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A hora mais escura

Giordana Bonifácio

 Eu conheci muitas pessoas. Andei bem próximo de gente muito importante. Mas, também, acompanho os mais humildes. Visito-os todos de forma inusitada. Mas, antes, procuro conhecer-lhes perfeitamente. Não para julgá-los, pois esta não é minha função, mas para entendê-los. Os seres humanos são a poeira mais complexa do universo. Nunca conheci uma civilização que portasse tantas fantasias. Desejos, sonhos, quimeras… Chamem como quiser. Gosto de tornar-me íntimo deles. Vou perscrutando aos poucos suas vidas tão insignificantes, mas, ainda assim, tão, tão importantes… Acho incrível serem dotados de inteligência, porém, cometerem tantos erros. Muitas vezes, porque ousam ir além. Além das portas fechadas do medo. Seguem confiantes, mas, então, encontram a mim. É meio decepcionante, confesso. Eles pensam que sou bem mais terrível do que sou realmente. O que para muitos é um alívio, para outros já é motivo de descontentamento. Paciência, não se pode agradar a todos. A culpa nem é minha. Eles que imaginam sobremaneira. Desenham o desconhecido com as piores feições. Não sei ainda se são tolos, talvez sejam apenas fracos. Temem o que lhes é estranho. Segregam-se uns aos outros por possuírem culturas, religiões e ideias diferentes. Esse estúpido temor logo se transforma em irracionalidade e violência. Sempre me perguntei o porquê.  São razões tão pequenas para discriminar, ferir e até, mesmo, matar. Esses humanos, somente após muitos milênios, baniram a escravidão de seus costumes. Antes, era usual tratar seus iguais como mercadoria. Seres inferiorizados pela cor de sua cútis. Fiquei muito tempo tentando entender a lógica do regime escravocrata. Jamais o consegui, todavia. Como seres que se gabam por sua racionalidade, são levados a seguir a lei da selva? Aquela em que o mais forte submete o mais fraco? Impossível compreender.  Nesses muitos anos, vi evoluções significativas em sua sociedade. Não posso mentir. Eles estão tentando, mas ainda há muito a ser feito.

Guerras absurdas poderiam ser evitadas se tivessem o mínimo de empatia pelos outros de sua espécie. Assisti muitas cenas de pura covardia e de crueldade sem limite. Se tivesse sentimentos, poderia até mesmo chorar com as imagens que me ficaram gravadas na memória. Ainda bem que posso ver sem me posicionar. Minha função, não se atém a julgar. Já disse. “Isto está fora do meu departamento”, como dizem os humanos. Seguro-lhes a mão na hora mais escura, somente. No instante que a maioria deles tenta evitar. A maioria. Outros me procuram desesperadamente. A vida não satisfaz a todo mundo. Talvez, pelo grau de dificuldades que ela envolve. Nem todos têm coragem de lutar. Provavelmente, não o suficiente. Sentiria piedade de sua covardia. Eles tomam minha mão como quem encontra a saída de um intricado labirinto. Os homens são tão frágeis… Por isso, sentem tanto medo. Eu escuto seus pensamentos no último instante, quando nada mais há a ser feito. Pedem-me mais um minuto. Um minuto que não faria qualquer diferença quando estavam vivos, mas que, antes da hora derradeira, significam uma possível despedida… Uma prece… Uma última lágrima… Mas meus horários não podem ser atrasados. Infelizmente. Vejo o desconsolo dos que ficam. Promessas que jamais se cumprirão, amores desfeitos, famílias destruídas… Eis o que lhes resta. Contudo, ninguém sabe os desígnios do universo. Os homens criaram inúmeras religiões para explicar o que está oculto, aquilo que está muito além de sua ciência e sua inteligência. Querem achar consolo. Querem abrigo no momento mais difícil. Estranho não encararem o fim da mesma forma que enxergam o início. Não são coisas distintas, como pensam. Na verdade, são como o prólogo e o epílogo de um mesmo livro. Queria que soubessem que as mesmas razões de se começar a leitura, fomentam o seu fim. Afinal, são as únicas certezas que possuem. Chegam sozinhos na Terra, mas, quando for o momento, terei de acompanhá-los para longe do que, até então, conheciam.

Não sei também para onde os levo. Como disse, “isto está fora de meu departamento”. A curiosidade é uma característica muito singular dos humanos. É uma benção e uma maldição. Não sou um ser dotado dela. Aliás, nem mesmo sei se sou um ser. Mas, voltando aos humanos, eu os admiro sobremaneira. Eles são incríveis, criativos e imaginativos. Inventam histórias, criam máquinas e sonham… Como sonham…  Podem aprimorar ou mesmo destruir o seu mundo. Pena que a maioria das vezes eles usem seu intelecto para devastar seu próprio lar. Esses pequenos são, também, tão suscetíveis ao vício… Querem encontrar consolo em substâncias que somente lhes abreviam a sua, já curta, vida. Quantos não tive de colher do seio das drogas? Alcoólatras, toxicômanos, fumantes… Seguem todos comigo, mais cedo ou mais tarde. Sei que a fuga que buscam é produzida por seu próprio medo. Não se julgam capazes de prosseguir sem a droga. Quisera poder ajudar-lhes a se encontrar. Buscar a força que existe em cada um deles. Acreditem: não existe problema para o qual não haja solução. As coisas foram escritas para acertarem-se, de um modo ou de outro. Não me perguntem como sei disto. Apenas sei. É um dos mistérios da vida. “A roda da fortuna não para de girar”. Li isto num livro. Não gosto da maneira como os homens retratam-me em seus romances. Quisera ser tão poderoso e inexorável como dizem. Sou, na verdade, um simples funcionário, um despachante, mais precisamente. (Perdoem-me o trocadilho). Levo almas de um lado para o outro. Colho-as, conforto-as, levo-as para seu destino. Simples assim.  Não tem nada do glamour com que me descrevem. Eu gosto de estar perto de pessoas. Sou fascinado por suas bibliotecas. Passo horas lendo seus romances e poesias. Sei, por isto, que cada homem que se vai, leva consigo um mundo tão vasto e inexplorado, que desfalca sobremaneira o universo. Não importa se são desvairados ditadores ou miseráveis mendigos que padecem no frio das ruas. Todos são dotados de uma riqueza descomunal. Pena que poucos saibam disto.

Quando me aproximo, geralmente se assustam. Querem tentar escapar. Mas sou um funcionário muito eficiente. Logo se acalmam e posso levá-los definitivamente. Porém, dias antes, já estou investigando suas vidas. Ouço seus sonhos enquanto dormem. Estou tão próximo deles e nem mesmo desconfiam. Sei o momento certo, muitas vezes, um tanto trágico, de colher suas almas. Não lhes imponho o sofrimento, apenas está escrito. Sabe-se lá por que e por quem. Apenas cumpro minha função. Não há serviço de atendimento ao consumidor ou ouvidorias para atender suas reclamações e dúvidas. Eu só cumpro o meu expediente. Sigo o que me foi determinado, tão somente. Não sou dotado da coisa mais fantástica que os homens possuem: sentimentos. Gostaria de sentir a dor que transborda numa lágrima. Queria sentir o amor que impele esses homens a prosseguirem apesar das adversidades. Queria entender sua fé e sua esperança… E a saudade, então?  Não conseguem esquecer jamais os seus entes queridos que partiram comigo. Estão sempre a recordá-los, até o momento de juntarem-se a eles. Mas, antes disto, maldizem-me dolorosamente. Chamam-me de “ceifadora implacável”. Primeiro, dizem-me ser mulher quando na verdade não tenho sexo. Sou como os anjos de suas religiões. Sou tão somente uma força criada para uma missão determinada. Depois, confesso que minha função não é a mais invejável. É bem difícil ter de ser o causador de tanta tristeza. Devo dizer que, se houvesse uma maneira de trocar de repartição, seguir para a seção de nascimentos, seria-me muito mais aprazível. Ocorre que a minha área não está aberta a mudanças. Mas, apesar de tudo, sinto-me bem por estar tão próximo dos seres humanos. Mesmo que não possa, ainda, os entender. Por mais que leia seus livros, que lhes possa ouvir os pensamentos e sonhos, suas mentes são de tal forma complexas, que me é impossível chegar a um veredicto sobre eles. Não são inteiramente maus, nem completamente bons. Têm falhas imperdoáveis e, ao mesmo tempo, virtudes surpreendentes. Quando lhes trago comigo, lamentam-se por não terem feito tudo que desejavam em vida. Eu apenas lhes digo que a morte não é o fim. É apenas um começo de uma nova história, para os que partem e, também, para os que ficam.

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O labirinto

Giordana Bonifácio

 

Vamos, seque estas lágrimas sentidas.

O que lhe feriu ontem, já não fere mais.

Não lamente o que ficou para trás.

Não pense estarem suas lutas perdidas,

 

Pois alegrias ainda há a serem vividas.

É grande esta dor que lhe tira a paz.

Mas outras naus vão atracar no seu cais.

É certo que em sua alma há muitas feridas.

 

Admita: a sua dor hoje lhe é um abrigo.

Vamos em frente, meu inocente amigo!

Pois a vida é um estranho labirinto,

 

Onde uma fera oculta faz morada.

Tão atroz quanto à, por Teseu, assassinada.

Monstro, de nossa fé, sempre faminto.

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Perdido no labirinto

Giordana Bonifácio

Eu não sei ainda como achar o caminho.

Nesse momento creio que estou sozinho.

Parece não haver mais saídas possíveis.

Os sonhos do real estão indiscerníveis.

 

Confuso, tento escapar dos perigos.

Porém, creio que não mais há fé comigo.

Terríveis labirintos ao meu redor,

Mas dessa dor sei que sou merecedor.

 

Um homem que em si mesmo está perdido.

Sei que meus planos já malsucedidos,

São a causa de meus inúmeros temores.

 

Não posso colher mais do campo as flores,

Os lírios são alvos demais para mim.

Mas sei que para toda dor há um fim.

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Pena perpétua

Giordana Bonifácio

Minha pena perpétua é em carne e osso, ser eu.

No labirinto da vida, vem a dúvida:

Por que ser? Se o que possuir pensava não é meu?

Meu espírito volúvel que aqui me guia a vida,

 

Não decide meus caminhos, leva-me por vielas,

Ou por escuros becos. Não sabe por onde ir?

Siga pelas ruas mais agradáveis e belas…

Não pretendo mais dos campos Elísios partir

.

A vida pode ser como a doce esperança.

Um sonho que se aguarda como a um tesouro.

Iluminado como é o sorriso de criança.

 

Ou pode ser como a mim hoje se apresenta:

Dias de solidão em que escuto um corvo em mau agouro,

Prever, com “nunca mais”, a terrível tormenta.

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Desespero

Giordana Bonifácio

Estou em vias de entrar em desespero terrível.

Já tentei tudo, até cogitei o meio  impossível.

Mas concluo que não há saídas para o labirinto.

Estou perdido, minha penúria não minto.

 

Esta vil cilada em que estou, é obra minha apenas.

Fui eu que provoquei todas as presentes penas.

Fui tolo, confesso, não cuidei do fim adverso.

Por isso me lamento agora neste verso.

 

Não posso mais escapar é chegado o fim.

Questiono-me que terror cairá sobre mim.

Mas não me é dado temer, tenho de suportar.

 

As penas cogitadas, não posso reportar.

Sei que de todos estes crimes sou culpado.

Mas queria que de meus erros fosse perdoado.

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Deixando o passado para trás

Giordana Bonifácio

Estou resoluta a abandonar de vez o passado. Fiquei tempo demais presa ao que se foi. Martirizando-me infinitamente pelos fracassos de ontem, esqueci-me de comemorar as vitórias do futuro. E acho que perdi inúmeras oportunidades de ser feliz. Era necessário viver mais não encontrei o caminho certo. Confundi-me no labirinto dos fatos, pois ainda me conjugava no pretérito… Imperfeito. Eu fui, numa era em que o essencial seria ser o que eu não era. Fui acometida de um grande pesar que se proliferou por todo meu interior. (Algo parecido com a alma, eu acho). E nem sabia mais nada do futuro. Ele não chegou para mim. Vivi um presente eterno acorrentado ao passado que não permitia jamais a chegada do amanhã. O sol não nasceu. A vida congelou num anoitecer sombrio de inverno. E os ecos de alegria que poderiam me alcançar nunca chegaram. Esqueci-me de ser eu e fui sendo outros. Perdi minha unidade. Era um ser dividido e falho. E nem me cria sequer merecedora de redenção. Meus pecados eram, sobretudo, contra mim, eu que profanava o mais sagrado preceito humano: a formação de uma identidade.  Fui à busca de vidas alheias em que pudesse me espelhar. Esqueci-me do que sou ou simplesmente ignorei a minha autenticidade? Não sei, em um segundo, destruí o que esperava de mim. Não me orgulhava do que havia me tornado. Foi uma união de situações que me obrigou a viver no vazio. Como suspensa por uma década, no limbo ao qual o tempo não alcança, aguardava a chegada do dia sem saber que, no lugar em quem me encontrava, as trevas eram eternas.

Porém, mesmo que esteja atrasada, (fiquei muitos anos no cárcere da espera que não se realizava), resolvi partir em busca do tempo perdido. Em meio a uma tempestade de emoções, confusa e arrastando pesados grilhões, sigo por caminhos não traçados, pois sou a espécie pioneira nas regiões mais inóspitas do meu espírito. Sei que ainda estou sujeita a toda forma de traição, que muitas decepções são esperadas. Nada é tão simples assim… A perseverança que não cultivei quando necessitava, agora tem de se fazer presente. É o único meio de trazer de volta o destino que perdi. Para isso tenho de me libertar do passado, da prisão dos anos em que estive por minha própria vontade. É que eu tinha medo. Um pavor insuportável que atrasasse o advir. E acabei por provocar o meu desgraçado penar. Construí os muros que me enclausuraram no passado. E foi sonhando com o que não me cabe que pude finalmente alçar voo.  Estou um tanto desengonçada com minhas asas de cera. Não quero, todavia, tocar o sol,contento-me com algo muito menor, tão somente o futuro pretendo capturar. L’avenir que ce n’est pas arrivé.¹ Fiquei procurando saídas num cubículo sem portas ou janelas, sem olhar para o alto, quando poderia constatar que não havia o que me impedisse de voar. Então construí como Dédalus, meu meio de fuga. E, sem temer a queda, bati asas, um construto feito tão somente de palavras, que unidas tornaram-se frases, que por sua vez viraram orações, períodos e por fim um texto completo. Não é essencial que tenha início ou fim. Esperei muito para me preocupar tão cedo com o final. Basta um ponto para encerrar essa jornada.

Acontece que não chegou ainda o término dessa sentença. Não veem: o dia nasceu! Eu que por tanto tempo vivi nas trevas, tenho acesso à luz. Agora os dias nascem e findam. Não se vive no breu dos sonhos esquecidos, mudos, num mundo sem a escrita. Agora posso contar abertamente o que me aflige, sem temer que meus pesares sejam mal interpretados. Não me creio escritora. Tão somente gosto de transcrever para o papel meu mundo de sentimentos imprevisíveis. Inicio minhas aflições pela seguinte sentença: “estou resoluta a abandonar de vez passado.” Mas nem escrevi como tenciono fazê-lo. Disse apenas a minha pretensão. É hora de explicar-me: explorando imensamente o que tenho em mãos, ainda que seja muito pouco, é que construirei o futuro que esqueci em algum lugar que não me recordo. É tempo de deixar para trás o que foi, mas não foi, está aqui e continuamente me machuca. Devo apenas dizer adeus… Mas, é tão difícil se despedir do que um dia nos foi essencial. Sei que agora é tempo de libertar-se de um estado que não é mais admissível. E vou conseguir, é esse o único modo de deixar o meu espírito, continuamente ocupado, livre para receber o que está por vir. Guardo muita coisa de que deveria me libertar. Tudo que preciso desfazer-me por não mais possuir qualquer sentido. Recordações que não têm espaço no armário. Fotografias em que um rosto jovem faz-me duvidar que seja eu naquele retrato. E não posso mais sofrer, não há mais lágrimas para regar essa árvore de desilusões. Ela se fixou no solo fértil de meu coração. Agora tenho de cortá-la e arrancar as raízes para que nunca mais venha a florescer. Essas são as medidas mais viáveis para deixar definitivamente de viver o que já foi vivido. Como se as lembranças mais sofridas continuamente retornassem e ferissem da mesma maneira que fizeram antes. Meu castigo é ser Sísifo e penar eternamente, levando, para o alto da montanha, a pesada pedra do meu passado esperando apenas ela rolar de novo para a origem e, como acontece ao condenado , ser obrigada a fazer o mesmo trajeto para todo sempre.

Entretanto, vejo que uma esperança, mesmo que fugidia, como uma miragem que enlouquece os homens sedentos no deserto, se aproxima. É claro que ela envolve um tanto de percalços. Nada é tão fácil quanto parece. Transformar-se é difícil. E acreditem: nem sempre é possível. Estamos presos às idiossincrasias que acumulamos na juventude. Fugir de certos hábitos é uma tarefa inglória. A verdade é que nosso caráter é formado no início de nossa educação. Nem sempre os adultos tem o devido cuidado com as crianças que devem educar. Alguns comportamentos que adotamos é fruto de certos complexos que desenvolvemos na infância. Tenho um tanto de histórias para justificar minhas atitudes. A falta de maturidade em agir é resultado de uma criação superprotetora, a baixa autoestima, uma reação ao mundo que me subestimava e subestima a todo o momento. Mas não culpo meus pais. Não, eu que perdi a coragem quando vi que a vida adulta era um pesadelo de que não se acorda. E meus lamentáveis desenganos, são o produto mais cruel de meus temores. Eu nem sempre fui tão covarde. Costumavam chamar-me destemida. O problema é que fui me entregando às derrotas. Uma sequência delas. E sem coragem para mudar o rumo do navio, permaneci na mais revoltosa tormenta. Todavia, não é hora de lamentar. É necessário partir deste porto em que atraquei minha nau e dele não pude sair. Estou há muito tempo nesse mar. Sou Odisseu em uma busca infinita por Ítaca. Devo prosseguir, deixando para trás as feridas que fiz em Ílion. As marcas e perdas incalculáveis da batalha podem ser substituídas pelo regozijo do retorno.

É, na verdade, a volta de alguém que jamais partiu. Eu sempre estive aqui. Nos erros do passado que me subtraíram o futuro. Como construir algo que não mais existe? O destino que visualizava, fugiu de mim.  Nem sei mais para onde estou indo. Estou caminhando sem direção com um único propósito: livrar-me definitivamente da minha bagagem. Esse peso que trago comigo que me enverga o corpo. Sei que poderei de tal forma viajar com mais conforto. A vida é na realidade uma viagem sem retorno. Nós que escolhemos o que transportamos dela conosco. Levarei, de agora em diante, apenas o essencial. Vou aproveitar cada dia como se fosse o único. Quero muito mais da vida. Na verdade, como diria Victor Hurgo, “ela passou por nós sem que a pudéssemos viver”. E sei que sofri desmedidamente e que os anos não foram piedosos comigo. Sabem quando levamos muito tempo para aprender algo simples? Pois é, é o que fazemos com nossa existência. Não vivemos, sobrevivemos. Não seremos jamais felizes se não compreendermos o sentido que devemos dar ao nosso futuro. Eu queria apenas ostentar uma realização que não existia. Eu sabia para onde minha vaidade levava-me, contudo quis continuar. E foi quando percebi que traçava uma rota sem retorno para a infelicidade. Não era o que queria fazer. Desde criança fui dada a contar histórias. Era meu modo mais simples de me libertar. E sem poder voar fui enclausurando-me numa prisão que eu mesmo erigi. O meu medo foi o material dos tijolos que constituíam estes altos muros. Estava encarcerada no meu passado sem poder enxergar o futuro. Entretanto, ainda sabia como escapar, com as asas de sonho que fabriquei, composta de palavras escritas, foi-me fácil evadir dessa realidade. O que necessitava era um tantinho só de fantasia. E assim me foi possível quebrar os grilhões e fugir da abjeta masmorra em que me via prisioneira.

1.O futuro que não chegou.

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