Posts Marcados Com: melancolia

Venus-de-Milo

Ao amor inacessível

Giordana Bonifácio

Ser de beleza que a esta vida guia,

Espírito de graça, puro encanto,

Razão que me inspira este triste canto,

Tu és dor ou sonho? Ou vã melancolia?

 

Alma de estrela tão longe e tão fria,

Lua que me cobre com ebúrneo manto,

Tu és a doçura que me leva ao pranto,

Luz das musas da mais triste poesia.

 

Seu perfume é uma cálida fragrância.

Seu sorriso, singela extravagância.

Tu és a Vênus de formas caprichosas,

 

Deusa do amor que já foi pedra bruta.

Tu és o penar com que minha alma luta.

Tu és a magia das paixões dolorosas.

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alma gemea

A metade da laranja

Giordana Bonifácio

Platão foi o precursor da ideia que há um correspondente perfeito para nós em alguma parte deste mundo. Sabe aquela história da metade da laranja? Quando pequena fui tentada a acreditar nessa vaga ilusão que haveria um Andros em algum lugar esperando por mim, sua Gynos, para se tornar um ser completo. Porém, fui forçada, com o passar dos anos, a abandonar as esperanças de achar minha cara-metade.  Eu já cheguei a imaginar muitas coisas sobre este ser que estaria destinado a encontrar-me. Já passei horas tentando adivinhar suas feições. Tinha certeza que, se tivesse fé, meu príncipe encantado apareceria. Eu não queria nem mesmo que viesse montado num cavalo branco de contos de fada. Só gostaria que fosse um homem gentil, educado e inteligente. Mas aqueles poucos que na minha vida passaram eram meros sapos a espera de abocanhar mosquinhas ingênuas que deles se aproximassem. Então fui acostumando-me a minha solidão. Vivendo somente com meus livros, minhas lembranças de um passado que o tempo faz tornar-se cada vez mais distante e dourado. Eu nem mais me importo com a melancolia do abandono. Restar eternamente num sonho de ser amada, de tornar-me especial para qualquer ser vivente. Já amei algumas vezes, mas todas as minhas vãs tentativas findaram em enormes desenganos. Trago muitas feridas, tenho a alma marcada pela dor. Esforcei-me para ser feliz. Queria ter uma família e evitar estar sozinha nos meus anos de velhice, quando mais precisamos do conforto dos entes queridos. Contudo, foi em vão, meus sonhos foram sementes que não vingaram. Meus desejos que crepitavam foram abafados pelo sofrimento. Acho que meu coração secou, pois já nem choro mais. Dói, mas a dor não mortifica. Apenas me sobram as lembranças das mágoas que o amor trouxe-me. Acho que já estou calejada. Eu não quero mais o amor e não quero mais a espera infinita por alguém que não existe. Aquele homem, que pensava estar padecendo dos mesmos pesares que eu, deve ter morrido. Minha cara-metade faleceu sem nem, ao menos, conhecer-me. Provavelmente foi isso o que se passou. E eu fui condenada a ser incompleta para toda a vida. Acho que isso nem mais me preocupa, porque me resignei ao destino. Além do mais, nunca fui um símbolo de beleza, o que dificulta ainda mais a aproximação de quem quer que seja.  Por isso resolvi mastigar minha amarga pílula de conformismo e ser sozinha, porém feliz.

O tom desta crônica foi muito triste até o momento, vamos dar uma guinada nessa história. Sabe, eu não quero pregar o discurso feminista que as mulheres se bastam por si só. Nem quero alardear que todos precisamos de um ombro em que nos apoiar nos momentos difíceis. Não, ao contrário, eu creio que todos têm de viver como bem quiserem, afinal, não devemos satisfações a quem quer que seja. Detesto quando ficam questionando-me sobre minha vida amorosa. E, ainda, sugestionam que devo encontrar um namorado, pois somente assim estaria realmente bem. Quando, em função de um tratamento médico, fui forçada a perder peso, quantas foram as insinuações de que minhas verdadeiras intenções eram conquistar um coração desavisado. Fico possessa com tais brincadeiras tolas. Isto em função de jamais ter sido bonita. Desde sempre fui a menina mais feia da classe. Alguém sempre esquecida nos bailes, sempre deixada de lado por todos, cujos lábios só foram beijados quando completei vinte e três anos. Por aí já é possível perceber que não tenho muitas chances de ser agraciada com a visita de um príncipe encantado. É por isso que resolvi resignar-me e prosseguir sozinha. Não vou ficar sentadinha, num cantinho, lamentando minha sorte. Já fiz isso e o que ganhei? Apenas mais sofrimento. Estou certa que desperdicei lágrimas à toa. Nada mudou. Agora, tenho de continuar caminhando. Esperei demais, meu tempo passou. Já tenho 32 anos e não alimento mais esperanças de ser amada. Não sei se estou melhor sozinha, mas cansei de quebrar a cara. A gente se decepciona muitas vezes para depois desistir. O que me restou de coração está fatigado com tantas mágoas. Então, resolvi dar uma trégua nessa guerra que é o amor. Levantei a bandeira branca e propus um tratado de paz. Agora convivemos bem, talvez porque não crio mais expectativas e estou feliz, apesar de sozinha.

Não sei por que a sociedade cobra tanto que nos enquadremos no que foi convencionado a ser normal.  Se não temos namorado, querem exigir esta condição de nós. Se temos, já nos pressionam com o casamento. Quando casados, exigem logo um rebento.  O problema é que todos se preocupam excessivamente com o que não lhes diz respeito. A vida é minha. Eu que decido o que me é mais aprazível. Não estou aqui para corresponder aos modelos apregoados pela mídia em enxurradas de propagandas. Não sou afeita a festas, não bebo, não fumo, sou careta e isso não é da conta de ninguém. Eu não sou de ficar exigindo dos outros que se enquadrem naquilo que entendo por normal. Pois os conceitos de todos são extremamente díspares. Nós somos guiados pelo nosso arbítrio e não apenas pelos apelos constantes dos meios de comunicação para que sejamos como apregoam. Hoje fiquei algum tempo pensando neste tema, na verdade imaginava que deveria escrever uma história de amor, sobre duas pessoas que, mesmo vivendo em dimensões opostas, encontrariam-se devido a acasos do destino. Contudo, devido aos comentários maldosos dos familiares, fui obrigada a escrever outra história de amor: sobre o amor próprio, sobre a autossuficiência que alcancei. E devo agradecer isto a todos que me feriram e quebraram meu coração em milhares de pedacinhos. Graças a eles entendi que posso estar bem, sem a necessidade de um par. Talvez, as ideias de Platão na sua obra O banquete tenham sido um equívoco. Os homens não eram compostos de duas partes – na verdade, cada um é dotado de razão para saber o que mais lhe agrada. Não devemos obrigar ninguém a viver uma realidade de qual não gosta. Somente porque acreditamos que esta situação beneficia-nos. Somos seres diferentes. Não somos metades que se separaram, apesar do discurso romântico que devemos encontrar quem nos complete. É bonito, mas não é real. Hoje é possível viver só, sem as questões que assombravam aos homens e mulheres no passado.

Quero aqui deixar claro que não sou a favor de qualquer revolução feminista, ou ideologia que pretenda impor um modo de vida que distoe do comum à sociedade. Só quero que cada um se limite a preocupar-se consigo mesmo. Nem quero que me aconselhem a procurar qualquer movimento religioso ou grupos para auxiliar-me a engendrar relações. Só quero que me deixem em paz. Permitam-me sentir-me bem do meu jeito. Se prefiro ser sozinha, qual o mal há nisso? Hoje, eu compreendi que sou única. Sou uma pessoa que se espelha apenas nos próprios ditames para existir. Não necessito da aceitação daqueles que convencionaram um modus vivendi como um padrão para o ser humano. Não sou de seguir padrões. Sempre acreditei que era diferente. Por minha autenticidade somente eu respondo. Meu coração partiu-se para toda a vida. O meu amor esvaiu-se pela fenda. Não sou mais capaz de amar, não quero mais desconversar quando os parentes querem me impor a necessidade de encontrar um marido como essencial para uma moça solteira. Entre a minha adolescência e minha maturidade tive de aprender muita coisa. E uma dessas lições, a vida deu-me da maneira mais difícil. Quando fui rejeitada das piores maneiras possíveis, compreendi que, devido minhas feições tão horríveis, seria muito difícil alguém aproximar-se de mim sem qualquer outra intenção que não seja a fim de angariar qualquer espécie de proveito. Não sou atraente e nem mesmo usufruo de posses econômicas que possam agradar as pessoas. Então, depois de tantas tentativas malfadadas, decidi que não procuro mais. Chega de expor-me. Cansei de errar. Quem dá muito murro em ponta de faca acaba se ferindo. Machucou, doeu, desisti. Eu sou solteira, estou sozinha por minha vontade e em consequência dos vários fatores que aqui citei. Não estou triste nem lamento mais minha sorte. As pessoas vivem da melhor maneira possível, não se pode ter tudo na vida. E se me restou apenas ser sozinha, não vejo mais qualquer mal nisso. Domingo, 2 de junho, faço 32 anos e estou feliz solteira. Mesmo que pelas costas digam que sou solteirona e que estou no caritó, nada disso mais me preocupa. Cada um vive e se porta como bem o aprouver.

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Meus nove anos

Giordana Bonifácio

Recordo da magia de meus idos nove anos.

Bastante os distanciam desses tempos insanos.

Vivia de fantasias, brincadeiras e jogos

Num passado distante prescindia de rogos.

 

O milagre era somente minha infância pura.

Para todos os males era eficaz cura.

Não havia em mim qualquer sombra desta melancolia.

Na verdade, meus dias vivia em imensa folia.

 

Corria de pés descalços e joelhos ralados.

Não poderiam existir anos mais dourados.

Sei que, tempos atrás, fui simplesmente feliz.

 

Meu coração hoje sofre, a dor é o que me diz.

Sei que o passado está para sempre perdido.

Mas vivê-lo de novo é meu único pedido

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Minha terra

Giordana Bonifácio

Minha terra está perto de mim neste instante.

Quando nela meu coração está saltitante.

Longe dela minha pobre alma é melancolia,

Minha vida, sempre alegre, resta tão vazia…

 

Mas minha terra é neste centro de cerrados,

Onde os corruptos políticos são cassados.

Neste tempo seco em que minha dor se cura,

Estou eternamente presa numa procura,

 

De tentar fazer este lar desta pobre gente,

Um lugar de que se orgulhe e fique contente

De dizer em outras bandas: “sou de Brasília”.

 

E fazer este povo sentir-se uma família.

Pois deste rubro solo somos todos filhos,

Mesmo os que pelas ruas andam maltrapilhos.

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