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Dom Quixote

Giordana Bonifácio

Sou em vida apenas uma pobre errante,

Que sem destino segue seu caminho,

Lutando contra os mais terríveis moinhos.

E não há perigo ou penar que me espante.

 

Minha armadura são meus tristes poemas.

Meu elmo são os sonhos que trago comigo.

Com minha lança enfrento os inimigos.

E mesmo que a honra seja-me um problema,

 

Não há nada que este meu coração tema.

Trago comigo a pena que é, ainda, espada.

E a vida poetar é meu único lema.

 

Pois eu sou como o andante cavaleiro,

Que por seus feitos não ansiava por nada,

Pois só com o amor ele estaria inteiro.

 

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Dom Quixote

Giordana Bonifácio

Desgraçado herói foi o fidalgo Dom Quixote.

Deixou-se levar pelas fantasias e sonhos.

E, ainda, muito mais restou nosso herói tristonho,

Quando sua alma e coração entregou  como dote,

 

À  Dulcinéia, que não pagou com mesma moeda.

O cavaleiro andante, lutou com gigantes,

Não houve um  benfeitor tão nobre e valoroso antes.

Sofreu algumas derrotas e penou com quedas.

 

Mas ganhou valioso elmo em perigosa batalha.

Mesmo sendo uma simples bacia de barbeiro.

E que tal elmo muito pouco ou nada valha,

 

Deixou tão atrapalhado cavaleiro inteiro.

E não permitiu que ele vestisse mortalha .

Honrado e desastrado, andante cavaleiro.

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“Não há memória de que o tempo não dê cabo,

 e nem dor que a morte não consuma”

Miguel de Cervantes, Dom Quixote

Memórias de um futuro presente

Giordana Bonifácio

Muito me seria agradável se a memória não fosse esse mecanismo falho de registrar as impressões do mundo. Acontece que ela converte os fatos, transforma ao seu bel prazer o que sentimos. Às vezes doura a pílula, outras, intensifica a dor. Contudo, nem adianta manter as lembranças por muito tempo, tudo em breve vai se apagar, o passado resta preso ao passado, esquecido nos tempos idos que não voltam mais.  Mas é saudável esquecer. Não seria bom para nossa saúde mental gravar como uma tatuagem as recordações em nós. Tudo há de ser esquecido. A dor vai embora, mesmo a mais intensa, que deixou as marcas mais profundas, vai se esvair com a areia da ampulheta. O tempo é um cicatrizante excelente: as feridas se fecham, as lágrimas secam, o coração volta a bater- livre? Será que também nos concede as chaves que nos libertariam desses grilhões que nos acorrentam? Talvez só modifiquemos os cárceres que nos cerceiam.

Minhas lágrimas, que anteriormente jorravam caudalosas e perenes, secaram e meu coração conformou-se. Estamos menos aflitos, posso assegurar.  E nem mais me machuca um passado feito de sonhos e planos que não se concretizaram num futuro que já é presente. A vida se constrói e reconstrói. Meio apavorados com as incertezas e expectativas, somos cautelosos, andamos lentamente e não nos lançamos abruptamente nos caminhos. Diversamente do que faria Dom Quixote, que, sem pensar nas consequências de suas aventuras, investia contra os inimigos para concretizar a justiça, mesmo que submetida ao seu julgo torto pela loucura. Acho que o mundo seria menos cruel se pudéssemos vê-lo com olhos insanos. A razão retira a mágica que encobre a realidade, (vamos dar asas a nossa fantasia?) É tão difícil pensar… E doloroso existir. Se pudesse montar sobre meu Rocinante e sair da minha zona de conforto para combater moinhos de vento, estaria mais feliz?

O mundo nos esmaga a cada segundo. Doloris rem facilis memoratu est*. Porém, mesmo dela logo nos esqueceremos. O tempo é a borracha mais eficiente que existe. (O tempo existe?) A minhas lamentações são um salto para o futuro. Gravo meus sofrimentos no ciberespaço. Muito tempo depois, retomo estes textos e rio com as dores que passei, quando nem machucam mais. No futuro assistiremos ao passado, ou aquilo que nos resta dele, o que não foi ainda esquecido, e a dor parecer-nos-á menos intensa. Mesmo assim é bem mais fácil recordar das feridas que dos sorrisos. A verdade é que os anos correm acelerados e pressionam nossa mente  com a força que imprime o envelhecimento. Não vou dizer que é agradável a corrida desenfreada dos ponteiros do relógio, mas apenas que é inevitável. O problema é que o tempo nos determina seu ritmo. Estamos sempre correndo. Nunca há, para nós, momentos que possamos aproveitar com atividades prazerosas. A vida desse presente, que já foi futuro, é extremamente penosa e estressante. É o preço que pagamos pela civilização.

Nós refreamos nossos impulsos primevos para que nos tornemos mais civilizados. A grande velocidade da vida nos impede de sermos simplesmente homens. Seres que devem aproveitar de seu corpo como qualquer outro. Porém, nos desfazemos de nossos instintos animais pelo bem da sociedade. E a máquina que governa o nosso mundo é o relógio. O tique-taquear que nos obriga a seguirmos no fluxo da cidade, junto à multidão que segue pelas ruas, correndo contra o tempo e a favor deste. Sem descanso, vamos apagando nossas memórias e evoluindo – todavia, os caminhos por que seguimos não serão nunca os mais seguros – nossa busca pelo futuro faz-nos desprezar o passado. E a experiência dos mais idosos não é sequer considerada. Queremos o vigor dos jovens, a coragem e a presteza que, mesmo importantes, são acompanhadas por insipiência e arrogância. Nossa incrível tecnologia não existiria caso não se levasse em consideração o conhecimento de cientistas de séculos ou, mesmo, milênios atrás. Se tivéssemos apagado completamente nossa memória, não teríamos alcançado esse grau tão elevado de evolução. Chegamos aonde nenhum homem jamais chegou, estamos vivendo um futuro que nos foi prometido nos cinemas e que acreditávamos que jamais alcançaríamos.

O futuro é aqui e agora. E é no passado que encontramos as bases de nosso pensamento. Contra as armas fatais do tempo, construímos mecanismos para manter vivos em nós o passado. Registramos os acontecimentos. Gravamos em folhas de papel os fatos e pesquisas científicas. Agora, com as nossas máquinas brilhantes de códigos binários, as marcas e descobertas de ontem se tornaram indeléveis. São um auxílio ao nosso computador biológico programado para esquecer. É certo que é, para o cérebro, essencial apagar as lembranças. Caso assim não o fosse, seria impossível ao homem sobreviver. Seria necessário termos uma mente muitas vezes maior para registrar todos os fatos e conhecimentos que permeiam nossa vida. Impossível, asseguro-lhes. A magia é irmos mudando constantemente. Aprendendo e desaprendendo. Semeando as palavras para que delas nasçam histórias fantásticas, que logo serão também esquecidas. E isso não é em razão de qualquer intenção nossa. O tempo a tudo apaga. Logo aquela foto amarelada não mais nos significará nada.

Nosso coração é o relógio do nosso corpo. O ar que respiramos é a razão de nossa vida e causa de nossa morte. E não podemos sequer nos negarmos a envelhecer. Em breve, nossos corpos irão sentir o peso dos anos. Envergaremos como a grama sob o vento. E o passado vai conosco para o túmulo. Não temo a morte, mas estou apavorada frente ao inevitável envelhecimento. Por que me creio muito jovem ainda para sofrer os efeitos do tempo sobre mim. Todas as noites eu inquiro ao espelho se há alguma nova marca em meu rosto, mas a imagem que ele me mostra não é aquela que conhecia. De quem é este reflexo que o espelho mostra-me? Não sou eu, não sou eu! Porque as memórias teimam em desmentir-me? Fui eu quem me fez assim. Fomos nós que nos fizemos dessa maneira. Não há como lutar contra esse inimigo invisível e fatal. O tempo existe em nós. Está inserido em cada ínfima célula de nosso corpo. Estamos todos destinados a envelhecer.

A dor que, muito embora seja mais fácil de se recordar, também será esquecida. É composta de grãos de vida a areia que escorre da nossa ampulheta. O tempo que nos resta é, a cada segundo, menor. As lembranças de nossa vida estão fadadas a desaparecer. E nada do que fomos restará aqui. A história é escrita por poucos. A humanidade, em sua grande maioria, permanecerá anônima. Pessoas que passam por este mundo sem deixar qualquer sombra de sua existência. Eu estou perdida nos sonhos porque navego. Não quero ser lembrada. Mais fácil para mim é ser esquecida. Não  quero que se recordem de mim, não se apeguem ao que sou. Porque não sou nada, sou o intangível sonho que foge de nossas mentes tão logo acordarmos. Mesmo que lute contra o tempo, que queira submetê-lo ao meu desejo, eu sei que sairei deste embate vencida e jamais vencedora. A borracha do prosseguir irrefreável dos anos é a força de sua vontade. Não há como escapar. Sou um pequeno Davi enfrentando o poderoso Golias. Não há como derrotar esse gigante. Melhor seria conformar-se com nossa sorte. Não tentar limar as marcas que o tempo deixa em nossos rostos com cirurgias dolorosíssimas, não enriquecer as indústrias, comprando cremes anti-idade cujos efeitos são tão somente paliativos. E não sofrer com o passado que se foi e com as memórias de um futuro presente. A temporariedade de nossa existência é um fato da vida. Mesmo que jamais estejamos preparados para o inevitável e improrrogável fim.

*A dor é coisa fácil de ser lembrada.

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