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O tempo

Giordana Bonifácio

Sei que tudo neste mundo é temporário.

O que hoje é vigoroso, amanhã, ao contrário,

É tão frágil que necessita de cuidados.

Os ferimentos com o tempo são curados.

 

O antídoto mais forte é o correr dos anos,

Que pode amansar do amor os vícios insanos.

Qual será o poder da ampulheta sobre nós?

É a nossa assassina! O relógio é nosso algoz!

 

Sei que nem mesmo a ação do tempo é permanente.

Um dia essa força que nos foi tão premente,

Parará, provocando o fim deste universo.

 

Digo este, pois é tema muito controverso,

As nossas concepções sobre outros planetas.

Nesse plano, as leis físicas estão obsoletas.

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“A literatura não permite caminhar, mas permite respirar.”

Roland Barthes

O tema e o tabu

Giordana Bonifácio

Estou determinada a desconstituir tabus hoje… Há muitas coisas sobre as quais evito falar. Não porque fique acanhada com a possível reprovação das pessoas. É verdade que existe certos assuntos que se tornam verdadeiros tabus em minha escrita. Poucas vezes toco em temáticas delicadas, mas não por medo de cutucar a ferida. É comum que as pessoas estabeleçam certos pontos intocáveis em sua alma. Eu mesma fico em silêncio sobre várias coisas. Não porque não me permita falar. A literatura, que me salva inúmeras vezes de sufocar-me em realidade, é forte o suficiente para abrir a minha mente antiquada e conservadora. Saibam que é por pura falta de oportunidade não reflito sobre eles. Um ponto controverso é a minha veia política. Já me considerei muito ligada às transformações sociais outrora, hoje, creio-me muito avessa às mudanças porque passam o mundo e as pessoas. Acreditem: eu não era assim. Parece que o tempo foi enferrujando meu cérebro, desgastando meus parafusos, fiquei mais usada e menos tolerante. Tenho um exemplo dos efeitos do tempo implacável em alguém muito próximo: meu pai. Ele era um dos homens mais politicamente engajados que conheci, estava sempre pronto a liderar revoluções. O passar inclemente dos anos tornou-o menos corajoso; não, talvez o que tenha sumido de sua alma seja tão somente a esperança. Ele não acredita mais que o país possa melhorar, afinal, são tantos escândalos de corrupção, que fica meio difícil confiar em alguém. Lembro que havia discussões políticas em minha casa até alta madrugada. Eram pessoas que sonhavam. Acho que a época dos sonhos passou. O mundo nos deu um banho frio de desilusão. Nem recrimino meu pai. Chega um tempo que o corpo pede descanso. Ele não é mais tão jovem para se submeter às mesmas torturas sofridas no terrível e inesquecível período da ditadura militar. E eu também estou cansando, estou diminuindo minhas expectativas quanto ao futuro.  Já estou começando a acreditar que se trata apenas de uma promessa tão vazia de significado quanto os desejos de construção de um país melhor e mais justo. Não suporto mais esconder minha ideologia que duvida da mudança significativa da situação de nossa pátria. Não sou adepta de nenhum partido, filio-me apenas a minha razão. E tenho certas dúvidas que consigamos ser mais civilizados que hodiernamente somos.

Política é um ponto sensível. Não é recomendável a um autor ter preferências nem filiação partidária. Não sou Jorge Amado para ter uma fase comunista de porta-voz dos problemas sociais. Primeiro, porque, quem sou eu para ser ouvida? Uma tímida voz sibilante em meio a uma multidão exaltada! É assim que me sinto. Sem força para fazer o mundo desenvolver-se. A literatura não me permite caminhar como dizia Barthes, mas me possibilita respirar em meio a esse mar de lama em que o Brasil está naufragando. E sei que posso unir-me a outros pensamentos que se coadunam ao meu, mas sermos maioria, numa população amordaçada pelo assistencialismo e vendada pela impressa parcial e gananciosa, é impossível. Sei que criticar a política brasileira que conseguiu, da mesma maneira escusa que costuma agir na direção do país, trazer eventos como a Copa do mundo e as Olimpíadas para serem realizados em solo tupiniquim, é praticamente vedado. Creio que estes acontecimentos sejam apenas uma maneira de aumentar os índices de aprovação do governo mesmo em períodos de crise. Sou desacreditada quando tento revelar este jogo de cartas marcadas. Nessa mesa, quem distribui as fichas é sempre vencedor. Não há como insurgir-se frente a esta estrutura maléfica, somente se quiser ver-se destruído em menos de uma semana. Acabarão com seu prestígio, destruirão sua família e provavelmente, dependendo do grau e gravidade de suas denúncias, é possível que você apareça morto sem aparente motivo ou suspeitos do crime. Por isso, compreendo meu pai. Não há mais pelo que lutar. Bem como, não existem alternativas menos desgastantes para entrar em conflito com uma realidade estabelecida. O bom mesmo é tentar viver sua vida, da melhor maneira possível, mesmo tendo consciência de tudo aqui apresentado.

Esses assuntos sobre os quais evitamos falar, em razão da polêmica resultante de nossas declarações, não podem simplesmente ser varridos para debaixo do tapete. Aqui estou querendo desfazer o erro em que incidi de negar-me a escrever sobre temas delicados. O sexo também fica meio esquecido, disseminado em meus textos sob a bandeira feminista e o amor de que muitas vezes, (não em todas), é consequência. Não tenho muito que explanar a respeito desse tópico. Porque a maioria das pessoas conhece sobremaneira e, bem melhor que eu, tudo que envolve a cópula de espécie humana. Não evito falar sobre isso, como muitos que conheço creem. Sei muito e pormenorizadamente sobre como se dá e o efeito do coito. É-me estranho apenas que as pessoas tendam a achar que sou uma donzela imaculada sem qualquer conhecimento sobre o ato sexual em si. Tenho até certa pena desses indivíduos. Não são tão sabidos quando dizem, apenas querem se fazer crer descolados e modernosos. E para tanto, tem de escolher alguém a quem discriminar como seu oposto. Eu tento pronunciar-me sobre esta questão, mas não querem ouvir-me, eles estão tão fechados em sua ideia, essa sim, verdadeiramente antiquada, sobre sexo que não permitem que eu expresse minha opinião. Nesse momento, resolvi subir a tenda do circo, vou “tocar fogo no picadeiro” como se diz. Veem como me saio bem tratando sobre estas questões estigmatizadas? Não sou tão ingênua e infantil quando acreditam que eu seja. Na verdade, sou muito bem informada, posso conversar sobre tudo da mesma maneira descontraída que aqui escrevo. Não temo ser ridicularizada, pois foi esse o procedimento padrão dos grupos pertencentes aos ambientes que frequento e outrora, frequentei. Não é constrangimento algum, para mim, ser submetida à sabatina dos que se pensam especialistas para provar o meu conhecimento. Talvez somente assim, possam entender que a mente fechada e intolerante é a deles e não a minha. Sou conservadora sim, mas não ignorante. Estou descrente das instituições políticas sim, mas ainda tenho uma ideologia. É isso o que gostaria de deixar claro. Se bem que, como se recusam a me ouvir, provavelmente também essa explicação pormenorizada será desprezada sem qualquer crédito. O que se há de fazer, não?

Estou cansada de ter de justificar meus atos e a razão dos tabus em minha literatura. E quero deixar claro, que existem assuntos sensíveis sim, mas não pelo fato de temer estender-me sobre terreno desconhecido ou pelo medo do escárnio dos que se acham doutorados com conhecimento patente e indiscutível sobre qualquer assunto, mas apenas para não incidir em mal-entendidos. Como estudo letras, é comum que me questionem a grafia certa desta ou daquela palavra, também concordância e regência escorreita em certos casos. Mas quando expresso o conhecimento amealhado, duvidam de minhas palavras. E fazem o possível para corrigir-me. Tanto assim, em temas jurídicos que demandam a minha opinião. Mesmo sendo formada em Direito, possuindo título de pós-graduação e tendo me sagrado advogada, é comum discordarem e refutarem minhas palavras. Já estou acostumada, entretanto, com esse comportamento. Além de porem em xeque minha formação, tentam zombar dos anos de dedicação e estudo a que me submeti. Calo-me e recolho-me ao meu campo de certeza. Fiquem os outros com sua venda, que eu já livrei, há muito, meus olhos dela. Foi por esta razão que resolvi atentar para pontos que raramente abordo. Pois queria deixar claro que, mesmo que minhas articulações estejam enferrujando e que minha memória, (já nem tão boa no passado), esteja falhando, não é por constrangimento que não uso tais tópicos frequentemente para compor meus contos e crônicas, mas tão somente porque nem sempre quero justificar meus textos, onde expresso tão abertamente minhas opiniões. Um autor pode dar-se ao luxo de escolher seus temas, eu escolhi os meus.

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Anjo

Giordana Bonifácio

É verdade que existe um tanto de coisas que não podemos fazer na realidade. É por isso que a ficção, a obra infinita da nossa imaginação, nos concede poderes dos quais somos desprovidos. Aqui, nessas linhas tortas em que minha onisciência me concede o poder de escrever certo, posso muito bem ouvir os pensamentos dos passantes. Sou convertida em anjo, que pousa o ouvido no peito dos homens e pode escutar-lhes sonhar. Sou das milícias celestes, voo sobre a cidade e assim, sou levada pelas ondas invisíveis dos desejos humanos. Um homem sisudo e bem vestido entretém-se no fixo pensamento de resgatar sua honra. Como? Não sei, ouço um tanto aqui, outro tanto acolá. Não quero revelar a intimidade desses personagens, mas alguns retratos de solidão. Não há lugar mais solitário do que dentro de nós mesmos. Uma mulher balbucia uma música enquanto, com olhos marejados, sonha com um passado inalcançável. “Why do you come here/when you know it makes things hard for me?” Sibila sem sentir, uma canção nem tão antiga assim. Uma criança que, desde cedo, foi submetida à dura rotina da vida, imagina um mundo muito diverso, com heróis e heroínas saídas das páginas de uma história em quadrinhos. Continuo penetrando no lugar mais intrínseco de suas almas. Deixando-me estar ali, bem ao lado de suas frustrações. Uma moça enxuga uma lágrima que desavisadamente se desprende dos cílios e corre-lhe sobre a face. “Haverá ainda tempo de concertar tudo?” Vejo a desolação em sua fisionomia. Porém prossigo. Não devo deter-me com as mágoas, como não o posso fazer com os sonhos. Não posso me apropriar da dor nem mesmo da felicidade alheia. Anjo que sou, não devo interferir no livre-arbítrio.

 Agora caminho ao lado de um velho. Ele segue lentamente, passos trôpegos auxiliados por uma bengala. Ele suspira recordações de um tempo em que poderia correr mais rápido que qualquer menino de sua rua. E o presente dos anos é a decrepitude dos corpos. Ele resmunga um palavrão e continua sua longa e árdua caminhada. Sou um “ser de luz”, (como convém denominar aos anjos), um tanto andarilho. Com minhas longas asas voo rápido para estar ao lado dos homens, para protegê-los do mundo, dos medos, do frio, e de si mesmos. Contudo, não posso evitar que se sintam abandonados. É que, nos momentos em que a dor surge, acham-se tão desprotegidos que terminam por se crer sozinhos. Justamente no momento em que nós, anjos, seguramos-lhes as mãos para aliviar o sofrimento que sentem. Cobrimos-lhes com nossas asas e tentamos reconfortar-lhes o espírito. E aqui, ao lado deles, tentamos ser um abrigo, mesmo que não nos vejam, mesmo que não nos ouçam e, também, que não acreditem em nossa existência. Por esses vales sinuosos de perigos que circundam a humanidade, somos a força que mantém o eterno equilíbrio entre o bem e o mal. E queremos ajudar nas escolhas das pessoas, todavia não nos é possível fazê-lo. No momento crucial, os seres humanos estão por sua conta. Já tentei sussurrar aos ouvidos de uma garota a solução de seus dilemas, mas ela não depositou sua fé em minhas palavras. Acreditou que só poderia estar enlouquecendo e não optou pela alternativa que lhe vislumbrava. Um motorista liga o rádio no engarrafamento, afrouxa o nó da gravata e tenta acompanhar a canção que escuta. “I used to be on an endless run./ Believe in miracles ’cause I’m one. /A have been blessed with the power to survive./ After all these years I’m still alive.” Sento-me ao seu lado, ele pensa em um tanto de problemas. E reza para que Deus lhe ajude a conseguir uma solução para os entraves em sua vida. Segura o crucifixo em uma corrente em seu peito e pede auxílio ao Pai. Queria podermos fazer mais, mas nossa função é tão somente conferir serenidade para que os homens consigam achar sozinhos a saída.

Olho em volta para  essa cidade que se crê esquecida por Deus e entregue ao pecado. Não, não nos desfizemos de mais nenhuma cidade desde Sodoma e Gomorra. Ainda estamos com os olhos fixos nesse planetinha azul. Continuamos a escutar as orações e pedidos. Tenho pena dos seres de carne e osso porque a vida é tão frágil e inesperada. Tudo acontece sem aviso. Ninguém está preparado. E são surpreendidos pelas “curvas” da vida, porque não se trata jamais de uma linha reta. Não, a vida é uma estrada sinuosa. Há subidas íngremes, buracos na estrada, descidas abissais e despenhadeiros ameaçadores. Tudo que torna a viagem perigosa e difícil. Mas eles prosseguem. Tenho de confessar que lhes invejo a coragem e fé. Fé mesmo que não seja a ligada a essa ou aquela religião. Uma esperança tão forte que lhes impulsiona a prosseguir, quando, confesso, eu não conseguiria. Esse homem mesmo, cujos problemas são tão volumosos, continua cantando e sorrindo ao espelho que lhe mostra uma imagem feliz. Como consegue? Inicia uma nova música e agora ele canta com mais afinação por lhe ser bem mais conhecida e em seu próprio idioma: “Quando o sol bater/ Na janela do teu quarto,/ Lembra e vê/ Que o caminho é um só,/ Porque esperar/ Se podemos começar/Tudo de novo?/ Agora mesmo,/ A humanidade é desumana/ Mas ainda temos chance,/ O sol nasce pra todos,/ Só não sabe quem não quer…” E o engarrafamento não foi suficiente para minar-lhe as forças. As preocupações não foram fortes o bastante para vencer-lhe e as dificuldades não esmoreceram sua fé. Agindo novamente contra as regras, murmuro a resposta que ele necessitava para seus problemas. Ele coça o ouvido, faz uma cara de incredulidade e logo telefona para esposa: “Você não sabe a ideia que tive!” Sorrio, deixo-lhe com a nova onda de alegria que lhe toma o espírito. Seria isso que se denomina esperança? Algumas vezes, nós anjos gostaríamos de ser dotados de sentimentos como os humanos, ser frágil e consciente. Ter esse corpo sólido que comporta algo tão superior e mágico como o espírito. O homem não tem consciência do milagre que ele é. E queria poder chorar, mesmo de tristeza, mas me seria melhor de alegria e entender como uma dor ou uma felicidade é tão grande que extrapola o corpo. Extravaza pelos olhos em gotículas de alma, que salgam a boca e materializam também no paladar a emoção sentida.

Na esquina, uma velha prostituta vende seu corpo, mas mantém para si, somente, seu espírito. Ela masca chiclets já sem sabor há uma hora. Uma maneira de enganar a fome. E rezar para ela é uma forma de absolvição. Procurar salvação, quando entre os homens foi esquecida nas sarjetas a esmolar dinheiro para alimentar-se. É certo que haveria outras profissões um tanto mais dignas, para pessoas iguais a ela, gente a quem a humanidade fecha os olhos. Mas será que a humilhação de uma vida de doméstica seria um tanto melhor que o preconceito sofrido por ela ser uma “mulher da vida”? Escuto as penas dessa pobre mulher. Desse corpo deformado pelo tempo e tomado por doenças venéreas. Ela nem sabe que coloco minha mão sobre seu ombro. A mulher sente um leve frio e um formigamento. É o que nós anjos costumamos provocar nos seres em que tocamos. Lanço sobre ela meu perdão. Sei que cometerá mais uma série de vezes o mesmo pecado. Mas toda a alma é digna de ter suas falhas remidas. E os homens tem razão para errar. São muito fracos! Não nos enxergam, portanto é difícil crer. Por tudo isso, eu tenho piedade para com esses seres solitários. Pois não estão em conexão com outros de sua espécie como nós membros das milícias celestes estamos. Um garotinho passa veloz em seu skate, posso ouvir seu pavor de chegar atrasado em casa. “Minha mãe vai me matar!” Divirto-me com sua preocupação. A mãe apenas ralhará com ele e ordenará que se deite mais cedo. Os jovens são exagerados. “Há algum tempo atrás/ poderíamos mudar o mundo.” Como diria a canção. Na juventude os homens creem-se invencíveis. Só tomam consciência de si mesmos com o amadurecimento. Então, se recolhem ao seu corpo frágil. Preocupam-se com o futuro. Detêm-se a organizar um lar. Formam uma família. Não querem mais ser sozinhos. Conectam-se ao toque por não poderem fazê-lo com o imaterial. Uma jovem garota corre com uma pilha de livros nos braços. “Poderia ter sido diferente…” Dizem-me seus pensamentos. Ela toma uma caneta escreve algo numa caderneta. E vou ao seu encontro. Seu coração bate machucado. E, sem respostas para as dúvidas que lhe assaltam, corre como se assim pudesse fugir do mundo que a persegue. Eu a deixo prosseguir. Acho que, nesse exato momento, é melhor para ela estar apenas consigo mesma. É hora. Meus poderes “ficcionais” estão acabando, não sou mais anjo, retorno a minha personagem, a escritora, que sangra e chora, a que não tem mais a onisciência dos seres divinos. Pecadora que sou, resigno-me à posição de obra de Deus, agora ouço tão somente meus próprios pensamentos. Desejando, porém, a visita de um anjo que me murmure as respostas de minhas próprias questões ao pé do ouvido.

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