Posts Marcados Com: minha arte

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Quem sou eu?

Giordana Bonifácio

Quem sou eu? Pergunto à imagem de Narciso.

Sussurra-me em resposta a solidão fria:

“Tu és dono de uma grande covardia.

Tu és, dentre os homens, o mais indeciso.

 

Tu és aquele de espírito impreciso,

A que a gélida mão da morte guia.

Tu és o senhor da dor e da agonia.

Para ti, a mágoa resta como aviso.

 

Tua arte padecerá em esquecimento,

Enquanto tua alma é levada pelo vento.

Cabe-te então suportar a ferida

 

E, a tua pena, a de Sísifo se iguala.

Não duvides do que a tragédia fala:

São passagens de sombras a tua vida.”

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Vitória

Giordana Bonifácio

Há algo mais delicioso que o prazer de vencer?

Ver tantos anos de árduo penar reconhecido?

A vitória não é sorte, não vão me convencer.

Não é simplesmente favor ou algo parecido

 

Eu luto com a rima e os versos, eis minha arte.

E é através dela que me farei um dia escritora.

Muitos concursos virão: mas não é a melhor parte,

Quero a minha obra exposta por uma editora.

 

Mas meu pequeno triunfo já muito emociona.

Em meu peito somente um desejo persiste:

De espalhar a alegria que a arte me proporciona.

 

É a última das ilusões que, na dor, me assiste.

Não sou escritora cujo trabalho impressiona.

Mas as lutas perdidas não me deixam triste.

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Domando as musas

Giordana Bonifácio

Quero ver a beleza deste vasto mundo,

E num sentimento deveras profundo,

Reconhecer-me como parte desta Terra.

Um ser humano que sem destino certo erra.

 

Perdendo-me em poesias, produtos de minha arte.

Encontro-me entre versos, estão em toda parte.

O vazio da solidão, preencho com música.

A literatura é o que torna a vida rica.

 

Acreditando ter as musas sob domínio,

Pois as palavras me geram grande fascínio,

Considero-me já uma perfeita poetisa.

 

Mas logo reconheço: a arte é deveras precisa.

Não se resume a criar rimas e versos tortos.

Assim em sua obra ensinam os poetas já mortos.

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Clair de lune ou um par de sapatos?

Giordana Bonifácio

As músicas são a obra mais fantástica da inteligência humana. Uma sucessão de sons numa magia que denominam arte. Quando jovem, ingressei no curso de flauta, queria controlar os instrumentos para poder criar música também. O problema que minha arte logo se revelou no papel e não com as indomáveis notas musicais. Não que as palavras não sejam por sua vez cavalos selvagens, que necessitam de doma e carinho, mas creio que minha veia musical está um tanto adormecida desde então. Há anos não toco numa flauta para sentir o sabor das notas formando-se com o meu sopro. Acho que me contentei com o ouvir. Deliciar-me com as músicas, sem que meu toque tenha as criado. E pensando nisso, resolvi sentar e escrever. Não sei bem ainda o que. Pensava que ouvindo a música correr as palavras fluiriam. Ledo engano… Sei que as palavras são escorregadias, não se pode num primeiro momento capturar seu real sentido. Ficam assim, pulando na nossa mente, esperando que fisguemos uma e lancemos no papel. E o pior que, acabamos quase sempre, por escolher as palavras erradas. Comecei essa crônica pelo título. Clair de Lune é uma de minhas sonatas prediletas, composta por Claude Debussy, logo percebi que não seria um título apropriado para este tipo de texto. Isso porque não posso fugir de certas lições aprendidas na faculdade, lá passamos um semestre inteiro estudando gêneros textuais e quando comecei a escrever queria escrever um conto romântico e tocante, mas nas primeiras frases logo percebi que seria uma crônica. Não sou ainda uma boa domadora, como podem verificar. O texto fugiu ao meu controle!

Então, devo continuar nessa louca missão que é escrever sem planos? Porque, quando tenho necessidade de escrever um conto, (sim, escrever é uma necessidade básica, como comer, dormir ou respirar), tenho objetivos traçados, tudo que escrevo é completamente programado. E aqui estou criando quase como um arroubo literário. Sem saber por que caminhos devo realmente passar. Ouvindo a canção e deixando-me levar. O som do piano demora-se em mim. Sabem, queria poder tocar piano, queria poder dedicar-me a todo e qualquer instrumento musical. Seria uma maneira de libertar a alma encarcerada pelo cotidiano. Viver numa sonata de Debussy é bem mais tentador que numa realidade sem som. Apenas com ruídos, sons desagradáveis de um mundo que não se contenta em ser. Não, ele quer nos lembrar a todo exemplo que a realidade existe. E o mais desagradável é que estamos nela. Pode soar ruim, mas a vida não é uma sinfonia, como querem fazer crer. Os ruídos são muito dissonantes. Não se igualam jamais com as belezas que produziram Beethoven, Debussy ou Mozart. Longe disso, formam uma balbúrdia infernal de instrumentos dissonantes, sempre a ressaltarem: a vida existe! Mas, e a música, meu Deus? E o fato de nos desvencilharmos do nosso ser físico para tornarmo-nos uma parte integrante desse universo tão próximo e ao mesmo tempo distante de nós que é o espírito? Como podemos entrar em contato com o que temos por dentro, essa coisa infinita que supera a morte do ser? Somente com a arte podemos ir além da derrocada da vida. Mas não é por isso que escrevo, que nem quero a imortalidade. Escrevo porque algo me dói. Uma dor que lateja sem cessar. É por tentar suportar a dor que nascem certos textos, um conto, uma crônica, um romance inteiro. Mesmo que não haja sequer leitores. Fica, no fim, essa obra incompleta. Uma música que foi composta e não a quiseram ouvir.

Aqui resta um pedaço de mim. Uma foto meio desfocada do que fui. O restante, procurem nas canções, nas interpretações tocantes de Maria Callas. Assim, podem localizar algo que fui, que sou ou que serei. Se quiserem a imagem desse coração despedaçado, em Clair de Lune encontrarão os cacos de um músculo involuntário, insano e intempestivo. Não pude jamais compreendê-lo. E essa crônica está ficando muito piegas. Seria mais negócio se houvesse escrito o conto de amor e dor. Creio que nem sei como guiar esse caminhão sem freio. O volante não é suficiente para dar uma direção a essa obra de sonhos maculada de realidade. Sabe quando a gente se perde num caminho que sempre nos foi conhecido? Não era desse modo que deveria escrever esse texto. Mas, convenhamos, se tudo fosse previsível, seria muito chato de se ler! Sei que não sou a mais confiável das fontes, mas queria criar algo parecido com uma ária de ópera, como O mio babbino caro. Uma canção que traduzida, refere-se o abandono do pai para a procura de um amor distante. Essas questões de amor não resolvidas são as mais belas. O problema que estão um pouco batidas também. E não tenho o talento de Callas para transformar o previsível em inusitado. Sei que ainda sou incipiente. Uma criança em jogos de adulto, é assim que me sinto quando escrevo. Vou construindo minhas estátuas, vou pintando minha chef d’ouvre que jamais termina.  Um bom pedaço do que sou fica marcado para a posteridade. Não que fosse meu real intento. Já disse que não sou dotada da genialidade dos grandes. Na verdade, escrevo porque me é essencial. É algo que me acostumei a fazer desde criança. Lembro das minhas primeiras histórias. Uma delas inspirada pelos Três mosqueteiros de Dumas. Claro, eu também fui muito influenciada pelos livros que li (e ainda leio), continuo sendo muito suscetível as suas idéias. Lendo Joyce tomo conhecimento do grande caminho que ainda tenho de percorrer. Chato compararmo-nos a essas mentes brilhantes, não? Era o que fazia quando tocava flauta. Queria sempre ser mais do que podia. (Acho que ainda caio no mesmo erro). Sei que não tenho gabarito para poder escrever uma novela como as de Kafka, mas é sempre bom ter grandes expectativas. Cobramo-nos mais. Tentamos fazer o melhor.

Aqui acredito que fui escrevendo uma crônica sobre música, mas acabei por tocar em minhas próprias feridas. A vontade de ser algo que não está ao meu alcance. Como se a vida recolhesse a mão que me ofertava o sonho. É claro que isso machuca. Queria poder colher à canção como fruta madura. Porém, a música é um tanto mais de transpiração do que de inspiração. A literatura foi-me mais agradável. Despedi-me de minha flauta e do violão (também ensaiei tortos passos com esse instrumento) e parti para as letras. Tentei a poesia, mas sua grande proximidade com a música fez-me, também, desse campo da literatura desistir. Foi escrevendo poemas que descobri uma mínima facilidade com a prosa e fui me aventurando aqui e ali. Porém, sei que a minha Clair de Lune ainda não surgiu. Essas palavras são malandras, não se consegue extrair delas o máximo de nossa capacidade criativa. E ainda fico aqui a lutar com elas. Sou meio masoquista, sabem? Sofro horrores com minha arte, mas só assim me sinto feliz. Algo irônico e meio doido também. Como diria Ovídio em sua Metamorfoses: “Et ignotas animum dimittit em artes naturamque nouat…”¹ Quero voar como Dedalus, nem que seja apenas com asas de cera. A música me concede os instrumentos, a literatura, o sonho, e, desta forma, posso alçar voo sobre o real. O existente não me aprisiona. O presente é uma fluida sucessão de futuros, na verdade tudo é uma fase que logo será sucedida por uma outra. Tão rápido que quase não nos daremos conta. A solidão é o momento mais propício para a criação.  Uma fonte inesgotável de palavras brota em mim. Nascentes de sonhos e passados. Sou conseqüência de escolhas pouco acertadas que se tornaram parte do que sou hoje. Nem sei como viver sem elas mais. Como se guardasse uma imagem própria de mim que me é necessária. Não poderia simplesmente me desfazer dela. Como livrar-me de meus óculos e trocá-los por lentes de contato. Claro que o resultado seria esteticamente mais agradável, mas seria eu? Não! Nesse mesmo sentido, poderia mudar meu estilo, os assuntos sobre os quais escrevo, poderia criar textos de pop-art, histórias açucaradas de amor, com elementos fantásticos. Poderia lançar livros sobre bruxos e demais elementos do imaginário humano. Mas seria eu? Não! A literatura artística é na realidade meu único recanto. Onde as músicas que ouço podem se tornar prosa, uma simples conversa num bar qualquer, regadas a risadas e vinho. Essa é minha canção, onde escrevo minha solidão, em que falo sobre meus sofrimentos eternos. Aqui apresento minhas cicatrizes. É um retrato muitas vezes aterrador. Mas quem disse que toda arte deve ser bela como a Clair de Lune? Muitas vezes, o belo está no retrato da dor mais pulsante, na mais triste e trágica lembrança. É assim. Talvez não acreditem, pois não se atrevem a ir além do visível. Às vezes, a obra prima é um simples par de sapatos, como queria Van Gogh. A verdadeira música está em nós. Em nos nossos sonhos mais incríveis poderemos ouvir-la. Ela soa estranha num primeiro momento, mas logo nossa arte brota do interior numa verdadeira sinfonia. Eis então a verdadeira obra-prima que tanto procurávamos.

1. “E ele coloca a sua mente para artes desconhecidas e as mudanças das leis da natureza”.

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