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De luto

Giordana Bonifácio

O mundo acordou de luto esta manhã de abril.

O homem que amava a vida como a uma dádiva,

Sem adeus ou uma simples lágrima furtiva,

Padecendo de dores e de um corpo febril,

 

Sob o abrigo da sombra de um salgueiro, partiu.

Ninguém sequer se deu conta daquela morte.

Um senhor não tropeçou no corpo por sorte.

Na sociedade, aquela morte nada sortiu.

 

Quem conhecia aquele homem, agora sem vida?

Se tinha sonhos, ninguém nunca mais saberia.

Como ele não sabia esta manhã que morreria.

 

O corpo sob a sombra teve boa acolhida.

Ficou quieto esperando chegar o meio dia.

E nem um lençol, para a morte cobrir, pedia.

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Lutando contra o tempo

Giordana Bonifácio

Sigo nessa vida em um real ritmo anti-horário

Numa luta vã contra o tempo imaginário.

Porque se trata apenas de simples convenção.

Não existe realmente, é dos homens uma invenção.

 

Mas sentimos no corpo sua vil consequência.

Por isso luto contra ele com insistência.

Mas acho que se trata de uma luta vã.

As pessoas chegam a pensar que não estou sã.

 

Confesso estar cansada desse grande embate.

E já sequer me importa que o tempo me mate.

Tentei esses anos todos o relógio parar.

 

Pois cria que poderia assim o tempo obliterar.

Mas foi tudo vão, peço para o poeta citar,

E ele diz: “contra a foice do tempo é vão lutar”.

Ps. Citação de William Shakespeare

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O aniversário da Infanta, a beleza vista por outro ângulo.

Giordana Maria Bonifácio Medeiros

Graduanda em letras pela Universidade de Brasília – UNB

                        Resumo:

Este artigo tem por fim realizar um estudo sobre o conto de Oscar Wilde, o aniversário da Infanta, promovendo uma discussão sobre as formas de se enxergar o belo e o horrendo quando estas duas qualidades não se podem perceber tão somente com o auxílio de um espelho.  Será realizado um contraste com o mito de Narciso que figura na obra Metamorfoses de Ovídio, que se realiza de modo contrário na trama do conto de fadas ora em análise.

            Abstract:

This article realizes a study about the Oscar Wilde’s Tale, the Infanta’s Birthday,  promoting a dialog about the ways to see the beautiful and the ugly when this two qualities can’t be seen at the mirror. At this work will be realized a contrast with the Narcissus Greek myth, that occurs in a manner contrary at the fairytale in analysis.

1.Introdução

A história passa-se no castelo real do rei da Espanha, que celebrava a festa de aniversário de doze anos de sua filha, a Infanta. Num primeiro momento há um excessivo trabalho do autor de descrever os ambientes palacianos, cujo luxo resplandecia artificialidade e desperdício. As crianças emplumadas, o jardim exultava beleza e as flores eram tão esnobes quanto os homens e as crianças que corriam pelos domínios do palácio. O rei de luto há onze anos pela morte da esposa, via na filha a imagem de seu grande amor, por tal razão vivia ausente da vida de sua herdeira. Não participava sequer das festividades do aniversário da Infanta. Porém, fez questão de promover a festa em homenagem à filha que evitava. A menina irritou-se por o pai não se fazer presente em sua festa e em seu pensamento egoísta não há questão de Estado tão importante quanto sua festa de aniversário, que impeça o rei de estar com ela nesse momento tão especial. E, imaginou que seu pai tinha ido para a capela escura onde não permitia sua presença. Ela não se condói momento algum pelo luto do pai que chega a tratar como tolice tendo em vista a festa e o sol maravilhoso que brilhava no jardim.

As festividades prosseguem com uma tourada de faz de conta, um equilibrista francês e a apresentação de uma tragédia clássica em teatro de bonecos, que, arranca lágrimas dos convidados. Logo após houve o número de um mago africano e um minueto dançado pelos meninos dançarinos da igreja Nuestra Señora Del Pilar. Após aconteceu a dança de um ursinho adestrado por ciganos para então dar início ao show do anão, Dwarf, mais aplaudido de todos. As crianças riram tanto da condição grotesca do anão, sobretudo a princesa, que ele foi premiado com um rosa branca no fim do espetáculo. Tendo havido a exigência da infanta que mais uma vez interpretasse a dança que tanto lhe fez rir. Dwarf, emocionado pelo presente, procura a menina por todo castelo, enquanto fazia lindos planos de se casar com ela. Imaginava que a princesa o amava e não tinha consciência que sua aparência era tão horrível que as crianças riam de sua feia figura e não da dança que ele interpretava. Quando chega ao mais luxuoso dos ambientes do castelo, Dwarf se depara com um espelho e assusta-se com o monstro que avistou. E fica um bom tempo hipnotizado pela feia imagem que a face fria do espelho mostrava-lhe, até que se dá conta que o monstro que via era si próprio. Então definha frente a sua própria imagem, o coração dele se parte enquanto esperneia de desgosto. A Infanta, decepcionada pelo fim da apresentação, exige aos empregados que todos os enviados para lhe divertir, dali em diante, não tivessem um coração.

2. A beleza e a feiura, o monstro e a bela, qual espelho revela a verdade?

 A narrativa de Oscar Wilde nos leva a admirar a beleza física da Infanta, mas ao mesmo tempo, nos provoca repúdio em função de seu comportamento egoísta e arrogante. Enquanto ao mesmo tempo, somos obrigados a reconhecer a feiura do anão, admiramos sua bondade e humildade. A pequena princesa e seus convidados bem como o jardim e nobres que a cercavam apresentavam o mesmo comportamento, cheio de esnobismo e desprezo pelo sentimento e condição dos demais que não podiam estar na festa. As criaturas repugnantes eram mera fonte de diversão. Dwarf jamais tivera consciência de sua aparência grotesca, até estar num ambiente que a denotava. Ver-se no espelho deu-lhe consciência que era um monstro. Mas os lindos planos apaixonados que projetou para o seu futuro ao lado da princesa, confere a ciência ao leitor que o espelho que revela a fisionomia, esconde o caráter dos homens. A princesa, cuja beleza é invejável, despertando inclusive a paixão no peito do anão, tem um comportamento tão asqueroso que nos leva a pensar que os papéis estão invertidos. O monstro é a pequena de egoísmo repugnante e o anão é o belo e humilde ser que se esconde sob o aspecto aterrador.

Oscar Wilde, sob o falso manto de conto de fadas, escreve uma história que foge aos padrões deste tipo de narrativa, pois o fim é triste, o anão falece de tanto desgosto, enquanto a Infanta exige que aqueles que a divertissem não tivessem coração. Ocorre que, era à princesa que faltava coração e não a Dwarf que morreu com o choque de se descobrir monstro. É de conhecimento geral que histórias que retratam o contraste entre o feio e o belo, são comuns na literatura infantil. A bela e a fera, história clássica de Gabrielle-Suzanne Barbot , narra o castigo de um rei arrogante de ser convertido em uma fera por uma bruxa, cujo feitiço só foi quebrado quando a mais bela menina do vilarejo apaixona-se por ele , mas apenas quando o monstro se mostra um ser sensível e amável. Há inúmeros ditados populares com o mesmo significado simbólico desses contos, que se perpetuam no imaginário popular por centenas de anos. Um desses é: “quem vê cara, não vê coração”, que ressalta os perigos da beleza que tende a cegar os homens para as atitudes das pessoas. Acontece que, apesar dessa moral passada pelos contos de fadas e provérbios populares, vivemos numa sociedade que valoriza a beleza física em detrimento das demais. Não é para menos que o corpo perfeito das modelos é invejado e perseguido por jovens e adultos. Há inclusive doenças graves envolvendo a busca do corpo idealizado pela sociedade, como anorexia e bulimia.

Então o fato é: a moral resta restrita aos contos de fada. São ensinamentos inócuos, pois, ao mesmo tempo que se procura ensinar à criança a respeitar as diferenças e ver o belo pelas ações das pessoas, na mídia se endeusa a beleza física relegando aos que não estão no perfil de beleza perfeita, papéis coadjuvantes de fonte de riso e pilhéria. Por tal razão, Oscar Wilde foge do fim hipócrita de dar um destino feliz ao anão. Ao invés disso concede-lhe um coração que se parte com a dor, enquanto o órgão falta à princesinha egoísta. Não que não haja finais felizes para os feios. Porque, outro ditado, bem mais sábio que o primeiro, concede esperanças numa sociedade padronizada: “a beleza está nos olhos de quem vê.” O que nos leva a crer que o que é belo para mim, não o será para outra pessoa. Isso porque devemos ter fé que a preferência das pessoas, mesmo muito influenciada hodiernamente pelo que determina a moda, ainda se guie por razões inexplicáveis.

Como surgiu esse culto pela beleza perfeita? Em artigo a revista infoescola, Orson Camargo tenta explicar a origem dessa paranoia social.

“Contudo, foi o cinema de Hollywood que ajudou a criar novos padrões de aparência e beleza, difundindo novos valores da cultura de consumo e projetando imagens de estilos de vida glamorosos para o mundo inteiro.

Da mesma forma, podemos pensar em relação à televisão, que veicula imagens de corpos perfeitos através dos mais variados formatos de programas, peças publicitárias, novelas, filmes etc. Isso nos leva a pensar que a imagem da “eterna” juventude, associada ao corpo perfeito e ideal, atravessa todas as faixas etárias e classes sociais, compondo de maneiras diferentes diversos estilos de vida. Nesse sentido, as fábricas de imagens como o cinema, televisão, publicidade, revistas etc., têm contribuído para isso.

Os programas de televisão, revistas e jornais têm dedicado espaços em suas programações cada vez maiores para apresentar novidades em setores de cosméticos, de alimentação e vestuário. Propagandas veiculadas nessas mídias estão o tempo todo tentando vender o que não está disponível nas prateleiras: sucesso e felicidade.

O consumismo desenfreado gerado pela mídia em geral foca principalmente adolescentes como alvos principais para as vendas, desenvolvendo modelos de roupas estereotipados, a indústria de cosméticos lançando a cada dia novos cremes e géis redutores para eliminar as “formas indesejáveis” do corpo e a indústria farmacêutica faturando alto com medicamentos que inibem o apetite.

Preocupados com a busca desenfreada da “beleza perfeita” e pela vaidade excessiva, sob influência dos mais variados meios de comunicação, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica apresenta uma estimativa de que cerca de 130 mil crianças e adolescentes submeteram-se no ano de 2009 a operações plásticas.

Evidentemente que a existência de cuidados com o corpo não é exclusividade das sociedades contemporâneas e que devemos ter uma especial atenção para uma boa saúde. No entanto, os cuidados com o corpo não devem ser de forma tão intensa e ditatorial como se tem apresentado nas últimas décadas. Devemos sempre respeitar os limites do nosso corpo e a nós a mesmos.”

Como explica o professor, não é objetivo deste artigo excomungar as modelos, destruir a indústria da moda, provocar uma revolução social tentando expurgar de todos os meios possíveis os padrões de beleza já instituídos. Ao contrário, admite-se que é importante preocupar-se com a saúde, mas respeitando o próprio corpo e seus limites. A busca insaciável da beleza deve ser vista como uma obsessão, uma psicopatia que deve ser tratada. Muitas pessoas estão descontentes com o corpo que possuem hoje em dia. A isso devemos creditar ao fato que estar de acordo com o padrão de beleza exaltado pela sociedade é bem difícil.  Exige tempo, dinheiro e dedicação quase que exclusiva, bem como abstinência de certos tipos de comida, como alimentos gordurosos e doces. À grande maioria, esse padrão é um sonho distante, enquanto outros se submetem a cirurgias dolorosas ou fazem exercícios físicos à exaustão. É quase uma religião este culto ao corpo, muitas vezes podendo ser comparada a uma insanidade generalizada.

O que se deve questionar é a formação psíquica das crianças submetidas a este padrão tão elevado. Como podem crescer numa sociedade extremamente discriminadora que exclui o que não se enquadra nos padrões?

Camila Cury, em artigo desenvolvido para revista eletrônica aprendendo, afirma que a anorexia e a bulimia estão sendo desenvolvidas por crianças também. A mídia explora um padrão de beleza infantil que não se aplica a maioria da população infantil brasileira. O padrão é uma criança branca, magra, de cabelos loiros e olhos claros. Ocorre que no Brasil onde a grande parte da população é parda ou negra não se enquadra nesse modelo. Bem como as crianças gordas são colocadas a parte dessa ditadura mirim. Conforme Camila Cury:

“Homens e mulheres não desistem de buscar uma perfeita definição para o ´ser belo´. No decorrer dos tempos, entretanto, tal obsessão pela beleza gerou ainda diversos problemas de saúde, dentre os quais podemos enfatizar a Anorexia Nervosa e a Bulimia.

A Anorexia Nervosa é uma grave doença psíquica que traz sérias consequências orgânicas, podendo inclusive gerar a falência múltipla de órgãos, infecção generalizada e morte. Os sintomas são proeminentes, como queda de cabelo, alteração e até interrupção do ciclo menstrual, emagrecimento mórbido, alterações hormonais, comprometimento do ritmo cardíaco e da pressão sanguínea, humor depressivo, ansiedade, autopunição, alteração da cognição, isolamento social, preocupação obsessiva com a estética, autoimagem distorcida, baixa autoestima, dificuldade de pensar antes de reagir.

A Bulimia Nervosa igualmente é um grave transtorno psíquico com repercussões físicas importantes, porém nem sempre tão intensas como as da Anorexia. Embora em diversos casos não gere um emagrecimento mórbido, pode comprometer o índice da massa muscular e gerar sintomas semelhantes aos da Anorexia. Tem como característica básica o comer compulsivo associado ao sentimento de culpa e vômitos que são provocados.

Tais doenças estão sendo percebidas e atingindo também nossas crianças e jovens que influenciados por colegas, familiares e mais ainda pela mídia, estão sendo já uma das principais vitimas da ditadura da beleza.

O momento é de mudanças com relação a estes paradigmas de beleza e de atenção por parte de pais e professores para tal situação. É necessária uma revolução inteligente e serena contra esta dramática ditadura. Cada ser humano possui uma beleza física e psíquica original e particular e isto é o que o diferencia, é o grande tempero da vida. Ninguém deve se comparar a ninguém, pois cada um de nós é um personagem único no teatro da vida.”

Portanto, evidente que também as crianças estão sendo afetadas por este alto padrão de beleza. E isso está bem evidente na obra de Oscar Wilde, as pessoas procuram cada vez mais a beleza externa e não se preocupam em cultivar a interna. As boas ações estão em extinção, a promoção da pesquisa e acréscimo de inteligência é algo raro. Parece que estão todos dentro da obra O retrato de Dorian Gray do mesmo Oscar Wilde. Enquanto a beleza externa permanece intocável, o quadro que representa o que o homem é realmente se converte num monstro horrendo. É esta a questão que pretendemos deixar nesse capítulo, quais são as belas e as feras desse mundo discriminador, seria a beleza aquela que o espelho exalta ou em contraponto a que revela o Retrato de Dorian Gray? Todos deveriam possuir um quadro desses em casa para lembrar a todo instante como degradam sua figura com ações detestáveis.

3. Narciso e Dwarf, uma visão intertextual.

Mesmo aqueles que não leram a obra de Ovídio, Metamorfoses, conhecem a história de Narciso. Segundo conta o mito, Narciso é filho de Liriope e Céfiso, um rapaz belíssimo que fomentou paixões em várias ninfas e jovens. Uma das Ninfas foi Eco, outrora muito loquaz foi castigada por Juno por impedir várias vezes que a mulher de Zeus o pegasse em patente traição com outras ninfas. O castigo foi repetir apenas as últimas palavras daqueles que com ela falassem. Eco ao encontrar o belo Narciso, por ele se apaixona. O belo rapaz pergunta por seus amigos numa caçada: “Tem alguém aí?” Eco responde apenas: “aí?” Ele intrigado, pede: “venha até mim!” Eco repete o convite.  Narciso então questiona: “por que foges de mim?” Eco repete novamente a última palavra. Então o belo, convida: “vem para junto de mim, unamo-nos!” A nada Eco respondera com mais vontade: “unamo-nos!” Ajuntando o gesto a palavra corre para abraçar o formoso rapaz. Ele afasta-se e diz: “Afasta-te de mim, nada de abraços. Prefiro morrer e não me entrego a ti”. Eco responde apenas: “me entrego a ti.” Foge então para uma gruta envergonhada onde definha até a morte, mas sua voz persiste na caverna, aprisionada para sempre. Para Narciso uma grande pena o esperava por fazer sofrer tantos corações. Numa fonte virgem, jamais vista por homem algum, quando Narciso se aproxima para matar a sede em razão da caçada, avista seu reflexo e apaixona-se por si mesmo. Tentava beijar-se a imagem turvava-se, ele clamava assim pelo seu retorno. Chorava e as lágrimas também faziam a imagem fugir, ele desesperava-se apaixonado. O jovem belo morreu ante ao seu reflexo, sendo convertido na flor branca de narciso.

Aí está a convergência das duas histórias, Dwarf hipnotizado pela horrenda imagem que o espelho refletia, demora a dar-se conta de ser apenas seu reflexo. A face fria do espelho assemelha-se com a face espelhada do açude que impede a Narciso de alcançar sua própria imagem. A rosa branca dedicada ao anão pela princesa faz referência à flor em que Narciso se converte ao apaixonar-se por si. Ambos, Dwarf e Narciso morrem em função de seus reflexos desgostosos, aquele por dar-se conta ser o monstro, este por não poder tocar a si mesmo.  Quando a infanta entrega a flor para o anão este pensa ser uma demonstração de amor e jamais de escárnio. E a flor de Narciso é considerada símbolo do amor.  Segundo Chevalier:“A rosa tornou‐se um símbolo  de amor e mais ainda do dom do amor,  do  amor puro… A rosa como flor de amor substitui o lótus egípcio e o narciso grego. (Chevalier apud Albertim,2004)”

Nenhum dos personagens, Narciso e Dwarf, tem consciência tratar-se de sua imagem refletida a razão de seu repúdio e encantamento. Ambos encontram a morte ao deparar-se consigo mesmo. Mas a história do anão se assemelha ainda a de Eco, porque ao apaixonarem-se, têm seu amor rejeitado. São nesses aspectos que as duas histórias se equivalem. É certo que Oscar Wilde pensou nessas semelhanças das duas obras ao criar esse conto de fadas tão triste que foge aos aspectos comuns a esse tipo de narrativa.

Narciso e Dwarf morrem em razão da beleza. Um despreza o amor de Eco, outro tem seu amor desprezado. Dorian Gray mantém seu aspecto jovem e belo enquanto a imagem na pintura se converte no monstro que o personagem se transformou, sem escrúpulos ou moral. Oscar Wilde apresenta um delicioso jogo de metáforas, que nos faz mergulhar nas histórias de Dwarf e Dorian Gray. Ambos presos pelos padrões de beleza, só que este mantém o monstro interno e o desenvolve, ao mesmo tempo em que aquele tem um físico horrendo, mas suas obras são nobres e tocantes. Esse é o espelho que nos apresenta o autor. A pintura revela a realidade. O espelho apresenta a imagem mais fácil de ser vista. O verdadeiro reflexo, aquele que a fonte não revelou a Narciso bem como o espelho não mostrou ao anão, esse é difícil de visualizar num primeiro momento. É necessário algum tempo para se enxergar e para isso, é fundamental aproximação e convivência. O amor pode não surgir à primeira vista, mas quando os olhos já podem ver aquilo que o físico não permite.

4. Conclusão

O objetivo deste artigo foi questionar os padrões de belezas vigentes num estudo sobre as obras de Oscar Wilde: o aniversário da Infanta e O retrato de Dorian Gray. Bem como fazer um estudo de intertextualidade dos livros acima com o mito de Narciso presente nas Metamorfoses de Ovídio. Num primeiro momento foi feita uma crítica à sociedade atual e aos modelos de beleza vigentes que afetam até mesmo as crianças. É lógico que a beleza está se tornando uma obsessão que provoca doenças psíquicas graves como a anorexia e a bulimia. E estes males já estão presentes até mesmo na infância. A busca desenfreada pela beleza está criando monstros, pois a figura mais fácil de ser vista, aquela que o espelho nos apresenta pode estar de acordo com que exige a sociedade, mas aquela, que traduz os homens como pessoas, definha como Narciso frente ao seu reflexo. Dwarf conscientizou-se que o amor que imaginava ter a Infanta por si era puramente escárnio. E saber-se monstro casou-lhe a morte. Sabe-se que as pessoas querem estar dentro dos padrões. Querem cinturas finas, cabelos loiros, a imagem que a mídia promove enfim. E nessa luta para ser aceito, acabam por destruir-se como Narciso e Dwarf ao deparar-se com si mesmos.

A conclusão mais clara desta trama é: não podemos nos enviesar pelo terreno da hipocrisia. É sabido que a maioria dos homens e mulheres escolhem seus parceiros em razão da atração física, mas existem aqueles ainda que se mantém originais. Pessoas que veem nos outros bem além do que pode apresentar o externo. Gente que tem em mente que a beleza é temporária e que o tempo é atroz e que a luta contra ele pode garantir alguns anos a mais de beleza. Porém, ninguém foge à velhice e decrepitude dos corpos. O que importa mesmo, no fim, é a beleza que Dwarf não pode ver em si, e que Narciso não poder perceber em Eco. Ambos se iludiram com seu reflexo. Por isso é necessário fugir dessa ditadura que dita a moda. O mundo está numa luta constante entre o que a sociedade nos exige e o que os homens são realmente. E nessa guerra interna, muitas vezes o lado que vence não é aquele que promoverá a felicidade do indivíduo. O prazer de estar em sintonia com que exige os padrões vigentes, não durará muito. E após a perda inevitável da beleza, talvez as pessoas se conscientizem que os valores mais importantes não se perdem jamais. Dwarf tinha o coração que faltava a Infanta e essa era dotada de uma beleza artificial, pois a generosidade que deveria ter aprendido de berço faltava-lhe. É fundamental compreender-se que a beleza é perecível e o que é realmente importante não poder ser visto. Porque já dizia Saint-Exupéry no seu Pequeno príncipe: “o essencial é invisível aos olhos”.

5. Referências Bibliográficas

ALBERTIM, Alcione Lucen, Dwarf, um mito subversiv, in http://www.revistaaopedaletra.net/volumes/vol%206.1/Alcione_Lucena_de_Albertim–Dwarf_um_mito_subversivo.pdf, último acesso em 30 de junho de 2012.
CAMARGO, Orson, Mídia e o culto à beleza do corpo, in http://www.brasilescola.com/sociologia/a-influencia-midia-sobre-os-padroes-beleza.htm
 
CURY, Camila, A Ditadura da Beleza também atinge nossas crianças e jovens!, in http://www.escolainteligencia.com.br/blog/aprendendo/a-ditadura-da-beleza-tambem-atinge-nossas-criancas-e-jovens/ último acesso em 30 de junho de 2012.
 
OVÍDIO, Metamorfoses, Ediouro: São Paulo, 1983.
 
SAINT-EXUPÉRY, ANTOINE, O pequeno príncipe, Agir: Rio de Janeiro, 48ª Ed., 2006.
 
WILDE, Oscar, O aniversário da Infanta in Histórias para aprender a sonhar, Companhia das letrinhas:São Paulo, 2011.
 
WILDE, Oscar, O retrato de Dorian Gray, Círculo do Livro: São Paulo, 1974.
 
 
 
 
 
 
 
 
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