Posts Marcados Com: deus

space-stars-galaxy-universe-andromeda-nebula

O sempre e o nada

Giordana Bonifácio

Para mim, o sempre é tão só um nada infinito.

Como o universo é um vazio que contém o tudo.

E não adianta procurar com tantos estudos,

Um conceito que seja mais chique e bonito.

 

Não tente achar no imenso vazio uma resposta.

Já que não caem do céu como estrelas cadentes.

Não é possível achá-las só com nossas mentes.

Porque somos de um Deus brincalhão uma aposta.

 

Não temos ciência que viver é só uma piada.

Levamos nossa curta vida a sério demais.

Como se houvesse algo mais a esperar nesse cais.

 

A existência do mesmo modo que foi criada,

Ser-nos-á, brevemente, também retirada .

Assim, siga bem mais leve na sua jornada.

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , , , | Deixe um comentário

Covardia

Giordana Bonifácio

 Minha grande covardia muito me envergonha,

Porque a morte a  mim se apresenta medonha.

Não consigo,  tem de haver um meio diferente

Em que a morte não lhe seja urgente e inerente.

 

Estou acuado e ferido na vil armadilha.

E não creio que Deus perdoe uma alma maltrapilha.

Novamente me encontro aqui: entre a cruz e a espada.

E para salvar-me não posso fazer nada.

 

Paralisado, e preso neste labirinto,

Não importa a dor que neste momento sinto.

Sou um pobre condenado frente a guilhotina.

 

O pior que minha pena não foi repentina.

Como agora deste horror salvar-me, eu não sei.

Hoje só estou colhendo tudo que um dia plantei .

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , | Deixe um comentário

Começos e fins

Giordana Bonifácio

Para tudo haverá sempre um começo.

E não se pode escapar de seu fim.

Claro que haverá  muitos tropeços.

É que cheia de perigos a vida é enfim.

 

Não adianta fugir do nosso destino.

Já que é ele que nossa vida guia.

Se muitas vezes frente a ele amofino,

É porque não acho ser a certa via.

 

Mas Deus, por linhas tortas, reto escreve.

E Ele nossos começos determina.

Quer fazer nossa vida bem mais leve.

 

A fim de estarmos livres da  rotina.

Covarde é quem contra ela não se atreve.

E pensa que na dor tudo termina

 

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , , , | Deixe um comentário

Noite

Giordana Bonifácio

Um gato lamenta-se à luz da lua.

Um estranho silêncio cobre a  rua.

Um rato corre pelas vazias vielas

Um homem em sua casa ascende velas.

 

Uma moça espera o ônibus na esquina.

Uma criança chora com voz pequenina.

Uma velha sai com seu terço da igreja.

Uma jovem pede à Deus que a proteja.

 

Ruas à noite em que só ecoa a solidão.

Caído no chão um ébrio pede perdão.

As estrelas no céu brilham promessas.

 

É que à noite nós vemos às avessas.

Enxergamos o que está mais profundo.

O que escondido está de todo mundo.

Categorias: Uncategorized | Tags: , , | Deixe um comentário

A alma encarcerada

Giordana Bonifácio

Muitas palavras no infinito perdidas,

Palavras que na mente não se gravou ou escreveu.

Versos amargos que hoje são simples feridas,

Estão sob do esquecimento o pesado véu.

 

De tanta solidão se compõem estes sonhos,

Devaneios vãos que crescem no calor da tarde.

Compomos esta turba de seres  tristonhos,

Um conjunto de estúpida gente covarde.

 

Sou um ser deveras fraco também, não vou mentir

À minha debilidade, não nego, sou humano.

Meu coração já não é  mais capaz de amor sentir.

 

 

Meu cérebro converteu-se em um órgão insano.

Será que Deus com estes males vai consentir?

Sou cândida alma presa em um corpo profano.

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , | Deixe um comentário

Casa grande e senzala

Giordana Bonifácio

Estava ébrio é verdade, mas não fui eu quem começou aquela briga. Quando dei por mim, cadeiras voavam, sangue e dentes quebrados respingavam por todos os lados. O som de garrafas de vinho estilhaçando acompanhavam os urros de dor e força dos homens que lutavam naquela taberna. Não demorou muito, a guarda real chegou e levou todos presos. Os que tinham “costas quentes”, ou seja, uma pessoa de renome nas altas corporações, como igreja e governo, foram logo liberados. Eu, um mulato filho bastardo do coronel Aguirre com uma de suas negras, fui lançado na prisão sem previsão de liberdade.  Fui despejado numa masmorra úmida e quente que exalava o odor pestilento de fezes e urina. Estávamos na cela, eu, um velho que murmurava algo, (como se rezasse penso eu), e um gordo comerciante acusado de matar a esposa. Éramos todos pobres, mas algo os diferenciava de mim: a cor de sua cútis, a pele que parecia gritar a minha insignificância. Os guardas os tratavam com mais respeito, tinham privilégios como uma cama em que deitar. E acho que até a ração que recebiam tinha menos vermes que a minha. Não me dirigiam, meus companheiros de prisão, sequer uma palavra, como se eu não tivesse o direito de estar no mesmo recinto que eles. Sei que se houvesse um covil para arremessar os negros que cometessem crimes, como uma grande senzala prisional, eu estaria lá. Longe dos brancos, longe do mundo. Esquecido por Deus, desprezado pela sociedade.

Murmurava, toda noite, durante o cárcere, uma canção que minha mãe cantava para mim, nas noites frias de inverno, quando, com os outros negros do engenho, ficávamos na senzala a relembrar nossa amada terra natal: a mãe África. É uma música numa língua que nunca aprendi. Sei proferi-la por tanto ter ouvido minha mãe cantar. Ela dizia que era a voz de um povo muito antigo cheio de honra e glória. Ficava imaginando que, há algum tempo atrás, os negros eram importantes. Não apenas “coisas” vendidas nos mercados como animais. Eu não sabia ainda que era filho do coronel naquela época. É verdade que era muito estranho que eu tivesse olhos verdes. Nenhum negro da senzala os possuía. Nem o bom homem que me adotou como filho. Um negro muito forte, líder não pronunciado dos escravos do coronel. Ele deu-me várias vezes sua ração quando não traziam comida o suficiente para todos os escravos comerem. Minha mãe era uma mulher muito bonita. Foi logo escolhida pelo Coronel Aguirre para frequentar sua cama. Quando ela engravidou, despejou-a na senzala, para sofrer como todas as outras negras. Eu nasci no mês de junho, uma semana depois, a Sinhá dava à luz ao coronelzinho: Benjamin. Eu fui denominado Antônio, pois meu nascimento se deu no dia dedicado ao Santo. Juntos, meu irmão e eu, tivemos vidas diversas, mas brincávamos e éramos muito unidos, quando eu não tinha ciência de sermos parentes. Dividíamos inúmeras aventuras. Porém, mesmo mais novo, ele era sempre o comandante.  Eu não poderia ser jamais superior a um branco. Carrego na pele o peso da minha maldição.

Acontece que o tempo passou. Benjamin foi para escola. Deixou o engenho por muitos anos. Eu permaneci com os outros escravos, cortando cana. Plantando meu sofrimento que adoçaria a boca dos brancos. Entretanto, a juventude me fez rebelde. Não aceitava como não aceitarei jamais ser denominado de sub-raça porque tenho a pele negra. Fiquei semanas na prisão, sem que houvesse quem me concedesse liberdade. (Mesmo que saiba não ser livre na realidade). Quando nem comida recebia mais dos guardas, apareceu um homem muito bem vestido, elegante, creio que é a palavra correta, que me libertou da cadeia. Ele olhou para mim com olhos inquisidores e tive vergonha dos trapos que eu usava. Logo que saímos, perguntou se eu recordava-me dele. Disse que não, ele tirou um cachimbo do bolso, preparou o fumo metodicamente e acendeu-o. Lançava baforadas compassadas e ficou em silêncio por algum tempo. Depois, sorriu e foi quando o reconheci. Não poderia me esquecer daquele sorriso jamais. Era Benjamin, o coronelzinho. E numa efusão de felicidade, quis abraçá-lo. Ele evitou que o tocasse. Então, dei-me conta de meu papel a tempo de me conter. Ele disse-me que havia se formado em Direito e agora era advogado. Soube que o pai dele tinha me dado alforria, (um gesto de grandeza quando minha mãe morreu no parto de minha irmãzinha), e que eu fora feito prisioneiro. Perguntei por que motivo o Doutor havia me libertado. Foi quando ele informou-me que o coronel morrera  e que estava precisando de um negro como eu para trabalhar nas terras que ele herdou. Eu perguntei por minha irmã. Ela já deveria estar uma mocinha àquela altura. Ele disse que sim. Tinha uns dez anos e era dama de companhia da Sinhá. Emocionado, porque não via a minha irmã por tantos anos, chorei. Benjamin ficou irritado que eu o estivesse envergonhando em público, tive de secar as lágrimas e engolir meu sentimento. Aceitei a proposta do coronelzinho, afinal, não tinha aonde viver, nem como me manter, melhor seria trabalhar, mesmo que por uma ninharia, para meu irmão.

Acontece que acabei por perceber que minha irmãzinha não estava feliz. Ela era uma menina muito tímida e chorosa. Ela não era filha do coronel, mas do bom negro que me adotou como filho, que já havia morrido, pois um escravo não possui uma vida lá muito longa. As doenças chegam devastadoras. E nem sempre os senhores de engenho querem gastar com a saúde de seus escravos. Minha irmã se chamava Rebeca e havia herdado a beleza de minha mãe. Pedi para que ela viesse morar comigo na senzala, para ficarmos juntos, mas Benjamin não permitiu.  Ele não sabia que eu também era filho do coronel. Minha mãe contara para mim somente, me fazendo prometer que jamais contaria a ninguém. Eu achei muito estranho a recusa de Benjamin, porque ele não costumava me negar o que pedia. Eu não pedia muita coisa. Dormia na senzala com os escravos porque não cabia a um negro dormir com os senhores na casa grande. Eu só queria minha irmãzinha perto de mim. Isso não era algo muito difícil. Com o tempo percebi que Rebeca estava cheia de hematomas. E partindo disso comecei a averiguar. Acabei por pensar que a Sinhá estava maltratando minha irmã, o que achei muito difícil, visto que ela era uma dama muito calma e solícita. Jamais houve qualquer reclamação sobre ela de nenhuma mucama. O problema era que, por mais que perguntasse à Rebeca quem estava fazendo aquilo com ela, minha irmã jamais me respondia. Dizia apenas que não era nada. Uma noite, entrei na casa grande sem ser visto, para tentar abordar a Sinhá ferindo Rebeca. Sei que poderia ser expulso do engenho, que não é lícito a um negro interferir no tratamento que os senhores dão a seus escravos, porém eu tinha de fazer algo.

Fui caminhando pela casa, aproximei-me dos aposentos da Sinhá e não havia nenhum som. Entretanto, quando estava perto do quarto de meu irmão, escutei gemidos que pude reconhecer como sendo de minha irmã. Não foi possível me conter, eu tinha sangue nos olhos. Arrombei a porta e deparei-me com uma cena terrível. À minha irmã coube o destino de minha mãe: ser a escrava sexual do coronel. Ela era apenas uma criança! Os seios não haviam sequer aflorado!  Não pensei no fato de ele ser meu irmão de sangue, no momento só queria fazê-lo parar! Empurrei-o com toda força para que abandonasse o corpo esguio de minha irmã que ele subjugava. Então começamos a nos engalfinhar. Contudo, eu era mais forte, esmurrava-o com toda a força. Não queria parar. Ele gritava pelos capitães do mato e tentava se safar de minhas mãos. Eu tinha certeza que iria matá-lo. Bati tanto em seu rosto que o sangue pingava desmedidamente. Ele conseguiu soltar-se e tomou um revólver que estava na gaveta do criado-mudo. Ele teria atirado em mim, se eu não houvesse sido mais rápido ao desarmá-lo. Continuávamos nossa disputa. Ele de ceroulas, todo sujo de sangue e eu com os punhos feridos de tanto esmurrá-lo. A essa altura, a Sinhá já tinha despertado com a confusão e corrido para o quarto do filho. Ela gritava desesperadamente pedindo para que parasse e que eu iria matá-lo. Confesso que essa era minha real intenção. Eu queria mesmo ver meu irmão, aquele ser desprezível, morto. Porém, ele não lutava justamente, os capitães do mato chegaram e seguraram-me de modo que não mais agredisse o coronelzinho. Foi tudo muito rápido. Ele se recompôs, enxugou parte do sangue do rosto com um lenço e veio em minha direção. Ele passou a esmurrar-me dizendo que eu estava tentando defender a minha irmãzinha e que ela era a “putinha” dele. E que eu era apenas um negro e que deveria saber qual era meu lugar. Ele falou que minha vida pertencia a ele. E que poderia fazer o que bem entendesse com minha irmã ou comigo. E, por fim, disse que iria me matar na frente de minha irmã. Foi quando ouvi o estampido. Benjamin caiu aos meus pés. Fiquei atordoado, demorou alguns minutos para eu perceber que minha irmã havia atirado no coronel. E quanto ao resto todos já sabem. Essa é toda história Excelência, espero que possa entender o motivo de minhas ações e de Rebeca. Eu suplico: não a condene à forca, mas a mim, que desgraçadamente nasci filho do coronel Aguirre e irmão de Benjamin. Este que se revelou o mais terrível monstro e que, com suas atitudes abjetas, selou sua própria sorte.

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , , , | Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: