode amar um coração tão ferido. Não pode sequer sentir, pois não mais afeita estou a sentimentos. A história que não deveria nunca ter começado, chegou ao fim. E é assim: com a alma aos pedaços que reafirmo o que sou. E o que sou não é importante. Eu sou apenas, como tu és e ele é, igual ao que nos somos e vós sois e ainda ao que eles são. Ser nunca foi tão significativo. Um verbo que se traduz na identidade que assumimos. Eu sou uma figura num papel. Abaixo dela está assinado meu nome. Isso me traduz? E se eu for muito mais que isso? E se em meu peito em que bate solidão eu guardar muito mais que o ser da sociedade representa? Eu sou, porque vivo. Eu sou, porque choro. Eu sou, porque sangro. E, a esse ser, desprezam. Não auxiliam o ser que respira com dificuldade sob a marquise, vestindo trapos e implorando esmolas. O ser, humano é. E por que está abandonado por Deus num corpo moribundo, sem alternativas de ser mais do que aparenta? Eu sou um tanto mais. Porque ser é ter. E ter é usufruir de um mundo capitalista que busca sua satisfação nas gôndolas dos supermercados. Eu não tenho muito, mas sou um pouco. Aquele que espera a morte chegar, como única saída de uma vida sofrida, não tem nada, não é nada e morre indigente, numa cova rasa, sem orações e sem despedidas. Na verdade ele é recebido com festas em outra vida. Não nesta, em que o volume de sua carteira é mais valioso do que o espírito que se carrega consigo. Eu sou o que não serei nunca mais. E já disse não ao pavor que me controla, não há mais procuras. A solução do mistério é que não havia mistério algum. A questão é que não queria soluções, mas respostas. Podem-se solucionar as dificuldades sem responder aos enigmas. Os problemas desapareceram. Mas se foram com eles os sonhos. Tudo que ficou foi realidade e só. E, depois de tudo, como nunca antes, sempre só. Ainda posso perdoar-me por minhas faltas?

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Mente indomável

 Giordana Bonifácio

Há  muito tempo me ludibria minha mente.

E isso me faz, de toda a gente, diferente.

Minha sina é pela sanidade batalhar.

E nessa luta qualquer apoio viria a calhar.

 

Sei que estou nessa guerra por anos a fio.

A mente é da memória um caudaloso rio.

Já a minha muito mais me faz lembrar o mar

É um cavalo bravio que não se pode domar.

 

Estou agarrada à razão: ela me é bem cara.

Não é assim fácil a cura de doença tão rara.

Não há quem a este terrível mal  consiga entender.

 

Vive-se com a dor num eterno reaprender.

Dessa luta sem fim não sairei derrotada.

Convalescer não é hipótese ora cogitada.

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Dor = Amor

 Giordana Bonifácio

Não sei por quanto tempo tenho lhe esperado.

A culpa é toda minha, creio que entendi errado.

Ou talvez não haja nada a se entender, vai saber…

Restará tudo só entre nós, no que a mim couber.

 

Pudera ser teorema bem mais compreensível,

Mas me parece não ter solução possível.

É com certeza a dúvida que ainda persiste.

Não consigo mais penar é algo que me assiste.

 

Sei que não mais me ferir não é possível jurar.

Mas tenha dó de mim, cansei de me aventurar.

De meu coração só tenho um trapo sofrido.

 

Do amor saiba que há muito tempo tenho corrido.

Porque já estou exausto de sentir tanta dor.

Mas o que fazer? Sofrer é a única razão do amor.

 

 

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A coroa do rei

Giordana Bonifácio

Quem pode portar a coroa do rei? Aquele cuja formação é um destaque ou aquele que muito tempo está sob as capas da nobreza? O homem que anos a fio estudou e possui o conteúdo necessário para portar a coroa é sempre desprestigiado em favor do que pode socorrer-se dos louros que um bom padrinho pode fornecer. A história do Brasil é escrita por homens que não tinham a competência para ocupar o trono.  A formação é colocada em cheque quando observamos o nepotismo nas altas esferas do governo. E aí? Você que passou muitas noites em claro se preparando para uma prova importante, acha justo receber três vezes menos que alguém cujo único mérito é ser parente de um deputado? O que fazer quando nem mesmo o rei queimou as pestanas por semanas sobre um livro? No Brasil, possuir um curso superior é algo repudiado. Logo surgem os comentários: “pertence à elite”, “filhinho de papai”, “burguês”. Mas não reconhecem a carga teórica que aquela pessoa possui. Ainda, nas empresas, principalmente as públicas, um bom “peixe”, pode fazer você subir muito rápido na escala hierárquica. Esse é o país cujo conhecimento é desvalorizado em lugar de um jogo de amizades e interesses muito diverso do que deveria em verdade servir de base para a ascensão profissional.

Enquanto muitos sofrem por anos para passar nos vestibulares, outros não se submetem sequer a essa difícil fase na vida de todos os jovens. Mas nem por isso, são menos cotados para os empregos que deveriam ser ocupados por aqueles que passaram boa parte da vida se preparando para o mercado de trabalho. São tantos cargos em comissão que fica difícil ascender a um emprego público. Até mesmo os concursos, ditos idôneos, são armas nas mãos dos poderosos para contratar de forma “legal” seus comparsas. A fraude atinge toda a esfera do governo.  Por isso é tão difícil para os “concurseiros”, também, alcançarem a tão sonhada aprovação. Acontece que, esse país, que sonha ser a sexta economia do mundo, é tão somente o país mais corrupto da humanidade. Os crimes que nossos governantes cometem fazem tremer a população. Além de ser óbvio que, aqueles que elegemos não possuírem o gabarito para ocupar a cadeira que lhes conferimos no nosso congresso. O caso mais grave foi o de um palhaço que, com piadas infames, conseguiu conquistar o voto de milhares de brasileiros enganados pela pantomima. E que, devido ao voto proporcional, conseguiu levar vários de seus companheiros de partido para o congresso. O mais terrível disso tudo é que acabamos por não escolher nossos representantes. Na verdade, a mesma massa de corruptos se mantém no poder por tempo demais. É esse o problema que surge quando a coroa está na cabeça daqueles que não possuem competência para usá-la.

 Mas o que se fazer de um país onde a negociata foi a base de toda política deste o império? O problema é que isso afeta nossa população bem mais que ela pode imaginar. Os nossos congressistas possuem vencimentos de R$ 27.000,00, além de 14º e 15º salários, enquanto isso, os professores de nível superior passam uma vida inteira de estudos para atingir um Pós-doutorado e provimentos de R$ 11.500,00. Isso é justo? Digam-me: é justo os mestres que auxiliam no crescimento de nossos filhos receberem salários tão diminutos? Uma vez me contaram que um grande jurista, porém professor, não possuía sequer um carro para locomover-se. Quero saber: isso é certo? As multinacionais, que invadiram o mercado brasileiro, “importaram” seus funcionários.  O congresso nada fez com relação a isso. Permitiram que estas empresas entrassem em nosso país, mas não para gerar empregos para os brasileiros. Não, a nós, apenas restam os subempregos. Porque o dinheiro amordaça os donos da coroa. São tantas falcatruas em que estão envolvidos que não é impossível encontrar nenhum de nossos políticos que não tenha o rabo preso com algum empresário ou bicheiro. É para esse tipo de gente que estamos perdendo nossos postos de trabalho. Estamos aqui recebendo salários desprezíveis enquanto eles esbanjam o dinheiro de nossos impostos em luxos. E o mais absurdo de tudo isso é que os nossos políticos não se satisfazem com pouco. Eles empregam toda sua família em casos de escandaloso nepotismo em seus gabinetes. Ocupam cargos de comissão que não deveriam existir. Mas, como eu disse, esse é o país da fraude. Aqueles que questionam os esquemas de corrupção são definitivamente calados.  Sim: são mortos misteriosamente. Essa é a ordem do Brasil: o progresso não acontece para o povo. E as pessoas menos favorecidas, que permanecem nas classes menos abastadas, são silenciadas com miseráveis bolsas que promovem a manutenção do estado de pobreza, pois  em razão do auxílio que recebem, não acham necessário trabalhar ou estudar para sair do nível subumano em que se encontram. “País rico é país sem pobreza”, não é, caríssima “presidenta”? Então como explicar os bolsões de pobreza no Norte, Nordeste e Centro-oeste do Brasil que não se resolvem? Entregue o pão e o circo de uma Copa do mundo e está tudo resolvido.

O mais alarmante é que, aqueles que se dedicaram a um curso superior, são menosprezados pelo mercado de trabalho. São discriminados por terem estudado num país de analfabetos. É isso, (pasmem!), que acontece no Brasil. Aqui somente aquele sem condições financeiras é ovacionado quando atinge o curso superior. E todos aqueles filhos da classe média que passaram as madrugadas estudando? O que ocorre com o que aprendeu desde a infância que o caminho do crescimento está nos livros? São esquecidos pela mídia, pois fizeram nada menos que sua obrigação. Mas quando ocorre de um rapaz ou moça de classe média fugir aos moldes do que se é esperado para o seu comportamento, ou seja, mata, estupra, rouba e trafica? O caso atinge as manchetes de jornais rapidamente! Ainda mais quando o criminoso é estudante universitário.  Então o rapaz ou moça é logo tachado de irresponsável e discutem-se os valores que estão sendo passados para os jovens. Mas ninguém, ninguém mesmo se questiona a realidade em que eles vivem. Quando estudar mostra-se um desperdício de tempo e dinheiro, já que não se exige formação para atingir altos cargos nesse país, quem irá cometer essa insanidade? Por que estudar? Para quê? Se a moeda de barganha desse país nunca foi a competência, mas somente a indicação política. É tão clara essa situação que o povo criou até mesmo uma sigla para essa vergonha nacional. O Q.I., conhecido como quociente de inteligência nos países de primeiro mundo, nesse terceiro mundo esquecido por Deus é chamado de “quem indique”. Seria motivo de piada se não fosse tão dramático.

A necessidade de um bom peixe para ascender socialmente é indiscutível no Brasil. Aqui ainda se vive a sociedade de estamentos. Porque não há mudança de classe social com frequência. Os filhos da classe média nela permanecem. Não adianta nem mesmo buscar Pós-graduação, Mestrado, Doutorado, Pós-doutorado ou ainda outro grau de estudo. É impossível chegar a usar a coroa se você não for um apadrinhado da nobreza que há muito tempo está no comando dessa nação. Há ainda o fato de os pobres e miseráveis os quais nossos políticos afirmam terem atingido a classe c. Mal sabem que é o máximo de crescimento que estes esperançosos brasileiros vão alcançar. Nessa terra onde tudo dá. Nada se oferece. Não se oferecem oportunidades, não se oferece emprego, não se oferece saúde, não se oferece segurança nem mesmo o vago sonho de crescer na vida. Os ricos ficam mais ricos, os pobres, cada vez mais pobres. A classe média “paga o pato”, ou seja, assume toda a carga tributária que os miseráveis não podem arcar e que os ricos se eximem de pagar. Isso mesmo, nossos milionários sonegam impostos e o espoliado que dedicou sua vida à formação profissional, que estudou madrugadas inteiras, que teve de pegar dois ônibus para ir à universidade pública ou, mesmo, aquele que pagou fortunas a uma universidade particular, tem de trabalhar metade do ano para pagar a terrível carga tributária que incide sobre seu salário. Um pobre professor (não é por pena apenas a razão do adjetivo, é também em função do estado de penúria em que vive), que usa dos sindicatos e greves, (que serviram de escada para o poder por nossos governantes), para exigir melhores condições de trabalho, é literalmente desprezado por nossa “presidenta”. Os que antes estavam do lado da população, mudaram de lado. Quem é a elite agora? Quem muito se esforçou para estudar e conseguiu a muito custo uma formação superior? Ou aquele que veste o manto e a coroa simplesmente em função das tramoias políticas que permeiam nosso governo? A coroa do rei não está numa cabeça pensante, mas sobre aquela que fez da escalada política o meio mais fácil de ocupar o disputado trono.

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O homem no labirinto

Giordana Bonifácio

 Eu não estou louco, acreditem em mim! Sou apenas um homem solitário caminhando por estas ruas sem destino. Sei que a cada passo, estou acompanhado. É a presença dela que estará sempre comigo. Nas esquinas, sinto que posso cruzar com ela. Mas apenas encontro com um senhor passeando com seu cão. O cachorro faz festa, quer lamber-me a mão. Então, me dou conta tratar-se do vizinho. Ele diz algumas palavras sobre os preços: “estão uma calamidade”, sobre o tempo “parece que vai chover”. Não dou muita atenção à conversa. Despeço-me dos dois, afago a cabeça do pequeno filhote de Golden e prossigo. Para onde? Não sei. Vou por onde estas ruas me levarem. Ela estará comigo. Na loja de eletrodomésticos vejo-a nas telas das televisões. É ela, eu sei. Assombra-me a vida, pois não posso estar sem essa imagem. Posso vê-la em todos os cantos. A moça que me oferece um perfume na loja seguinte faz-me, da mulher que um dia amei, lembrar. Será que ainda a amo? Será loucura sentir que o perfume dela está impregnado em minhas narinas? Será um delírio procurá-la onde eu sei que não irei jamais encontrá-la? Pensava que era a presença dela que me perseguia. Mas sou eu que necessito deste paliativo para acalmar-me o coração. Estou sozinho. Estarei por muito tempo, pois não posso substituir o insubstituível.  É essa minha pequena maldição. Sou eu a alma penada, não ela.  Sou um homem que vaga sem espírito. Porque, o que existia de bom em mim, também se foi.  Eu não sou nada mais que uma velha carcaça. Um navio à deriva que vaga ao sabor das ondas. Há muito tempo não sei o que é viver. Estou morto. Tenho certeza. Não posso estar sem ela. Ela era minha vida. E agora o que restou de mim? Posso oferecer-me em sacrifício? A única coisa que desejo é um reencontro. Ver aqueles olhos, que não eram verdes, mas de um castanho quase verde e éramos um casal quase feliz. E tudo terminou num quase. E não pude fazer nada. Não pude. Queria ter feito. Mas fui fraco. Implorei e não fui ouvido. É esse o pesadelo que tenho todos os dias. E neste momento, a solidão me desposou para a eternidade.

Um homem passa com uma placa onde se sobressaem os dizeres: compro ouro. Eu, ao contrário, vendo desilusões. Na verdade as doo, ainda ofereço de brinde um tanto assim de desespero. E, de troco, centavos dessa vã solidão. Algo mais? Que tal essa dor que me embriaga todas as vezes que penso nela? Sei que não posso estar comigo, quando não estou com ela. Minha presença fadiga-me, sou um homem preso a mim mesmo. Não posso fugir de mim, de minha covardia, dessa loucura que foi tudo que dela restou-me. Pego o metrô, os túneis iluminados ofuscam meus olhos. Fecho-os e chego a sonhar com o passado. Se pudesse parar o tempo para todo sempre… Mas a vida acontece e não podemos simplesmente pará-la com o controle remoto do aparelho de DVD. Não é como nos filmes cujo fim sempre nos leva a um final feliz. É talvez como uma tragédia. É o estilo que mais se coaduna comigo. Ao menos com o que sou agora. E continuo minha busca por ela, pois minha única meta é reencontrá-la. Pode estar na próxima rua. Sei que ainda vou achar minha vida solta em algum lugar. Saio da estação e ainda há um sol lá fora. Por que não me esquenta? Por que não dá fim a esse frio dentro de mim? Volto a minha procura sem fim. “Se for possível, meu Deus, traga-a para mim”. Rezo. Porém, me parece também, que deste tolo, Deus esqueceu-se. Estou a minha própria sorte nesse mundo cheio de gente, mas aos meus olhos, completamente vazio… Sozinho na multidão que segue de um lado para o outro. Sigo o fluxo de pessoas. Já que não sei aonde quero ir. Resta-me apenas andar, mesmo que com esse passo trôpego de bêbado. Contudo, estou sóbrio. É que a falta dela embriaga-me como a mais forte bebida. Não sei se ainda choro. Não há mais lágrimas para tudo lamentar.  A dor permanece, não há como dela se livrar. É minha pena perpétua, estou ligado a ela por toda minha vida. Só queria poder desfazer tudo, como se fosse possível apagar os acontecimentos ou reescrevê-los. Há algum modo? Será isso possível? Será que posso achar a mulher que me destituiu de minha alma nesta massa que nem faz ideia de mim? Vamos de um lado para outro sem destino. Essas pessoas também sofrem como eu? Será que choram um amor perdido? Será que também cometeram erros que lhe custaram a vida? Como podemos consertar o que não pode mais se reconstruído? São dúvidas demais. O dia finda com nuvens cor de rosa. Lembro como ela dizia tratar-se de nuvens de algodão doce. E recordar disso fere-me com a força de um punhal.

Sentimentos. Esses são os males do mundo, não há como escapar de sentir. Sobretudo, quando tudo que de uma relação sobrou é somente o remorso. Eu poderia ter agido de forma diferente. Eu errei. Confesso. A culpa é toda, toda minha. Como trazê-la de volta para mim? Não posso mais dormir sem os pés que me chutavam a noite toda, sem a luta pelo cobertor na noite fria de inverno. Tenho a cama toda para mim, mas isso não é, nunca foi, suficiente. A dor é minha companheira. E o pior: a ela sou fiel. Não consigo me ocupar com nada mais. Não trabalho há muito tempo. Não durmo, pouco como, não faço a barba, ando como um maltrapilho. Não tenho nada mais que nosso apartamento. E algumas fotografias das quais não pude livrar-me. Isso foi minha herança. Essa mágoa no meu peito, que não vai mais me abandonar, é tudo o que tenho. Pensar nos olhos dela, que quando choravam, pareciam duas esmeraldas, é o que me resta. Viver o que já foi vivido, como uma forma de ter ela comigo, é tudo o que hoje sei fazer. Não tenho mais futuro. Ele se foi quando ela se foi. Quando me lembro do omelete que ela fazia pela manhã, a fome escapa-me. Como posso prosseguir? Não há mais saídas para esse labirinto. Quero permanecer aqui, perdido no amor que eu perdi. Meu chefe, que estava sentado num restaurante, reconhece-me e vem falar comigo. Diz “precisamos de você”, “você é meu melhor funcionário”, e termina a conversa com a frase clichê: “já é hora de superar.” Eu resmungo algo, nem sei bem o que. Ele dá-me um tapinha nas costas e sussurra: “coragem homem!” Eu não posso, eu não quero, eu não consigo simplesmente superar. Por que as pessoas acreditam que é tudo tão fácil assim?  Minha vida acabou. Eu não posso sobreviver com esse fantasma. Eu não posso tomar os remédios que o médico receitou-me. Como posso engolir pílulas para tornar a dor menor? Quero sentir todo o sofrimento como penitência de minha fraqueza.

O que ocorreu está gravado em minha mente. Não há como esquecer aquele dia. Estávamos saindo do restaurante, era dia de nosso aniversário de namoro. Tinha pedido a mão dela finalmente. Já estávamos fazendo planos para o casamento. Quando um homem se aproximou de nós. Ele pediu um trocado de esmola. Não tínhamos nada. Então, ele tirou uma arma da cintura e anunciou o assalto. Saltei sobre ele e gritei para Anna correr. Eu e o ladrão lutamos. Eu implorei para que ele deixasse-nos. Todavia, ele continuou a briga. Eu tentava tomar o revólver quando a arma disparou. Ouvi um gemido: era Anna. A bala tinha atingido-a. O ladrão correu. Eu não sabia o que fazer. Liguei para o socorro. Tentei inutilmente estancar o sangramento. Ela foi morrendo aos poucos nos meus braços. Quando a ambulância chegou, meu amor já tinha partido. Tentaram reanimá-la. Foi inútil. Ela se foi e levou-me junto consigo. Por isso, ando por estas largas avenidas à procura dela, mas não a encontro. Eu tenho de achá-la para continuar vivendo. Ela deve estar em algum lugar. Não pode ter meramente me deixado. Há ainda esperança, nem que seja mínima, de seu espírito estar em algum lugar. Queria ter sido eu no lugar dela. Queria ter entregado minha vida por ela. Sei que fui a razão de sua morte. Não deveria ter reagido. Se pudesse fazer tudo diferente… Agora que ela deixou-me, vago sem destino. Pois, quem morreu não foi ela, ela permanece dentro de mim, mas eu, que perdi a vida quando ela faleceu. Tínhamos feito tantos planos… E num ato de estúpido heroísmo, eu estraguei tudo. Como posso continuar? Eu perdi tudo que tinha e o que tinha era apenas ela. Anna, a mulher que escolhi para passar a vida ao meu lado. De alguma maneira, ela vai estar sempre comigo, porque a dor de perdê-la não vai abandonar-me nunca mais. Eu vou percorrer essa cidade inteira se for preciso. Eu tenho de achar o que foi perdido. Nem que leve a vida inteira, eu sei que vou reencontrá-la. Eu não estou louco, acreditem em mim! Sou apenas um homem sem destino caminhando solitário pela rua. Um homem que se perdeu e não consegue prosseguir neste imenso labirinto.

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“Não há memória de que o tempo não dê cabo,

 e nem dor que a morte não consuma”

Miguel de Cervantes, Dom Quixote

Memórias de um futuro presente

Giordana Bonifácio

Muito me seria agradável se a memória não fosse esse mecanismo falho de registrar as impressões do mundo. Acontece que ela converte os fatos, transforma ao seu bel prazer o que sentimos. Às vezes doura a pílula, outras, intensifica a dor. Contudo, nem adianta manter as lembranças por muito tempo, tudo em breve vai se apagar, o passado resta preso ao passado, esquecido nos tempos idos que não voltam mais.  Mas é saudável esquecer. Não seria bom para nossa saúde mental gravar como uma tatuagem as recordações em nós. Tudo há de ser esquecido. A dor vai embora, mesmo a mais intensa, que deixou as marcas mais profundas, vai se esvair com a areia da ampulheta. O tempo é um cicatrizante excelente: as feridas se fecham, as lágrimas secam, o coração volta a bater- livre? Será que também nos concede as chaves que nos libertariam desses grilhões que nos acorrentam? Talvez só modifiquemos os cárceres que nos cerceiam.

Minhas lágrimas, que anteriormente jorravam caudalosas e perenes, secaram e meu coração conformou-se. Estamos menos aflitos, posso assegurar.  E nem mais me machuca um passado feito de sonhos e planos que não se concretizaram num futuro que já é presente. A vida se constrói e reconstrói. Meio apavorados com as incertezas e expectativas, somos cautelosos, andamos lentamente e não nos lançamos abruptamente nos caminhos. Diversamente do que faria Dom Quixote, que, sem pensar nas consequências de suas aventuras, investia contra os inimigos para concretizar a justiça, mesmo que submetida ao seu julgo torto pela loucura. Acho que o mundo seria menos cruel se pudéssemos vê-lo com olhos insanos. A razão retira a mágica que encobre a realidade, (vamos dar asas a nossa fantasia?) É tão difícil pensar… E doloroso existir. Se pudesse montar sobre meu Rocinante e sair da minha zona de conforto para combater moinhos de vento, estaria mais feliz?

O mundo nos esmaga a cada segundo. Doloris rem facilis memoratu est*. Porém, mesmo dela logo nos esqueceremos. O tempo é a borracha mais eficiente que existe. (O tempo existe?) A minhas lamentações são um salto para o futuro. Gravo meus sofrimentos no ciberespaço. Muito tempo depois, retomo estes textos e rio com as dores que passei, quando nem machucam mais. No futuro assistiremos ao passado, ou aquilo que nos resta dele, o que não foi ainda esquecido, e a dor parecer-nos-á menos intensa. Mesmo assim é bem mais fácil recordar das feridas que dos sorrisos. A verdade é que os anos correm acelerados e pressionam nossa mente  com a força que imprime o envelhecimento. Não vou dizer que é agradável a corrida desenfreada dos ponteiros do relógio, mas apenas que é inevitável. O problema é que o tempo nos determina seu ritmo. Estamos sempre correndo. Nunca há, para nós, momentos que possamos aproveitar com atividades prazerosas. A vida desse presente, que já foi futuro, é extremamente penosa e estressante. É o preço que pagamos pela civilização.

Nós refreamos nossos impulsos primevos para que nos tornemos mais civilizados. A grande velocidade da vida nos impede de sermos simplesmente homens. Seres que devem aproveitar de seu corpo como qualquer outro. Porém, nos desfazemos de nossos instintos animais pelo bem da sociedade. E a máquina que governa o nosso mundo é o relógio. O tique-taquear que nos obriga a seguirmos no fluxo da cidade, junto à multidão que segue pelas ruas, correndo contra o tempo e a favor deste. Sem descanso, vamos apagando nossas memórias e evoluindo – todavia, os caminhos por que seguimos não serão nunca os mais seguros – nossa busca pelo futuro faz-nos desprezar o passado. E a experiência dos mais idosos não é sequer considerada. Queremos o vigor dos jovens, a coragem e a presteza que, mesmo importantes, são acompanhadas por insipiência e arrogância. Nossa incrível tecnologia não existiria caso não se levasse em consideração o conhecimento de cientistas de séculos ou, mesmo, milênios atrás. Se tivéssemos apagado completamente nossa memória, não teríamos alcançado esse grau tão elevado de evolução. Chegamos aonde nenhum homem jamais chegou, estamos vivendo um futuro que nos foi prometido nos cinemas e que acreditávamos que jamais alcançaríamos.

O futuro é aqui e agora. E é no passado que encontramos as bases de nosso pensamento. Contra as armas fatais do tempo, construímos mecanismos para manter vivos em nós o passado. Registramos os acontecimentos. Gravamos em folhas de papel os fatos e pesquisas científicas. Agora, com as nossas máquinas brilhantes de códigos binários, as marcas e descobertas de ontem se tornaram indeléveis. São um auxílio ao nosso computador biológico programado para esquecer. É certo que é, para o cérebro, essencial apagar as lembranças. Caso assim não o fosse, seria impossível ao homem sobreviver. Seria necessário termos uma mente muitas vezes maior para registrar todos os fatos e conhecimentos que permeiam nossa vida. Impossível, asseguro-lhes. A magia é irmos mudando constantemente. Aprendendo e desaprendendo. Semeando as palavras para que delas nasçam histórias fantásticas, que logo serão também esquecidas. E isso não é em razão de qualquer intenção nossa. O tempo a tudo apaga. Logo aquela foto amarelada não mais nos significará nada.

Nosso coração é o relógio do nosso corpo. O ar que respiramos é a razão de nossa vida e causa de nossa morte. E não podemos sequer nos negarmos a envelhecer. Em breve, nossos corpos irão sentir o peso dos anos. Envergaremos como a grama sob o vento. E o passado vai conosco para o túmulo. Não temo a morte, mas estou apavorada frente ao inevitável envelhecimento. Por que me creio muito jovem ainda para sofrer os efeitos do tempo sobre mim. Todas as noites eu inquiro ao espelho se há alguma nova marca em meu rosto, mas a imagem que ele me mostra não é aquela que conhecia. De quem é este reflexo que o espelho mostra-me? Não sou eu, não sou eu! Porque as memórias teimam em desmentir-me? Fui eu quem me fez assim. Fomos nós que nos fizemos dessa maneira. Não há como lutar contra esse inimigo invisível e fatal. O tempo existe em nós. Está inserido em cada ínfima célula de nosso corpo. Estamos todos destinados a envelhecer.

A dor que, muito embora seja mais fácil de se recordar, também será esquecida. É composta de grãos de vida a areia que escorre da nossa ampulheta. O tempo que nos resta é, a cada segundo, menor. As lembranças de nossa vida estão fadadas a desaparecer. E nada do que fomos restará aqui. A história é escrita por poucos. A humanidade, em sua grande maioria, permanecerá anônima. Pessoas que passam por este mundo sem deixar qualquer sombra de sua existência. Eu estou perdida nos sonhos porque navego. Não quero ser lembrada. Mais fácil para mim é ser esquecida. Não  quero que se recordem de mim, não se apeguem ao que sou. Porque não sou nada, sou o intangível sonho que foge de nossas mentes tão logo acordarmos. Mesmo que lute contra o tempo, que queira submetê-lo ao meu desejo, eu sei que sairei deste embate vencida e jamais vencedora. A borracha do prosseguir irrefreável dos anos é a força de sua vontade. Não há como escapar. Sou um pequeno Davi enfrentando o poderoso Golias. Não há como derrotar esse gigante. Melhor seria conformar-se com nossa sorte. Não tentar limar as marcas que o tempo deixa em nossos rostos com cirurgias dolorosíssimas, não enriquecer as indústrias, comprando cremes anti-idade cujos efeitos são tão somente paliativos. E não sofrer com o passado que se foi e com as memórias de um futuro presente. A temporariedade de nossa existência é um fato da vida. Mesmo que jamais estejamos preparados para o inevitável e improrrogável fim.

*A dor é coisa fácil de ser lembrada.

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