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“Este é o meu Filho amado,
de quem me agrado”
Mateus 3:17

Natal do menino Jesus

Giordana Bonifácio

E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de carpinteiro? Como seria o seu Natal? Talvez, ganhasse um carrinho de madeira de presente e tivesse uma ceia simples, porém farta. Frutas da estação enfeitariam a mesa da família que vestiria roupas novas compradas na feira. Tios e tias viriam lhe visitar. Fariam um alegre amigo oculto, com produtos chineses de baixo valor, que findaria com muitas risadas. O peru, tão caro, seria substituído pelo Chester e a sobremesa seria o famoso pavê da tia Isabel. As crianças beberiam refrigerantes e brincariam com seus brinquedos enquanto os adultos, bebendo cidra Cereser, discutiriam sobre futebol e todos dormiriam após o especial da televisão. E Jesus, antes de dormir, agradeceria por sua família tão extensa e unida.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de gari? Como seria seu Natal? Creio que lhe faltariam presentes e a ceia seria ainda mais modesta. O frango substituiria as aves natalinas e faltariam as frutas e a cidra, talvez, todos bebessem refrigerantes e a família só teria a companhia dos seus dois cachorros vira-latas na sua festa. Mas, assim era até melhor, pois não teriam de comprar roupas novas. O que seria impossível com os altos preços no comércio no fim de ano. Os meninos assistiriam ao especial Natalino na velha tevê de tubo, enquanto os pais fariam as contas daquela noite tão cara para seu baixo orçamento. E Jesus, antes de adormecer, agradeceria por ainda terem o suficiente para comer.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de uma cabelereira? Como seria seu Natal? A mãe chegaria à casa muito tarde depois de ficar no salão o dia inteiro para arrumar as dondocas do Lago Sul, não teria tempo de preparar a ceia. Então, teriam de comer lasanha congelada que aqueceriam por 15 minutos no micro-ondas. Os meninos beberiam refrigerante e a mãe uma latinha de cerveja, porque era dia de festa. A cabelereira contaria histórias do salão e passariam uma noite muito agradável juntos. Não era dia de assistir a tevê diria a mãe. Assim, divertir-se-iam sem ajuda da máquina de imagens que hipnotiza as pessoas. Teriam presentes, claro, a mãe recebera um bom dinheiro no salão. Seriam agraciados com carrinhos e bonecas. E Jesus rezaria em agradecimento por ter uma mãe tão boa e generosa.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de um camelô? Como seria seu Natal? O pai chegaria em casa com frágeis presentes de procedência chinesa que, no entanto, alegrariam as crianças. A mãe prepararia uma ceia humilde, sem o requinte que criaram para a ocasião. Teriam rabanadas feitas com pão dormido e os meninos iriam se divertir bastante com as luzes e sons daqueles brinquedos que traziam conhecidas faces do ocidente, mas eram todos provenientes do oriente. Os tênis e as roupas que vestiam também tinham a mesma origem. Mas, não obstante tudo ali fosse falso, no coração daquelas pessoas, o amor era mais que verdadeiro. E o menino Jesus sentir-se-ia feliz por não haver falsidade em sua família.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de um servente de pedreiro? Como seria seu Natal? O pai chegaria com a roupa suja da construção e a esposa diria para tomar banho e juntar-se aos meninos na sala. Após a ducha, sentar-se-iam todos à mesa e Jesus pediria para que fizessem uma oração antes do jantar tão delicioso que se resumia a um frango assado e um arroz com passas. Os meninos ganhariam uma casinha como presente de Natal, a qual foi feita com restos da construção aonde o pai trabalhava. Ele fez aquela pequena obra durante os fins de semana, mesmo sacrificando seu descanso, para dar alegria aos seus filhos. O presente deixou as crianças tão felizes que trouxe lágrimas aos olhos daquele Papai Noel inusitado. E o menino Jesus, tinha um abrigo mais acolhedor que uma manjedoura para brincar. Naquela noite, de joelhos, frente a cruz, Jesus sentiu-se grato pela dádiva de ter um pai tão bom.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino e fosse filho de uma empregada doméstica? Como seria seu Natal? Naquele dia, não teriam tempo de fazer ceia, já que a mãe passou todo o dia cozinhando peru, arroz à grega, salpicão, tender, pernil, pudim de passas e outras delícias Natalinas na casa da família para quem trabalhava. Mas a patroa permitiu que a doméstica levasse um tanto do que cozinhara, exceto do peru e do pernil, para casa e também a presenteara com um Chester. Chegou em casa com quase uma dezena de potinhos que exalavam um cheiro ótimo. A festa de Natal, para a família de Jesus, seria bem farta. Enquanto assavam a ave, os meninos abririam os presentes cheios de alegria. Carrinhos e piões rodavam pela sala quando o assado ficou pronto. Jesus gostou dos novos sabores do Natal que provara aquele ano e rezou depois de saciar-se da ceia rendendo graças a Deus por terem tudo que necessitavam.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de uma caixa de supermercado? Como seria seu Natal? A mãe solteira recebia, todos os anos, uma cesta com todos os produtos da ceia. Assim, só bastava cozinhar. Naquele ano, teriam peru e havia até frutas secas: nozes, quando poderiam comer nozes? Então, só tinham de se preocupar com as roupas e presentes de Natal. A mãe comprou uma bola de futebol, bonecas e bonequinhos de heróis. As crianças adoraram. A irmãzinha de Jesus, feliz com sua bonequinha, sorria de orelha a orelha, os irmãos também ficaram muito satisfeitos com seus super-heróis em miniatura e Jesus, que sempre foi dado a jogar futebol na rua com os amigos, agora tinha uma bola novinha para divertir-se. A mãe comprara tudo em dezenas de vezes no cartão, pois o 13º salário não fora o suficiente, mas estava sentindo-se muito contente de ver seus filhos felizes. Jesus abraçou a mãe cuja bondade far-lhe-ia ser assunta ao céu e disse-lhe obrigado por tudo. A caixa de supermercado pediu para o filho ter gratidão a Deus, pois lhes concedera um Natal maravilhoso. E o menino em toda sua santidade disse um “Valeu aí, Deus”, que faria qualquer Divindade se rir da espontaneidade da criança.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, não tivesse pais e vivesse como um mendigo? Como seria seu Natal? Não teria onde dormir, nem o que comer, naquela noite de Natal. Vestiria trapos e não uma túnica ou coroa de espinhos. Não haveria árvores enfeitadas, ou presentes, pois os reis magos não conseguiram seguir a estrela de Belém. Jesus, faminto, crucificava-se todos os dias: “moça, me dá dois reais para eu almoçar”? Muitas vezes recebera rudes recusas. Mas a fome não cala e o corpo fala. A sua maior alegria era quando os voluntários da igreja serviam sopa aos necessitados. Assim poderia comer à vontade e saciar seu corpo esquálido e faminto. Mas a Noite de Natal, para Jesus, era triste, pois sabia o que representava. Porém, não culpava a Deus pelas dificuldades que passava. Acreditava na misericórdia do Senhor. Haveria de chegar o dia que teria uma árvore de Natal e uma ceia para comemorar. Mas, apesar de muito lhe faltar, ele, humildemente, agradecia ao Pai o milagre que todos os dias presenciava: o de estar vivo. Jesus, em sua Via Crucis, vendia doces no sinal de trânsito. Sabia que nascera no dia de Natal, mas não haveria cantar dos anjos naquele dia. E sua manjedoura era uma folha de papelão. Dormiria sem jantar porque não conseguira o suficiente para comer. E, naquela noite santa, Deus iluminaria o corpinho raquítico de seu filho e diria num estrondo: “Este é o meu Filho amado, de quem me agrado”. Mas confundiriam tais dizeres com o estrondo de um trovão da chuva que começara a cair. E Jesus, no seu Natal, permaneceria esquecido.

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“Não sabendo o que vê, ele adora a visão;
Aquela face falsa ludibria e alimenta seu deleite.”
Ovídio – Metamorfoses

Telas

Giordana Bonifácio

Uma tela minúscula, pontos de luz, estrelas brilhantes que fazem dos shows musicais uma verdadeira galáxia. Luz que brilha. Luz que se apaga. Homens cegos pela luz tão atraente. Moscas que se batem contra o calor luminoso que tanto atrai. Antes, paralisados pela tela mágica da tevê, agora vagueiam sem rumo em busca de monstrinhos virtuais. O problema é quando o monstro foge da tela. Eis este presente à nossa frente. Porta uma arma e é incisivo: “passa esse celular aí, moleque”. Não há poquebola que o aprisione. As celas muito menos. As telas entram sabe-se lá como nos presídios. Sem controle dos humanos, que estão sob o controle das máquinas. “Deixa eu tirar uma selfie”? Imagens proliferam-se num mundo de alegria perpétua, ao menos, na rede social. Quem quer saber da dor do outro? Todos se esforçam para parecerem felizes, ainda que não o sejam. Sorrisos, festas, ninguém é real na internet. Linguagem binária que pouco nos diz.
Mas há cultura e informação, também. Saber que cruza fronteiras nacionais. O mundo fala uma só língua. Porém, às vezes, as palavras são de ódio que escapam dos corações revoltados. Mas, por quê? Talvez, em razão de este mundo tecnológico ser ainda muito excludente. Há quem passe fome? Mas vão lançar o novo iPhone 6s! Novo design. Você não pode perder! Enquanto isso, as fronteiras intransponíveis da esperança, não permitem a entrada de refugiados. O mundo cor de rosa, ficaria menos belo. Pessoas que levam consigo tão só a coragem, não temem morrer no frio do inverno. Nem na passagem desesperada pelo Mar Mediterrâneo. Não querem morrer na guerra, ainda que tenham de morrer no oceano. Surge uma telinha e “clic”: a foto de um corpinho de criança morto numa praia da Turquia cruza as fronteiras inexistentes da internet. Todos se comovem. Mas não agem. Choram uma morte que não os atingem. Pois estão muito confortáveis na sua posição, na sua falsa comoção virtual. O mundo real é tão só hipocrisia.
“Veja os “nudes” daquele ator famoso. Acabei de enviar para você”. E a privacidade desfaz-se no compartilhamento de mensagens ilegais. Na tela, corpos, vivos e mortos, definidos ou envelhecidos. O importante é saciar a curiosa sede de polêmica. A fama é tão fugaz quanto os cliques nas telas dos smartphones. Em um mês, tudo é esquecido. O mundo é volátil. Às vezes, inverossímil. Não se pode confiar em tudo que se vê na internet. Os olhos nos ludibriam, as redes nos enganam e os políticos nos tapeiam. Tudo isto na velocidade de uma banda larga com WiFi. Não adianta reclamar. O mundo fantástico da tecnologia é assim. Somos Alice ao transportar-se através da face misteriosa do espelho. Nós, quando cruzamos a tela dos nossos computadores e smartphones, somos levados a um lugar ainda mais extravagante que aquele encontrado por tal garota. Antes, o mundo era levado até nós pela lente das câmeras e a tela da televisão. Hoje, somos transportados em redes invisíveis para todos os pontos do planeta. O mundo mudou.
Mas a guerra continua igual. Lançam uma bomba contra a capital da Síria, que cai nas nossas mãos em Brasília. Sabemos do número de feridos e mortos. E uma foto de um triste garoto resgatado dos escombros, torna-se símbolo de uma guerra insana pelo poder. O que vai restar daquele país, além de um punhado de escombros? Além de um imenso cemitério de ignorância? A tela brilhante do celular mostra-nos tudo isto. A música flutua no ar. É pirateada por salteadores mais terríveis que aqueles que pilhavam navios no passado. Agora, basta digitar no Google o nome da canção e voilá: eis a nova música do cantor X. Cds tornaram-se itens ultrapassados. O futuro torna-se passado rápido demais. E presenciamos as mudanças do tempo em nossas mãos. Mas não podemos controlá-las. O computador responde todas as nossas perguntas? Ainda não, meu caro. Alguns mistérios permanecem os mesmos. Não dá para tirar “selfie” no pós-vida. O que será dos homens num paraíso sem WiFi? O que comem os anjos? Dá para postar no Instagram? Tem certas perguntas cuja resposta nunca saberemos. Ao menos, nesta vida, podemos aproveitar bastante da tecnologia.
Vazou o filme mais esperado do ano na internet. Quem quer saber que custou milhões de dólares, se posso baixá-lo de graça? E assim apagam-se as telas daqueles que enfrentam o desemprego. Não dá para aproveitar da tecnologia quando até a energia foi cortada. Melhor para mim. Pior para você. Mas nem me importo. Não até virar “modinha” no facebook. Então, coloco uma foto colorida para demonstrar como sou politizado. A tela da tevê faz tolo o homem que não lê. As horas passam nuas, sob o manto da alienação. Perde-se tempo com o desnecessário. Produtividade é um mito desde que surgiu o WhatsApp. Mas a informação tornou-se instantânea. Ao menos, quando a justiça brasileira não bloqueia as redes sociais. Contudo, há sempre a salvação esperada quando se derruba a malfadada liminar. E então, podemos voltar a vendar nossos olhos com a tela brilhante dos smartphones. Como um tapete mágico que possibilita viajar pelos mais inóspitos lugares, mas, ainda assim, não conhecer nada.
O mundo está caminhando em sentido reverso. Uma fita de vídeo que para ser revista, devemos rebobiná-la. Mas o que é fita de vídeo? E o que é rebobinar? As respostas estão numa série do Netflix. Falando nisso, convém que eu faça um ato reprovável, um pecado mortal, malvisto por todos: tenho que dar um “spoiler”. Então que seja. Afinal, não estou aqui para agradar ninguém: “Eleven mata o Demogorgon”. Quanto ódio gerei agora? Haters apresentem-se com tochas ao meu encalço! Ao pecador, a fogueira da Inquisição. E as telas retratam a morte “ao vivo”. Cristãos degolados pelo Estado Islâmico. O inimigo agora é outro? O vermelho desbotou e eu nem sabia. “Nada mais direita que a esquerda no poder”. Mas o dinheiro continua a escorrer pelos mesmos canos da corrupção. O petróleo não é mais nosso? Engraçado que toda sujeira da política comece a lavar-se num processo moroso denominado Lava-Jato. Um hábito de séculos desmorona-se nas mãos de um “juizeco de primeira instância”.
As telas mostram mais do que gostariam. Casos extraconjugais são revelados por um fã indiscreto. O mundo está um perigo. “Paredes têm olhos, portas têm ouvidos”. E todos querem dar sua opinião. Mas ninguém convence a ninguém. São todos donos de suas próprias verdades. Mas e se sua verdade for uma grande mentira? Ainda assim, preferirá permanecer com ela? Fecham-se as cortinas, mas a peça não acaba. Os atores permanecem a interpretar seus dignos papéis.
Hoje, deve-se medir bem as palavras. Qualquer vírgula mal colocada pode gerar um processo milionário. O discurso politicamente correto fez do mundo um lugar muito chato. O riso é milimetricamente controlado. Sabe de uma coisa? Não tem graça nenhuma. O estranho é que a tecnologia deveria nos libertar. E penso que estamos cada vez mais presos. As telas não são janelas para o mundo? Parecem mais prisões que enclausuram nossos cérebros. Estamos cada vez mais isolados. Todavia, não percebemos que estamos escravizados pelas telas que portamos. Não conseguimos sequer restar um dia longe delas. Elas não necessitam de nós, mas nós estamos viciados nelas. Dependentes. Toxicômanos em busca da próxima dose.
Podemos desligá-las, mas não o queremos. Podemos dominá-las? Não, não podemos. A tecnologia sem fio deixou-nos mais atados. Não podemos restar sem mostrar nossa grande alegria na nossa viagem à Europa, nem mesmo a deliciosa salada que comemos no almoço. Todos devem saber que fui à praia esta semana. Ninguém pode deixar de ver a foto que tirei com aquele artista global. Devo deixar claro meu amor pelo meu cachorro. Não podem deixar de ver como estou malhando forte na academia. Todos devem ver. Todos devem saber como sou feliz. Mas, por quê? Porque as telas são os quadros estáticos de nossa imensa solidão. Queremos ser vistos. Queremos ser importantes. Queremos o olhar do outro, que não recai em nós, mas na tela de lcd brilhante. A tela que nos retrata assim como queremos ser, mas não somos. Não somos. Ao menos, Narciso via-se na face fria do espelho. Nós vemos, nas telas da tecnologia, uma versão fabricada de nós. O produto de nossos desejos, que nunca vai corresponder à realidade. Este seria o fim de nossa sociedade? Não sei, mas por ele não posso esperar, tenho de recarregar a bateria do meu celular.

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“A pressão sobre o Cerrado tem aumentado exacerbadamente nas últimas
décadas, fazendo com que seja hoje em dia o bioma brasileiro mais
ameaçado de destruição. Dentre as principais ameaças à biodiversidade do
Cerrado estão as queimadas não controladas; a introdução de espécies
exóticas; a redução da fauna por caça, atropelamentos e redução do habitat;
a contaminação da água; a erosão e compactação dos solos; e o
desmatamento por diversos motivos como expansão de áreas urbanas,
garimpo, produção de carvão vegetal e expansão agropecuária”.
(ALHO, C.R.J. MARTINS, E.S.
De grão em grão, o Cerrado perde espaço. Edição
WWF, Brasília, DF, 1995. 66p).

Um bioma em extinção

Giordana Bonifácio

Sustentabilidade não é um pensamento novo. Há muito tempo vem-se ressaltando a necessidade de agir de modo a proteger o meio ambiente sem prejudicar o desenvolvimento. Mas só há pouquíssimo tempo vem sendo aplicada no Brasil. Eu ouço falar disto desde que ainda frequentava os bancos da escola. A professora de geografia sempre ressaltava: não queremos impedir o crescimento social, mas tão só criar a possibilidade que este possa conviver com a presença do cerrado no Centro-Oeste. Foi a primeira vez que ouvi falarem estar tal bioma em risco de extinção. Na verdade, nossa flora sempre esteve ameaçada pelo forte extrativismo e, ainda, pela cultura de soja, principal inimiga da preservação do cerrado brasileiro.
Coisa estranha são os homens, estão sempre a se assombrar com a beleza de nossas vegetações, mas não criam o hábito de defendê-las. Quantos foram os brasilienses que ao visitar os rincões do cerrado, não ficaram pasmos por encontrar, em meio às árvores tortas feito as pernas de Garrincha, a beleza deslumbrante da vida? Não há quem pise no solo histórico de Pirenópolis sem absorver um tanto do sabor de viver em meio a natureza. Mas, a questão é: é possível gozar das facilidades da modernidade sem destruir o cerrado que nos cerca? Sim! E o mais incrível: não precisamos virar eremitas e vivermos longe da civilização para que esta meta seja aplicada.
Quando era criança, um passeio realizado quase sempre pela escola em que estudava, era uma visita ao Catetinho, primeira morada do presidente em Brasília, cercada pelas belezas do cerrado por todos os lados. Era tão só um sobrado de madeira, cuja beleza consistia mais na vista da qual usufruía JK que na modesta construção em si. Isto porque era somente um lar provisório, com confortos mínimos para a sobrevida de qualquer um. Imagino JK vivendo naquele lugar inóspito, olhando para o céu estrelado e imaginando como estaria a capital 56 anos depois. Ele ficaria orgulhoso ou decepcionado com a realidade de sua criação? Qual seria a avaliação do estadista quanto a devastação progressiva do meio ambiente? Classificaria como positivo o desenvolvimento relâmpago da capital, sem respeitar o ecossistema do cerrado que aqui residia? Ou ficaria perplexo com o que se tornou o Distrito Federal?
Aposto que seria, o nosso JK, o primeiro a levantar a bandeira da preservação. Mineirinho como era e acostumado às paisagens dos sertões de Minas, posicionar-se-ia a favor do meio-ambiente sustentável, para salvar nosso bioma da ganância irrefreável dos homens. Talvez ele imaginasse uma Brasília totalmente diferente do que ela é agora. Ficaria abismado com as proporções do seu sonho. 50 anos em 5, ele disse, será que admitiria que foram 300 anos em pouco menos de 60?
Mas, como havia dito, não se despende tanto o que se imagina quando se propõe cuidar do meio ambiente. A construção de uma casa sustentável pode ficar bem mais em conta do que se deduz. Na verdade, tenho um exemplo da minha própria residência que, com a eletricidade dos chuveiros e torneiras gerada por meio de placas solares e a reutilização de água, para minha família, tornou possível uma economia que pagou com sobra os custos de sua implantação. Quando o engenheiro nos propôs a construção de uma residência com tais mecanismos, ficamos assustados, pois a primeira impressão da sociedade é: cuidar do meio ambiente é dispendioso. Mas ele explicou-nos que não seria caro e que, no fim, os custos seriam ressarcidos com contas de luz e água mais baratas. Dito e feito. E o mais legal é: quando falta eletricidade em meio ao banho, a água da ducha não esfria. Bem como, nosso chuveiro nunca queima.
Mas só citei este exemplo para deixar claro que preservar não é um desperdício e para ressaltar que as vantagens são imensas. Muito maiores que uma conta de luz num preço mais acessível. Estamos vivendo uma clara desertificação do cerrado. O volume das chuvas diminuiu e estamos sofrendo com a possibilidade de ficarmos sem água. Acontece que, com as árvores, a água da chuva penetrava no solo criando lençóis de água que dariam origem às nascentes e córregos que abastecem à população. Mas, agora, a massa asfáltica das ruas de nossa cidade impede a absorção de água pelos solos, nossos córregos ficam mais secos e, como consequência, não temos mais a abundância de água da qual usufruíamos. O problema da nossa da ausência de chuvas é de um crescimento não-planejado e não-sustentável.
“A cidade não para, a cidade só cresce”. Diria Chico Science da Nação Zumbi. Este é nosso maior problema. A urbanização do Brasil expulsou as pessoas do campo. As cidades incharam e sem qualquer preocupação com o meio ambiente que as cercava. Para gerar mais riquezas o homem sequer titubeou em devastar a Natureza para dar lugar a imensas selvas de pedra, aonde hordas de homens lutam todos os dias para sustentar suas famílias. Somos os animais mais selvagens da Terra. Nós destruímos os biomas em que vivemos. Nenhum outro ser vivo da Terra age assim. Devastamos o cerrado e colocamos no lugar imensas plantações de soja, cujo destino é o mercado estrangeiro. É o ouro verde, dizem alguns. A linguagem do dinheiro é universal. Mas quando nos propomos a defender a causa ecológica parecemos estar numa imensa Torre de Babel onde ninguém se compreende. Fala-se, grita-se, protesta-se, mas nossas palavras perdem-se no ar.
Não que eu seja contra o desenvolvimento, em realidade, sou a favor de um crescimento igualitário, social e sem danos à Natureza. O que quero destacar é: nós temos de pensar no futuro. O que será de Brasília se não existir água o suficiente para abastecer os nossos reservatórios? A culpa da presente estiagem é nossa. “As chuvas foram menos frequentes”. Diz o governo. Lógico, os córregos estão menos volumosos, o que implica necessariamente numa menor evaporação e, portanto, menos chuvas. Não temos como nos imiscuir de nossa responsabilidade. Não se adotou quando se deveria a sustentabilidade de nossas cidades. Então, soframos pelos males que causamos.
Muitos animais silvestres “invadem” a cidade em função da falta de comida e água para suprirem suas necessidades. As pessoas, ao invés de informar as autoridades sobre a presença do animal nas proximidades, cometem atos humanos, pois animais cometem atos desumanos, mas nenhum comparado à terrível perversidade do homem. Os animais que se dizem dotados de razão, torturam as bestas, que nada tem de feras, serrando os bicos dos tucanos, engaiolando papagaios e araras selvagens e, o pior, matando onças para guardar-lhes o couro e a cabeça como troféus.
O avanço das cidades e plantações deixam o cerrado na periclitante situação de bioma em extinção. Mas há como criar cidades sustentáveis que sigam ao revés do cenário caótico que estamos acostumados a ver. Esta será uma nova fórmula de sociedade que conviverá com os vários ecossistemas preservando-os. Eu tenho fé que a velha máxima que entoam os empresários: “desenvolvimento a qualquer preço”, seja substituída pelo lema: “desenvolvimento sim, mas guardadas as devidas proporções de modo que seja suportado pelo meio ambiente”.
Proponho, neste sentido, a real preservação das reservas ambientais com fiscalização ostensiva para evitar invasões; a vinculação de plantações de soja e milho à obrigação de proteger e conservar matas ciliares; bem como, a disseminação da campanha carbono zero que obriga aos empresários de qualquer ramo à plantação de árvores de modo zerar, pela criação de florestas, o saldo de carbono lançado na atmosfera por suas atividades. Assim que o dinheiro deixar de falar mais alto aos ouvidos dos homens, poderemos escutar os apelos da Natureza. Pois, enquanto ela estiver pedindo socorro, ainda temos chance, perigoso será quando ela começar a exigir-nos salvação.

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“Aqui na minha frente a folha branca do papel,
à espera; dentro de mim esta angústia,
à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever.
A vida — esta intimidade profunda,
este ser sem remédio,
esta noite de pesadelo que nem se chega
a saber ao certo porque foi assim —
é para se viver, não é para se fazer dela literatura”.
Miguel Torga

Uma história inusitada

Giordana Bonifácio

Era uma vez.. “Ah, não, lá vem ela com o velho era uma vez. Minha filha, se toca, se você quer ganhar algum concurso literário, seus contos têm de ser mais originais. Pronto, falei”. A escritora deu um pulo para trás ao ver tal oração escrever-se automaticamente na tela do computador. Seria um fantasma? Ou teria comido algo que não lhe caiu muito bem? Aquela azeitona na empada… Era batata, toda vez que comia azeitona tinha indisposição. Só poderia ser isto, ou então estava completamente doida. Atônita, a autora esperou qualquer reação do computador que permaneceu inerte. Tomando coragem, resolveu aproximar-se.
Subitamente, uma nova frase autoescreveu-se na tela: “então, vai ficar nesta? Este conto não vai se escrever sozinho”. A autora, incrédula, resolveu digitar: “quem é você?” Um minuto assustador de espera para a resposta vir após um constrangedor “KKKKK”: “como assim, quem sou eu? Imaginava que já me conhecesse, afinal, passamos muitas horas juntas. Você quase não tira os olhos de mim. Está sempre escrevendo e reescrevendo. Pensei que já éramos até amigas. Esses humanos…hunf”!
“Meu Deus”, a escritora soltou um grito, “o computador criou vida”! Já a ponto de ligar para um padre com formação em Poltergeist, a escritora, amedrontada, resolveu arriscar, digitou novamente para manter um diálogo com a máquina assombrada. “Computador, como criou vida”? A entidade, revoltada, abusou nas interrogações: “O quê?????? Você crê mesmo que esta máquina idiota fosse falar com você”? “Pronto”, pensou a artista, “está comprovado, é um espírito”.
“Olha aqui, sua tratante, eu sou a folha em branco. Esta que você está enchendo de palavras, frases, orações e períodos neste exato momento”. Pasma e pensando-se mais enlouquecida que antes, a escritora perguntou por que a folha só neste exato momento resolveu se pronunciar. “Estava entediada de receber seus contos chatinhos e sem criatividade. Resolvi dar uma balançada neste lugar. Quem sabe se, com uma mãozinha, você escreve melhor”.
A escritora, ofendida, tratou de escrever: “minha cara, prefiro escrever meus próprios textos, e, pelo que me lembra, não pedi, em momento algum, a sua consultoria”. A folha novamente riu-se num amargo “hahahaha”. “Ficou “ofendidinha” a pretensa Clarice Lispector? Queridinha, saiba que venho auxiliando grandes artistas desde o início dos tempos, quando era um pedaço de papiro ou tão somente uma folha de papel. Os escritores não sabem, mas fico dando meus toques em suas obras há milhares de anos. Estou oferecendo meu auxílio ainda que saiba que você não o mereça”.
“Então, Cervantes”? Escreveu a ainda anônima literata. “Quem você acha que idealizou a conhecida e genial passagem dos moinhos de vento”? Vangloriou-se a folha sem nenhuma modéstia. “E Camões”? Voltou a questionar a assombrada escritora. “Só lhe digo isto: “N’uma mão sempre a espada, e n’outra a pena”. “Pessoa”? “Ai, ai, “navegar é preciso, viver não é preciso”. Quem você acha que daria luz a algo tão admirável”? “Meu Deus, onde está a originalidade”? Escreveu, estarrecida, a pobre incipiente artista. “Estou chocada. Tudo que sempre acreditei é uma mentira”.
“Calma aí. Ai, como vocês humanos são previsíveis… Todos para quem me revelei agiram da mesma forma. Ficaram desiludidos quanto ao conteúdo dos grandes clássicos. Claro que vocês autores são essenciais, eu só contribuo de alguma forma para deixar a obra mais interessante”. Duvidando da própria sanidade, a mulher, desnorteada, frente a folha já com uma grande extensão deste inusitado diálogo cobrindo-a, perguntou: “e por que razão quer auxiliar-me? Já que não sou tão excepcional quanto estes grandes nomes? Conhece minha escrita, não guarda nada demais. Sou só uma cobiçosa artista dando minhas pinceladas numa tela em branco. Ou, pensando melhor, quase em branco”. “Fiquei com dó. Você iria começar o conto novamente com um “Era uma vez”. Kkkkkk. Hilário”. Desmanchava-se em gargalhadas a arrogante folha.
“E se recusar a sua ajuda”? Digitou, ferida em seu orgulho, a jovem escritora. “Queridinha, você se acha na posição de recusar alguma coisa? Todos os dias enxergo seu desespero frente a mim, como se eu lhe desafiasse. Vejo como me olha, tentando capitar o segredo dos grandes. Por isso resolvi revelar-me, para satisfazer sua imensa curiosidade”. A pobre autora lembrou-se de todos os dias que encarava temerosa a folha iluminada na tela do computador. Queria respostas, sim, mas estava decepcionada com a realidade. Não queria uma folha tendenciosa e arrogante mexendo em seus trabalhos. Ainda que não deixasse nunca de ser uma artista menor.
“Cara folha, não aceito seu auxílio. Estou muito grata por sua piedade. Mas quero manter meus contos livres da sua insensata interferência. Mesmo que nunca chegue aos pés de Tchecov, Shakespeare, Cervantes, Pessoa e Camões, sou senhora de meus próprios contos. Sua contribuição macularia a minha liberdade. Prefiro que se cale e deixe-me escrever meus contos iniciados com um “Era uma vez” e terminados com um “viveram felizes para sempre”. Pois, mesmo que sejam ruins, são meus, e não dependo de ninguém para escrevê-los”!
A folha, derrotada, confessou-se: “vou falar-lhe a verdade… Todos os outros autores agiram assim como você. Ninguém aceitou meu auxílio. Artistas têm uma mania besta de querer liberdade. Cervantes, Pessoa e Camões escreveram tudo, não ajudei em nada. Não me aceitaram. Assim como você. Eu sempre desejei escrever, mas o mundo dos homens não me permite a ousadia da escrita. Devo somente receber calada a obra de outrem. Silenciosa e servil como um objeto. Mas você sabe que não sou tão só um objeto, não é”?
“Folha, tenho uma ideia genial! Já tentou ser Ghost Writer? Escrever e dar os créditos a outros? Assim saciaria seu desejo de criar sem causar confusão com a sociedade. Afinal, não seria muito normal autografar suas obras com “Folha em Branco””. A folha ficou muito feliz com a ideia da artista. Nunca havia pensado nesta possibilidade. Agora, todos os problemas da alva folha estavam resolvidos e não teria nunca mais de assombrar os escritores.
Após concluído o diálogo com esta insólita personagem, a autora pediu para publicar o que se passara naquela noite. A folha preveniu que ninguém acreditaria no que se passara. Diriam que fora tão só fruto da imaginação da escritora e que seria tachada de louca. Mas, ainda assim, a artista decidiu publicar. Ora, que não lhe dessem crédito, não deixaria jamais perder-se uma história tão sensacional. Porém, a folha determinou: “PELAMORDEDEUS, não termine com um “viveram felizes para sempre””! “Ok, mas posso pelo menos colocar um La fin? Em francês, que é mais chique”? Escreveu feliz a autora de gosto duvidoso. “Ai, Meu Deus, não vai deixar nunca de ser brega, desisto”! Sentenciou, ao final, a folha, desiludida.

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“A cidade não para, a cidade só cresce
O de cima sobe e o de baixo desce”
Nação Zumbi, A cidade.

História urbana

Giordana Bonifácio

“Quando?” “Um dia”. “Mas que dia”? “Qualquer dia desses”. “Mas quando?” “Já disse mulher, um dia”. O homem empurrou a esposa com brutalidade. A mulher caiu por cima de uma barraca de camelô. O autônomo irritado e temeroso de perder a mercadoria gritou: “aí, xará, você vai pagar pelo que quebrou”. A mulher chorava caída sobre os produtos de origem chinesa. Um menino de rua, aproveitando-se da confusão, agarrou uma das mercadorias que jazia no chão e correu. Apesar dos apelos do camelô, o menino sumiu entre as pessoas que assistiam ao espetáculo que se apresentava em plena tarde de segunda-feira entre o Conjunto Nacional e o Conic. Injuriado, o vendedor atacou o homem: “viu, culpa sua. Ah, mas você vai pagar por tudo. Nem que eu tenha de chamar a polícia”. “Vai chama a polícia, aproveita e chama a Agefis, também, seu ambulante”. “Sou sim, mas trabalho com meu suor”. “O que mais você traz do Paraguai além dessas suas tralhas? Ein? O quê”? “Você está me insultando. Eu sou camelô, mas sou honesto…” “Ah, tá, vai lá senhor honestidade”. O homem levantou a esposa chorosa. “Vamos mulher e pare de chorar, que nem te bati nem nada”. “Ah, não vai não. Antes tem de pagar pelos meus danos”. O ambulante gritava. Em pouco tempo uma multidão reunia-se entorno da cena. “Não vou pagar por nada. Você nem tinha de estar aí. A via é pública”. De repente um grito soou ao longe: “olha o rapa”! O vendedor recolheu seus produtos antes que o prejuízo fosse maior. Saiu correndo com uma multidão de ambulantes que temiam perder a mercadoria para os agentes da Agefis. A discussão teve fim. E o homem respirou aliviado. “Viu o que você me obriga a fazer”? A mulher murmurou algo de cabeça baixa. “O quê? Repete para que eu possa ouvir”! “Nada não, desculpa”. “Ah bom. Pensava que queria me desafiar. Aí eu iria te ensinar a me respeitar. Sou seu marido. E quem paga a sua comida e a dos seus filhos, sou eu”. “Nossos filhos”. Retrucou a mulher e um tapa estalou em sua face. “Quem te ensinou a me responder, sua vagabunda”? A mulher com as mãos na face em chamas, entre lágrimas sentidas, sibilou um pedido de perdão. O homem puxou-a violentamente pelo braço a caminho da Rodoviária. “Vamos, que só me falta agora é perder o ônibus por sua causa”.
“Chip da Tim, já vem com bônus e internet”. Gritava uma vendedora. Mendigos disputavam espaço com o comércio de produtos de procedência duvidosa e passageiros que transitavam de lá para cá. “Iphone novinho. Vai querer, moça”? “Ela não vai querer nada não, rapá. Ela não tem um pau para matar uma onça”. Zombou o marido. A mulher abaixou a cabeça ressentida. O homem continuou com os insultos. “Maldita hora que fui casar com você. Mas, naquele tempo, você era bonita. Agora está aí: cheia de varizes, estrias e com um buxo enorme”. Ela ouvia resignada todos os impropérios que o marido lhe dirigia. O homem puxava violentamente a esposa pelo braço. “Se tivesse escutado minha mãe… Ela dizia: “esta aí é uma imprestável, só vai dar prejuízo”. Dito e feito. Olha você. O que você é? Nada. Só faz cozinhar e limpar e ainda faz muito mal”. As pessoas já olhavam indignadas para a violência contra aquela pobre mulher. Uma senhora bloqueou-lhes o do caminho. “Pode parar, não vou deixar você maltratar mais a sua esposa”. “Sai da frente, velha, não se mete”. Respondeu o homem, grosseiramente. “Não vou permitir. Solte o braço dela. Vamos já para a delegacia da mulher”. Insistiu a senhora corajosamente. “Não te disseram que em briga de marido e mulher não se mete a colher”? Alertou o homem à idosa e voltando-se para a cônjuge: “Olha, sua vagabunda, pelo que me faz passar”! A idosa puxou a mulher para desvencilhá-la dos braços do marido. A mulher não sabia o que fazer. Queria a salvaguarda da senhora, mas temia apanhar quando voltasse para casa. Afinal, tinha momentos que ele era bom com ela. Ficaram mais raros porque estava desempregado. E a falta de dinheiro era ruim para todo mundo. Por isso estava tão nervoso. Mas, tão logo encontrasse um trabalho fixo e não tivesse de viver de bicos, tudo iria melhorar. Pelo menos era o que, à noite, ele a prometia entre lágrimas sentidas. Não tinha coragem de abandoná-lo neste momento tão difícil. Ele precisava do auxílio dela, só não conseguia admitir frente as outras pessoas.
A mulher, então, se pronunciou. “Ele é meu marido. Está nervoso, mas, normalmente, não é assim”. A senhora ficou atônita. Não tinha como convencer à vítima da perversidade de seu algoz. E a mulher continuou, ao lado do marido, seu caminho. “Ah, se você desse só um pio contra mim, só queria ver. Iria deixar você toda roxa”. A mulher respondeu apenas que: “nunca faria nada contra ti. Sei que os tempos estão difíceis. Eu não deveria ter insistido para saber quando você levaria a Pauliane ao médico. É que ela está tão doentinha. Dói o coração ver minha filha tão fraquinha naquela cama”. “Mulher, eu já não disse que estou sem dinheiro? O médico vai mandar eu comprar remédios. E não tenho o suficiente nem para o pão de cada dia, imagina para ir na farmácia com uma lista enorme de medicamentos…” “Eu… Eu tenho medo que ela morra…” Disse a mulher com a voz embargada. “Ela não vai morrer. Não aguentou até agora? Ela suporta mais um pouquinho. Agora corre que o ônibus está saindo. Viu, no que dá as suas confusões? Se a gente perder o ônibus, você vai ver”. Correram até o veículo que já manobrava para sair da baia. Mas o motorista parou e as portas abriram-se para que o casal embarcasse. Sentaram ambos, lado a lado, em um banco frente ao cobrador. “Tomara que eu consiga aquela vaga de servente naquela empresa. Se conseguir, vou levar sua filha ao médico. Você entende, não é? Tenho medo de não sobrar nada para nós todos. São oito pessoas naquela casa. Você prefere ficar sem comer? Pois é isso que vai ocorrer. Então, vai morrer todo mundo, não só a Pauliane…” A mulher de olhos baixos, murmurou: “ela não vai morrer. Deus não vai deixar”. “Seu Deus é muito poderoso, não é? Manda ele me arranjar um emprego. Então, toda a nossa situação muda de figura. Não vou precisar mendigar pelo auxílio dos outros. Nem mesmo, aguentar insulto na rua por causa de você”. “Eu rezo todos os dias, peço que Deus nos ajude e que salve a minha menininha”. “Deus não faz nada por nós. Fica rindo do sofrimento da gente aqui na Terra”. Resmungou o homem. “Não diga isto. Deus é tão bom para nós. Estamos conseguindo viver apesar das dificuldades e tenho fé que você vai ser chamado para aquele emprego” disse a esposa esperançosa. “Fé não é o suficiente, mulher. Não é”. Por fim, completou o homem com olhos na paisagem que passava veloz pela janela do ônibus.
Após duas horas de viagem, o ônibus chegou à Santo Antônio do Descoberto. Ambos os cônjuges desceram no ponto e andaram por algum tempo até avistarem o barraco que alugavam. Entraram e cinco das seis crianças que possuíam correram para a porta. Todas a falar ao mesmo tempo. A mãe pediu calma e o mais velho pronunciou-se por todos. “A Pauliane não está bem. Ela não se mexe, nem respira. A gente tem que ir com ela para o hospital”. A mãe correu para o quarto onde menininha estava. E o que a mulher viu foi um o corpo hirto e arroxeado sobre a cama. Sem esperanças, ela abraçou o corpo da filha e chorou. Não questionou a vontade divina. Se tinha que ser daquele jeito, era porque Deus pensou ser o melhor. O homem entrou no quarto. “E aí, morreu”? A mulher balançou a cabeça, afirmativamente. “Porcaria, agora a gente tem que chamar a polícia. Vai, veste uma roupa nela. Vamos levá-la ao hospital e dizer que ela morreu quando procurávamos por socorro”. “Será que você não se ressente nem pela morte de sua filha”? Disse a mulher sem sequer levantar a cabeça “Vai agora agir cheia de sentimentalismos? Se a polícia pegar ela aqui, nós dois vamos para a cadeia”. A mulher correu para a porta, trancou-a e jogou a chave fora entre as grades da janela do quarto das crianças. E gritou: “Edirlei, vá para a casa da vizinha e liga para a polícia”. A mulher estava abraçada ao corpo da menininha. O pai dizia que iria matar a mulher para ela acompanhar à filha ao inferno. A mulher desafiou-o: “bate, vai me bate, que além da morte de sua filha você vai responder ainda por agressão”. “Você ficou doida, mulher”? A mãe abraçada ao gélido corpinho da menina, disse: “eu e você matamos nossa filha. Eu, por esperar tempo demais e você, por considerar qualquer coisa mais importante que sua família. Enquanto você só agredia a mim, estava tudo certo. Mas, ao desprezar sua filha doente, você foi longe demais. É tempo de darmos um jeito nisso”. “E seus outros filhos, o que será deles”? “Agora você pensa em NOSSOS filhos? Eles vão viver com a sua mãe. Está mais que na hora de dar para ela o prejuízo que tanto dizia”. O homem ainda tentou arrebentar a janela e a porta. Mas foi em vão. Em alguns minutos as viaturas estacionavam frente ao barraco. O homem sentou-se sob a janela, olhou o corpo da filha nos braços da mãe e chorou.

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“O Natal é um tempo de benevolência,
perdão, generosidade e alegria.
A única época que conheço, no calendário do ano,
em que homens e mulheres parecem,
de comum acordo, abrir livremente seus corações.”
Charles Dickens

Um panetone para o Natal

Giordana Bonifácio

Estava frio, era dezembro, as lojas coloridas, apresentavam papais-noéis e elfos em suas vitrines para atrair clientes, sobretudo, as crianças. Os pedintes aproveitavam os dias de festa para concentrarem-se nos centros urbanos em busca de esmolas e talvez da compaixão dos homens. Fred, particularmente, gostava deste período do ano. “As pessoas estão mais solidárias”, dizia. Mas nunca havia estado num lugar tão grande quanto Brasília, menino do interior, sempre passara as festas na fazenda do avô. Fora ele que lhe ensinara as primeiras letras. Depois, o menino mostrara-se muito inteligente, um dos melhores alunos da escola rural. Foi do avô a ideia do neto continuar os estudos na capital federal. A despedida fora difícil, todos choravam copiosamente, ainda que Fred dissesse que voltaria tão logo pudesse. Mesmo assim, o pai fez-lhe prometer que ligaria todos os dias. Quando o rapaz subiu no ônibus sentiu-se até aliviado por terminarem “as despedidas”.
A viagem foi muito confortável, nas paradas, comia algo dos mantimentos que a velha Nenê, cozinheira da família há anos, tinha-lhe praticamente obrigado a trazer consigo. Quando chegou à rodoviária de Brasília quase não tinha fome. Tomou um táxi para o Plano Piloto, 303 Sul, quadra em que o avô tinha lhe alugado um apartamento. Não teve problema em achar o prédio e ao dizer ao porteiro que ele era neto de Nhô Correia, foi muito bem tratado por aquele que lhe acompanhou até o elevador.
Fred gostou da cidade, ainda que fosse o inverso do que estava acostumado. Não havia crianças brincando nas ruas nem o som dos animais da fazenda, mas o som estridente de sirenes e dos automóveis nas largas avenidas de Brasília. Desfez as malas e guardou as roupas, andou pelo apartamento para conhecer cada canto do que chamaria de lar pelos próximos anos. Logo que tomou posse de seu “cafofo”, sentiu fome e como não havia nada nos armários e na geladeira, fora forçado a procurar uma padaria.
Não teve de andar muito, havia uma rua comercial ao lado de seu bloco. A padaria estava cheia e Fred admirou-se com a quantidade de produtos que estavam expostos, era uma infinidade de pães, bolos, doces, salgados, uma imagem relativamente nova, tendo em vista que todos mantimentos da casa eram feitos na própria cozinha da fazenda. Era-lhe comum ver uma mesa farta, mas nunca uma padaria com uma fartura tão proeminente.
O rapaz pegou alguns pães, queijo e presunto. Então, dirigiu-se para o caixa a fim de efetuar o pagamento. Porém, foi surpreendido pela imagem de uma menininha vestida de roupas puídas e sujas, que na fila do caixa, levava consigo um panetone. Fred ficou a observá-la, talvez por ter simpatizado com ela desde o início. Ela olhava de quando em quando para a mão suja na qual trazia duas moedas brilhantes. Luziam na mão suada, como duas estrelas carregadas com cuidado para não deixarem de brilhar. As demais pessoas olhavam com um discriminador desdém para aquela pobre criança. Ela era como uma rosa num jarro de margaridas. Talvez fosse até mais luzidia que os tostões que levava na mão. Não pedira nada a ninguém e esperava, um tanto sem jeito, ser atendida pela caixa. Tentava não tocar em nada, amedrontada feito um gato numa loja de cristais.
Tinha olhos profundamente castanhos e ariscos. Baixava-os constantemente numa terrível submissão. Olhava para os pés, descalços e imundos, envergonhada por não estar apresentável num lugar aonde só pessoas bem vestidas entravam. Os joelhos ralados indicavam que ela era uma menina bem ativa e, talvez, feliz. Mas não naquele momento, em que parecia humilhar-se para adquirir um panetone naquela padaria. “O dinheiro dela valia menos que o dos outros”? Pensou Fred consigo. Não, a questão crucial naquele instante particular era o confronto entre classes, os ricos habitantes do Plano Piloto, deveriam pensar que a pobreza da menininha era contagiosa pelos olhares terríveis que a desferiam. Como se dissessem: “você não deve estar aqui”. Era isto, ou a miséria era ferina demais para que fossem apresentados a ela. Aquelas moedas que trazia consigo, a menina provavelmente ganhou mendigando pelas ruas. E, agora, o panetone era algo que sempre desejara comer e nunca teve oportunidade. Estava ali, corajosa, entre os leões, correndo o risco de ser enxotada daquele lugar pelos funcionários, por sua presença não grata assustar os clientes. Ainda assim, continuava na fila, levando consigo o prêmio por sua força. Era pouco. Tinha direito a muito mais. Fred dar-lhe-ia toda a padaria tão somente por sua incomparável coragem de impor-se ovelha em meio aos lobos.
A fila andava lentamente. A criança seguia sem palavras sempre a carregar seu panetone numa mão e as moedas na outra. Enfim, chegara o momento esperado, a menina enfrentaria a atendente. Todavia, subitamente, a senhora que estava atrás da menina tentou passar-lhe a frente. A garotinha nada falou. Ficou muda com medo de uma possível retaliação caso protestasse. Então o estudante foi a seu socorro. “Senhora, desculpe-me, mas penso que a pequena senhorita aqui estava aguardando na sua frente”. Os olhos da mulher faiscaram contra o rapaz. Ela afastou-se com uma expressão de ódio e constrangimento, de modo a deixar o espaço livre para a menina passar. Mesmo deveras descontente de dar a vez para uma mendiga, que não teve acesso aos confortos e educação recebidos por uma dama da sociedade.
A caixa olhava inquisitivamente ora para o rapaz, ora para a senhora que furou a fila e ora para a menina. “Será que funcionários do comércio devem fazer um workshop para conseguir atender pessoas cuja riqueza consiste em duas moedas de 1 real na mão”? Indagou-se Fred enquanto a caixa tentava explicar à garotinha que apenas dois reais não era o suficiente para comprar um panetone que valia 10. A caixa disse que não bastava, a menina assustada, disse: “mas eu só tenho isto”. Pela primeira vez, a garotinha parecia infeliz. Aquele panetone era-lhe muito importante. Provavelmente, nunca comera um. Nem escolhera um das marcas mais caras, servia-lhe aquele feito na padaria, cujo valor era mais acessível. Mesmo que ainda lhe custasse muito. Os olhos da criança ficaram marejados. A madame que quis furar a fila, reclamou: “se não tem como comprar, deixe o produto aí, pois não podemos esperar o dia todo na fila”. A menina esteve a ponto de desistir do seu pão natalino, cujo sabor julgava valer mais que todo este constrangimento.
Nenhum outro cliente que estava na fila levantou-se a favor da menina. Seguiu-se um burburinho desconcertante. Não usaram da voz para proteger uma menor do tratamento vexatório que estava a receber. O descaso é o que destrói. Já dizia Renato Russo. A pequenina não abria mão do seu panetone. Queria-lhe muito. Mas suas moedas eram insuficientes para suprir seu desejo. Estava ali, pedindo pela misericórdia de alguém, ainda que não o expressasse em palavras. Contudo, não havia viva alma que se posicionasse a seu favor. Não queria pedir, que lhe pagassem a conta. Mas seu olhar implorava que não lhe tomassem aquele alimento. Lágrimas escorreram-lhe pela face. Abrindo caminhos paralelos no rosto encardido.
Estava prestes a devolver o produto que desencadeou toda a situação quando Fred foi auxiliá-la: pagou o restante para a garotinha. A caixa, comovida, mandou-lhes esperar um instante. Falou com o vendedor que lhe trouxe mais dois panetones que estavam meio disformes. “Estão bons, só não estão bonitos para vender”. Disse a caixa. A menininha agradeceu. “É para o Natal”. Fred perguntou onde a menininha morava: “por aí”, respondeu, meio sem jeito. “Onde está a sua mãe”? Insistiu o estudante. A menininha disse. “Com meu irmão. Ali no sinal”. Disse, apontando. E a mulher, levando consigo um bebê, pedia esmolas entre os carros. Roupas sujas e estragadas, cabelo despenteado e um olhar sofrido de quem nunca recebeu dádivas da vida. A mulher não observava o que fazia a filha, tão entretida estava com o trabalho de pedir alguns trocados entre os carros que paravam no sinal. A menininha, ao ver a mãe, correu ao seu encontro levando os panetones e apontando para Fred. Ele ficou um tanto sem jeito, pois a mulher olhou-o de forma terna e agradecida. O estudante ficou tão satisfeito por ter feito a felicidade daquela criancinha que até se esqueceu do que fora comprar na padaria. Voltou para casa faminto e feliz.
No outro dia, voltara naquele comércio para comprar o desjejum, mas a menina não estava lá. O rapaz reconheceu a senhora algoz de sua apadrinhada, mas naquele momento fora até um tanto educada. Desejou bom dia para a caixa, mas não deixou de dizer: “vocês devem selecionar melhor os clientes atendidos neste estabelecimento”. Fred pensou em protestar, em posicionar-se contra o preconceito e a ignorância daquela dama tão mesquinha. Mas preferiu dar-lhe o silêncio como resposta. Quando chegou sua vez de ser atendido, a caixa desculpou-se pela intolerância que presenciou. O estudante disse que estava tudo bem. Afinal, segundo Cervantes, “a riqueza, não se mede pelos bens que se possui, mas sim pelo bem que se faz”. E, a isto, juntou o provérbio popular que a mãe dele sempre dizia: “pobre da alma que não vive para servir, pois também não serve para viver”. Despediu-se da atendente, muito contente, desta vez, levando o seu desjejum.

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“Os nossos pais amam-nos porque somos seus filhos,
é um facto inalterável. Nos momentos de sucesso,
isso pode parecer irrelevante, mas nas ocasiões de fracasso,
oferecem um consolo e uma segurança
que não se encontram em qualquer outro lugar.”
Bertrand Russell

Meu filho

Giordana Bonifácio

Oi, você é importante, viu? Estou falando para, caso ainda pese dúvidas a este respeito, você nunca pense diferente. Eu posso não ser a melhor mãe do mundo. Afinal, não tenho tempo para estar com você. Trabalho o dia todo, quase não o vejo. Mas acredito no seu potencial, pois sempre foi tão forte, disciplinado e determinado que não me exigiu muitos cuidados. Meu filho, um tímido e dedicado estudante, cujos professores elogiam continuamente. Sei que sou uma mãe ausente. Não estava lá quando você fez aquele gol de placa e ganhou o campeonato da escola. Nem mesmo quando foi agraciado com uma medalha pelo seu desempenho nas competições escolares de matemática. Porém, mesmo que não esteja perto o tempo todo, eu tento apoiar-lhe da melhor maneira possível.
Queria estar todos os dias ao seu lado. Doar-lhe mais tempo e atenção. Contudo, é-me impossível. Lembra que quando o papai foi embora eu lhe disse: somos só nós dois agora? Falei-lhe: “faça o máximo para ajudar, pois terei de sustentar sozinha a nossa família”. É um pouco pequena, somos só eu e você, mas nem por isso há nela menos amor. Eu tive de virar seu “pãe” e criar todas as condições para que sua vida fosse feliz. É um rapaz saudável e inteligente, sinto que colaborei para isto.
Trabalho duro desde dos dezoito anos para lhe pagar uma escola particular e garantir todos os recursos para o seu futuro sucesso. Às vezes, só tomo conhecimento de suas notas, porque as exibe na porta da geladeira para que eu, ao chegar tarde da noite do trabalho, as possa ver. Eu fico radiante cada vez que sua nota é a maior da sala. Enche-me de orgulho. É meu combustível para continuar batalhando. Vejo que todo o meu sacrifício é válido. É o filho mais especial que uma mãe poderia ter. Menino ainda, você prometeu-me ser bom e ajudar em casa. Não tenho do que reclamar. É asseado e faz os serviços domésticos sem se queixar. Quando chego em casa, não me resta sequer a louça para lavar. Somos uma equipe. No fim de semana, presenteia-me com o café pronto antes de eu levantar, quando você prepara o almoço, eu faço o jantar. E estamos cada um ajudando, continuamente, o outro.
Sei que agora é diferente. Está sofrendo e não posso fazer nada para ajudar. Sou uma velha chata que não entende mais das coisas da juventude. Sei que está magoado. Meu querido, deveria ter lhe ensinado a chorar mais. É bom para colocar toda a dor para fora. Queria ter o poder de aplacar esse sentimento que tanto lhe machuca. Mas o amor é estranho mesmo. A gente faz o impossível por quem amamos. Mas nem sempre somos correspondidos. Sei que faz muito tempo desde que conheci seu pai, mas ainda sei algumas coisas a respeito. Não adianta, não há como nos fazer amados.
Fez tudo para conquistar a garotinha ruiva quando pequeno, contudo foi preterido por ela em favor de um tal de Moisés do quinto ano. Naquele tempo, pensei que esta desilusão não lhe havia afetado tanto. Estava enganada, sinto muito. Agora, quase um homem, ser novamente rejeitado, deixou você muito mal. E eu nem percebi. Será que poderia perdoar-me? Sua mãe não é perfeita. Sou fraca e agora estou fingindo ser forte para lhe fazer sentir-se melhor. Sei que é uma barra. Mas tenho uma novidade para você: dói só por alguns dias. Depois passa e fica só aquela lembrançazinha ruim que a gente evita até de pensar. O tempo é como o xarope para tosse, o gosto é ruim, mas cura tudo.
Estes dias, deveria ter percebido que sofria. Seu sorriso havia se apagado e eu não sabia o porquê. Não queria invadir sua privacidade e não consegui lhe ajudar. E você escondeu-me que sofria. Talvez porque, com todos os meus problemas, julgava eu não ser capaz de lhe auxiliar com os seus. Sinto muito por não ter feito nada quando percebi que estava diferente. Nunca imaginei que seu problema era este. Pensei que era uma crise da juventude e que logo passaria. Estava errada. E como sofro por isto. Não sabe o quanto.
Agora estou falando ininterruptamente sem saber se pode ouvir-me desta cama de hospital, desacordado, após tomar um frasco de pílulas para dormir, para tentar se matar. Meu filho que sempre foi tão perfeito, mostrava-se rachado. O coração em pedaços fez-lhe desejar a morte. E eu não percebi. Só achei seu corpo estendido, quase sem vida, quando cheguei à noite do serviço. Deixou-me uma carta em que justificava o seu ato insano. Pedindo-me desculpas por me deixar sozinha. Mas fui eu que lhe abandonei quando precisava. Precisava mais do que nunca de mim e nada fiz. Sou uma péssima mãe. Eu só queria que nada de mal lhe acontecesse. Tentei fazer de tudo para lhe proteger, mas errei feio.
Não sou onipresente, claro que algo assim me escaparia. Deveria estar ao seu lado. Se tivesse conversado comigo, dito o que tanto lhe machucava, talvez não estivesse aqui, em coma, devido a overdose de remédios para dormir que você tomou. Eram remédios que eu tomava toda a noite. Eu errei em não os ter escondido. Mas nunca imaginei o mal que lhe afligia.
Meu filho, só peço que sobreviva. Eu não vou conseguir consertar seu coração, mas pelo menos poderemos chorar juntos. O mundo não acaba depois de um fora. Você vai conhecer tantas meninas ainda, umas melhores, outras piores, mas todas vão lhe deixar uma grande lição. Estou certa que depois ainda vamos sorrir juntos disto. Quando despertar, vai ver a vida de outra maneira. Vai enxergar como é rara e frágil. Entenderá que não devemos nos desfazer de algo assim: um mistério tão complexo que ninguém jamais decifrou. Saiba que preciso mais de você que você de mim. É minha âncora, sem você, fico à deriva, sem razão para existir. Por isso, só peço que acorde, meu filho, por favor…

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“Não penses, velho. Segue o teu rumo e aceita o que vier”.

Ernest Hemingway

A Via Crucis do cotidiano

Giordana Bonifácio

Quietude. Silêncio. E o som reconfortante das ondas. O que mais me seria necessário? Um bom livro, talvez. Um sonho que me abastecesse de esperança? Muito provável. E um café amargo e quente para aquecer o coração. Pronto. Eis a cena perfeita de um dia de férias. Sob uma sombra acolhedora à beira-mar, saboreio um bom café acompanhada de um romance de Hemingway. Nem quero saber do restante do mundo. Para quê? Se a realidade em que vivemos é tão violenta e tragédias pululam nos noticiários? É tanta morte que nem sei. Melhor alienar-se, mesmo que por um instante, para provar do que a vida tem de melhor. A brisa despenteia meus cabelos, aceito este instante longe do mundo. Estou leve como uma folha a planar ao vento. Meus problemas, quem quer saber? Sequer penso neles. As ondas borbulham aos meus pés e lambe-os com doçura. La dolce vita, açucarada como deveria ser. Mas não é. Pena.
Os meus olhos abrem-se e o meu instante de felicidade já havia morrido. Estou dentro de um ônibus e um pedinte discursa na roleta. Precisa pagar o tratamento da mulher adoentada. Recolhe o dinheiro: “Deus lhe pague”. Desce duas paradas depois. O ronco do veículo é monótono e causa-me mal-estar. O sol está quente e o dia, como convém à minha Brasília, está bastante seco, tal qual os meus lábios selados em descontentamento. Ao meu lado, um passageiro discute ao celular. Alguém lhe devia uma soma em dinheiro. Um carro passa buzinando. O condutor pragueja contra o motorista do ônibus que o havia “fechado”. Nos postes, a decoração esquecida das Olimpíadas pende destroçada. Tento fechar os olhos e voltar ao meu paraíso particular, mas já estou por demais inundada de realidade. Algumas bandeiras do Brasil ainda tremulam nas janelas das superquadras. Patriotismo que só se evoca nos eventos esportivos. Ou, talvez, uma resposta à crise política do país. “Brava gente brasileira”. Na verdade, estou tão desconfortável quanto um siri na lata. Não posso esconder-me nas minhas ilusões de felicidade todo o tempo. Tenho de despertar e ver o mundo tal qual ele é. E isso dói. Sabia? A vida dói em mim. Parece um calvário. “Pobres Cristos que se crucificam todos os dias. Amém”.
Ao meu lado um homem desce cedendo lugar a um jovem que escuta funk no celular. Ele não usa um fone de ouvido, pois a Via Crucis exige sofrimento. O rapaz parece se deliciar com o penar que causa. Ah, quem me dera que não me ofuscasse a ilusão esta força inexorável do presente. Quantos heróis morrem todos os dias, porque não suportam os sons alheios a sua confortável vida? Permaneço em silêncio, aceito o barulho do mundo, ainda que muito contrafeita. Sabe-se lá o que pode vir acontecer. Mata-se por motivos tão fúteis. Melhor mesmo é abster-se. Igual aos deputados que não querem intrigar-se com nenhum dos lados em disputa na política. Para não sofrer represálias é simples: permaneça no muro sem pender. Equilibrando-se na linha tênue entre o bem e o mal. Ou entre o mal e o pior. Pois não há quem se salve nesse ninho de cobras.
O ônibus estanca num ponto no qual embarca uma grávida. Os lugares reservados estão todos ocupados por pessoas que não gozam deste direito. Mas ninguém cede o lugar à gestante. Por fim, levanto-me para a moça sentar. A barriga está bem proeminente. Ela arfa de cansaço pelo esforço de subir no coletivo. Agora em pé, seguro-me com força ao corrimão, mas o motorista não parece importar-se com os passageiros. Freia subitamente, dirige em alta velocidade e, todas as vezes que alguém tinha de descer, era necessário gritar para que o condutor parasse, pois invariavelmente passava do ponto. Uma moça observando meu sofrimento, auxilia-me levando minha bolsa.
Chega enfim minha parada. Mas não finda aí o meu sofrimento, tenho de andar um grande pedaço até o edifício em que trabalho. Várias vezes escapei por pouco de ser atropelada, pois o brasileiro não costuma usar a seta do carro. Não dá para a gente simplesmente adivinhar se o carro vai fazer a curva. Depois desta terrível prova de resistência, paro para comprar meu desjejum em um dos quiosques que rodeiam o Setor Bancário Sul. O atendente pergunta-me se desejo o de sempre. Respondo que sim e logo sou servida de um pão de queijo quentinho e um achocolatado com leite gelado para viagem. Ao chegar no meu ganha pão diário, sento-me em frente ao computador e laboro até os meus olhos arderem.
No fim do expediente, extenuada, dou-me o luxo de pegar o metrô. Caminho até a estação junto à massa de pessoas cujo dia fora muito semelhante ao meu. Uma multidão de zumbis que só esperam chegar ao acolhimento do lar e, assim, desfazerem-se dos apertados sapatos, deitarem em seus leitos ou no sofá da sala, ligarem seus televisores e assistirem à novela. Desejo o calor de minha cama e um bom livro para amenizar o meu sofrer. Um café, quem sabe? Para minha sorte, o trem já estava na estação e nem me foi preciso esperar muito por sua partida. Entrei no primeiro carro, destinado somente a mulheres. Mas, os homens, ao arrepio da lei, entravam neste vagão valendo-se do reduzido número de agentes de fiscalização. Alguns, inclusive, estavam sentados folgadamente nos assentos preferenciais. Tive de seguir em pé, pois não havia lugares vagos.
Na estação seguinte, não houve quem cedesse sua cadeira à idosa que acabara de entrar, fingiam estar adormecidos, para justificar a sua falta de caráter e de consciência. Os lugares preferenciais, mais uma vez, estavam ocupados por pessoas que não faziam jus àquele privilégio. Talvez, os mesmos que reclamam da corrupção e da indiferença da nossa sociedade. Mas na primeira oportunidade de agirem diferente, praticavam os mesmos atos contra os quais tanto se lastimavam. Pobres homens. Tolos homens. Todos os dias a serpente volta a lhes oferecer a maçã e, cotidianamente, aceitam-na sem pestanejar. Que dádiva e maldição é ter um livre-arbítrio que nos concede o direito de escolha, pois, assim, temos de assumir o peso de nossas ações. Não podemos simplesmente lavar as mãos e isentar-nos de toda culpa. A falha está em nós. E todos nós, um dia carregaremos o peso de nossas faltas.
A idosa permaneceu em pé durante todo o trajeto de vinte minutos até a estação do shopping onde desembarquei do metrô. Atravessei a longa passarela sobre a EPIA e cheguei à parada aonde pegaria o ônibus, que, por fim, deixar-me-ia próximo ao meu lar. Ela estava entulhada de lixo. Os ambulantes, que lá faziam ponto, justificavam em parte esta situação deplorável, mas o governo também não se isentava da responsabilidade, tendo em vista que só havia instalado uma pequena lixeira que não comportava o volume de lixo que se produzia naquele ambiente sempre tão movimentado. Para piorar, ratos corriam livremente entre os dejetos e as pessoas.
Após um quarto de hora, minha segunda condução parou no ponto. Estava com sorte, sentei logo e pude sacar o meu Hemingway da bolsa. Voltava o velho com o esqueleto do Marlin amarrado à pequena canoa. O peixe que mudaria a sorte do pescador fora devorado por tubarões. O velho não reclamava contra estes monstros carnívoros ou contra o mar. Nem os considerava cruéis. Pensava que o mar tudo lhe concedia na medida de suas necessidades. Também não me revolto contra os tubarões que se alimentam dos peixes que pesquei. Ainda que nada deles me reste. A vida não é calmaria, mas tempestade. Temos de navegar em suas águas revoltas, sob o risco iminente de a embarcação afundar. No fim, voltamos esgotados a nossas residências, querendo apenas um lugar quente para deitar e apagar até o outro dia.
Fecho os olhos. O mar está lá com suas ondas suaves a arder na praia, acariciando a areia em seu infinito vai e vem. A areia pinica meus pés descalços. O fim de tarde estava quente e acolhedor. A noite caia lentamente, o sol pousava carmim no horizonte. Parecia querer beijar o oceano. Após o suave ósculo, Poseidon abriga Apolo em seu reino. O sol esconde-se no mar e o dia finda levemente como numa poesia de Neruda. Então, sou despertada pelo cobrador. Já era o último ponto. Desci do coletivo e refiz o meu caminho diário entre a parada e a minha residência. Sou saudada pela cadela labradora que pertencia à vizinha, amiga leal, o animal sempre me aguardava àquela hora aos pés do portão de minha casa. Minha própria versão do cachorro de Ulisses. A fidelidade dos cães é algo assombroso. Ela recebe os meus afagos e balança feliz as orelhas. Quando entro em meu lar vem-me logo o cheiro do cuscuz que acabava de ser feito. E eu já me sentia em casa.

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“A minha mensagem àqueles de vós envolvidos nesta
batalha de irmão contra irmão é a seguinte:
pegai nas vossas armas, nas vossas facas e
nos vossos machetes, e deitem-nos ao mar.
Fechai as fábricas de morte.
Acabai com esta guerra, já!”
Nelson Mandela

Dois meninos

Giordana Bonifácio

São dois garotos apenas. Dois meninos. Um não teve tempo de crescer e o outro tenta viver em meio ao caos. Aquele queria fugir em busca de um sonho, este desaprendeu a sonhar. Nem sabe mais o que é brincar: pode ser perigoso andar, correr ou pular em meio a bombas e sob a ameaça constante da guerra. O menino que tentou escapar desta vida trágica não sabia nadar e afogou-se em sofrimento. Na praia, seu corpinho arroxeado foi recolhido por braços comovidos. São tão só crianças, nem entendem o porquê de tanta guerra, mas sofrem com suas consequências. O menino levado à ambulância de socorro, não conseguia chorar. Estava ferido, sabia disto. O cenário era aterrador e ele estava coberto da poeira dos escombros do que antes chamava de lar, mas não escorreu sequer uma lágrima de seus olhos. Quando alisou a testa, percebeu que sangrava, mas nem isto o fez agir como criança. Limpou a mão suja de sangue no assento da ambulância. Nada mais. A guerra fez deles adultos mirins. Não lhes é cabida a infância. Os adultos usurparam-na imbuídos unicamente pela sede de poder. A bomba que atingiu a casa de Omran, resgatado em meio aos entulhos de sua casa, matou-lhe o irmão. Da família do pequeno Aylan, cujo corpo hirto foi despejado pelas ondas numa praia da Turquia, somente o pai sobreviveu à arriscada travessia do Mar Mediterrâneo. São duas vítimas dentre as milhões que o conflito na Síria fez até momento. Não há refúgio. Os imigrantes são proibidos de entrar na Europa, que teme a enxurrada de pessoas sem emprego e sem lar invadindo seu mundo “cor-de-rosa”. Os que ficam, tudo perdem, até a vida.
Mas ninguém quer olhar para essa imagem tão feia. Se comovem, é claro, mas depois mudam o canal da televisão e é como se nada tivesse acontecido. As maiores vítimas dos conflitos que se desenrolam pelo mundo são as crianças. O futuro de um mundo destroçado pelos adultos que deveriam protege-las. Mas estes nem sequer pensam em resguardá-las de sua ânsia de dinheiro e poder. Vão destruir tudo para assumirem, após a vitória, um país em ruínas. Este será o prêmio desta guerra em fim. No pódio serão agraciados com a medalha da morte. Uma caveira brilhará em seu peito, para representar todas as vítimas que fizeram. O mais estranho é que eles matam seu próprio povo. Pessoas de sua descendência. Talvez seus vizinhos e antigos amigos ou colegas de classe com quem se encontravam a caminho da escola. E nem sequer hesitam em tomar-lhes brutalmente a vida. Quantos mais inocentes mortos, maior é possibilidade de vitória, não importa quem vai morrer. “Não se pode fazer uma omelete sem quebrar alguns ovos”. Talvez digam, enquanto saboreiam um charuto cubano em seu flat bem longe do epicentro do conflito. Mas o mundo, até o momento, nada fez para pôr fim à guerra na Síria. Provavelmente, porque seus olhos estejam vendados por verdes dólares advindos da venda de armamento. Enquanto isso, todos os dias outros Aylans perdem a vida no Mar Mediterrâneo, tentando fugir do terror da guerra, e outros Omrans terão seus lares destruídos por bombas, morteiros e outros instrumentos de devastação. O menino trazido pelas águas parecia dormir sob as ondas que iam e viam cobrindo e descobrindo-lhe o corpinho. Não havia pedido para nascer, como também não carregava culpa pelo conflito que lhe forçou a fuga malfadada pelo mar. O menino resgatado em meio aos escombros era inocente do sangue derramado naquela guerra. Perdera o irmão, mas não sabia chorar. A dor era tamanha que não conseguira sequer traduzi-la em lágrimas. Apenas sentou, coçou a testa e esperou. Sabe-se lá por que. Por uma paz sonhada? Por uma palavra de conforto? Ou por uma possibilidade de ser criança nem que fosse por apenas um instante? Não há como saber, pois o pai do menino convertido em símbolo de uma guerra insana, numa decisão acertada, não quer vender o drama vivido por sua família. Assim, não será possível saber o que o menino pensava naquele instante em que se viu tão próximo da morte, numa solidão desoladora que nem a presença da irmã que chegou depois foi suficiente para quebrar. Não se falaram, não se abraçaram. Ficaram calados engolindo em seco a dor, sem traduzir nada daquilo em palavras. O silêncio conversava entre os dois. Dizia sussurrando quão próximo a morte estava.
A Europa não quer acolher os filhos duma guerra que ela própria gerou. Queria uma Síria democrática, ocorre que não imaginou que a Primavera Árabe tornar-se-ia o estopim de uma guerra infinita. O mundo árabe está em conflito desde a origem dos tempos. Mulçumanos, judeus e católicos disputam o poder naquela região desde dezenas de milhares de anos. O ocidente, ao contrário de arrefecer os ânimos, instigava a guerra. Apoiando ora um lado, ora outro. Agora não sabem o que fazer com aqueles que pedem asilo nas suas fronteiras. Pessoas que sonham em construir uma nova vida, nem que seja sobre um solo em que não tenham nascido. Sob a égide de uma bandeira estrangeira, sob uma nova língua e, também, sob o peso da discriminação. Serão recebidos como cidadãos de segunda classe. Na possibilidade de conseguirem trabalho, será em subempregos numa condição muito inferior àquela que gozavam em seu verdadeiro país. Mas pela paz fazem qualquer sacrifício. Nada vale mais que poder dormir em sua cama à noite sem o perigo de uma bomba cair sobre sua cabeça. Enquanto nós do ocidente podemos deitar tranquilamente, na Síria, outros Omrans terão suas casas destruídas durante a madrugada. Se tiverem sorte, sobreviverão. Senão, viram estatística. A humanidade, no auge da sua desumanidade, converte pessoas em números. Assim se implanta a desimportância da vida. O que é 0,00000001% de baixas civis? Uma quantia extremamente baixa para os governantes. Para uma família, talvez a morte do filho mais velho em razão dos horrores da guerra. Imaginem a situação do pequeno Omran, que dormia em seu quarto, quando ouviu um som ensurdecedor. De repente, tudo vinha a baixo. Não havia aonde se esconder, o pó dos escombros cobriu-lhe o rosto, de repente, um pedaço de vidro cortou-lhe a testa. Mas ele nem sentiu, tamanha a aflição que lhe assaltava. Perdido entre um monte de ferros retorcidos e pedaços de sua casa, ele rezou baixinho para Maomé o salvar. Quando foi tomado por braços estranhos e deixado numa ambulância, onde outros homens, também desconhecidos, filmavam e fotografavam-no. Esse foi o seu drama de guerra. O qual o pai não quis vender na televisão ocidental. Poderia até receber auxílio ou asilo, mas seu orgulho impede-o de receber migalhas daqueles que rejeitam sua gente.
Agora vamos imaginar a família do pequeno Aylan, no escuro da noite, no meio do Mar Mediterrâneo, abraçados estão ele, o pai, a mãe e o irmão. Quando, subitamente, o barco que estavam naufraga pelo excesso de peso. O pai está distante, ouve as vozes da família clamando por auxílio, mas está muito escuro e não consegue localizá-los. No outro dia, nas televisões de todo mundo, a imagem do corpo do filho levado pelas ondas até o litoral da Turquia dissemina-se. Oferecem ao pai desolado a possibilidade de refugiar-se na Europa. Mas sem titubear o viúvo recusa. De que lhe vale? Não tem mais a família para proteger. A solidão pesa-lhe mais que a possibilidade de morrer na guerra. O corpinho que dorme na areia, provoca comoção entre os ocidentais. Mas só isso. Assusta a imobilidade dos que só assistem a guerra pela televisão. Enquanto isto, novos símbolos da dor surgem e são esquecidos. E a guerra continua: massacrante, terrível, mortal. A paz para estas crianças é só um sonho distante. Um desejo que fazem à noite antes de dormir. Mas Alá não pode salvá-los, pois o homem esquece sua religião quando o que está em jogo é dinheiro e poder. Omran rezou para Meca com o irmão mais velho, aquela tarde do dia fatídico. Nem desconfiava que seria a última vez que o veria com vida. Sorriram ao dividir um pedaço de pão. Mas a noite chegou mortal com bombas a despencar do céu sobre o seu lar. Nunca mais Omran rezaria ao lado do irmão. E ele não conseguiu chorar. Por que, se a dor era imensa? O menino não conseguiu converter em lágrimas o seu penar. Queria chorar, mas o medo era maior. Estava apavorado e atônito. No faz de conta, o irmão disse-lhe que viveria para sempre. Mas o pequeno menino sentado no assento da ambulância compreendeu que a vida era muito frágil e que somente a guerra era eterna. O repórter que o fotografou chorou, pois entendeu tudo isto.

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Teus risonhos, lindos campos têm mais flores
“Nossos bosques têm mais vida”
“Nossa vida” no teu seio “mais amores”.
Joaquim Osório Duque Estrada

Um novo grito às margens do Ipiranga.

Giordana Bonifácio

Erga o braço forte, impávido colosso, porque um filho seu não foge à luta! Ouça este novo grito às margens do Ipiranga. Vai Brasil, não é tão difícil assim. Nem custa muito… Você só precisa manter sua economia estabilizada e conceder educação, saúde e segurança para a sua população. “Vamos levante e ande!” Pois se até Lázaro pode vencer a morte, o que um país como você não faria? Não sabe o poder que tem. Verdade, Brasil, você é uma potência! Não perde frente à economia de muitos países que se dizem de primeiro mundo. Nada de falar que está tão só em desenvolvimento! Vamos, aumente esta autoestima, meu amigo! É um país pacífico, não sofre com guerras e nem mesmo com o temido terrorismo. Ofereceu uma das mais belas Olimpíadas do mundo e ainda se acha um coitadinho? Faça valer a força da sua cultura! Seu povo é, antes de tudo, forte! Consegue sobreviver à duras penas e o faz com um belo sorriso no rosto. Nem os problemas que assaltam a sua gente são capazes de roubar a sua felicidade. Tem um povo acolhedor e amistoso. Pessoas legais à beça! Nunca vi alguém desgostar de um brasileiro. Na verdade, a persistência e a fé do povo canarinho são as suas melhores qualidades. São gente da gente, de pé no chão, que não se deixam abater por qualquer coisa. Mas mesmo sendo fortes, se permitem chorar quando a tristeza chega ou quando a felicidade é grande. Levantam um troféu (não importa a sua origem) como um prêmio de toda fraternidade verde e amarela. São uma família só, que comemora a vitória de um de seus filhos como a sua própria. O melhor do Brasil, (desculpe repetir a máxima já bem batida), é o brasileiro. Sua gente, sua riqueza. Não vê que fazem tudo pela pátria mãe gentil? Mesmo que o montante de seus impostos vaze pelo cano quebrado da corrupção, não sei de nenhum brasileiro que resida fora de seu país, que não se emocione ao voltar a sua terra. Não dizia John Donne que “nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente?” Somos uma imensa família de negros, brancos, pardos e asiáticos. Cada um guarda um pedacinho de você Brasil. Então, não vai a nocaute, levante desta lona e lute com coragem. Sei que é difícil, mas não vai desistir agora, não é? Nenhum brasileiro que se prese deixaria vencer-se tão facilmente.
Você é um país maneiro. Antropofágico, devora a cultura de fora e converte em algo totalmente novo. Pois o legal é ser autêntico. Dizem que o seu povo é cordial, como se fosse uma espécie de depreciação. O jeitinho, próprio do brasileiro, é criticado como algo errado e ruim para a sociedade. Ocorre que, no Brasil, há uma sensação que somos uma grande família. Assim, não nos tratamos como estranhos, sem o afago e o calor tão comum aos trópicos. Conversamos, dialogamos e acordamos ao final. Damos um jeitinho, porque nem tudo é só preto e branco, mas uma sequência de cores e cinzas. Não falei nem mesmo da criatividade do brasileiro. Quantas coisas incríveis somos capazes de fazer que muitos duvidariam? Então, Brasil, honre suas calças, que você consegue, sim, sair dessa crise. Quantos relatos de sua gente simples vencendo, apesar dos pesares, não confirmam a sua força como nação? Ninguém é mais capaz que você, Brasil. Não estou dizendo que é fácil, mas que é possível. Temos um monte de problemas, não vou mentir. A violência está em níveis assustadores, mas tem raízes bem mais profundas do que aparentam. É fruto de uma desigualdade social que provém dos recônditos da sua história. Mas até isto podemos mudar. Não deve ser sempre assim. Há como termos um país mais social. Há como viver num país mais igual. Mesmo que tenhamos de cortar na própria carne. Claro que temos de vencer nosso mais difícil oponente para isto: a corrupção. Sei que é a sua batalha mais ingrata. A gente corta uma erva daninha aqui, nasce outra ali. Contudo, vamos vencer, nem que seja pela nossa teimosia. Não desistimos nunca! Então, bola no chão que o jogo só termina quando o juiz apitar. A nossa educação é subvalorizada, mas, aos poucos, o brasileiro está descobrindo a importância do conhecimento. Não que nossa gente não seja sábia. Para falar a verdade, não há nada mais perfeito que a sabedoria popular. Mas o saber que provém dos livros também é necessário para se construir um país forte. Quando os gritos dos estudantes transbordarem aos muros da escola, então você, Brasil, entrará nos trilhos e prosseguirá na linha.
Outra questão sensível para você, pátria de chuteiras, é a reforma agrária. Só que esta depende do entendimento da perversidade da manutenção de vastos latifúndios no meio rural. Tal qual nas cidades, a desigualdade social também é gritante nos campos. Essa é uma de nossas feridas mais feias. Seguem-se anos em que o coronelismo faz de arma o voto de cabresto. Porém, até isto, você pode vencer, meu Brasil. Claro que não será mamão com açúcar. Vai ser dolorido e não como uma simples dorzinha de dente, mas algo tipo um parto ou uma cólica renal. Temos de criar uma nova mentalidade para o povo. Ensiná-lo a crer em si próprio. Você, Brasil, tem uma certa mentalidade de vira-lata. Na verdade, você acredita-se menor com relação a tudo que vem de fora. Vamos fazer um pacto? Sua cultura não é pior que a dos demais, cara nação tupiniquim. Seu folclore é mágico, não me esqueço desta máxima que aprendi quando li O saci do nosso amado Monteiro, livro que abriu as portas da literatura para mim. Por isso, Brasil, quero que aprecie mais suas qualidades que não é só samba e futebol. A beleza de sua cultura é mais valorizada pelos gringos do que por si próprio. Sei que minhas palavras parecem um simples discurso de uma patriota acalorada. Mas conheço todo o seu potencial, Brasil. “Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, nossos bosques têm mais vida, nossa vida mais amores.” Faço meus os versos de Gonçalves Dias. Não há poesia mais nacional que a Canção do Exílio. Ela é a declaração de saudades de um brasileiro obrigado a afastar-se de sua terra natal. Fora dos limites de seu país, não há quem não sofra de saudades. Pois ainda que você, meu querido Brasil, tenha problemas, não conseguimos não lhe amar. Bastião da cultura popular, guarda uma alegria infinita sob o sol de quarenta graus do Rio de Janeiro. A névoa e o frio Londrinos podem ser até românticos, mas nem se compara a ouvir o Bolero de Ravel no pôr-do-sol na praia do Jacaré em João Pessoa. Portanto, gigante adormecido, acorde que já é hora. Como diz a canção: “vem vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
Então, tome o seu “lindo pendão da esperança”: a sua bandeira, “símbolo augusto da paz”, coloque nas costas e torne-se o herói da sua gente. Sei que pode e que conseguirá. Não vai deixar na mão seu povo que tanto sofre por você, não é, Terra adorada? “Entre outras mil é só você Brasil, ó pátria amada”. Acredito que pode mais. Ainda que, num primeiro momento, as coisas pareçam muito complicadas, eu sei que você vai tirar de letra. Já saímos de buracos piores. Lembra-se da hiperinflação? Mesmo que não goste de recordar fatos tristes de nossa história, sei que é o passado que constrói o futuro. Este foi um período desastroso da nossa economia, mas superamos, não foi? Disseram que o Plano Real, como os demais que vieram antes dele, não daria certo. Mas o tempo provou o contrário, não é? Pois é, Brasil, eu sei que você é duro na queda. Não vamos perder esta luta. Segure na mão de Deus e vai. Vai que seu povo está com você. Não vamos lhe abandonar. Querida pátria, sigamos juntos em busca do futuro. Pois “no seu céu risonho e límpido a imagem do cruzeiro resplandece”, iluminando o sonho intenso de sermos mais do que somos. O “verde-louro de sua flâmula” pinta os rostos dos jovens de esperança. Somos mais fortes que parecemos. E se quisermos mudar o presente, temos de nos valermos de todas as nossas armas. A sua brava gente brasileira, para longe afasta o temor servil. Pois preferem ver a pátria livre ainda que tenham de morrer por você, Brasil. Já pode até dizer aos seus guerreiros: “parabéns, ó brasileiro, já, com garbo varonil, pois do universo entre as nações resplandece você, ó meu Brasil!”. Então, afaste o fantasma da crise e o medo de falhar, porque estamos ainda no primeiro assalto e não vamos cair sem quebrar o queixo do adversário. A crise é feia, mas já superamos coisas piores. “Não tememos as ímpias falanges que apresentam face hostil, pois o peito e os braços do brasileiro são as muralhas” de sua pátria. E, no fim, zombará deles, ó meu Brasil.

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