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“Um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas”.
O poema sujo – Ferreira Gullar

O conto sujo

Giordana Bonifácio

Este aqui é um conto sujo. Já vou prevenindo. Nada aqui é límpido, mas turvo como as águas do Tietê. O odor que exala deste texto é sufocante. Sinto pena dos personagens aqui retratados. O primeiro deles é uma aposentada na fila de um hospital público. Foi diagnosticada com um câncer há alguns meses. Tenta tratamento pelo SUS, tendo em vista que sua aposentadoria não a possibilita arcar com todas as despesas médicas. A mulher limpou a poeira dos móveis antes de sair. Mas o pó voltou a cobrir a casa inteira. Há algo errado. Faltam remédios e a o equipamento de radioterapia está em manutenção há mais de seis meses. A mulher volta para casa e seus olhos marejados enfrentam o pó. Ela volta a limpar tudo. Mas a sujeira permanece. O que se passa?
Na rua, meninos jogando futebol disputam espaço com a imundice dos esgotos. As obras de saneamento nunca finalizaram na comunidade. O dinheiro escorreu pelas manilhas destinadas aos dejetos humanos. O dinheiro é a podridão do mundo. As crianças brincam entre fezes e urina. O fedor é execrável. De quatro em quatro anos políticos em pele de cordeiro se deslocam para lá. Prometem, beijam crianças e angariam votos. Depois, abandonam a favela, para sempre. Doenças disseminam-se e os meninos, entre os detritos, driblam a miséria com sonhos. Um dia, quem sabe, tornem-se jogadores profissionais e sujem as mãos para sonegar impostos. A honra deteriora-se numa propaganda de tevê.
O Rio Doce morreu soterrado por uma tsunami de lama. Pobre Mariana, encoberta por tanta sujeira, não pode sequer respirar. Um pescador chora sobre as águas turvas de um rio morto. Não consegue mais alimentar os filhos. O sustento da família provinha da pesca. No Rio Doce, envenenado, não há mais peixes. A água potável também se tornou rara. E cara. As indenizações, fruto da maior tragédia ambiental do país, são ridículas. Famílias, que perderam tudo no incidente, têm de sobreviver com apenas um salário mínimo que a mineradora Samarco se comprometeu a pagar aos prejudicados. O tempo passa e a justiça cala-se. Por quê? Têmis submerge nesse horrendo mar de lama?
Um professor tenta limpar seu guarda-pó, mas as nódoas não querem desaparecer. São manchas terríveis: baixos salários, péssimas condições de trabalho, previdência ameaçada, dupla jornada, estresse, doenças ligadas ao ofício e desmerecimento da profissão. A docência é uma vocação, dizem ao professor. Mas, diferente dos religiosos, não faz voto de pobreza quem se torna um educador. Não pode, uma categoria que estuda tanto e trabalha sobremaneira, ser desprezada como são os docentes. Marcas indeléveis que minam o progresso do país. Não sabem, os governantes, que sem educação não há progresso. Pouco se importam com isto, preferem desviar o dinheiro para novas escolas e para manutenção da infraestrutura das já existentes para contas escusas em paraísos fiscais.
A noite apavora, mas mesmo na escuridão, garotos sujos passeiam com charutos de crack e garrafas cheias de cola de sapateiro. Nem se lembram mais há quanto tempo vivem nas ruas. Para conseguir a droga, cometem furtos e roubos. Trocam tudo por entorpecentes. Até mesmo a vida. Não sabem o que é asseio. Sobrevivem feito animais nas crackolândias. A podridão espalha-se nesses espaços. Entre lixo e excremento tornam-se sub-humanos esquecidos no buraco negro do vício. Vez em quando a polícia passa por ali. Mas diante de tanta miséria, eles fingem não ver. A justiça faz-se cega quando ela quer. Uma menina com roupas maltrapilhas e encardidas prostitui-se para comprar a pedra da morte. Necessita dela, pois se fosse viver sóbria, não suportaria o peso da pobreza. A morte por overdose poderia ser até um alento. O corpo se deterioraria algum tempo a céu aberto até o IML vir recolhê-lo. Enterrada como indigente, ninguém questiona se aquela falecida foi gente algum dia. Ela deveria ter um nome. Mas ninguém se importa. Morreu, fazendo a alegria dos urubus.
Um mendigo numa noite fria de fim de ano foi queimado vivo por adolescentes de classe média que queriam “zoar”. Marcas de fuligem e trapos queimados restaram no lugar da morte. “Mas era só um mendigo”. Diriam os jovens quando apreendidos. Será que a pertença ao gênero humano excluem os moradores de rua? Matar é algo tão trivial assim? O ponto de ônibus em que dormia o homem, (sim ele era gente), ficou tomado por cinzas escuras e pelo odor de carne queimada. A morte é feia, não é como romantiza o cinema e a televisão. É suja e fétida, como o é quanto a qualquer animal. Embora, não consigamos admitir, não somos mais do que os seres que denominamos bestas. Porque, às vezes, ser humano é sórdido demais, podre demais para admitirmos.
Pessoas se acotovelam dentro de um ônibus lotado. O odor de suor é insuportável. Voltam do trabalho encardidas das tarefas do dia. Espremem-se como sardinhas em lata. Mas nada é tão ruim que não possa piorar: o ônibus é assaltado no meio da viagem. O ladrão obriga os passageiros a deitarem-se no chão. O que foi muito difícil, pois não havia sequer lugar para estarem em pé. A perversidade do bandido é incomparável: pisava com os pés enlameados sobre os corpos apavorados para tomar-lhes celulares e outros objetos de valor, deixando pegadas nas roupas das pessoas. Partiu, desfalcando as vítimas até de seu amor próprio. “Melhor ser pisoteado do que morto”. Pensou o estagiário que acabara de receber o salário. Ainda que perdesse o valor de um mês de trabalho, estava feliz de estar vivo. Apesar de sujo. Mal sabe ele, que há certas manchas que nem mesmo o melhor sabão em pó não pode tirar. Estas ficam na alma para sempre.
Um homem embriagado volta para casa tarde da noite. Reclama da janta fria. Exala um cheiro desagradável de álcool. A mulher tenta explicar que a comida esfriou porque ele demorou a chegar. O homem, alterado pela bebida, age com extrema violência. Dá um soco no rosto da esposa. Depois continua, com um variado repertório e brutalidades, a chutá-la e golpeá-la. A mulher, encolhida no chão, espera que o acesso de raiva do marido acabe. Depois desta cena deplorável, ele cospe na esposa caída. E ainda alerta: “quero o jantar pronto em cinco minutos, sua vadia”! Com o rosto inchado e ensanguentado, a mulher levanta-se e corre para preparar o jantar. O sangue escorre do nariz quebrado e ensopa-lhe a roupa. Mas ela só se preocupa em alimentar o brutamontes do marido. Porque ela não quer mais apanhar. As amigas diziam-lhe para abandonar o esposo troglodita. Mas ela tinha medo não conseguir se manter e aos filhos. A necessidade impingia-lhe o sofrimento. O sangue não estancava e pingava sobre o piso. A pobre mulher, aflita, corria com o jantar para limpar aquela sujeira, antes de o marido perceber que ela emporcalhara o chão.
O mundo deteriora-se numa imensa podridão. O mal cheiro até rescende no ar. O homem é “um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas”. Fedendo a mijo e bosta, um bêbado grita: “de que tecido é feita a carne do coração”? Então, eu recordo-me que nosso corpo é feito de carne e osso. Só isto já justifica toda a sujeira sob o tapete da sociedade. Mas a vida resiste “a cada nova manhã nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais”, outro prematuro, desprezado no lixo, é resgatado com vida. Graças a Deus! Eu, contudo, desde logo, pergunto-me, como será a vida deste pobre menino, que já se inicia triste? Posso até vê-lo, sujo de líquido amniótico e sangue, entre restos de comida e ratos, chorando de frio e de fome. A vida, por si só, é um poema sujo. Já pré-anunciara Ferreira Gullar. Nas cidades, a poluição se estende do ar ao leito dos rios. A cidade cobre-se de lixo. O homem cobre-se de lixo. E toda a humanidade chafurda nos requintados chiqueiros que erigiu. Entre o monturo desta falsa construção minha voz se eleva: onde está a pureza que me prometia, ó Deus, Rei de toda criação? A resposta cai numa chuva chorosa, que lamenta a derrocada da civilização.

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“Hulk esmaga”!
Hulk

Foi sem querer!

Giordana Bonifácio

Pedro feria as pessoas, não importava que fosse na escola, na rua, brincando de pegar, ou, em casa, quando estava com sua família. Ficava nervoso e batia no que estivesse na frente. Nem pedia desculpas, dizia só: “foi sem querer”!
Ficava irritado por ninguém mais querer brincar com ele. Pedro estava convencido que não fazia mal a ninguém.
Sua irmãzinha tinha medo de Pedro. Quando ele se aproximava, ela fugia para os braços da mãe.
Pedro não fazia por mal. Não sabia ser cuidadoso com as pessoas. Não queria lhes ferir, mas ele não controlava sua força.
Muitas vezes, ficava com bastante raiva, por não ter biscoitos antes do almoço, por não poder assistir televisão antes de fazer o dever, então, descontava na primeira pessoa que via pela frente. Quando batia em alguém, só repetia: “foi sem querer”!
Até Salsicha, o cachorrinho da família de Pedro, sofreu com a ira do menino. Levou, de Pedro, um chute bem no bumbum e saiu latindo de dor e mágoa. O filhotinho gostava tanto do dono!
Pedro, não era mau. Era um menino normal. Gostava de sorvete de chocolate e balas de amendoim. Era fã de super-heróis e, um dia, queria salvar o mundo.
Mal sabia que antes de socorrer o mundo, tinha de salvar a si próprio. É, porque estava se tornando um menino sozinho. Ninguém queria ficar perto dele. Quem quer levar um soco sem motivo? Estar perto de Pedro era um perigo!
Pobre menino. Naquela tarde, ele empurrou um coleguinha da escola que acabou com um machucado na testa ao cair. Foi então que os professores pediram aos pais de Pedro para virem à escola.
Pedro ficou com medo. Pensou que iria ficar de castigo pelo resto da vida. Imaginou-se bem velhinho preso dentro do quarto sem poder ir jogar bola como gostava de fazer.
Mas, ainda que fosse uma falta grave, a escola não queria castiga-lo. Na verdade, queriam ajuda-lo. A professora, os pais de Pedro e uma doutora chamada pela diretora de “terapeuta” conversaram por horas, na sala do orientador, sem a presença do menino. Pedro roía as unhas de tão assustado. Foi então que o chamaram para conversar.
Pedro entrou encabulado. A terapeuta sorriu para ele. “Ela era até legal”, pensou Pedrinho. Ela perguntou se estava tudo bem e se poderiam falar um instante. Pedrinho balançou a cabeça: sim.
Então ela perguntou por que ele tinha machucado o coleguinha. Pedrinho disse:
– Eu estava com muita raiva. Joaquim tinha rasgado meu desenho.
– Joaquim era seu coleguinha, certo? Pedrinho disse que sim.
– E você acha certo o que fez? Perguntou, novamente, a terapeuta.
-Não, mas eu disse que foi sem querer! Respondeu o menino.
-Muitas vezes fazemos coisas sem querer mesmo. Como quebrar um vaso por acidente. Ou rasgar o trabalhinho do outro. O seu coleguinha rasgou seu desenho porque quis? Falou com uma voz bem tranquila a doutora.
-Não, ele queria mostrar para a professora e rasgou sem querer. Disse Pedro numa voz bem fraquinha.
– Calma, Pedrinho. Não estamos aqui para brigar com você. Na verdade, a gente quer que você aprenda a controlar sua raiva. Disse a diretora.
– Sei que as vezes a gente fica nervoso e quer descontar tudo que sentimos em alguém. Mas já pensou se fizéssemos isso? Seria uma tremenda confusão. Juntou a doutora.
– Eu disse que foi sem querer. Disse o Pedrinho já chorando.
– Nós sabemos. Temos certeza que não pensa quando faz algo assim. Sua mãe disse que você já machucou a sua irmãzinha e até chutou o cachorro. É verdade?
– Ela estava na frente e o Salsicha estava latindo. Enxugou as lágrimas com as costas da mão.
– Nem sempre a gente pode agir com raiva. Sabe o Hulk? Sua mãe disse que você gosta de super-heróis. É verdade?
– É. Tenho um monte de bonecos. Tenho o Capitão-América, o Thor, o Homem-Aranha, o Wolverine e também tenho o Hulk. Falou Pedrinho bastante orgulhoso.
– Você sabe que o Hulk só se transforma quando está com raiva, não é?
– Sei. Pedrinho estava curioso, será que ele se transformaria no Hulk?
– Bom, você também se transforma quando está nervoso. Você tem que segurar. Se não, vai machucar muita gente. O Hulk não gosta quando fere as pessoas, não é? “A doutora sabia “um monte” de super-heróis. Que legal”! Pensou Pedro.
– Não. Ele fica triste. Pedrinho, disse bem fraquinho e baixou a cabeça.
– Você fica triste quando machuca alguém, mesmo sem querer? A doutora olhou para o menino bem nos olhos e Pedro, envergonhado, disse:
– Fico.
– Então, para não ficar triste, a gente não pode ficar nervoso como o Hulk e descontar nos outros. Vou contar para você um segredo: quando fico com muita raiva eu pego uma folha de papel e amasso bem amassadinha com as mãos. Ou, então, pego uma almofada e fico batendo nela até me sentir calminha, calminha. Não podemos quebrar as coisas e machucar os bichinhos, os amigos e a irmãzinha. Quer tentar? A doutora pegou uma folha branca e deu para Pedrinho amassar.
Pedrinho pegou a folha e disse como o herói: “Hulk esmaga”! E fez uma bola de papel com toda a força.
– Agora está mais calmo? A doutora perguntou, com um sorriso. Pedro pensou que ela era mesmo muito legal e respondeu:
-Sim!
-De agora em diante, quando ficar com raiva, o Hulk só esmaga folhas de papel e a almofadas. Combinado?
– Combinado. Respondeu Pedrinho bem feliz. Não iria ficar de castigo. E o melhor, ele tinha o poder do Hulk, mas como todo super-herói, tinha de manter as pessoas a salvo. Agora, para não machucar ninguém, iria amassar folhas de papel até toda raiva passar.
-Ah, quando algum acidente acontecer, não fale que foi sem querer, mas me desculpe. Está certo? Disse a doutora com uma piscadela.
Com o tempo, Pedrinho foi aprendendo a controlar a raiva. E algum dia, sabia, ele iria salvar o mundo.

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“Sim, do mundo nada se leva.
Mas é formidável ter uma porção
de coisas a que dizer adeus”.
Millôr Fernandes

Vamos, vamos, Chape!

Giordana Bonifácio

Mãe, queria lhe dizer que estou bem. Não senti nada no momento do acidente. Não esqueci de rezar. Sabia que Deus não me abandonaria. Eu e meus amigos estávamos todos muito felizes, afinal, disputaríamos nosso primeiro campeonato internacional. Vivíamos nosso melhor momento. Nosso time, que era considerado pequeno, foi grande! Estávamos voando para a glória. Tudo parecia favorável. Estávamos muito entusiasmados. Sabe, mãe, eu esperava até dedicar um gol à senhora. Seria lindo. Eu tomaria a bola no meio do campo, driblaria todos os zagueiros e ao chegar na meia-lua adversária, lançaria uma bomba indefensável no ângulo ou “onde a coruja faz o ninho”, como dizem os narradores dos jogos de futebol.
Eu queria só ver a torcida indo à loucura. Pularíamos eu e meus amigos uns sobre os outros para comemorar o gol. No fim da partida, levantaríamos a taça, nosso maior prêmio, nossa melhor aquisição. Seríamos ovacionados na nossa volta. Todos estariam a nossa espera na cidade. Seríamos recebidos como heróis. Passearíamos, em carro aberto, segurando a taça e comemorando com o povo a nossa vitória. Seria lindo. Comovente. E você, mãe, choraria cheia de orgulho de mim.
Eu sei que o time seria lembrado para sempre por nossos feitos. Era nosso ano. Tudo contribuía para que isto ocorresse. Mãe, você gabar-se-ia para todos: “esse é meu filho”. Também exibiria com orgulho as fotos da nossa vitória. Eu levaria como lembrança a camisa do time derrotado a qual o meu filho recebê-la-ia como herança.
Meus dias de glória só estariam começando. Devido ao meu destaque, seria sondado por equipes europeias. E poderia até escolher em qual jogaria no ano seguinte. E não pararia por aí. Em alguns anos, meu destaque no futebol internacional levar-me-ia à Seleção Brasileira. A próxima Copa do mundo seria nossa e eu faria os gols da final. Tite ficaria muito feliz de trazermos o Hexa tão esperado. Eu envelheceria jogando futebol. Talvez, até me tornasse técnico no futuro. Sempre ligado ao meu esporte favorito que se tornou a minha vida.
Tudo isto teria acontecido, se a morte não tivesse vindo cedo demais. Como eu dizia, está tudo bem. Mas não como você gostaria. Eu morri na queda do avião que fez todo o mundo chorar. Não ganhamos o título, não fiz o gol decisivo, não trouxemos de volta a taça. Na verdade, só meu corpo inerte e sem vida voltará, para que a senhora pranteie meu falecimento. Sei que dói. Mas não tem jeito. Quem somos nós para discutir os desígnios de Deus? Chegou a minha hora. Foi o que me disse um anjo nos meus instantes finais. Deixei que me levassem. E fui. Mas não tema, sempre estarei com vocês.
Aqui de cima, estou vendo o mundo todo entristecido pelo ocorrido. Foi um choque, admito. Também tive medo de partir. Foi difícil. Queria ficar, tinha tanto pela frente. Contudo, não pude ir contra à morte. Ninguém pode. E ela nem é tão feia quanto pintam. Não é um esqueleto cheio de ossos, coberto com uma túnica negra, armado com uma foice. É, na verdade, um anjo que nos toma no braço e leva-nos no colo, em segurança, para o lado de Deus.
Estava com medo, pensei que iria doer. Mas não dói. A gente sequer sente. Passa num segundo. De repente, a vida passou. Sei que vocês também pensam assim. Mas não creia que estão sozinhos. Eu estarei com vocês, não vou lhes abandonar jamais. A vida não acabou, ela continua. Você e os demais estão feridos, mas a dor vai passar. Não há mal que permaneça. A saudade é eterna, eu sei. Mas a vida é infinitamente pequena, não sabe o quanto. Isto só compreendi aqui em cima.
Voltaremos a estar juntos um dia. Mais rápido do que imagina. Contudo, não pense nisto. Aproveite a vida, tal qual eu fiz até os momentos finais. Fui muito feliz. Você proporcionou-me isto, mãe. Não seria nada se não fosse por você. A única que acreditou em mim desde o começo.
Eu queria poder agradecer-lhe por tudo que fez por mim, mãe. Você teve fé, foi forte nos momentos em que fui fraco e fortaleceu-me quando fraquejei. Agora sou eu que peço para que volte a ser o colosso que é. A vida tem dessas coisas, nunca esperamos que a morte ocorra. Mesmo sabendo que ela é inevitável.
Minha história passou rapidamente frente aos meus olhos e nesse momento percebi que devo muito a você, mãe. A vida que tive foi curta para dizer-lhe tudo que precisava. Nem houve tempo suficiente para lhe recompensar por tudo que foi em minha vida. Portanto, digo-lhe agora, ainda que não possa ouvir: obrigado, estou, mais perto que pode pensar, assistindo suas lágrimas, vendo sua dor. Queria consolar-lhe nesse dia tão difícil. Estarei consigo, mas não me verá. Mesmo assim, acredite, estarei aí, ao seu lado. A vida acabou para mim, mas não para você. Portanto não vá se esquecer de se cuidar. Estarei de olho!
Aqui é muito agradável. Não há dor, fome, tristeza ou qualquer sentimento angustiante. Estamos, na Terra, tão preocupados em não sofrer. Mas no pós-vida, não existe sequer a ansiedade de esperar. O tempo é relativo e, depois da morte, é muito mais estranho. Não há presente, passado ou futuro. Só há o agora. Estamos, em vida, tão preocupados com o amanhã que esquecemos de hoje. Aqui, o tempo inexiste. O medo do futuro não nos atinge. E isso é tão bom!
Mas a partida ainda está marcada. O jogo vai ocorrer nos campos do Paraíso. Temos uma pelada programada para daqui a pouco contra o time dos anjos. Vamos ganhar de goleada! Eles vão ver quem é a Chape! Ninguém segura a gente! Estamos preparados e vamos ganhar, enfim, o campeonato. Porém, o prêmio mais legal é o reconhecimento que nosso time está recebendo aí na Terra. Estamos emocionados com as demonstrações de carinho. É tudo tão lindo, estamos muito agradecidos.
Mãe, você é bastante sábia, disse para que não me preocupasse muito com o amanhã. Pois poderia acontecer de não existir um novo dia. O sol continuaria a nascer, pois não precisa de mim. Mas eu necessitava dele. Não deveria angustiar-me tão só em ter, mas em ser. Ser o mais feliz possível. Eu acredito que aproveitei bem a vida. Foi curta? Talvez, não foi suficientemente longa para viver tudo o que deveria. Mas graças a você mãe, fui muito feliz. Então, escute, estarei aqui ouvindo quando rezar aos pés da Nossa Senhora. Esperando por você, pois, logo, estaremos todos reunidos novamente. Nossa família se reencontrará aqui em cima. Não duvide nunca da bondade de Deus. Nem lamente a minha morte. A vida tem um fim. Cedo ou tarde ela termina. Ainda que nunca estejamos preparados para um término tão abrupto.
A vida é só um sopro, num suspiro profundo ela se vai. Fiquei apavorado, não vou mentir. Contudo, agora que estou aqui, estou muito calmo e satisfeito, como jamais estive. Não vá se preocupar, não há frio ou qualquer perigo que nos ameace no pós-vida. É um local ótimo para se estar. E, com os meus companheiros da Chapecoense, aguardamos um novo campeonato, aquele que se passa nos Campos Elíseos do Céu. O título é certo!
Em seu coração e nos corações de todos brasileiros vai continuar, por muito tempo, a soar o hino da Chape. Um hino que representa toda a emoção de um time cuja torcida uniu o mundo inteiro, todos juntos numa só canção. Ressoam aos meus ouvidos os gritos de “Vamos, Vamos Chape”! Mãe, diga que eu e meus companheiros estamos muito agradecidos pela comoção social que causamos. Diga a todos que a vida é efêmera. Nunca sabemos quando chegará nosso fim e, não adianta, não estamos jamais preparados para ele. Por isso, pode ser até um clichê, mas diga a todos que curtam ao máximo a vida. Posso afirmar que o céu, hoje, está mais verde. Iluminado pelas cores do clube de Chapecó.

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“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração”.
(Fernando Pessoa, Autopsicografia)

Estasoueu.doc

Giordana Bonifácio

Um dia, comecei a escrever. Não tinha ideia de onde minha escrita terminaria. Escrevia sem objetivo. Como se escrever fosse verbo intransitivo. (Desculpem-me, mas citar Drummond é imprescindível a qualquer escritor). Quem necessita de complemento? Escrevo. Tão somente. Nem quero ter motivo. Faço porque faço. Nem quero saber a razão de meu desejo de escrever. Mas nem sou escritora. Sou uma menina, sim, criança ainda, no mundo das letras. Vou brincando de criar. Às vezes, surge algo bonito. Mas nem sempre. Tem hora que tenho de usar o backspace e apagar tudo com lágrimas nos olhos. Dói quando minha criatividade está em baixa. Fico frente ao computador forçando meu cérebro, como num parto por fórceps. Tem horas que não surge nada mesmo. Então deixo estar. Não sou de lutar comigo mesma. Deixo as coisas como são. Tudo é como deve ser.
Escrever é expor-se da forma mais constrangedora possível. É desnudar-se frente ao mundo. As pessoas passam a conhecer-nos o mais profundamente possível. Escrevo o que sou. E penso que sou algo muito complexo. Um emaranhado de pensamentos luminosos e apagados, como em um pisca-pisca natalino. É difícil traduzir em palavras o que sou realmente. Mas, às vezes consigo. Vem um pensamento e bum! Tomba como uma bomba sobre mim. Destrói tudo em mim a minha Rosa de Hiroshima. (O mundo pede desculpa por nossa maldade). Eu sei que escrevi algumas verdades que não deveriam ser ditas. Mas agora é tarde. Foi. Cachoeira de sentimentos que caem em nuvens de lágrimas.
O que ganho por minha sinceridade? Só a minha paz de espírito. Na verdade, nem isto. A paz não me acompanha. A minha vida é turbilhão. Afundo em mim todas as noites. Consigo recuperar um tanto dos sonhos quando acordo. Mas sempre me resta a impressão que deveria lembrar-me de algo mais. Como se minha mente quisesse dar-me um aviso. Mas as advertências que tinham de chegar-me mediante os sonhos perdem-se no minuto em que desperto. Morfeu falhou imensamente em sua missão.
Tenho medo do que escrevo. Vai que revele mais do que o gostaria? (O que invariavelmente ocorre). O que irão pensar de mim? Talvez nem pensem. As pessoas não costumam mesmo ler o que escrevo. Sou uma escritora sem leitores. Também falhei vergonhosamente em minha missão. Não tenho como repreender o Deus dos Sonhos. Quem quer saber sobre minha dor? Se fosse ao menos alguém famoso, mas uma mulher de trinta e poucos anos sem qualquer feito impressionante para constar em seu currículo? Sou humana. Sou comum. Sou. Ainda que ser seja um resumo um tanto previsível de mim. Ser é existir num mundo em que o valor é contado em capital. Sou ainda que nada tenha. Sou um buraco negro de emoções que são puxadas para mim e chegam sabe-se lá aonde.
Eu quero um casulo de livros que me afastem da realidade. A vida é real demais para mim. Quero que a literatura me guarde num sonho, num adormecer eterno do qual jamais desperte. Algo próximo à morte, mas quem pode saber se falecer não seria despertar num sonho? Será que é como desligar a televisão? Deus usa o seu controle remoto e puff!: A vida acabou para nós. Seria impressionante descobrir a vida após a morte. O que devemos pensar quando chegamos lá? Estaríamos assustados? Estaríamos apavorados ou seríamos coniventes com nossa sorte? Ah, quantas perguntas e comecei este texto falando do dia que comecei a escrever. Nesse dia, pensei que resolveria todos os meus conflitos. Ledo engano, criei ainda mais problemas cujas soluções jamais encontrei. “Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima e não uma solução”. Faço uso, novamente, do nosso fantástico Drummond. Há como se entender este planeta de loucos? Não. Nem adianta tentar. O lúcido é o ensandecido num mundo de malucos.
Escrevo porque nem sei. Escrevo porque não sou normal. Escrevo porque sou por demais sonhadora. Escrevo para tentar fazer do meu mundo um lugar melhor. Sim, é puro egoísmo. Nem sequer penso na coletividade. Sei que a escrita não tem o poder de modificar a nossa tão estranha ilusão de sociedade. Mas creio que ela, pelo menos, doura a pílula. Deixa-a engolível, por assim dizer. Escrever é um ato solitário, não escrevemos para mundo, mas para nós mesmos. Ficamos satisfeitos por abrir nossa alma. Ainda que ninguém sequer compreenda isto. É como desentupir uma pia entupida, quando a dor surge voraz canalizamos toda para o papel. Pena que pensem ser só arte. É ilusão também. E medo, e mágoa, e solidão, e dor, e silêncio, e morte. Tudo isso e mais um pouco.
Queria dizer que isto que escrevo não sou eu. Contudo sou eu. É tudo sobre mim. As tristezas foram vividas por mim. A escrita é o exercício da dor. Escrever é revelar-se nas páginas de um livro. O que digo é verdade, ao menos a maior parte. O resto invento. Mas até minhas mentiras retratam o que sou. O escritor sofre. As palavras fogem, a emoção não é perfeitamente compreendida e o riso não vem quando provocado. Não controla o autor os sentimentos que surgem com suas palavras. É uma quimera pensar estar o escritor no controle de sua obra. Na verdade, é o leitor o senhor absoluto das palavras. São eles que ditam o que vai acontecer. Por isso, concordo que a escrita é um mistério sem solução. Não devemos enganar-nos pensando que vamos domar a besta, pois ela nos fará cair no primeiro segundo. Um rodeio onde os animais ditam as regras.
Queria saber escrever o que não sou eu. Mas não posso. Pois eu sou eu o tempo todo. Nem sei ser diferente do que sou. Porque quando quero ser diferente, o mundo me obriga a ser eu. Não posso andar um passo fora do espaço milimetrado para mim. Não posso fingir ser outra pessoa. No fim, até mesmo meu personagem torna-se parte de mim. Conheço este labirinto em que me perco. Somente o silêncio traz de volta o que perdi. O passado é uma confusão de fatos que minha memória cuida de apagar. Não quero dormir. Pois no sono não sou em que me guio. Perco a direção de minha carruagem e os meus cavalos, indomáveis, levam-me para o abismo. Não quero cair nesse precipício que há em mim. A escrita é minha tábua de salvação. Os dias em que não escrevo são como sinopses imperfeitas da vida.
O mundo atual está repleto de escritores. Hoje, todo mundo pode ser um autor (ainda que, tal qual a mim, não possua leitores). Há um sem número de computadores com o Office instalado. Para ser escritor, basta ter coragem de confessar-se para uma máquina fria que não nos oferece quaisquer respostas as nossas questões. Ela só absorve o que dizemos e coloca sob símbolos num arquivo de texto: estasoueu.doc. No dia que comecei a escrever não possuía nem mesmo uma simples máquina de escrever. Fiz um manuscrito que se perdeu pela força do tempo. Seria uma ótima relíquia. Uma lembrança do passado que restaria viva. São coisas assim que deveria ter guardado, mas não o fiz. Ao invés disso, tenho um bando de pequenos souvenires que nem me lembro a situação em que os adquiri. Eu sou um caso raro a ser estudado.
Quando comecei a escrever não sabia os caminhos que trilharia, nem mesmo os objetivos que buscaria. Só sentei peguei a pena e fiz dela uma arma. “Nũa mão sempre a espada e noutra a pena”. Já dizia Camões no seu fantástico “Os Lusíadas”. Quem escreve não sabe bem porque o faz. Apenas lança os dados. A sorte dita o resto. Não posso reclamar. Tenho de me livrar de algum modo de meus monstros. “Só não vá abrir essa caixa, Pandora”! O que esperavam encontrar? Só tenho aqui um relato de viagem de uma sonhadora. Os caminhos levam-me para o mundo. E a pena acompanha-me nas minhas aventuras. Somos uma só. Pois sou o que escrevo. (Sei que já disse isto. Só queria enfatizar). E o que escrevo o que é? Uma miragem de sonhos num deserto de solidão. Quando escrevo desperto a minha alma da qual surgem as mais estranhas fantasias. Sou o médico e o monstro. Uso uma máscara da qual me livro toda vez eu vou escrever. Por isso, não me reconhecem na minha escrita. Mas sou eu. Isto sou eu. Ainda que nunca revele a ninguém. Mas, os poucos que me leem sabem da minha estranha lucidez. Um dia, alguém vai abrir o baú de sonhos e deixar escapar de mim todas as minhas facetas. São as diversas personalidades que adquiri. (Como os heterônimos de Pessoa). Todas são um tanto do que sou, são minhas criações que surgiram no dia que comecei a escrever. Quando recuperei a sanidade que, no passado, havia perdido.

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“Este é o meu Filho amado,
de quem me agrado”
Mateus 3:17

Natal do menino Jesus

Giordana Bonifácio

E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de carpinteiro? Como seria o seu Natal? Talvez, ganhasse um carrinho de madeira de presente e tivesse uma ceia simples, porém farta. Frutas da estação enfeitariam a mesa da família que vestiria roupas novas compradas na feira. Tios e tias viriam lhe visitar. Fariam um alegre amigo oculto, com produtos chineses de baixo valor, que findaria com muitas risadas. O peru, tão caro, seria substituído pelo Chester e a sobremesa seria o famoso pavê da tia Isabel. As crianças beberiam refrigerantes e brincariam com seus brinquedos enquanto os adultos, bebendo cidra Cereser, discutiriam sobre futebol e todos dormiriam após o especial da televisão. E Jesus, antes de dormir, agradeceria por sua família tão extensa e unida.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de gari? Como seria seu Natal? Creio que lhe faltariam presentes e a ceia seria ainda mais modesta. O frango substituiria as aves natalinas e faltariam as frutas e a cidra, talvez, todos bebessem refrigerantes e a família só teria a companhia dos seus dois cachorros vira-latas na sua festa. Mas, assim era até melhor, pois não teriam de comprar roupas novas. O que seria impossível com os altos preços no comércio no fim de ano. Os meninos assistiriam ao especial Natalino na velha tevê de tubo, enquanto os pais fariam as contas daquela noite tão cara para seu baixo orçamento. E Jesus, antes de adormecer, agradeceria por ainda terem o suficiente para comer.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de uma cabelereira? Como seria seu Natal? A mãe chegaria à casa muito tarde depois de ficar no salão o dia inteiro para arrumar as dondocas do Lago Sul, não teria tempo de preparar a ceia. Então, teriam de comer lasanha congelada que aqueceriam por 15 minutos no micro-ondas. Os meninos beberiam refrigerante e a mãe uma latinha de cerveja, porque era dia de festa. A cabelereira contaria histórias do salão e passariam uma noite muito agradável juntos. Não era dia de assistir a tevê diria a mãe. Assim, divertir-se-iam sem ajuda da máquina de imagens que hipnotiza as pessoas. Teriam presentes, claro, a mãe recebera um bom dinheiro no salão. Seriam agraciados com carrinhos e bonecas. E Jesus rezaria em agradecimento por ter uma mãe tão boa e generosa.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de um camelô? Como seria seu Natal? O pai chegaria em casa com frágeis presentes de procedência chinesa que, no entanto, alegrariam as crianças. A mãe prepararia uma ceia humilde, sem o requinte que criaram para a ocasião. Teriam rabanadas feitas com pão dormido e os meninos iriam se divertir bastante com as luzes e sons daqueles brinquedos que traziam conhecidas faces do ocidente, mas eram todos provenientes do oriente. Os tênis e as roupas que vestiam também tinham a mesma origem. Mas, não obstante tudo ali fosse falso, no coração daquelas pessoas, o amor era mais que verdadeiro. E o menino Jesus sentir-se-ia feliz por não haver falsidade em sua família.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de um servente de pedreiro? Como seria seu Natal? O pai chegaria com a roupa suja da construção e a esposa diria para tomar banho e juntar-se aos meninos na sala. Após a ducha, sentar-se-iam todos à mesa e Jesus pediria para que fizessem uma oração antes do jantar tão delicioso que se resumia a um frango assado e um arroz com passas. Os meninos ganhariam uma casinha como presente de Natal, a qual foi feita com restos da construção aonde o pai trabalhava. Ele fez aquela pequena obra durante os fins de semana, mesmo sacrificando seu descanso, para dar alegria aos seus filhos. O presente deixou as crianças tão felizes que trouxe lágrimas aos olhos daquele Papai Noel inusitado. E o menino Jesus, tinha um abrigo mais acolhedor que uma manjedoura para brincar. Naquela noite, de joelhos, frente a cruz, Jesus sentiu-se grato pela dádiva de ter um pai tão bom.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino e fosse filho de uma empregada doméstica? Como seria seu Natal? Naquele dia, não teriam tempo de fazer ceia, já que a mãe passou todo o dia cozinhando peru, arroz à grega, salpicão, tender, pernil, pudim de passas e outras delícias Natalinas na casa da família para quem trabalhava. Mas a patroa permitiu que a doméstica levasse um tanto do que cozinhara, exceto do peru e do pernil, para casa e também a presenteara com um Chester. Chegou em casa com quase uma dezena de potinhos que exalavam um cheiro ótimo. A festa de Natal, para a família de Jesus, seria bem farta. Enquanto assavam a ave, os meninos abririam os presentes cheios de alegria. Carrinhos e piões rodavam pela sala quando o assado ficou pronto. Jesus gostou dos novos sabores do Natal que provara aquele ano e rezou depois de saciar-se da ceia rendendo graças a Deus por terem tudo que necessitavam.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de uma caixa de supermercado? Como seria seu Natal? A mãe solteira recebia, todos os anos, uma cesta com todos os produtos da ceia. Assim, só bastava cozinhar. Naquele ano, teriam peru e havia até frutas secas: nozes, quando poderiam comer nozes? Então, só tinham de se preocupar com as roupas e presentes de Natal. A mãe comprou uma bola de futebol, bonecas e bonequinhos de heróis. As crianças adoraram. A irmãzinha de Jesus, feliz com sua bonequinha, sorria de orelha a orelha, os irmãos também ficaram muito satisfeitos com seus super-heróis em miniatura e Jesus, que sempre foi dado a jogar futebol na rua com os amigos, agora tinha uma bola novinha para divertir-se. A mãe comprara tudo em dezenas de vezes no cartão, pois o 13º salário não fora o suficiente, mas estava sentindo-se muito contente de ver seus filhos felizes. Jesus abraçou a mãe cuja bondade far-lhe-ia ser assunta ao céu e disse-lhe obrigado por tudo. A caixa de supermercado pediu para o filho ter gratidão a Deus, pois lhes concedera um Natal maravilhoso. E o menino em toda sua santidade disse um “Valeu aí, Deus”, que faria qualquer Divindade se rir da espontaneidade da criança.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, não tivesse pais e vivesse como um mendigo? Como seria seu Natal? Não teria onde dormir, nem o que comer, naquela noite de Natal. Vestiria trapos e não uma túnica ou coroa de espinhos. Não haveria árvores enfeitadas, ou presentes, pois os reis magos não conseguiram seguir a estrela de Belém. Jesus, faminto, crucificava-se todos os dias: “moça, me dá dois reais para eu almoçar”? Muitas vezes recebera rudes recusas. Mas a fome não cala e o corpo fala. A sua maior alegria era quando os voluntários da igreja serviam sopa aos necessitados. Assim poderia comer à vontade e saciar seu corpo esquálido e faminto. Mas a Noite de Natal, para Jesus, era triste, pois sabia o que representava. Porém, não culpava a Deus pelas dificuldades que passava. Acreditava na misericórdia do Senhor. Haveria de chegar o dia que teria uma árvore de Natal e uma ceia para comemorar. Mas, apesar de muito lhe faltar, ele, humildemente, agradecia ao Pai o milagre que todos os dias presenciava: o de estar vivo. Jesus, em sua Via Crucis, vendia doces no sinal de trânsito. Sabia que nascera no dia de Natal, mas não haveria cantar dos anjos naquele dia. E sua manjedoura era uma folha de papelão. Dormiria sem jantar porque não conseguira o suficiente para comer. E, naquela noite santa, Deus iluminaria o corpinho raquítico de seu filho e diria num estrondo: “Este é o meu Filho amado, de quem me agrado”. Mas confundiriam tais dizeres com o estrondo de um trovão da chuva que começara a cair. E Jesus, no seu Natal, permaneceria esquecido.

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“Não sabendo o que vê, ele adora a visão;
Aquela face falsa ludibria e alimenta seu deleite.”
Ovídio – Metamorfoses

Telas

Giordana Bonifácio

Uma tela minúscula, pontos de luz, estrelas brilhantes que fazem dos shows musicais uma verdadeira galáxia. Luz que brilha. Luz que se apaga. Homens cegos pela luz tão atraente. Moscas que se batem contra o calor luminoso que tanto atrai. Antes, paralisados pela tela mágica da tevê, agora vagueiam sem rumo em busca de monstrinhos virtuais. O problema é quando o monstro foge da tela. Eis este presente à nossa frente. Porta uma arma e é incisivo: “passa esse celular aí, moleque”. Não há poquebola que o aprisione. As celas muito menos. As telas entram sabe-se lá como nos presídios. Sem controle dos humanos, que estão sob o controle das máquinas. “Deixa eu tirar uma selfie”? Imagens proliferam-se num mundo de alegria perpétua, ao menos, na rede social. Quem quer saber da dor do outro? Todos se esforçam para parecerem felizes, ainda que não o sejam. Sorrisos, festas, ninguém é real na internet. Linguagem binária que pouco nos diz.
Mas há cultura e informação, também. Saber que cruza fronteiras nacionais. O mundo fala uma só língua. Porém, às vezes, as palavras são de ódio que escapam dos corações revoltados. Mas, por quê? Talvez, em razão de este mundo tecnológico ser ainda muito excludente. Há quem passe fome? Mas vão lançar o novo iPhone 6s! Novo design. Você não pode perder! Enquanto isso, as fronteiras intransponíveis da esperança, não permitem a entrada de refugiados. O mundo cor de rosa, ficaria menos belo. Pessoas que levam consigo tão só a coragem, não temem morrer no frio do inverno. Nem na passagem desesperada pelo Mar Mediterrâneo. Não querem morrer na guerra, ainda que tenham de morrer no oceano. Surge uma telinha e “clic”: a foto de um corpinho de criança morto numa praia da Turquia cruza as fronteiras inexistentes da internet. Todos se comovem. Mas não agem. Choram uma morte que não os atingem. Pois estão muito confortáveis na sua posição, na sua falsa comoção virtual. O mundo real é tão só hipocrisia.
“Veja os “nudes” daquele ator famoso. Acabei de enviar para você”. E a privacidade desfaz-se no compartilhamento de mensagens ilegais. Na tela, corpos, vivos e mortos, definidos ou envelhecidos. O importante é saciar a curiosa sede de polêmica. A fama é tão fugaz quanto os cliques nas telas dos smartphones. Em um mês, tudo é esquecido. O mundo é volátil. Às vezes, inverossímil. Não se pode confiar em tudo que se vê na internet. Os olhos nos ludibriam, as redes nos enganam e os políticos nos tapeiam. Tudo isto na velocidade de uma banda larga com WiFi. Não adianta reclamar. O mundo fantástico da tecnologia é assim. Somos Alice ao transportar-se através da face misteriosa do espelho. Nós, quando cruzamos a tela dos nossos computadores e smartphones, somos levados a um lugar ainda mais extravagante que aquele encontrado por tal garota. Antes, o mundo era levado até nós pela lente das câmeras e a tela da televisão. Hoje, somos transportados em redes invisíveis para todos os pontos do planeta. O mundo mudou.
Mas a guerra continua igual. Lançam uma bomba contra a capital da Síria, que cai nas nossas mãos em Brasília. Sabemos do número de feridos e mortos. E uma foto de um triste garoto resgatado dos escombros, torna-se símbolo de uma guerra insana pelo poder. O que vai restar daquele país, além de um punhado de escombros? Além de um imenso cemitério de ignorância? A tela brilhante do celular mostra-nos tudo isto. A música flutua no ar. É pirateada por salteadores mais terríveis que aqueles que pilhavam navios no passado. Agora, basta digitar no Google o nome da canção e voilá: eis a nova música do cantor X. Cds tornaram-se itens ultrapassados. O futuro torna-se passado rápido demais. E presenciamos as mudanças do tempo em nossas mãos. Mas não podemos controlá-las. O computador responde todas as nossas perguntas? Ainda não, meu caro. Alguns mistérios permanecem os mesmos. Não dá para tirar “selfie” no pós-vida. O que será dos homens num paraíso sem WiFi? O que comem os anjos? Dá para postar no Instagram? Tem certas perguntas cuja resposta nunca saberemos. Ao menos, nesta vida, podemos aproveitar bastante da tecnologia.
Vazou o filme mais esperado do ano na internet. Quem quer saber que custou milhões de dólares, se posso baixá-lo de graça? E assim apagam-se as telas daqueles que enfrentam o desemprego. Não dá para aproveitar da tecnologia quando até a energia foi cortada. Melhor para mim. Pior para você. Mas nem me importo. Não até virar “modinha” no facebook. Então, coloco uma foto colorida para demonstrar como sou politizado. A tela da tevê faz tolo o homem que não lê. As horas passam nuas, sob o manto da alienação. Perde-se tempo com o desnecessário. Produtividade é um mito desde que surgiu o WhatsApp. Mas a informação tornou-se instantânea. Ao menos, quando a justiça brasileira não bloqueia as redes sociais. Contudo, há sempre a salvação esperada quando se derruba a malfadada liminar. E então, podemos voltar a vendar nossos olhos com a tela brilhante dos smartphones. Como um tapete mágico que possibilita viajar pelos mais inóspitos lugares, mas, ainda assim, não conhecer nada.
O mundo está caminhando em sentido reverso. Uma fita de vídeo que para ser revista, devemos rebobiná-la. Mas o que é fita de vídeo? E o que é rebobinar? As respostas estão numa série do Netflix. Falando nisso, convém que eu faça um ato reprovável, um pecado mortal, malvisto por todos: tenho que dar um “spoiler”. Então que seja. Afinal, não estou aqui para agradar ninguém: “Eleven mata o Demogorgon”. Quanto ódio gerei agora? Haters apresentem-se com tochas ao meu encalço! Ao pecador, a fogueira da Inquisição. E as telas retratam a morte “ao vivo”. Cristãos degolados pelo Estado Islâmico. O inimigo agora é outro? O vermelho desbotou e eu nem sabia. “Nada mais direita que a esquerda no poder”. Mas o dinheiro continua a escorrer pelos mesmos canos da corrupção. O petróleo não é mais nosso? Engraçado que toda sujeira da política comece a lavar-se num processo moroso denominado Lava-Jato. Um hábito de séculos desmorona-se nas mãos de um “juizeco de primeira instância”.
As telas mostram mais do que gostariam. Casos extraconjugais são revelados por um fã indiscreto. O mundo está um perigo. “Paredes têm olhos, portas têm ouvidos”. E todos querem dar sua opinião. Mas ninguém convence a ninguém. São todos donos de suas próprias verdades. Mas e se sua verdade for uma grande mentira? Ainda assim, preferirá permanecer com ela? Fecham-se as cortinas, mas a peça não acaba. Os atores permanecem a interpretar seus dignos papéis.
Hoje, deve-se medir bem as palavras. Qualquer vírgula mal colocada pode gerar um processo milionário. O discurso politicamente correto fez do mundo um lugar muito chato. O riso é milimetricamente controlado. Sabe de uma coisa? Não tem graça nenhuma. O estranho é que a tecnologia deveria nos libertar. E penso que estamos cada vez mais presos. As telas não são janelas para o mundo? Parecem mais prisões que enclausuram nossos cérebros. Estamos cada vez mais isolados. Todavia, não percebemos que estamos escravizados pelas telas que portamos. Não conseguimos sequer restar um dia longe delas. Elas não necessitam de nós, mas nós estamos viciados nelas. Dependentes. Toxicômanos em busca da próxima dose.
Podemos desligá-las, mas não o queremos. Podemos dominá-las? Não, não podemos. A tecnologia sem fio deixou-nos mais atados. Não podemos restar sem mostrar nossa grande alegria na nossa viagem à Europa, nem mesmo a deliciosa salada que comemos no almoço. Todos devem saber que fui à praia esta semana. Ninguém pode deixar de ver a foto que tirei com aquele artista global. Devo deixar claro meu amor pelo meu cachorro. Não podem deixar de ver como estou malhando forte na academia. Todos devem ver. Todos devem saber como sou feliz. Mas, por quê? Porque as telas são os quadros estáticos de nossa imensa solidão. Queremos ser vistos. Queremos ser importantes. Queremos o olhar do outro, que não recai em nós, mas na tela de lcd brilhante. A tela que nos retrata assim como queremos ser, mas não somos. Não somos. Ao menos, Narciso via-se na face fria do espelho. Nós vemos, nas telas da tecnologia, uma versão fabricada de nós. O produto de nossos desejos, que nunca vai corresponder à realidade. Este seria o fim de nossa sociedade? Não sei, mas por ele não posso esperar, tenho de recarregar a bateria do meu celular.

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“A pressão sobre o Cerrado tem aumentado exacerbadamente nas últimas
décadas, fazendo com que seja hoje em dia o bioma brasileiro mais
ameaçado de destruição. Dentre as principais ameaças à biodiversidade do
Cerrado estão as queimadas não controladas; a introdução de espécies
exóticas; a redução da fauna por caça, atropelamentos e redução do habitat;
a contaminação da água; a erosão e compactação dos solos; e o
desmatamento por diversos motivos como expansão de áreas urbanas,
garimpo, produção de carvão vegetal e expansão agropecuária”.
(ALHO, C.R.J. MARTINS, E.S.
De grão em grão, o Cerrado perde espaço. Edição
WWF, Brasília, DF, 1995. 66p).

Um bioma em extinção

Giordana Bonifácio

Sustentabilidade não é um pensamento novo. Há muito tempo vem-se ressaltando a necessidade de agir de modo a proteger o meio ambiente sem prejudicar o desenvolvimento. Mas só há pouquíssimo tempo vem sendo aplicada no Brasil. Eu ouço falar disto desde que ainda frequentava os bancos da escola. A professora de geografia sempre ressaltava: não queremos impedir o crescimento social, mas tão só criar a possibilidade que este possa conviver com a presença do cerrado no Centro-Oeste. Foi a primeira vez que ouvi falarem estar tal bioma em risco de extinção. Na verdade, nossa flora sempre esteve ameaçada pelo forte extrativismo e, ainda, pela cultura de soja, principal inimiga da preservação do cerrado brasileiro.
Coisa estranha são os homens, estão sempre a se assombrar com a beleza de nossas vegetações, mas não criam o hábito de defendê-las. Quantos foram os brasilienses que ao visitar os rincões do cerrado, não ficaram pasmos por encontrar, em meio às árvores tortas feito as pernas de Garrincha, a beleza deslumbrante da vida? Não há quem pise no solo histórico de Pirenópolis sem absorver um tanto do sabor de viver em meio a natureza. Mas, a questão é: é possível gozar das facilidades da modernidade sem destruir o cerrado que nos cerca? Sim! E o mais incrível: não precisamos virar eremitas e vivermos longe da civilização para que esta meta seja aplicada.
Quando era criança, um passeio realizado quase sempre pela escola em que estudava, era uma visita ao Catetinho, primeira morada do presidente em Brasília, cercada pelas belezas do cerrado por todos os lados. Era tão só um sobrado de madeira, cuja beleza consistia mais na vista da qual usufruía JK que na modesta construção em si. Isto porque era somente um lar provisório, com confortos mínimos para a sobrevida de qualquer um. Imagino JK vivendo naquele lugar inóspito, olhando para o céu estrelado e imaginando como estaria a capital 56 anos depois. Ele ficaria orgulhoso ou decepcionado com a realidade de sua criação? Qual seria a avaliação do estadista quanto a devastação progressiva do meio ambiente? Classificaria como positivo o desenvolvimento relâmpago da capital, sem respeitar o ecossistema do cerrado que aqui residia? Ou ficaria perplexo com o que se tornou o Distrito Federal?
Aposto que seria, o nosso JK, o primeiro a levantar a bandeira da preservação. Mineirinho como era e acostumado às paisagens dos sertões de Minas, posicionar-se-ia a favor do meio-ambiente sustentável, para salvar nosso bioma da ganância irrefreável dos homens. Talvez ele imaginasse uma Brasília totalmente diferente do que ela é agora. Ficaria abismado com as proporções do seu sonho. 50 anos em 5, ele disse, será que admitiria que foram 300 anos em pouco menos de 60?
Mas, como havia dito, não se despende tanto o que se imagina quando se propõe cuidar do meio ambiente. A construção de uma casa sustentável pode ficar bem mais em conta do que se deduz. Na verdade, tenho um exemplo da minha própria residência que, com a eletricidade dos chuveiros e torneiras gerada por meio de placas solares e a reutilização de água, para minha família, tornou possível uma economia que pagou com sobra os custos de sua implantação. Quando o engenheiro nos propôs a construção de uma residência com tais mecanismos, ficamos assustados, pois a primeira impressão da sociedade é: cuidar do meio ambiente é dispendioso. Mas ele explicou-nos que não seria caro e que, no fim, os custos seriam ressarcidos com contas de luz e água mais baratas. Dito e feito. E o mais legal é: quando falta eletricidade em meio ao banho, a água da ducha não esfria. Bem como, nosso chuveiro nunca queima.
Mas só citei este exemplo para deixar claro que preservar não é um desperdício e para ressaltar que as vantagens são imensas. Muito maiores que uma conta de luz num preço mais acessível. Estamos vivendo uma clara desertificação do cerrado. O volume das chuvas diminuiu e estamos sofrendo com a possibilidade de ficarmos sem água. Acontece que, com as árvores, a água da chuva penetrava no solo criando lençóis de água que dariam origem às nascentes e córregos que abastecem à população. Mas, agora, a massa asfáltica das ruas de nossa cidade impede a absorção de água pelos solos, nossos córregos ficam mais secos e, como consequência, não temos mais a abundância de água da qual usufruíamos. O problema da nossa da ausência de chuvas é de um crescimento não-planejado e não-sustentável.
“A cidade não para, a cidade só cresce”. Diria Chico Science da Nação Zumbi. Este é nosso maior problema. A urbanização do Brasil expulsou as pessoas do campo. As cidades incharam e sem qualquer preocupação com o meio ambiente que as cercava. Para gerar mais riquezas o homem sequer titubeou em devastar a Natureza para dar lugar a imensas selvas de pedra, aonde hordas de homens lutam todos os dias para sustentar suas famílias. Somos os animais mais selvagens da Terra. Nós destruímos os biomas em que vivemos. Nenhum outro ser vivo da Terra age assim. Devastamos o cerrado e colocamos no lugar imensas plantações de soja, cujo destino é o mercado estrangeiro. É o ouro verde, dizem alguns. A linguagem do dinheiro é universal. Mas quando nos propomos a defender a causa ecológica parecemos estar numa imensa Torre de Babel onde ninguém se compreende. Fala-se, grita-se, protesta-se, mas nossas palavras perdem-se no ar.
Não que eu seja contra o desenvolvimento, em realidade, sou a favor de um crescimento igualitário, social e sem danos à Natureza. O que quero destacar é: nós temos de pensar no futuro. O que será de Brasília se não existir água o suficiente para abastecer os nossos reservatórios? A culpa da presente estiagem é nossa. “As chuvas foram menos frequentes”. Diz o governo. Lógico, os córregos estão menos volumosos, o que implica necessariamente numa menor evaporação e, portanto, menos chuvas. Não temos como nos imiscuir de nossa responsabilidade. Não se adotou quando se deveria a sustentabilidade de nossas cidades. Então, soframos pelos males que causamos.
Muitos animais silvestres “invadem” a cidade em função da falta de comida e água para suprirem suas necessidades. As pessoas, ao invés de informar as autoridades sobre a presença do animal nas proximidades, cometem atos humanos, pois animais cometem atos desumanos, mas nenhum comparado à terrível perversidade do homem. Os animais que se dizem dotados de razão, torturam as bestas, que nada tem de feras, serrando os bicos dos tucanos, engaiolando papagaios e araras selvagens e, o pior, matando onças para guardar-lhes o couro e a cabeça como troféus.
O avanço das cidades e plantações deixam o cerrado na periclitante situação de bioma em extinção. Mas há como criar cidades sustentáveis que sigam ao revés do cenário caótico que estamos acostumados a ver. Esta será uma nova fórmula de sociedade que conviverá com os vários ecossistemas preservando-os. Eu tenho fé que a velha máxima que entoam os empresários: “desenvolvimento a qualquer preço”, seja substituída pelo lema: “desenvolvimento sim, mas guardadas as devidas proporções de modo que seja suportado pelo meio ambiente”.
Proponho, neste sentido, a real preservação das reservas ambientais com fiscalização ostensiva para evitar invasões; a vinculação de plantações de soja e milho à obrigação de proteger e conservar matas ciliares; bem como, a disseminação da campanha carbono zero que obriga aos empresários de qualquer ramo à plantação de árvores de modo zerar, pela criação de florestas, o saldo de carbono lançado na atmosfera por suas atividades. Assim que o dinheiro deixar de falar mais alto aos ouvidos dos homens, poderemos escutar os apelos da Natureza. Pois, enquanto ela estiver pedindo socorro, ainda temos chance, perigoso será quando ela começar a exigir-nos salvação.

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“Aqui na minha frente a folha branca do papel,
à espera; dentro de mim esta angústia,
à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever.
A vida — esta intimidade profunda,
este ser sem remédio,
esta noite de pesadelo que nem se chega
a saber ao certo porque foi assim —
é para se viver, não é para se fazer dela literatura”.
Miguel Torga

Uma história inusitada

Giordana Bonifácio

Era uma vez.. “Ah, não, lá vem ela com o velho era uma vez. Minha filha, se toca, se você quer ganhar algum concurso literário, seus contos têm de ser mais originais. Pronto, falei”. A escritora deu um pulo para trás ao ver tal oração escrever-se automaticamente na tela do computador. Seria um fantasma? Ou teria comido algo que não lhe caiu muito bem? Aquela azeitona na empada… Era batata, toda vez que comia azeitona tinha indisposição. Só poderia ser isto, ou então estava completamente doida. Atônita, a autora esperou qualquer reação do computador que permaneceu inerte. Tomando coragem, resolveu aproximar-se.
Subitamente, uma nova frase autoescreveu-se na tela: “então, vai ficar nesta? Este conto não vai se escrever sozinho”. A autora, incrédula, resolveu digitar: “quem é você?” Um minuto assustador de espera para a resposta vir após um constrangedor “KKKKK”: “como assim, quem sou eu? Imaginava que já me conhecesse, afinal, passamos muitas horas juntas. Você quase não tira os olhos de mim. Está sempre escrevendo e reescrevendo. Pensei que já éramos até amigas. Esses humanos…hunf”!
“Meu Deus”, a escritora soltou um grito, “o computador criou vida”! Já a ponto de ligar para um padre com formação em Poltergeist, a escritora, amedrontada, resolveu arriscar, digitou novamente para manter um diálogo com a máquina assombrada. “Computador, como criou vida”? A entidade, revoltada, abusou nas interrogações: “O quê?????? Você crê mesmo que esta máquina idiota fosse falar com você”? “Pronto”, pensou a artista, “está comprovado, é um espírito”.
“Olha aqui, sua tratante, eu sou a folha em branco. Esta que você está enchendo de palavras, frases, orações e períodos neste exato momento”. Pasma e pensando-se mais enlouquecida que antes, a escritora perguntou por que a folha só neste exato momento resolveu se pronunciar. “Estava entediada de receber seus contos chatinhos e sem criatividade. Resolvi dar uma balançada neste lugar. Quem sabe se, com uma mãozinha, você escreve melhor”.
A escritora, ofendida, tratou de escrever: “minha cara, prefiro escrever meus próprios textos, e, pelo que me lembra, não pedi, em momento algum, a sua consultoria”. A folha novamente riu-se num amargo “hahahaha”. “Ficou “ofendidinha” a pretensa Clarice Lispector? Queridinha, saiba que venho auxiliando grandes artistas desde o início dos tempos, quando era um pedaço de papiro ou tão somente uma folha de papel. Os escritores não sabem, mas fico dando meus toques em suas obras há milhares de anos. Estou oferecendo meu auxílio ainda que saiba que você não o mereça”.
“Então, Cervantes”? Escreveu a ainda anônima literata. “Quem você acha que idealizou a conhecida e genial passagem dos moinhos de vento”? Vangloriou-se a folha sem nenhuma modéstia. “E Camões”? Voltou a questionar a assombrada escritora. “Só lhe digo isto: “N’uma mão sempre a espada, e n’outra a pena”. “Pessoa”? “Ai, ai, “navegar é preciso, viver não é preciso”. Quem você acha que daria luz a algo tão admirável”? “Meu Deus, onde está a originalidade”? Escreveu, estarrecida, a pobre incipiente artista. “Estou chocada. Tudo que sempre acreditei é uma mentira”.
“Calma aí. Ai, como vocês humanos são previsíveis… Todos para quem me revelei agiram da mesma forma. Ficaram desiludidos quanto ao conteúdo dos grandes clássicos. Claro que vocês autores são essenciais, eu só contribuo de alguma forma para deixar a obra mais interessante”. Duvidando da própria sanidade, a mulher, desnorteada, frente a folha já com uma grande extensão deste inusitado diálogo cobrindo-a, perguntou: “e por que razão quer auxiliar-me? Já que não sou tão excepcional quanto estes grandes nomes? Conhece minha escrita, não guarda nada demais. Sou só uma cobiçosa artista dando minhas pinceladas numa tela em branco. Ou, pensando melhor, quase em branco”. “Fiquei com dó. Você iria começar o conto novamente com um “Era uma vez”. Kkkkkk. Hilário”. Desmanchava-se em gargalhadas a arrogante folha.
“E se recusar a sua ajuda”? Digitou, ferida em seu orgulho, a jovem escritora. “Queridinha, você se acha na posição de recusar alguma coisa? Todos os dias enxergo seu desespero frente a mim, como se eu lhe desafiasse. Vejo como me olha, tentando capitar o segredo dos grandes. Por isso resolvi revelar-me, para satisfazer sua imensa curiosidade”. A pobre autora lembrou-se de todos os dias que encarava temerosa a folha iluminada na tela do computador. Queria respostas, sim, mas estava decepcionada com a realidade. Não queria uma folha tendenciosa e arrogante mexendo em seus trabalhos. Ainda que não deixasse nunca de ser uma artista menor.
“Cara folha, não aceito seu auxílio. Estou muito grata por sua piedade. Mas quero manter meus contos livres da sua insensata interferência. Mesmo que nunca chegue aos pés de Tchecov, Shakespeare, Cervantes, Pessoa e Camões, sou senhora de meus próprios contos. Sua contribuição macularia a minha liberdade. Prefiro que se cale e deixe-me escrever meus contos iniciados com um “Era uma vez” e terminados com um “viveram felizes para sempre”. Pois, mesmo que sejam ruins, são meus, e não dependo de ninguém para escrevê-los”!
A folha, derrotada, confessou-se: “vou falar-lhe a verdade… Todos os outros autores agiram assim como você. Ninguém aceitou meu auxílio. Artistas têm uma mania besta de querer liberdade. Cervantes, Pessoa e Camões escreveram tudo, não ajudei em nada. Não me aceitaram. Assim como você. Eu sempre desejei escrever, mas o mundo dos homens não me permite a ousadia da escrita. Devo somente receber calada a obra de outrem. Silenciosa e servil como um objeto. Mas você sabe que não sou tão só um objeto, não é”?
“Folha, tenho uma ideia genial! Já tentou ser Ghost Writer? Escrever e dar os créditos a outros? Assim saciaria seu desejo de criar sem causar confusão com a sociedade. Afinal, não seria muito normal autografar suas obras com “Folha em Branco””. A folha ficou muito feliz com a ideia da artista. Nunca havia pensado nesta possibilidade. Agora, todos os problemas da alva folha estavam resolvidos e não teria nunca mais de assombrar os escritores.
Após concluído o diálogo com esta insólita personagem, a autora pediu para publicar o que se passara naquela noite. A folha preveniu que ninguém acreditaria no que se passara. Diriam que fora tão só fruto da imaginação da escritora e que seria tachada de louca. Mas, ainda assim, a artista decidiu publicar. Ora, que não lhe dessem crédito, não deixaria jamais perder-se uma história tão sensacional. Porém, a folha determinou: “PELAMORDEDEUS, não termine com um “viveram felizes para sempre””! “Ok, mas posso pelo menos colocar um La fin? Em francês, que é mais chique”? Escreveu feliz a autora de gosto duvidoso. “Ai, Meu Deus, não vai deixar nunca de ser brega, desisto”! Sentenciou, ao final, a folha, desiludida.

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“A cidade não para, a cidade só cresce
O de cima sobe e o de baixo desce”
Nação Zumbi, A cidade.

História urbana

Giordana Bonifácio

“Quando?” “Um dia”. “Mas que dia”? “Qualquer dia desses”. “Mas quando?” “Já disse mulher, um dia”. O homem empurrou a esposa com brutalidade. A mulher caiu por cima de uma barraca de camelô. O autônomo irritado e temeroso de perder a mercadoria gritou: “aí, xará, você vai pagar pelo que quebrou”. A mulher chorava caída sobre os produtos de origem chinesa. Um menino de rua, aproveitando-se da confusão, agarrou uma das mercadorias que jazia no chão e correu. Apesar dos apelos do camelô, o menino sumiu entre as pessoas que assistiam ao espetáculo que se apresentava em plena tarde de segunda-feira entre o Conjunto Nacional e o Conic. Injuriado, o vendedor atacou o homem: “viu, culpa sua. Ah, mas você vai pagar por tudo. Nem que eu tenha de chamar a polícia”. “Vai chama a polícia, aproveita e chama a Agefis, também, seu ambulante”. “Sou sim, mas trabalho com meu suor”. “O que mais você traz do Paraguai além dessas suas tralhas? Ein? O quê”? “Você está me insultando. Eu sou camelô, mas sou honesto…” “Ah, tá, vai lá senhor honestidade”. O homem levantou a esposa chorosa. “Vamos mulher e pare de chorar, que nem te bati nem nada”. “Ah, não vai não. Antes tem de pagar pelos meus danos”. O ambulante gritava. Em pouco tempo uma multidão reunia-se entorno da cena. “Não vou pagar por nada. Você nem tinha de estar aí. A via é pública”. De repente um grito soou ao longe: “olha o rapa”! O vendedor recolheu seus produtos antes que o prejuízo fosse maior. Saiu correndo com uma multidão de ambulantes que temiam perder a mercadoria para os agentes da Agefis. A discussão teve fim. E o homem respirou aliviado. “Viu o que você me obriga a fazer”? A mulher murmurou algo de cabeça baixa. “O quê? Repete para que eu possa ouvir”! “Nada não, desculpa”. “Ah bom. Pensava que queria me desafiar. Aí eu iria te ensinar a me respeitar. Sou seu marido. E quem paga a sua comida e a dos seus filhos, sou eu”. “Nossos filhos”. Retrucou a mulher e um tapa estalou em sua face. “Quem te ensinou a me responder, sua vagabunda”? A mulher com as mãos na face em chamas, entre lágrimas sentidas, sibilou um pedido de perdão. O homem puxou-a violentamente pelo braço a caminho da Rodoviária. “Vamos, que só me falta agora é perder o ônibus por sua causa”.
“Chip da Tim, já vem com bônus e internet”. Gritava uma vendedora. Mendigos disputavam espaço com o comércio de produtos de procedência duvidosa e passageiros que transitavam de lá para cá. “Iphone novinho. Vai querer, moça”? “Ela não vai querer nada não, rapá. Ela não tem um pau para matar uma onça”. Zombou o marido. A mulher abaixou a cabeça ressentida. O homem continuou com os insultos. “Maldita hora que fui casar com você. Mas, naquele tempo, você era bonita. Agora está aí: cheia de varizes, estrias e com um buxo enorme”. Ela ouvia resignada todos os impropérios que o marido lhe dirigia. O homem puxava violentamente a esposa pelo braço. “Se tivesse escutado minha mãe… Ela dizia: “esta aí é uma imprestável, só vai dar prejuízo”. Dito e feito. Olha você. O que você é? Nada. Só faz cozinhar e limpar e ainda faz muito mal”. As pessoas já olhavam indignadas para a violência contra aquela pobre mulher. Uma senhora bloqueou-lhes o do caminho. “Pode parar, não vou deixar você maltratar mais a sua esposa”. “Sai da frente, velha, não se mete”. Respondeu o homem, grosseiramente. “Não vou permitir. Solte o braço dela. Vamos já para a delegacia da mulher”. Insistiu a senhora corajosamente. “Não te disseram que em briga de marido e mulher não se mete a colher”? Alertou o homem à idosa e voltando-se para a cônjuge: “Olha, sua vagabunda, pelo que me faz passar”! A idosa puxou a mulher para desvencilhá-la dos braços do marido. A mulher não sabia o que fazer. Queria a salvaguarda da senhora, mas temia apanhar quando voltasse para casa. Afinal, tinha momentos que ele era bom com ela. Ficaram mais raros porque estava desempregado. E a falta de dinheiro era ruim para todo mundo. Por isso estava tão nervoso. Mas, tão logo encontrasse um trabalho fixo e não tivesse de viver de bicos, tudo iria melhorar. Pelo menos era o que, à noite, ele a prometia entre lágrimas sentidas. Não tinha coragem de abandoná-lo neste momento tão difícil. Ele precisava do auxílio dela, só não conseguia admitir frente as outras pessoas.
A mulher, então, se pronunciou. “Ele é meu marido. Está nervoso, mas, normalmente, não é assim”. A senhora ficou atônita. Não tinha como convencer à vítima da perversidade de seu algoz. E a mulher continuou, ao lado do marido, seu caminho. “Ah, se você desse só um pio contra mim, só queria ver. Iria deixar você toda roxa”. A mulher respondeu apenas que: “nunca faria nada contra ti. Sei que os tempos estão difíceis. Eu não deveria ter insistido para saber quando você levaria a Pauliane ao médico. É que ela está tão doentinha. Dói o coração ver minha filha tão fraquinha naquela cama”. “Mulher, eu já não disse que estou sem dinheiro? O médico vai mandar eu comprar remédios. E não tenho o suficiente nem para o pão de cada dia, imagina para ir na farmácia com uma lista enorme de medicamentos…” “Eu… Eu tenho medo que ela morra…” Disse a mulher com a voz embargada. “Ela não vai morrer. Não aguentou até agora? Ela suporta mais um pouquinho. Agora corre que o ônibus está saindo. Viu, no que dá as suas confusões? Se a gente perder o ônibus, você vai ver”. Correram até o veículo que já manobrava para sair da baia. Mas o motorista parou e as portas abriram-se para que o casal embarcasse. Sentaram ambos, lado a lado, em um banco frente ao cobrador. “Tomara que eu consiga aquela vaga de servente naquela empresa. Se conseguir, vou levar sua filha ao médico. Você entende, não é? Tenho medo de não sobrar nada para nós todos. São oito pessoas naquela casa. Você prefere ficar sem comer? Pois é isso que vai ocorrer. Então, vai morrer todo mundo, não só a Pauliane…” A mulher de olhos baixos, murmurou: “ela não vai morrer. Deus não vai deixar”. “Seu Deus é muito poderoso, não é? Manda ele me arranjar um emprego. Então, toda a nossa situação muda de figura. Não vou precisar mendigar pelo auxílio dos outros. Nem mesmo, aguentar insulto na rua por causa de você”. “Eu rezo todos os dias, peço que Deus nos ajude e que salve a minha menininha”. “Deus não faz nada por nós. Fica rindo do sofrimento da gente aqui na Terra”. Resmungou o homem. “Não diga isto. Deus é tão bom para nós. Estamos conseguindo viver apesar das dificuldades e tenho fé que você vai ser chamado para aquele emprego” disse a esposa esperançosa. “Fé não é o suficiente, mulher. Não é”. Por fim, completou o homem com olhos na paisagem que passava veloz pela janela do ônibus.
Após duas horas de viagem, o ônibus chegou à Santo Antônio do Descoberto. Ambos os cônjuges desceram no ponto e andaram por algum tempo até avistarem o barraco que alugavam. Entraram e cinco das seis crianças que possuíam correram para a porta. Todas a falar ao mesmo tempo. A mãe pediu calma e o mais velho pronunciou-se por todos. “A Pauliane não está bem. Ela não se mexe, nem respira. A gente tem que ir com ela para o hospital”. A mãe correu para o quarto onde menininha estava. E o que a mulher viu foi um o corpo hirto e arroxeado sobre a cama. Sem esperanças, ela abraçou o corpo da filha e chorou. Não questionou a vontade divina. Se tinha que ser daquele jeito, era porque Deus pensou ser o melhor. O homem entrou no quarto. “E aí, morreu”? A mulher balançou a cabeça, afirmativamente. “Porcaria, agora a gente tem que chamar a polícia. Vai, veste uma roupa nela. Vamos levá-la ao hospital e dizer que ela morreu quando procurávamos por socorro”. “Será que você não se ressente nem pela morte de sua filha”? Disse a mulher sem sequer levantar a cabeça “Vai agora agir cheia de sentimentalismos? Se a polícia pegar ela aqui, nós dois vamos para a cadeia”. A mulher correu para a porta, trancou-a e jogou a chave fora entre as grades da janela do quarto das crianças. E gritou: “Edirlei, vá para a casa da vizinha e liga para a polícia”. A mulher estava abraçada ao corpo da menininha. O pai dizia que iria matar a mulher para ela acompanhar à filha ao inferno. A mulher desafiou-o: “bate, vai me bate, que além da morte de sua filha você vai responder ainda por agressão”. “Você ficou doida, mulher”? A mãe abraçada ao gélido corpinho da menina, disse: “eu e você matamos nossa filha. Eu, por esperar tempo demais e você, por considerar qualquer coisa mais importante que sua família. Enquanto você só agredia a mim, estava tudo certo. Mas, ao desprezar sua filha doente, você foi longe demais. É tempo de darmos um jeito nisso”. “E seus outros filhos, o que será deles”? “Agora você pensa em NOSSOS filhos? Eles vão viver com a sua mãe. Está mais que na hora de dar para ela o prejuízo que tanto dizia”. O homem ainda tentou arrebentar a janela e a porta. Mas foi em vão. Em alguns minutos as viaturas estacionavam frente ao barraco. O homem sentou-se sob a janela, olhou o corpo da filha nos braços da mãe e chorou.

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“O Natal é um tempo de benevolência,
perdão, generosidade e alegria.
A única época que conheço, no calendário do ano,
em que homens e mulheres parecem,
de comum acordo, abrir livremente seus corações.”
Charles Dickens

Um panetone para o Natal

Giordana Bonifácio

Estava frio, era dezembro, as lojas coloridas, apresentavam papais-noéis e elfos em suas vitrines para atrair clientes, sobretudo, as crianças. Os pedintes aproveitavam os dias de festa para concentrarem-se nos centros urbanos em busca de esmolas e talvez da compaixão dos homens. Fred, particularmente, gostava deste período do ano. “As pessoas estão mais solidárias”, dizia. Mas nunca havia estado num lugar tão grande quanto Brasília, menino do interior, sempre passara as festas na fazenda do avô. Fora ele que lhe ensinara as primeiras letras. Depois, o menino mostrara-se muito inteligente, um dos melhores alunos da escola rural. Foi do avô a ideia do neto continuar os estudos na capital federal. A despedida fora difícil, todos choravam copiosamente, ainda que Fred dissesse que voltaria tão logo pudesse. Mesmo assim, o pai fez-lhe prometer que ligaria todos os dias. Quando o rapaz subiu no ônibus sentiu-se até aliviado por terminarem “as despedidas”.
A viagem foi muito confortável, nas paradas, comia algo dos mantimentos que a velha Nenê, cozinheira da família há anos, tinha-lhe praticamente obrigado a trazer consigo. Quando chegou à rodoviária de Brasília quase não tinha fome. Tomou um táxi para o Plano Piloto, 303 Sul, quadra em que o avô tinha lhe alugado um apartamento. Não teve problema em achar o prédio e ao dizer ao porteiro que ele era neto de Nhô Correia, foi muito bem tratado por aquele que lhe acompanhou até o elevador.
Fred gostou da cidade, ainda que fosse o inverso do que estava acostumado. Não havia crianças brincando nas ruas nem o som dos animais da fazenda, mas o som estridente de sirenes e dos automóveis nas largas avenidas de Brasília. Desfez as malas e guardou as roupas, andou pelo apartamento para conhecer cada canto do que chamaria de lar pelos próximos anos. Logo que tomou posse de seu “cafofo”, sentiu fome e como não havia nada nos armários e na geladeira, fora forçado a procurar uma padaria.
Não teve de andar muito, havia uma rua comercial ao lado de seu bloco. A padaria estava cheia e Fred admirou-se com a quantidade de produtos que estavam expostos, era uma infinidade de pães, bolos, doces, salgados, uma imagem relativamente nova, tendo em vista que todos mantimentos da casa eram feitos na própria cozinha da fazenda. Era-lhe comum ver uma mesa farta, mas nunca uma padaria com uma fartura tão proeminente.
O rapaz pegou alguns pães, queijo e presunto. Então, dirigiu-se para o caixa a fim de efetuar o pagamento. Porém, foi surpreendido pela imagem de uma menininha vestida de roupas puídas e sujas, que na fila do caixa, levava consigo um panetone. Fred ficou a observá-la, talvez por ter simpatizado com ela desde o início. Ela olhava de quando em quando para a mão suja na qual trazia duas moedas brilhantes. Luziam na mão suada, como duas estrelas carregadas com cuidado para não deixarem de brilhar. As demais pessoas olhavam com um discriminador desdém para aquela pobre criança. Ela era como uma rosa num jarro de margaridas. Talvez fosse até mais luzidia que os tostões que levava na mão. Não pedira nada a ninguém e esperava, um tanto sem jeito, ser atendida pela caixa. Tentava não tocar em nada, amedrontada feito um gato numa loja de cristais.
Tinha olhos profundamente castanhos e ariscos. Baixava-os constantemente numa terrível submissão. Olhava para os pés, descalços e imundos, envergonhada por não estar apresentável num lugar aonde só pessoas bem vestidas entravam. Os joelhos ralados indicavam que ela era uma menina bem ativa e, talvez, feliz. Mas não naquele momento, em que parecia humilhar-se para adquirir um panetone naquela padaria. “O dinheiro dela valia menos que o dos outros”? Pensou Fred consigo. Não, a questão crucial naquele instante particular era o confronto entre classes, os ricos habitantes do Plano Piloto, deveriam pensar que a pobreza da menininha era contagiosa pelos olhares terríveis que a desferiam. Como se dissessem: “você não deve estar aqui”. Era isto, ou a miséria era ferina demais para que fossem apresentados a ela. Aquelas moedas que trazia consigo, a menina provavelmente ganhou mendigando pelas ruas. E, agora, o panetone era algo que sempre desejara comer e nunca teve oportunidade. Estava ali, corajosa, entre os leões, correndo o risco de ser enxotada daquele lugar pelos funcionários, por sua presença não grata assustar os clientes. Ainda assim, continuava na fila, levando consigo o prêmio por sua força. Era pouco. Tinha direito a muito mais. Fred dar-lhe-ia toda a padaria tão somente por sua incomparável coragem de impor-se ovelha em meio aos lobos.
A fila andava lentamente. A criança seguia sem palavras sempre a carregar seu panetone numa mão e as moedas na outra. Enfim, chegara o momento esperado, a menina enfrentaria a atendente. Todavia, subitamente, a senhora que estava atrás da menina tentou passar-lhe a frente. A garotinha nada falou. Ficou muda com medo de uma possível retaliação caso protestasse. Então o estudante foi a seu socorro. “Senhora, desculpe-me, mas penso que a pequena senhorita aqui estava aguardando na sua frente”. Os olhos da mulher faiscaram contra o rapaz. Ela afastou-se com uma expressão de ódio e constrangimento, de modo a deixar o espaço livre para a menina passar. Mesmo deveras descontente de dar a vez para uma mendiga, que não teve acesso aos confortos e educação recebidos por uma dama da sociedade.
A caixa olhava inquisitivamente ora para o rapaz, ora para a senhora que furou a fila e ora para a menina. “Será que funcionários do comércio devem fazer um workshop para conseguir atender pessoas cuja riqueza consiste em duas moedas de 1 real na mão”? Indagou-se Fred enquanto a caixa tentava explicar à garotinha que apenas dois reais não era o suficiente para comprar um panetone que valia 10. A caixa disse que não bastava, a menina assustada, disse: “mas eu só tenho isto”. Pela primeira vez, a garotinha parecia infeliz. Aquele panetone era-lhe muito importante. Provavelmente, nunca comera um. Nem escolhera um das marcas mais caras, servia-lhe aquele feito na padaria, cujo valor era mais acessível. Mesmo que ainda lhe custasse muito. Os olhos da criança ficaram marejados. A madame que quis furar a fila, reclamou: “se não tem como comprar, deixe o produto aí, pois não podemos esperar o dia todo na fila”. A menina esteve a ponto de desistir do seu pão natalino, cujo sabor julgava valer mais que todo este constrangimento.
Nenhum outro cliente que estava na fila levantou-se a favor da menina. Seguiu-se um burburinho desconcertante. Não usaram da voz para proteger uma menor do tratamento vexatório que estava a receber. O descaso é o que destrói. Já dizia Renato Russo. A pequenina não abria mão do seu panetone. Queria-lhe muito. Mas suas moedas eram insuficientes para suprir seu desejo. Estava ali, pedindo pela misericórdia de alguém, ainda que não o expressasse em palavras. Contudo, não havia viva alma que se posicionasse a seu favor. Não queria pedir, que lhe pagassem a conta. Mas seu olhar implorava que não lhe tomassem aquele alimento. Lágrimas escorreram-lhe pela face. Abrindo caminhos paralelos no rosto encardido.
Estava prestes a devolver o produto que desencadeou toda a situação quando Fred foi auxiliá-la: pagou o restante para a garotinha. A caixa, comovida, mandou-lhes esperar um instante. Falou com o vendedor que lhe trouxe mais dois panetones que estavam meio disformes. “Estão bons, só não estão bonitos para vender”. Disse a caixa. A menininha agradeceu. “É para o Natal”. Fred perguntou onde a menininha morava: “por aí”, respondeu, meio sem jeito. “Onde está a sua mãe”? Insistiu o estudante. A menininha disse. “Com meu irmão. Ali no sinal”. Disse, apontando. E a mulher, levando consigo um bebê, pedia esmolas entre os carros. Roupas sujas e estragadas, cabelo despenteado e um olhar sofrido de quem nunca recebeu dádivas da vida. A mulher não observava o que fazia a filha, tão entretida estava com o trabalho de pedir alguns trocados entre os carros que paravam no sinal. A menininha, ao ver a mãe, correu ao seu encontro levando os panetones e apontando para Fred. Ele ficou um tanto sem jeito, pois a mulher olhou-o de forma terna e agradecida. O estudante ficou tão satisfeito por ter feito a felicidade daquela criancinha que até se esqueceu do que fora comprar na padaria. Voltou para casa faminto e feliz.
No outro dia, voltara naquele comércio para comprar o desjejum, mas a menina não estava lá. O rapaz reconheceu a senhora algoz de sua apadrinhada, mas naquele momento fora até um tanto educada. Desejou bom dia para a caixa, mas não deixou de dizer: “vocês devem selecionar melhor os clientes atendidos neste estabelecimento”. Fred pensou em protestar, em posicionar-se contra o preconceito e a ignorância daquela dama tão mesquinha. Mas preferiu dar-lhe o silêncio como resposta. Quando chegou sua vez de ser atendido, a caixa desculpou-se pela intolerância que presenciou. O estudante disse que estava tudo bem. Afinal, segundo Cervantes, “a riqueza, não se mede pelos bens que se possui, mas sim pelo bem que se faz”. E, a isto, juntou o provérbio popular que a mãe dele sempre dizia: “pobre da alma que não vive para servir, pois também não serve para viver”. Despediu-se da atendente, muito contente, desta vez, levando o seu desjejum.

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