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Pensamentos

Giordana Bonifácio

Voam ao sabor da brisa meus vãos pensamentos.

Nas nuvens tornam-se um tanto vagos e lentos.

Assim é bem possível lembrar do passado.

O problema é que, para ele, já estou atrasado.

 

Seria muito bom poder meus erros apagar.

Assim não teria tantos pecados a pagar.

Mas só posso lamentar a minha ignorância.

Mas hoje os erros de ontem não têm importância.

 

Um suspiro profundo leva a dor de mim.

E esta frase bem que poderia ser o fim.

Sem dor, longe das faltas de um ontem distante.

 

Gostaria de ser feliz nesse incerto instante.

Mas são dilacerantes a mágoa e saudade.

Meu penar durará por toda eternidade.

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Suave brisa de outono

Giordana Bonifácio

Suave brisa de outono para longe leve,

Meu abandono, pois é gélido como a neve.

Mas queima a pele como a brasa mais ardente.

Suave brisa de outono sopre a dor ao poente.

 

Caso seja possível, leve-me consigo,

Ao oásis mais aprazível. Ouve o que lhe digo?

Suave brisa de outono, tão fiel confidente,

Porque não me concede este belo presente?

 

Com minhas asas de Ícaro permita-me voar,

Sobre as nuvens, bem alto, até que me falte o ar.

Suave brisa de outono porque a mim ignora?

 

Não entende talvez que busco a vida lá fora?

Pois preciso andar por lugares diferentes.

Suave brisa de outono quebre-me as correntes.

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Alma em balanço

Giordana Bonifácio

Então, me diga,  em que pessoas nos transformamos?

O que aconteceu com a vida que sonhamos?

Será que chegamos perto das antigas metas?

Será que nossas almas estão enfim completas?

 

Reflita: você é o mesmo homem de anos atrás?

Já estar a sentir a dor que o tempo trás?

Talvez nós estejamos longe dos projetos.

Antes, todos caminhos pareciam corretos.

 

Hoje, nós  deveríamos ser homens maduros,

Que, invencíveis, sairiam de todos os apuros.

Mas compreendemos que os antigos sonhos se foram.

 

E em nosso fraco espírito outros medos  moram.

Do passado restaram-nos só boas lembranças.

Tudo era bem mais fácil quando éramos crianças

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Marcas

Giordana Bonifácio

 Um dia desses estava conversando com minha mãe e dizia-lhe que queria deixar minha marca neste mundo. Ela respondeu-me com certo desprezo, que eu queria apenas ser famosa e aparecer como estes pseudoartistas de reality shows. Fiquei algum tempo pensando sobre isto. Será que meu desejo seria tão fútil? Gastei horas analisando essa questão. Acontece que, quando mencionei que queria deixar minha marca no mundo, não se tratava de ser conhecida. Não, longe disso, minha marca é o resultado de minha obra que, já posso dizer, é bastante extensa. Quero ser uma escritora esquecida pela massa de consumo. Não quero criar bruxinhos ou mesmo, qualquer aventura que divirta os jovens e enriqueça seus autores. Não espero que criem filmes com artistas famosos interpretando meus personagens. Não quero ser objeto de biografia depois de minha morte. Eu quero somente deixar para posteridade minhas criações, que eu possa formar um publico leitor. Mas não tão numeroso, pois quero que questionem quando anunciarem minha morte no jornal das 20 horas, “- Giordana quem?” Foi o que meu irmão fez ao saber da morte de Moacyr Scliar. Perguntou se eu o conhecia. Então, fui obrigada a listar a obra genial e maravilhosa deste grande escritor. Este sim deixou sua marca, mas para a maioria dos brasileiros permanece desconhecido. Uma falta grave, para este povo, que vê na música sua única forma de expressão. Será que desconhecem que há também os livros? E que ler é uma aventura que se vive sem presenciá-la? Agora, nessa época de Facebook e Twitter, cresce o número de fãs da Clarice Lispector que jamais leram nem mesmo um conto de sua autoria, quanto mais seus livros (que devo dizer, são estupendos). Outras pessoas juram que Caio Fernando Abreu mudou suas vidas. Ocorre que nem mesmo o instigante “Morangos mofados” deste autor se deram o trabalho de ler. E citam suas palavras sem saber o universo em que se inserem.

Eu quero uma vida menos atribulada, sem a mídia atrás de mim ou paparazzis no meu encalço procurando saber o que estou fazendo. Mas então, me vem a pergunta: essas pessoas tão famosas, tão importantes com suas fortunas e limusines estão deixando sua marca neste mundo? Será que no futuro serão lembradas, por terem sido, de algum modo, importantes? Será que não serão esquecidas como o jovem assalariado que acorda cedo para ir ao trabalho, ou como a faxineira que recolhe sua diária depois de muito esforço, ou ainda, igual ao professor que perde a voz, de tempos em tempos, devido o grande volume de aulas que tem de ministrar? E eu me pergunto então: será que estas pessoas não estão deixando sua marca no mundo? Acho que aqueles que se gabam por sua fama e fortuna não são nem um pouco mais importantes do que estes homens e mulheres que citei acima. Estas pessoas comuns fazem coisas incomuns. Todos somos capazes do impossível. E somos importantes, mesmo sem sermos conhecidos pelo público. Moacyr Scliar era um escritor essencial da literatura contemporânea brasileira. Mas sua fama não alcançava a das duplas sertanejas, cujas letras são recitadas por fãs apaixonadas nos shows que reúnem milhares de pessoas. Acho que isso poderia mudar se, tal qual Clarice e Caio, ele virasse febre nas redes sociais. Para grande parte do povo brasileiro, Scliar era só um médico judeu. Ele era imortal, porém, morreu. (Claro, era membro de nossa Academia de Letras) Isso me faz recordar duas coisas. A primeira delas foi, quando um grupo de amigos se entretinha com um jogo de conhecimentos gerais, foi sorteada uma pergunta sobre como se apelidavam os membros da ABL. Pasmem: eles não sabiam a resposta! E a outra lembrança que me aconteceu, é que um ministro de STF com termos irônicos disse que aquele Tirbunal não era a Academia Brasileira de Letras. Denotando, desta forma, pensar que esta é menos importante que aquele. Até mesmo nossa elite intelectual zomba de nosso centro produtor de cultura. Eu fico bestificada com a ignorância de nosso povo. Às vezes isso me envergonha.

Dizem que a Academia é controlada pela Globo desde a escolha de Roberto Marinho para figurar entre seus quadros. (Em detrimento de Quintana – Admirem-se!) Não sei se a situação permanece assim depois de tantos anos. Mas estou convicta que a ABL foi e sempre será essencial para nossa literatura. Porém, poucos são os que conhecem sua existência. Estão muito mais ocupados com a nova “mulher fruta” ou com a polêmica que se produziu no capítulo da novela do dia anterior.  Eu não quero essa publicidade malévola. Eu gostaria de ser uma nobre desconhecida como Scliar e morrer no anonimato de uma chamada do Jornal. “Jordânia quem?” Diriam. Seria um feito se acertassem meu nome. (Não posso exigir demais de uma população, que prefere à leitura, ouvir canções de cunho sexual, que aludem à conjunção carnal em si.) Não quero ser famosa. Este é o ponto. O que espero é o reconhecimento de minha obra. Ou seja, que os poucos que a leiam, possam comentar a qualidade de minha literatura. A repercussão de meus livros se daria num círculo pequeno de leitores. Porque o Brasil é feito de homens e televisões. Os livros foram esquecidos em algum ponto de nossa educação. É preciso resgatá-los. Fazer com que nosso jovem leia mais, que fuja da alienação promovida por canais de reality shows e novelas. O povo deve se encontrar nas páginas de Machado ou de Amado. É que não compreendem as vantagens de criar um hábito de leitura. Para quê escrever melhor, se a fama está limitada aos “artistas” da tevê? Para quê incentivar a imaginação, se a programação tão “rica” de nossos canais de televisão faz isso pela população? As gírias da nova novela logo estarão disseminadas entre todas as classes sociais. Para quê falar bem? E isso me envergonha de tal forma que me pergunto se, nos demais países do mundo, seria do mesmo modo tão elevado grau de alienação da população. Será que isso é conveniente para os nossos governantes? Pois uma massa sem opinião é mais fácil de manipular. Acho que pensar nunca vai estar na moda. E isso, mais uma vez, me decepciona bastante.

 Então, fiquei pensando em tudo isso depois que minha mãe aludiu ao meu desejo de fazer-me famosa. Eu não quero ser famosa por ter um corpo siliconado moldado por horas de academia. Não quero ser famosa por pantomimas realizadas em reality shows de péssima qualidade. Não quero ser famosa por ser bonita e causar uma boa impressão frente às câmeras de tevê. E também não quero ser famosa por cantar músicas cuja composição peca pela falta de imaginação e densidade. Eu quero, sim, ser famosa, por minhas obras, que os demais se recordem de minhas poesias e dos prêmios recebidos pela qualidade do que criei. Eu quero deixar minha marca, na memória cultural do país e não na volátil memória midiática, que designa dezenas de minutos para um destes “pseudoartistas”, que logo voltará ao anonimato, e apenas alguns segundos para noticiar a morte de um dos grandes artistas de nosso círculo literário. Eu quero a presença de meus livros nas estantes dos leitores apaixonados e não nas festas que se desenrolam pelo Brasil a fora. Não quero milhares de fanáticos no meu encalço em busca de imagens exclusivas de meu cotidiano. Mas um lugar garantido na ABL. Quero ser uma imortal que morra sem louros. Ganhar uma chamada de segundos no jornal. Contudo, uma eternidade para ser esquecida pela cultura. É isso que espero, é essa marca que eu procuro. Não pretendo fazer-me conhecer, não desejo aparecer, não está no meu intuito ser abordada na rua em busca de autógrafos. Não está em meus planos amealhar fortunas. Longe disso, ocorre-me até a possibilidade de morrer com os poucos recursos que possuo. Eu quero somente que fique claro que meu desígnio é apenas um: deixar impresso (literalmente) nesse mundo o meu pensamento, as minhas ideias e meus sonhos. E que estes sejam conhecidos, mesmo que por uma parcela insignificante da sociedade.

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Minha terra

Giordana Bonifácio

Minha terra está perto de mim neste instante.

Quando nela meu coração está saltitante.

Longe dela minha pobre alma é melancolia,

Minha vida, sempre alegre, resta tão vazia…

 

Mas minha terra é neste centro de cerrados,

Onde os corruptos políticos são cassados.

Neste tempo seco em que minha dor se cura,

Estou eternamente presa numa procura,

 

De tentar fazer este lar desta pobre gente,

Um lugar de que se orgulhe e fique contente

De dizer em outras bandas: “sou de Brasília”.

 

E fazer este povo sentir-se uma família.

Pois deste rubro solo somos todos filhos,

Mesmo os que pelas ruas andam maltrapilhos.

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Casa grande e senzala

Giordana Bonifácio

Estava ébrio é verdade, mas não fui eu quem começou aquela briga. Quando dei por mim, cadeiras voavam, sangue e dentes quebrados respingavam por todos os lados. O som de garrafas de vinho estilhaçando acompanhavam os urros de dor e força dos homens que lutavam naquela taberna. Não demorou muito, a guarda real chegou e levou todos presos. Os que tinham “costas quentes”, ou seja, uma pessoa de renome nas altas corporações, como igreja e governo, foram logo liberados. Eu, um mulato filho bastardo do coronel Aguirre com uma de suas negras, fui lançado na prisão sem previsão de liberdade.  Fui despejado numa masmorra úmida e quente que exalava o odor pestilento de fezes e urina. Estávamos na cela, eu, um velho que murmurava algo, (como se rezasse penso eu), e um gordo comerciante acusado de matar a esposa. Éramos todos pobres, mas algo os diferenciava de mim: a cor de sua cútis, a pele que parecia gritar a minha insignificância. Os guardas os tratavam com mais respeito, tinham privilégios como uma cama em que deitar. E acho que até a ração que recebiam tinha menos vermes que a minha. Não me dirigiam, meus companheiros de prisão, sequer uma palavra, como se eu não tivesse o direito de estar no mesmo recinto que eles. Sei que se houvesse um covil para arremessar os negros que cometessem crimes, como uma grande senzala prisional, eu estaria lá. Longe dos brancos, longe do mundo. Esquecido por Deus, desprezado pela sociedade.

Murmurava, toda noite, durante o cárcere, uma canção que minha mãe cantava para mim, nas noites frias de inverno, quando, com os outros negros do engenho, ficávamos na senzala a relembrar nossa amada terra natal: a mãe África. É uma música numa língua que nunca aprendi. Sei proferi-la por tanto ter ouvido minha mãe cantar. Ela dizia que era a voz de um povo muito antigo cheio de honra e glória. Ficava imaginando que, há algum tempo atrás, os negros eram importantes. Não apenas “coisas” vendidas nos mercados como animais. Eu não sabia ainda que era filho do coronel naquela época. É verdade que era muito estranho que eu tivesse olhos verdes. Nenhum negro da senzala os possuía. Nem o bom homem que me adotou como filho. Um negro muito forte, líder não pronunciado dos escravos do coronel. Ele deu-me várias vezes sua ração quando não traziam comida o suficiente para todos os escravos comerem. Minha mãe era uma mulher muito bonita. Foi logo escolhida pelo Coronel Aguirre para frequentar sua cama. Quando ela engravidou, despejou-a na senzala, para sofrer como todas as outras negras. Eu nasci no mês de junho, uma semana depois, a Sinhá dava à luz ao coronelzinho: Benjamin. Eu fui denominado Antônio, pois meu nascimento se deu no dia dedicado ao Santo. Juntos, meu irmão e eu, tivemos vidas diversas, mas brincávamos e éramos muito unidos, quando eu não tinha ciência de sermos parentes. Dividíamos inúmeras aventuras. Porém, mesmo mais novo, ele era sempre o comandante.  Eu não poderia ser jamais superior a um branco. Carrego na pele o peso da minha maldição.

Acontece que o tempo passou. Benjamin foi para escola. Deixou o engenho por muitos anos. Eu permaneci com os outros escravos, cortando cana. Plantando meu sofrimento que adoçaria a boca dos brancos. Entretanto, a juventude me fez rebelde. Não aceitava como não aceitarei jamais ser denominado de sub-raça porque tenho a pele negra. Fiquei semanas na prisão, sem que houvesse quem me concedesse liberdade. (Mesmo que saiba não ser livre na realidade). Quando nem comida recebia mais dos guardas, apareceu um homem muito bem vestido, elegante, creio que é a palavra correta, que me libertou da cadeia. Ele olhou para mim com olhos inquisidores e tive vergonha dos trapos que eu usava. Logo que saímos, perguntou se eu recordava-me dele. Disse que não, ele tirou um cachimbo do bolso, preparou o fumo metodicamente e acendeu-o. Lançava baforadas compassadas e ficou em silêncio por algum tempo. Depois, sorriu e foi quando o reconheci. Não poderia me esquecer daquele sorriso jamais. Era Benjamin, o coronelzinho. E numa efusão de felicidade, quis abraçá-lo. Ele evitou que o tocasse. Então, dei-me conta de meu papel a tempo de me conter. Ele disse-me que havia se formado em Direito e agora era advogado. Soube que o pai dele tinha me dado alforria, (um gesto de grandeza quando minha mãe morreu no parto de minha irmãzinha), e que eu fora feito prisioneiro. Perguntei por que motivo o Doutor havia me libertado. Foi quando ele informou-me que o coronel morrera  e que estava precisando de um negro como eu para trabalhar nas terras que ele herdou. Eu perguntei por minha irmã. Ela já deveria estar uma mocinha àquela altura. Ele disse que sim. Tinha uns dez anos e era dama de companhia da Sinhá. Emocionado, porque não via a minha irmã por tantos anos, chorei. Benjamin ficou irritado que eu o estivesse envergonhando em público, tive de secar as lágrimas e engolir meu sentimento. Aceitei a proposta do coronelzinho, afinal, não tinha aonde viver, nem como me manter, melhor seria trabalhar, mesmo que por uma ninharia, para meu irmão.

Acontece que acabei por perceber que minha irmãzinha não estava feliz. Ela era uma menina muito tímida e chorosa. Ela não era filha do coronel, mas do bom negro que me adotou como filho, que já havia morrido, pois um escravo não possui uma vida lá muito longa. As doenças chegam devastadoras. E nem sempre os senhores de engenho querem gastar com a saúde de seus escravos. Minha irmã se chamava Rebeca e havia herdado a beleza de minha mãe. Pedi para que ela viesse morar comigo na senzala, para ficarmos juntos, mas Benjamin não permitiu.  Ele não sabia que eu também era filho do coronel. Minha mãe contara para mim somente, me fazendo prometer que jamais contaria a ninguém. Eu achei muito estranho a recusa de Benjamin, porque ele não costumava me negar o que pedia. Eu não pedia muita coisa. Dormia na senzala com os escravos porque não cabia a um negro dormir com os senhores na casa grande. Eu só queria minha irmãzinha perto de mim. Isso não era algo muito difícil. Com o tempo percebi que Rebeca estava cheia de hematomas. E partindo disso comecei a averiguar. Acabei por pensar que a Sinhá estava maltratando minha irmã, o que achei muito difícil, visto que ela era uma dama muito calma e solícita. Jamais houve qualquer reclamação sobre ela de nenhuma mucama. O problema era que, por mais que perguntasse à Rebeca quem estava fazendo aquilo com ela, minha irmã jamais me respondia. Dizia apenas que não era nada. Uma noite, entrei na casa grande sem ser visto, para tentar abordar a Sinhá ferindo Rebeca. Sei que poderia ser expulso do engenho, que não é lícito a um negro interferir no tratamento que os senhores dão a seus escravos, porém eu tinha de fazer algo.

Fui caminhando pela casa, aproximei-me dos aposentos da Sinhá e não havia nenhum som. Entretanto, quando estava perto do quarto de meu irmão, escutei gemidos que pude reconhecer como sendo de minha irmã. Não foi possível me conter, eu tinha sangue nos olhos. Arrombei a porta e deparei-me com uma cena terrível. À minha irmã coube o destino de minha mãe: ser a escrava sexual do coronel. Ela era apenas uma criança! Os seios não haviam sequer aflorado!  Não pensei no fato de ele ser meu irmão de sangue, no momento só queria fazê-lo parar! Empurrei-o com toda força para que abandonasse o corpo esguio de minha irmã que ele subjugava. Então começamos a nos engalfinhar. Contudo, eu era mais forte, esmurrava-o com toda a força. Não queria parar. Ele gritava pelos capitães do mato e tentava se safar de minhas mãos. Eu tinha certeza que iria matá-lo. Bati tanto em seu rosto que o sangue pingava desmedidamente. Ele conseguiu soltar-se e tomou um revólver que estava na gaveta do criado-mudo. Ele teria atirado em mim, se eu não houvesse sido mais rápido ao desarmá-lo. Continuávamos nossa disputa. Ele de ceroulas, todo sujo de sangue e eu com os punhos feridos de tanto esmurrá-lo. A essa altura, a Sinhá já tinha despertado com a confusão e corrido para o quarto do filho. Ela gritava desesperadamente pedindo para que parasse e que eu iria matá-lo. Confesso que essa era minha real intenção. Eu queria mesmo ver meu irmão, aquele ser desprezível, morto. Porém, ele não lutava justamente, os capitães do mato chegaram e seguraram-me de modo que não mais agredisse o coronelzinho. Foi tudo muito rápido. Ele se recompôs, enxugou parte do sangue do rosto com um lenço e veio em minha direção. Ele passou a esmurrar-me dizendo que eu estava tentando defender a minha irmãzinha e que ela era a “putinha” dele. E que eu era apenas um negro e que deveria saber qual era meu lugar. Ele falou que minha vida pertencia a ele. E que poderia fazer o que bem entendesse com minha irmã ou comigo. E, por fim, disse que iria me matar na frente de minha irmã. Foi quando ouvi o estampido. Benjamin caiu aos meus pés. Fiquei atordoado, demorou alguns minutos para eu perceber que minha irmã havia atirado no coronel. E quanto ao resto todos já sabem. Essa é toda história Excelência, espero que possa entender o motivo de minhas ações e de Rebeca. Eu suplico: não a condene à forca, mas a mim, que desgraçadamente nasci filho do coronel Aguirre e irmão de Benjamin. Este que se revelou o mais terrível monstro e que, com suas atitudes abjetas, selou sua própria sorte.

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