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“Deus existe mesmo quando não há.
Mas o demônio não precisa existir para haver.”
(Guimarães Rosa- Grande Sertão: Veredas)

O jogo entre Deus e o diabo

Giordana Bonifácio

Deus e o diabo, numa peleja eterna, jogam com os homens. Fizeram assim com o pobre do Jó. Comigo fazem decerto da mesma maneira. Chega Deus e diz: “esta é uma mulher íntegra e reta, temente a Deus e que se desvia do mal”. Mas o cramulhão duvida da minha hombridade e responde ao Todo poderoso: “sei não, essa aí fraqueja com uma dorzinha de dente”. Então o Pai, que põe a mão no fogo por seus filhos, retruca: “quer apostar? Lá vai uma cólica vesicular”. Vejo estrelas e, no começo do jogo, já começo a encomendar a minha alma. Sequer suspeitava do que estava por vir. Porém, não me fez maldizer minha vida esta convalescência. Mas seria somente o início da disputa, algo meio Hunger Games. Acho que até cheguei a ver uma mulher de cabelo rosa gritar ao microfone: “que os Jogos Vorazes comecem e que a sorte esteja sempre a seu favor”.
Pois é. Outro dia, caí no banheiro e o vidro do box talhou-me o braço com um corte que levou mais de 10 pontos. Ok, ok, sobrevivi. Só perdi sangue pra caramba. Mas foi apenas o susto. “Deus estava comigo”. Disse, na oportunidade, deixando o capiroto louco de raiva. Então, fui vítima de assaltos que levaram de mim tudo o que a muito custo conquistara. “Pô, Senhor, caraca,” eu pensei, “por que eu?” Mas não dizem que Ele escreve certo por linhas tortas? Aceitei a dor. Prossegui. Contudo, o capeta não se dá por vencido. Com a minha idade já avançando resolveu: “será que ela se daria bem com um hipotireoidismo?” Deus, todo confiante, “claro que sim. Toma-lhe!” Está certo, estou aqui. Não desisti ainda. Vou continuar. O pulso ainda pulsa. Comecei a correr para ajudar na perda de peso e no controle no problema da tireoide. Mas não é que os Dois estavam achando o jogo divertido? Lesionei os dois pés o que me impediu de continuar exercitando-me. Mas o pulso ainda pulsa. Fisioterapia existe para quê? Então, o filhote de cruz-credo tomou consciência de que não me atingiria deste modo, pois a saúde frágil sempre me foi uma constante e a matéria é substituível. Então, começou a atormentar-me com o meu calcanhar de Aquiles. Minhas crônicas e contos foram criticados e menosprezados por inúmeras editoras. Algumas aniquilaram minhas pretensões artísticas. Mais uma vez, recolhi os cacos do meu orgulho, respirei fundo e disse: “tudo bem, um dia, o moundo compreenderá o valor da minha arte.”.
Sabe quando a gente joga ludo e o peão inimigo “come” sua peça e você é obrigado a regressar ao início? Chato, né? É como me sinto, às vezes. Como dizem: “eu devo ter sido um balde na última encarnação tantas foram as vezes que cheguei ao fundo do poço e retornei”. Mas, tal qual um carrinho importado da china, eu bato e volto. Ninguém sabe toda a dor que senti. Todavia, nas palavras da grande “pensadora contemporânea” Shakira: “Estoy aqui”. Levanto-me destruída e enfrento o meu algoz: “já acabou, Jéssica?”. Mas o belzebu ainda tem cartas na manga. Deus joga limpo, mas o diabo é o pior adversário que pode haver: não consegue disputar honestamente. Claro, não é do seu feitio. Fausto está aí para provar o que digo. A gente nunca ganha num contrato assinado com o capeta. Sempre somos desvalidos de mais do que queríamos receber nesse acordo que será sempre malfadado. Por isso, prefiro estar ao lado dos mocinhos. Mas confesso: não é fácil.
Quando o bem e o mal estão numa contenda por sua alma, aí é que a coisa degringola de vez. A gente anda numa corda bamba, cabe a nós escolhermos para qual lado vamos pender. Apesar de toda a prova a que fui submetida, nada disso fez-me jogar a toalha. É verdade que, teve momentos que pensei mesmo em desistir de tudo, mas minha teimosia levou-me a continuar. A roda da fortuna tem seus altos e baixos. Caí, levantei, bati a poeira e segui. “Keep walking”. Mas se você é abstêmio como eu, prefira o lema da Dory em Procurando Nemo: “Continue a nadar, continue a nadar”! “Pois o certo é que Deus não rejeita o íntegro e não fortalece as mãos dos que fazem o mal.” Diria Jó, quando desafiaram sua fé.
Na verdade, eu tenho muito medo de falhar. Ainda que tenha vencido as últimas batalhas, não sou um bom soldado. A carne é fraca e meu espírito ainda não está preparado. Tenho medo dos leões na minha cova. Os desafios estão cada vez mais difíceis. Preciso guiar-me pela luz, ainda que seja tão só uma chama bruxuleante em meio às trevas. Nessa contenda entre o Yin e o Yang, só eu sairei prejudicada.
Mas, como disse, o anjo caído ainda reservava algo para mim: a velhice dos meus avós. É triste ver entes tão queridos sofrerem tanto em seus últimos anos de vida. O tempo não corre mansinho, mas aos tropeços. E a gente o sente chegar desajeitado, derrubando tudo, instalando-se em nossos músculos, ossos e tendões. Tudo em nós resta frágil e quebradiço. O corpo é o templo do senhor, muito embora, ao final, tenha o mesmo destino do templo de Salomão, nada dele restará. “Do pó viestes ao pó retornarás”. A vida vira história.
Dói em mim a senescência dos meus avós. Saber que a morte está mais próxima a cada minuto que se passa… Uma bomba relógio prestes a explodir. Mas, nesse caso, nem mesmo cortar o fio azul desativa o explosivo. A inexorabilidade do tempo é real. Esta foi a revelação mais assustadora que me atingiu. Sim, atingiu-me, tal qual uma bala de fuzil, abrindo-me um rombo no peito. Fiquei triste, pelo sofrimento de meus ascendentes. Mesmo assim, creio que deve haver alguma razão divina para a morte. Ainda que não consiga compreender qual seja. Não tenho o espírito tão elevado como julgam alguns.
“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa existir para haver.” Cito o mais sertanejo de nossos escritores: Guimarães Rosa. Nessa guerra de haveres quem sai vitorioso? Tenho medo. Essa é minha maior fraqueza. O medo afasta-nos do caminho certo. Pois se tememos é porque não confiamos e, ao contrário, devemos entregar-nos completamente ao bem maior. Mas somos homens de pouca fé, sempre duvidamos. E somos, assim, surpreendidos pela verdade. Temos de cuidar de nossos arados, pois, nas sábias palavras do autor de Grande Sertão: Veredas, “a colheita é comum, mas o capinar é sozinho.” Tendo em vista que, quando o momento derradeiro chegar, “bem-aventurados serão aqueles servos a quem o senhor, quando vier, os encontrará vigilantes… Quer ele venha na segunda vigília, quer na terceira, bem-aventurados serão eles, se assim os achar.” Lc. 12. 37, 38.
A nossa vida está em disputa num imenso jogo de xadrez entre Deus e o Diabo, ganhará quem possuir a melhor estratégia. Mas penso que Deus deixa o mal tomar a dianteira, para depois dar o golpe de misericórdia. Xeque-mate: esta alma está salva. Como jogadores de baseball que correm em disparada para vencer o deslocamento da bola e chegarem à base antes daquela. Para, no fim, ouvir com um grande alívio: está salvo! “O diabo está na rua no meio do redemoinho”, segundo o grande Guimarães. O capiroto está em meio ao nosso turbilhão de emoções e da bagunça que é a nossa vida. Não sei quem vai ganhar a disputa por meu espírito, mas espero que o bem vença. Não é à toa que torcia sempre para o He-man ganhar do Esqueleto e para o Munrá voltar a ser múmia depois de ser derrotado pelos Thundercats. Temos todos boa índole. Cabe só sabermos cultivar a vinha. Ninguém quer virar churrasquinho no inferno, não é? Mesmo que não creia que há realmente um. Mas vai saber…

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“A morte é uma de duas coisas… Ou é aniquilação,
e os mortos não têm consciência de qualquer coisa;
ou, como nos é dito, é realmente uma mudança:
uma migração da alma de um lugar para outro.”
Sócrates

A experiência

Giordana Bonifácio

Estou escrevendo este e-mail no auge do meu desespero. A morte é certa e tenho que dividir minha dor com os outros de minha espécie. Descobri que o universo não está resumido a nossa minúscula sabedoria de vida. Mas quando compreendi isto, já foi muito, muito tarde. O conhecimento que possuímos é mínimo. Somos seres rudes, comparados ao que existe além do que nossos olhos podem ver. Os homens olham as estrelas e sequer imaginam o que há além do vazio, o que ainda está além do nosso alcance. Penso que os primeiros navegadores sofreram dos mesmos temores que nos cercam, hoje: monstros terríveis, queda no fim da abóbada terrestre, morte e tragédia. Incrível como somos assaltados pelos mesmos medos, ou, talvez, deles nunca nos desfizemos. Minha imaginação é muito restrita para descrever estes últimos dias no laboratório. Não consigo escolher as melhores palavras para informar ao mundo o que descobrimos. E temo que já seja tarde demais. Talvez, ninguém tenha sobrevivido. Talvez, agora, sejamos apenas uma vaga lembrança na memória dos seres que passaram por aqui. Não sei se podemos designar alienígenas por seres. Eles estão vivos, então devem ser seres. Ou espécimes, ou “a experiência”, como costumávamos denominar a amostra que analisávamos no laboratório. Não nos parecia perigosa, de início. Era um tipo de musgo que reagia a eletricidade. Foi encontrado no casco de uma nave enviada a Marte. Achávamos que se tratava de algum vegetal marciano. Estudamo-lo por anos e nada indicava o que iria acontecer. Eu era o engenheiro químico chefe da “Missão Marte”, um trabalho de pesquisas ultrassecretas dos Estados Unidos. Éramos cientistas de várias áreas do conhecimento e de inúmeros países estudando os resultados da última missão no planeta vermelho. Chamo-me, ou, ao menos, chamava-me, Michael Jones Collins, estava entusiasmado com nossas descobertas a respeito “da experiência”. Os geneticistas diziam nunca terem visto um ser como aquele. Regenerava-se e parecia sobreviver as condições mais adversas de frio e pressão. Estávamos abismados com nossas descobertas. Mas quando pensávamos saber tudo sobre o ser que grudou no casco da nave que aterrissou em solo marciano, ela finalmente apresentou todo o seu risco.
Um dos geneticistas foi recolher com uma seringa um pedaço do corpo daquele musgo de cor avermelhada. Mas, por acidente, picou o próprio dedo e uma gota de sangue caiu sobre “a experiência”. Imediatamente, a esta foi ativada, pois ao que me parece, antes de ser provocada, ela parecia inerte. Esperava pelas vítimas. Não imaginava que um musgo poderia ser um perigosíssimo espécime de predador. O ser grudou-se ao dedo do cientista e alimentava-se da carne com voracidade e sua cor avermelhada fosca foi ganhando um avermelhado vivo e mortal. O cientista tentava retirar de si aquele musgo que crescia à medida que o consumia, mas, em pouco tempo, este já cobria todo o braço do nosso colega. Uma cobertura vegetal formou-se sobre George e logo descobrimos ser, este estranho espécime, um monstro terrível e letal. O ser alimentava-se vorazmente de nosso colega, mas não sabíamos o que fazer, o monstro regenerava-se sempre que lhe cortávamos uma parte. Então, não tivemos escolha: arrancamos o braço do cientista. E conseguimos recolher o monstro a um ambiente fechado de onde não poderia disseminar-se para atacar outras pessoas. Fizemos todos os procedimentos de saúde no nosso colega. Porém, descobrimos, que todo o tempo que ficamos a estudar “a experiência” não foi o suficiente para a conhecer verdadeiramente. Ela distribuía esporos no corpo do ser atacado e devorava o hospedeiro até não sobrar nada dele. Nem sequer os ossos. Após termos feito os procedimentos de desinfecção normal exigido num momento como o que passamos, encaminhamos George, a primeira vítima, ao quarto dele para que descansasse. No dia seguinte, o homem não mais existia. Tinha virado parte daquele musgo que se alastrou pelas dependências da estação pelos dutos de ar. Não acreditávamos que aquele ser poderia pensar e atacar a presa com tamanha astúcia e dissimulação. Muitos dos nossos cientistas despertaram com o musgo sobre si. Sugando-lhe o sangue, comendo seus órgãos, desintegrando-lhes feito um ácido e o mostro tornava-se assim, maior e mais mortal. Espalhava-se pelo edifício e nada parecia detê-lo. Quando nos demos conta da morte certa, era demasiado tarde. Só fomos nos conscientizar da quantidade de vítimas no início do expediente, quando um número expressivo de empregados não compareceu ao laboratório. Mas, ao procurarmo-los em seus aposentos, nada achamos. Sequer uma mera gota de sangue.
Eu logo percebi que aquilo não era normal. Fui ver o espécime isolado no laboratório e este se espalhava pela parede do cubículo em que estava, tal qual uma praga. Então, procurei George em seu quarto, a ausência dele fez-me imaginar que algo errado acontecia. Reportei-me ao chefe da missão que logo acionou o alarme. Mas não sabíamos contra o que lutávamos e a experiência disseminava-se por todo duto e ar do laboratório. Ela poderia separar-se e ainda assim, comunicar-se entre as suas partes. Um cérebro vivo que devorava a carne humana. A inteligência desse monstro era fenomenal. Escondia-se e planejava um modo de alimentar-se de todos que encontrava. Foi então, que descobri que aquele musgo não conseguia ultrapassar as roupas de isolamento. Travamos uma luta homérica contra o cérebro alienígena. Mas ele, incrivelmente, parecia bem mais esperto que nós. Era como se todo o tempo que pensávamos estar o estudando era ele que nos submetia a uma imensa e pormenorizada pesquisa. Um predador avaliando suas presas. Muitas foram as vítimas desse monstro. Tivemos alguns avanços. Descobrimos que não sobrevivia ao fogo e foi então que planejamos queimar todo o edifício. Mas esquecemos da encanação e o monstro espalhou-se nos arredores do laboratório feito uma praga. Fui um dos pouquíssimos sobreviventes da primeira infestação. Foi com o presente de Prometeu que o atacamos, nas cidades mais próximas, colocávamos fogo sobre tudo, até espalhamos gasolina em chamas pela encanação. Foram tentativas inócuas, o alienígena era uma máquina predadora. Diziam os jornais tratar-se do monstro do juízo final.
Então, fizemos nossa derradeira e mais desesperada tentativa: bombas atômicas, que devastariam grande parte dos Estados Unidos, mas nos deixariam livre do monstro. E, desta forma, salvaríamos a raça humana do extermínio certo. Quem lê agora, se for humano, tenha certeza que fizemos de tudo para salvar o planeta. Agora, creio que o musgo extraterrestre devorou toda a vida de Marte. Após, isto, entrou em hibernação. Até seus instintos serem de novo acionados por uma mísera gota de sangue. Eu escrevi este e-mail pouco antes de as bombas serem lançadas. Quem teve contato com o monstro não foi poupado devido aos esporos. Não se sabe ainda como desinfestar o corpo humano deles. Eu vi e vivi o terror e tenho que dividir minhas experiências com vocês. Sejam mais espertos. A raça humana é extremamente adaptável, não vamos nos deixar destruir por uma porcaria de vegetal alienígena! O fogo os destrói as baixas temperaturas conduzem-no de volta ao estado de hibernação. Ele pensa em conjunto, então, todas as partes devem ser pulverizadas no mesmo momento. De posse destas informações vitais, desejo-lhes sorte. Queria dizer algumas belas palavras para coroar o fim do meu e-mail de despedida, mas só me recordo de uma citação que li na internet a que deferiam a autoria a Sócrates: “A morte é uma de duas coisas… Ou é aniquilação, e os mortos não têm consciência de qualquer coisa; ou, como nos é dito, é realmente uma mudança: uma migração da alma de um lugar para outro.” Espero que minha alma siga para os Campos Elíseos e eu possa perguntar a Sócrates se este meu réquiem é mesmo do famoso filósofo. Adeus Terra. Adeus vida. O engraçado é que, por mais longa que seja nossa existência, sempre achamos que a morte chega num piscar de olhos. E o pior: a gente nunca está preparado para o nosso momento derradeiro. Não fiz tudo o que queria, nem o que deveria. Maldição! No fim, achava que iria viver para sempre. O mais estranho é que nós, seres humanos, estamos sempre errados quanto ao futuro. Afinal, só espero que haja um devir para nós.

Michael Jones Collins, 30 de março de 2034.

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“Nossas cicatrizes servem para nos
lembrar que o passado foi real”.
Hannibal Lecter

Jeremy

Giordana Bonifácio

A noite costumava ser minha amiga. Mas, agora, nem no silêncio da madrugada tenho paz. Minha vida se perdeu entre tantas vidas que perdi. Sim, perdi muitos amores. Lindas mulheres que não me compreenderam o suficiente para restarem comigo. Elas sempre se encantam, de início, com o homem charmoso e bacana, mas quando me conhecem tal qual realmente sou, não me querem mais. Rejeitam-me. Um misantropo disse uma delas, referindo-se a mim. Ela sorriu. Eu não. Perguntei se ela estava me chamando de esquisito. Fiquei com raiva. Ela pediu desculpas pelo comentário. Mas via no olhar dela: ela me achava estranho. Foi a que menos tempo restou comigo, percebeu logo quem eu era. Sou “um lobo da estepe”. Um homem criativo e excepcional. Sim, sou mais do que me consideram. Não um louco. Não, tenho as ideias perfeitamente no lugar. Quando quebrei o vaso da sala porque me irritei com Beatrice, foi só um impulso. Sou muito impulsivo. Beatrice é minha cobra. Às vezes, ela sibila coisas sobre mim. Ela é muito desrespeitosa, vez em quando. Isso me irrita. Mas, em geral, gosto da Beatrice. Ela conversa comigo e não tenho muitos com que conversar. As minhas namoradas são fugazes. Romances instantâneos, diria. Acho que sou viciado neles. Sair e ser como os outros por alguns instantes. Mas eu sou normal. Sim. Sou. Não é verdade os comentários dos vizinhos. Dizem de tudo sobre mim. São um bando de fofoqueiros. Já foram dizer à polícia que eu era terrorista. Eu sou um cara pacífico. Em algumas ocasiões, apenas, eu fui violento. Mas, em geral não faço mal a ninguém. As mulheres somem… Elas vêm à minha casa. Porém, sequer ficam para o jantar. Eu sempre janto sozinho. Só Beatrice fica aqui, condenando-me. Eu queria que Beatrice sumisse. Mas, tenho pena dela. Eu sou um bom homem. É sério. Eu ajudo aos desabrigados. Dou comida a eles. Sobras do jantar cuja convidada sequer provou. Eles gostam de mim. Dizem que sou legal. Beatrice nunca está presente nestes momentos. Ela sempre fica sibilando no meu ouvido o quanto sou mau. Ela me reprova. Diz que um dia o mundo vai descobrir quem eu sou. Não ligo. O que ela sabe sobre mim? Nada. Maldita cobra. Queria matá-la.
Se eu pudesse jogava uma bomba no mundo. Os homens e mulheres, todos são maus. Eu não. Eu sou “o cara legal”. Eu deixo as senhoritas sentarem-se no meu lugar no metrô. Gosto de pegar o trem às três horas. Sempre às três. É o horário em que Cristo morreu. Dizem. Sim, sempre dizem algo. Ninguém sabe o que é mentira ou verdade nesse mundo. Mas eu sou justo. No meu tribunal, a humanidade está condenada. Conheci várias garotas no trem. Elas me acharam simpático. “Deve ser por causa dos seus olhos azuis”. Disse uma delas. Chamei-a para jantar comigo. Ela gostou da Beatrice. Eu falei-lhe para não confiar nela. “É uma jiboia sem presas, mas tem uma peçonha…” Não sei o que a fez partir. Ela deixou-me enquanto preparava o jantar. Mais uma vez dei tudo para os mendigos. Beatrice zomba de mim. “Quem quer ficar com um esquisitão como você?” Eu deveria me livrar dessa cobra. Mas ela era da minha mãe e não posso perder essa última lembrança dela. Mamãe também me abandonou. Como fazem todas. Ninguém resta mais de algumas horas comigo. Por que me temem? Eu sou “o cara legal”. Sei cozinhar, sou simpático, tenho belos olhos azuis e “um sorriso cativante”. Foi o que me disse a última garota com quem saí. Mas ela se foi. Todas se vão. Mamãe se foi. Ninguém fica comigo. Ninguém. Eu tenho muita vontade de chorar. Mas quem se importaria com minhas lágrimas? Beatrice se regozijaria com minha dor. Eu tenho de me livrar dessa cobra! Os mendigos têm fome. Eu também. Minha fome é imensa. Eu tenho de comer. Mamãe não me dava comida. Ela bebia e me batia. Eu chorei muito. Mas, um dia, eu estava com muita fome. E… Não tinha comida. No armário, só havia garrafas de bebida vazias. Pedi comida para a mamãe. Não. Para! Não vou me lembrar disso! Lá, lá, lá, lá! Não quero ver! Um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais. Dois elefantes incomodam muita gente, três elefantes incomodam muito mais. Mamãe me bateu e minha fome era enorme. Eu queria comer. Precisava.
“E o que você fez, Jeremy?” Não fiz nada! Nada! Pare de perguntar Beatrice, você é o quê? Uma maldita cobra tagarela! É isso o que você é. Não fiz nada. Nada. “E esse sangue em suas mãos, Jeremy? De onde vem?”. Eu só estava cozinhando. Não vê? Cobra detestável! “Você não compra comida já faz anos, Jeremy. Nos armários, só estão as garrafas de bebida empoeiradas da sua mãe. O que você fez? O que você come?” Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que vem da boca de Deus. “O que você fez?” Mamãe não me dava comida e eu estava com muita fome. “Isso você já disse. Eu quero saber o que você realmente fez”. Eu… Eu… Peguei esta faca. E quando ela virou as costas, zás! Eu cortei-lhe o pescoço, como se mata uma galinha e depois preparei o jantar. “O que você comeu?” A carne da galinha… “Não havia galinha, Jeremy…” Eu comi a carne, bebi o sangue e chupei os ossos. Depois arrumei tudo. Para mamãe não perceber o que tinha feito. Ela iria ficar uma fera se soubesse que fiz galinha cozida. As sobras, eu dividi com os mendigos. Mas parece que, a partir desse dia, abriu-se um enorme vazio dentro de mim. Uma fome insaciável que me obriga, impele-me a buscar mais comida. Eu tenho de comer. Eu preciso. Eu necessito. A palavra de Deus não me é o suficiente. Nada aplaca essa fome voraz que me consome. Desejo sempre mais. É uma carne adocicada. Saborosa. Eu lambo os lábios só de pensar. Quero compartilhar esse prazer incomparável com alguém, mas mamãe não volta e as mulheres, que trago aqui, todas, desaparecem. Não consigo compreender… Eu iria preparar-lhes o manjar dos deuses. Às três horas pego o trem. Jesus, que é Cristo, morreu às três horas. Jesus jejuou quarenta dias no deserto. Mas eu tenho fome.
“Jeremy, o que faz com essa faca aí na mão?” Ora Beatrice, matei a galinha para comer. Essa gritou, mas foi num instante que lhe cortei o pescoço. Não adianta que não vou dividir com você. O ruim é depenar. Mas a pele é uma delícia bem fritinha. Contudo, eu prefiro a carne das coxas. Gosto de assar na própria gordura também… . “Jeremy, onde está a moça que trouxe com você?” Você vai gostar dela, Beatrice. É bem legal, gosta de literatura e estuda Letras. Ela veio jantar conosco. Só não apronte das suas Beatrice. Talvez essa fique conosco. E, se a mamãe voltar, vai gostar dela, também.
Porém, como em todas as outras noites, eu volto para a sala e o vazio me surpreende como é contumaz. Foi tudo sua culpa, Beatrice! Sibilando mentiras sobre mim! Eu não matei minha mãe, eu não matei ninguém. Eu só tenho fome. Muita fome. A cada jantar, mais a fome me domina e me impele. Sem freios. Em busca do prazer do alimento, do sangue que jorra vermelho e quente, da carne que pulsa em minhas mãos. As mulheres não ficam. O estranho é que, no canto da sala, começam a se amontoar vestidos, blusas femininas sapatos e outros trajes que não sei de onde aparecem. Deve ser a Beatrice que traz essas coisas para casa. Tomara que você não esteja a roubar dos vizinhos, cobra maluca! Hahahaha. Cobra maluca! Doidinha! Não sabe o que fala! Eu não, eu sou “o cara legal”, eu divido meu alimento com os pobres, enquanto você, sua cobra invejosa, come ratos! Às três horas Jesus morreu, às três horas eu pego o trem na estação central. Olá, como vai? Deseja sentar-se? Não precisa me agradecer, eu sempre cedo meu lugar para garotas bonitas como você. E pelo que vejo, também é inteligente, qual é o livro que está a ler? Frankenstein? É um dos meus favoritos. Mas prefiro assistir a filmes, por acaso já assistiu ao Silêncio dos Inocentes? Aquele Hannibal me dá calafrios! A propósito, chamo-me Jeremy!

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“A vida toda é um aprender a morrer”.
Sêneca

Antes do fim do mundo

Giordana Bonifácio

A imprensa está falando a todo momento: “um asteroide vai se chocar com a Terra. Não há o que possa ser feito. Aproveitem seus últimos dias. O epicentro do impacto será o Brasil”. A gente já enxerga no céu a grande pedra flamejante aproximar-se. As pessoas dividiram-se entre aqueles que se reúnem em igrejas e pedem por suas almas e os que soltaram seus instintos primitivos. Há uma onda de saques ao comércio que a polícia nem repreende mais. Sinceramente, não sei o que fará o ladrão com uma televisão de 50 polegadas se dela desfrutará por míseros três dias. É a previsão oficial da colisão. Depois disso, a morte se disseminará pelo mundo. Já fizeram todos os estudos possíveis. A raça humana será extinta em menos de dois anos devido as consequências do cataclismo. Tal qual os dinossauros, vamos todos virar petróleo. Quem sabe daqui a milhões de anos não surja uma espécie que realmente mereça este planeta?
Não estou com medo. Na verdade, queria temer. O fim é-me tão indiferente quanto o começo. Para onde vamos? Que me importa? Se a vida acaba aqui, se existe um “outro plano”, como dizem, é-me igual. Não estou preocupada em me salvar a alma. Não ajoelharei em busca de piedade. Assumo minhas faltas com uma coragem que sequer sabia possuir. Minhas palavras finais não serão ouvidas por ninguém, porque não direi nada. Deitarei resignadamente sobre o solo até ser esmagada por uma força de milhões de toneladas. E fim. Termina aqui a história? Não, pois tenho de relatar o que era meu mundo antes deste derradeiro momento.
O tempo corria sem arreios. Não sabia que o desperdiçava porque o cria infinito. Mas ninguém poderia prever que a vida teria um fim tão clichê: vem um asteroide e bum! Foi-se o mundo! Não tive tempo de fazer o que sempre sonhei: visitar a histórica Europa, berço da civilização ocidental. Gostaria de ir à Grécia para ver as ruínas tão famosas. Mas as viagens intercontinentais foram proibidas antes que pudesse fazê-lo. Eu queria ter filhos, mas a perspectiva de uma família agora é impossível. A realidade estendeu-me a mão repleta de possibilidades e recolheu-a abruptamente. E um imenso “não” tombou sobre mim. Eu trabalhava como bibliotecária em uma grande universidade e tudo que conhecia do mundo vinha-me dos livros que lia. Só vivi a França das páginas das obras de Dumas e Hugo, a Rússia que lia em Dostoievski. E muitos outros incríveis lugares do relato fenomenal dos grandes escritores. Viajei no tempo e espaço pela literatura. Apesar de saber muito da vida na teoria dos ensinamentos recolhidos dos mais famosos autores, pouco me era conhecido da prática. Sempre estive protegida detrás dos muros da minha covardia. E assim, estava a salvo. Ou, ao menos, acreditava nisto. Homero diria que “a flecha não fere os covardes”. E meu tempo foi perdido num confinamento que me impus cujo propósito era não me machucar. E agora? O fim do mundo é presente (presente de grego, devo dizer) e nada posso fazer para mudar isso.
Se tivesse outra chance faria diferente? Não o creio. Deus não deu uma segunda chance à Sodoma e Gomorra. Se houvesse cinquenta justos neste mundo, poupá-lo-ia Deus por amor a eles? Mas não o há. “Quem dentre vós nunca pecou que atire a primeira pedra”. Só Ele pode lançá-la sobre nós. Chega-me o fim sem que tenha começado a viver. E o tempo é exíguo demais para que o faça agora. A única certeza que tínhamos na vida era a morte, mas jamais estamos preparados para ela. Sêneca dizia que a vida toda é um aprender a morrer. Mas por que sempre somos reprovados no exame final? Não importa quão esforçado seja o estudante, a nota do vestibular da vida nunca o permite adentrar nos portões do Paraíso. Para começar a gente já carrega nos ombros uma falta que não é nossa: o pecado original, que passa por gerações como uma herança maldita que eternamente nos acompanha. Não fui eu quem mordeu a maçã, mas ganhei como prêmio a mortalidade. E agora vou provar-lhe o gosto amargo assim que o asteroide se chocar com a Terra.
“Pequena é a parte da vida que vivemos”. Diria Sêneca. Estive ocupada demais aguardando o tempo que poderia fazer o que realmente queria. A espera decerto tem um fim, mas nem sempre nos é satisfatório. Maldito livre-arbítrio que nos permite escolher a nossa história. Eu tinha múltiplas possibilidades que hoje se resumem a uma só: morrer. Não posso dizer-me satisfeita, mas assumo: fui eu quem quis assim. Minhas chances de viver foram inúmeras, mas resolvi esperar, numa esperança vã de, no futuro, tudo ser mais propício. Não sei tocar violão porque não tinha tempo de ensaiar, não sei falar alemão porque o horário das aulas não se encaixava em minha rotina. Não sei cozinhar, pois não dei a chance que minha mãe tanto queria de me ensinar. É uma lista longa de “não seis” acompanhados sempre de uma desculpa com a qual me alivio a culpa de não fazer, de não ter, de não ser. Eu hoje sou muito pouco, mas o que importa? Vamos todos morrer e para isto não há remédio. Mas eu poderia ter sido? Sim poderia! Mas não o fui, não o sou e nem mesmo o serei.
Que me resta senão deitar sobre esse imenso gramado à espera da morte? Sem me importar com o caos a minha volta, com a dor e o medo que se disseminam na sociedade. Não há como evitar o choque próximo. Como diria minha mãe o “o que está feito não está por fazer”. Digo sim à bola de fogo que cruza o céu em nossa direção. Aceito-a. Ainda que me assuste. Quem se sente preparado para a morte? Quem se pode dizer confortável com ela? Queremos a vida, ansiamos por ela. Mas não sei o porquê de a desperdiçarmos. Não fui o que deveria ter sido, nem o que gostaria ter sido, mas aquilo que pude ser. Não que me agrade. Temos vergonha de nossas derrotas. Mas deveríamos nos orgulharmos de nossas feridas. São a prova de nossas tentativas. Nem sempre tudo está no script: a vida é uma peça cheia de improvisos. E já se aproxima o seu ato derradeiro. Fecho os olhos para aplacar o fogo que me consome. E ainda nem me chegou a morte enfim.

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“Lançamos o barco, sonhamos a viagem:
quem viaja é sempre o mar.”
Mia Couto

Histórias de um velho andarilho

Giordana Bonifácio

Meus olhos, máquinas fotográficas que sempre levei comigo, registraram todos os pontos desta Terra. Nem sei mais por quantos anos estou nessa caminhada. Fui muito além do que qualquer homem. Só pelo prazer de andar. Só pelo gosto do novo. O viajar, creiam em mim, vale muito mais que a viagem. No passado, deixei a rede na varanda de casa para seguir meu destino de ser um homem sem destino, pelo simples prazer de conhecer o que estava além de mim. A vida abria-se em logos mapas que eu esquadrinhava em mente.
“A vida é uma ponte entre dois nadas”. Li isto em algum lugar. Deve ser de um autor famoso. Não me lembro qual. Tenho de corrigir esta frase já tão bonita, talvez, para acrescentar que a vida não é só uma ponte, mas todo espaço que as suas pernas alcançarem e eu, meus caros, tenho pernas compridas. Calcei as minhas sandálias e desbravei… Muito antes dos meus quinze anos, o Brasil inteiro era-me conhecido. Fui do Oiapoque ao Chuí. Sempre com uma trouxa de roupa e muita cara-de-pau para pedir emprego aonde aportasse. Não sou homem de esmolar. Trabalho por meu sustento. As minhas posses, porém, nunca foram além do que podia levar comigo. A minha família, deixei por anos a minha espera. A minha casa era o relento, e as luzidias estrelas, que enfeitavam o manto da noite, serviam-me de cobertor.
Não conseguia criar raízes. O hábito era-me enfadonho. Quando me cansava de um lugar, não tinha amigo ou “rabo-de-saia” que me fizesse permanecer. Juntava os meus “panos-de-bunda” e caía na estrada. A minha vida era andar por este país. Mas, depois de alguns anos, as cores e os ritmos do Brasil, eram-me tão conhecidos que me enfastiaram. Então fui abrindo o compasso. Fui primeiro aos pampas argentinos, provei muitos vinhos e até me apaixonei por uma dançarina de tango. Mas foi só “fogo-de-palha”. Logo, já me encontrava de novo a procura de algo que nunca soube. No Chile, até aprendi a esquiar com uma bela instrutora por quem me engracei por algum tempo. Bateu-me uma vontadezinha de ficar…. Mas nem os belos olhos castanhos claros da “chica”, conseguiram me amarrar. Fui ao Peru e subi as ruínas das cidades Incas. Então só fui subindo. Quando dei por mim, estava já no gélido Alasca, pescando com os esquimós.
As Américas não me foram suficientes e eu sempre fui muito guloso. Pensei cá para mim: “já se foram dois continentes. Não me custa seguir para os demais”. Então, embarquei num navio com destino à Europa. Era o cozinheiro e perdi a conta de quantas batatas eu descasquei. Já havia visto a beleza do mar nas minhas andanças, porém, jamais estivemos tão próximos quanto estávamos. Acho que sou meio oceano também: imprevisível, misterioso e, como muitas vezes presenciei, deveras perigoso. Eu e a morte ficamos frente à frente, pela primeira vez, nesta fatídica viagem. Houve uma epidemia a bordo. Os corpos que lançávamos ao mar era como marcávamos nosso caminho rumo ao Velho Continente. Em pouco tempo, só havia um terço dos tripulantes, pois, todo resto, até o médico, havia falecido. Quando chegamos à Europa ficamos um tempo em quarentena até tomarem consciência que estávamos limpos. Os “portugas” disseram que o mal que nos atacou foi uma violenta malária, à qual, sabe-se lá o porquê, sobrevivi.
O frio europeu foi-me acolhedor, sempre me disseram que tinha couro de jacaré. Eu que nem sabia o que era história, (pois estudei muito pouco, só sabia ler e escrever), gostei do que vi. A comida é que não era lá essas coisas, (não tem nada mais gostoso que o cuscuz com ovo do nordeste brasileiro), mas sempre fui de comer pouco e nem me incomodava a sofisticação exacerbada da culinária europeia. Não me ative as fronteiras da Europa Ocidental e, em plena segunda guerra mundial, segui para o oriente sem medo do conflito que sobrepujava a humanidade. Presenciei mais do que posso contar, pois as feridas da sociedade afloram nos conflitos. Na Rússia, o comunismo encarcerava o povo em seu próprio país. Havia demonstrações de força, que se esvairia completamente no final do século vinte. Estive no Japão quando da explosão das duas bombas nucleares. Mas estava longe do epicentro. Ainda assim, foi-me horrível estar, durante tais anos de fome e dor, naquele país devastado que procurava um norte para seguir. Um povo destruído que ainda assistiu envergonhando a rendição e submissão da realeza japonesa ao poder americano recém-revelado ao mundo.
Então, a violência da guerra fez-me procurar os países africanos, ainda colônias da enfraquecida Europa. Mas a realidade pouco amistosa da guerra logo os fariam rebelar-se e cair em outro violento conflito pela independência que logo seria sucedido por sangrentas guerras civis. Foi-me necessário buscar a distante Austrália com as suas criaturas fantásticas e desertos inóspitos. Os mares australianos fizeram-me feliz por muito tempo. Mas os meus olhos agora buscavam paisagens conhecidas e a acolhedora rede na varanda, a que abandonara há tantos anos, causava-me uma enorme saudade. Jamais havia sentido banzo, este sentimento de nostalgia nem me atingia na já distante juventude. Eu era um andarilho. Um explorador. O mundo era minha casa. Mas a idade vai quebrando certas coisas em nós. A gente fica com medo de morrer sozinho. E eu estava bem longe. Claro que fizera muitas amizades e, não posso mentir, algumas inimizades também. Quase morri quando fui defender um menininho judeu da truculência de um soldado Alemão. Outra vez, no dia em que cuspi num branquelo inglês que tratava desrespeitosamente duas garotas negras na África do Sul. Depois do meu ato, um tanto inconsequente, vim a saber que aquele era um soldado, mas me escondi na casa de uns amigos e a polícia jamais veio a me encontrar para saldarmos as nossas contas.
Na verdade, a morte esteve sempre rodopiando ao meu lado. Mas eu nunca a convidei para uma dança. Fui envelhecendo sob o olhar atento desta dama fatal. Ela sempre sondando quando era a hora mais propícia para se apresentar. Mas eu me esgueirava e a driblava mais que o Pelé na Copa do Mundo. Ela se aproximava e eu fugia com um lençol bem constrangedor, deixando a “capa preta” consternada. Ela vinha de novo e eu jogava a bola entre as pernas da ceifadora que ficava atônita, sem saber por onde eu passara. Foi sempre assim. Eu e a morte, gato e rato numa guerra silenciosa e eterna. Mas segui minha vida sem pensar muito nela. Claro que sabia de sua proximidade, mas eu a desafiava. E ela como um cão manso, ladrava, ladrava, mas não mordia nada. Não tinha medo de morrer. Mas não o queria, lógico. O mundo tinha de ser meu antes disso. Queria sentir todos os gostos, todos os aromas e ver todas as belezas que existiam neste planeta antes de mostrar o osso branco à terra. Mas, cansa fugir, sabe. A gente fica sem saco. O pega-pega já estava na hora de acabar. Disse para meus patrões australianos que retornaria ao Brasil. Entrei num avião com o dinheiro que poupara e voltei para o nordeste.
Quando cheguei e pisei o solo de casa, chorei feito um menino. Como era bom estar de volta. Não sabia se meus parentes estavam vivos e custou-me a achá-los. Foram quase dois meses procurando por minha irmã mais nova. Mas, por um golpe da sorte que nunca me abandonou, descobri o endereço da sogra dela. A senhora levou um susto quando lhe bati a porta. Pensara ser um desses golpistas que queriam passar a perna em gente simples. Mas como eu sou um idoso transmiti-lhe a confiança de ouvir-me. Assim, apresentei-lhe os poucos documentos que possuía (sempre tinha o meu passaporte à mão) e consegui convencê-la que eu era mesmo da família. Ela, então, me permitiu um banho e serviu-me cuscuz com carne de sol. Comi como se fosse o manjar dos deuses. Não imaginava o quanto aquele “temperozinho” da terrinha fazia-me falta. Por já ser alta noite, só no dia seguinte, segui para a casa de minha irmã. Ficava em Caicó. No ônibus, as imagens da minha infância, voltavam-me a toda hora. Reconhecia cada pedaço de chão, cada árvore daquela caatinga. Queria gritar: “estou de volta, meu sertão”! Mas temi os olhos reprovadores a minha volta, que questionavam o que me emocionava tanto naquelas paisagens e eles tão corriqueiras. Meus pés calejados ainda andaram um bom pedaço desde a rodoviária à casa de minha irmã. Ao bater na porta, dois jovens, que viria a saber serem meus sobrinhos, avisaram-me que a dona da casa estava nos fundos colocando a roupa para quarar. Segui de mansinho entre lençóis e camisas, para surpreender a mana. Ao ver-me, ela soltou um grito. Abraçou-me e beijou-me. Não queria se desvencilhar de mim. “Vai que você foge de novo”. Dizia. Perguntou por onde eu andara e o que fizera por tanto tempo. Antes de dar início a esta narrativa, pedi-lhe que deixasse as perguntas para depois. Pois o que queria, naquele momento, era prostrar-me na aconchegante redinha estendida na varanda, começo e fim das minhas longas histórias.

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“- Isto… é a árvore de Natal de Cristo – respondem-lhe.
– Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo,
uma árvore de Natal, para os meninos que
não tiveram sua árvore na terra…”
A árvore de Natal na casa de Cristo- Fiódor Dostoiévski

O conto sobre o qual lhe falei

Giordana Bonifácio

-Sabe aquele conto sobre o qual lhe falei? Disse o estudante de casaco largo e capuz.
Fazia frio e como já se aproximavam as férias, a universidade estava praticamente vazia. Sua calça surrada guardava alguns rasgos de velhice que ele insistia em dizer que era estilo. Seu nome era Heitor, uma homenagem a Villa Lobos, ídolo de seus pais, de quem o rapaz não herdou o talento musical. Paciência. Nem sempre o nome faz com que sigamos o caminho que previamente nos foi trilhado. Talvez porque só nós possamos construir nossa vida. Não adianta o desespero da mãe e do pai. Às vezes, o menino quer estudar literatura mesmo. Pode não ser rentável como Direito, mas quem disse que um ótimo educador não pode ter uma vida confortável? Bem, sigamos para o diálogo que pode ser, quem sabe, interessante.
-Ã? Respondeu o outro rapaz cuja camiseta mostrava-se muito pouco para protegê-lo do frio abissal que fazia aquela noite. Mas Ricardo costumava enfrentar as intempéries sem casacos ou guarda-chuvas. Era sempre o mesmo esquema: frio = camiseta, calor = camiseta, chuva = camiseta. Às vezes a equação era mais ou menos a seguinte, chuva + frio + camiseta = pneumonia, mas, ainda assim, a teimosia não o permitia a fraqueza de um casaco, mesmo que fino.
-Aquele, do Dostoiévski, “A árvore de Natal na casa de Cristo”. Eu até o narrei para você. Ainda lhe contei sobre a questão que pesa sobre o possível plágio do conto do Andersen, “A pequena vendedora de fósforos”.
-Sim, o que é que há? Respondeu sem muita empolgação Ricardo, que preferia linguística à literatura e não compartilhava do interesse literário do amigo. Às vezes, só ouvia o amigo por educação, ou não ouvia, ficava pensando em árvores sintáticas e nas ideias de Chomsky enquanto o amigo narrava um livro ou um conto que havia lido.
-Eu o reli ontem à noite. Pensei muito sobre ele a madrugada passada.
Ricardo, “coração de leão”, como chamava Heitor, pois este último sempre estava ligando a vida à literatura riu-se da ocupação do amigo:
– Você não tinha o trabalho de Literatura Contemporânea para fazer? Por que ficou perdendo tempo com besteira?
-Não é besteira, sabe? A vida é muito mesquinha…. Onde há mais gente, o menino está só; onde há mais fartura, o menino passa fome; onde há mais recursos contra a crueldade do inverno, o menino está mais desabrigado diante do frio. Dostoiévski disse: “Nos ambientes mais mesquinhos encontrei as maiores provas da espiritualidade humana”.
-É só um conto, cara, vai por mim.
-Não, não é. Você não entende…. Ontem, o meu pai dispensou a Creusa. Disse que, se ela não poderia estar na hora no trabalho, os serviços dela lá em casa não eram necessários. Mas ela tem um filho que necessita fazer hemodiálise e outros dois que estão na escola. Meu pai não se apiedou da situação dela e nem mesmo o comoveu os anos que ela passou lá em casa. Por quê? A lógica do capital faz dos homens, seres desumanos. Seguir horários, bater o ponto, obedecer à risca a letra da lei, tudo isto faz dos homens menos humanos.
-Você está falando do conto ou de um problema familiar? O que você pode fazer? “A vida é cruel”. Já diziam os Titãs.
-Ricardo, vocês linguistas são muito lógicos. É algo que se repete. Quem mais tem, menos faz pelo mundo. No conto, poderiam ter acolhido o menino que congelava no frio. Mas ninguém lhe tinha compaixão, nem mesmo numa data significativa como é o Natal.
-Seu pai precisa de um funcionário que cumpra os horários. Sua casa não é uma entidade filantrópica. Disse o rapaz colocando as mãos nos bolsos para disfarçar o fato de estar sentido frio.
-O mundo é injusto. O sofrimento do menino e o sentido de justiça são, no conto, uma crítica à sociedade, que, na época e ainda hoje, ignora e marginaliza, insensivelmente. Meu pai agiu como os personagens que discriminam o menino no conto. Dostoiévski faz uma descrição detalhada de uma criança, ingênua, porém angustiada, como se soubesse da situação em que se encontrava. O autor denuncia a despreocupação com o sujeito estigmatizado e não só com a criança de rua. Meu pai deveria ter se apiedado da condição da Creusa. Mas não o fez. Isto me fez pensar. Pensar que o mundo não mudará nunca. Eu creio que sempre haverá toda esta diferença entre ricos e pobres. E sofro pelo fato de fazer parte de uma sociedade que fecha os olhos a dor dos mais fracos e alimenta com colheradas a riqueza dos milionários.
– E o que você pode fazer a respeito? Perguntou com um certo desdém, Ricardo, que já duvidava da sanidade do amigo, que queria transformar o mundo com um simples diploma de licenciatura que só o permitiria ser professor.
– Não posso fazer muito. Mas já estou procurando um emprego para a Creusa e vou ensinar meus alunos que todos são iguais.
– “Mas uns são mais iguais que os outros”, não? Não se esqueça da Revolução dos Bichos. Você que me indicou o Orwell. Sempre haverá privilegiados e despossuídos. Os que prometem mudanças são os primeiros a locupletarem-se do trabalho dos mais pobres. Meu amigo, os porcos tomaram o controle do mundo. Eles têm os cães que são a força policial, não nos é dado nem sequer o direito de indignarmo-nos. Pois poderemos ser calados ou, pior, assassinados.
– Em que planeta estamos? Um lugar em que o bem é desprezado, em que o sofrimento é ignorado e nada podemos fazer para mudar isto. Ser bom é uma tarefa inglória. É como se estivéssemos todos perdidos. O que podemos fazer? Estamos com mãos e pés atados ante os desmandos dos donos do poder. Heitor despencou sobre a cadeira, quando adentraram à sala onde haveria aula de Romantismo. Estava desvalido de todas as esperanças. Certo de que não tinha como mudar o mundo. E que não importa quanto tempo passasse, mesmo depois de mais de um século, tudo ficaria exatamente como era.
-Coragem, meu amigo. Nem tudo está perdido. Façamos o que está ao nosso alcance. Nem que tenhamos de trabalhar a vida toda para fazer ver um só aluno, será o bastante. Sejamos a mudança que esperamos no mundo. Se nada fizermos, nada mudará. Sozinhos, não nos é dado o poder de mudança. Mas a cada discente que façamos ser melhores que este sistema, fará valer à pena todo o nosso esforço.
-Tarefa inglória, esta, não? Olhou para o amigo que pregava com as palavras de Gandhi, os meios de modificar a realidade em que viviam.
-Meu caro Heitor, não disse que seria fácil. Mas é possível. É um trabalho de longo prazo, é verdade, mas, possível. Temos que ter fé. É tudo que nos resta.
-Você, linguista, já está falando como um literato! Agora, sente-se que a professora já está em classe. Heitor sorriu e, por um instante, pensou: “seria mesmo possível?”

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“Um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas”.
O poema sujo – Ferreira Gullar

O conto sujo

Giordana Bonifácio

Este aqui é um conto sujo. Já vou prevenindo. Nada aqui é límpido, mas turvo como as águas do Tietê. O odor que exala deste texto é sufocante. Sinto pena dos personagens aqui retratados. O primeiro deles é uma aposentada na fila de um hospital público. Foi diagnosticada com um câncer há alguns meses. Tenta tratamento pelo SUS, tendo em vista que sua aposentadoria não a possibilita arcar com todas as despesas médicas. A mulher limpou a poeira dos móveis antes de sair. Mas o pó voltou a cobrir a casa inteira. Há algo errado. Faltam remédios e a o equipamento de radioterapia está em manutenção há mais de seis meses. A mulher volta para casa e seus olhos marejados enfrentam o pó. Ela volta a limpar tudo. Mas a sujeira permanece. O que se passa?
Na rua, meninos jogando futebol disputam espaço com a imundice dos esgotos. As obras de saneamento nunca finalizaram na comunidade. O dinheiro escorreu pelas manilhas destinadas aos dejetos humanos. O dinheiro é a podridão do mundo. As crianças brincam entre fezes e urina. O fedor é execrável. De quatro em quatro anos políticos em pele de cordeiro se deslocam para lá. Prometem, beijam crianças e angariam votos. Depois, abandonam a favela, para sempre. Doenças disseminam-se e os meninos, entre os detritos, driblam a miséria com sonhos. Um dia, quem sabe, tornem-se jogadores profissionais e sujem as mãos para sonegar impostos. A honra deteriora-se numa propaganda de tevê.
O Rio Doce morreu soterrado por uma tsunami de lama. Pobre Mariana, encoberta por tanta sujeira, não pode sequer respirar. Um pescador chora sobre as águas turvas de um rio morto. Não consegue mais alimentar os filhos. O sustento da família provinha da pesca. No Rio Doce, envenenado, não há mais peixes. A água potável também se tornou rara. E cara. As indenizações, fruto da maior tragédia ambiental do país, são ridículas. Famílias, que perderam tudo no incidente, têm de sobreviver com apenas um salário mínimo que a mineradora Samarco se comprometeu a pagar aos prejudicados. O tempo passa e a justiça cala-se. Por quê? Têmis submerge nesse horrendo mar de lama?
Um professor tenta limpar seu guarda-pó, mas as nódoas não querem desaparecer. São manchas terríveis: baixos salários, péssimas condições de trabalho, previdência ameaçada, dupla jornada, estresse, doenças ligadas ao ofício e desmerecimento da profissão. A docência é uma vocação, dizem ao professor. Mas, diferente dos religiosos, não faz voto de pobreza quem se torna um educador. Não pode, uma categoria que estuda tanto e trabalha sobremaneira, ser desprezada como são os docentes. Marcas indeléveis que minam o progresso do país. Não sabem, os governantes, que sem educação não há progresso. Pouco se importam com isto, preferem desviar o dinheiro para novas escolas e para manutenção da infraestrutura das já existentes para contas escusas em paraísos fiscais.
A noite apavora, mas mesmo na escuridão, garotos sujos passeiam com charutos de crack e garrafas cheias de cola de sapateiro. Nem se lembram mais há quanto tempo vivem nas ruas. Para conseguir a droga, cometem furtos e roubos. Trocam tudo por entorpecentes. Até mesmo a vida. Não sabem o que é asseio. Sobrevivem feito animais nas crackolândias. A podridão espalha-se nesses espaços. Entre lixo e excremento tornam-se sub-humanos esquecidos no buraco negro do vício. Vez em quando a polícia passa por ali. Mas diante de tanta miséria, eles fingem não ver. A justiça faz-se cega quando ela quer. Uma menina com roupas maltrapilhas e encardidas prostitui-se para comprar a pedra da morte. Necessita dela, pois se fosse viver sóbria, não suportaria o peso da pobreza. A morte por overdose poderia ser até um alento. O corpo se deterioraria algum tempo a céu aberto até o IML vir recolhê-lo. Enterrada como indigente, ninguém questiona se aquela falecida foi gente algum dia. Ela deveria ter um nome. Mas ninguém se importa. Morreu, fazendo a alegria dos urubus.
Um mendigo numa noite fria de fim de ano foi queimado vivo por adolescentes de classe média que queriam “zoar”. Marcas de fuligem e trapos queimados restaram no lugar da morte. “Mas era só um mendigo”. Diriam os jovens quando apreendidos. Será que a pertença ao gênero humano excluem os moradores de rua? Matar é algo tão trivial assim? O ponto de ônibus em que dormia o homem, (sim ele era gente), ficou tomado por cinzas escuras e pelo odor de carne queimada. A morte é feia, não é como romantiza o cinema e a televisão. É suja e fétida, como o é quanto a qualquer animal. Embora, não consigamos admitir, não somos mais do que os seres que denominamos bestas. Porque, às vezes, ser humano é sórdido demais, podre demais para admitirmos.
Pessoas se acotovelam dentro de um ônibus lotado. O odor de suor é insuportável. Voltam do trabalho encardidas das tarefas do dia. Espremem-se como sardinhas em lata. Mas nada é tão ruim que não possa piorar: o ônibus é assaltado no meio da viagem. O ladrão obriga os passageiros a deitarem-se no chão. O que foi muito difícil, pois não havia sequer lugar para estarem em pé. A perversidade do bandido é incomparável: pisava com os pés enlameados sobre os corpos apavorados para tomar-lhes celulares e outros objetos de valor, deixando pegadas nas roupas das pessoas. Partiu, desfalcando as vítimas até de seu amor próprio. “Melhor ser pisoteado do que morto”. Pensou o estagiário que acabara de receber o salário. Ainda que perdesse o valor de um mês de trabalho, estava feliz de estar vivo. Apesar de sujo. Mal sabe ele, que há certas manchas que nem mesmo o melhor sabão em pó não pode tirar. Estas ficam na alma para sempre.
Um homem embriagado volta para casa tarde da noite. Reclama da janta fria. Exala um cheiro desagradável de álcool. A mulher tenta explicar que a comida esfriou porque ele demorou a chegar. O homem, alterado pela bebida, age com extrema violência. Dá um soco no rosto da esposa. Depois continua, com um variado repertório e brutalidades, a chutá-la e golpeá-la. A mulher, encolhida no chão, espera que o acesso de raiva do marido acabe. Depois desta cena deplorável, ele cospe na esposa caída. E ainda alerta: “quero o jantar pronto em cinco minutos, sua vadia”! Com o rosto inchado e ensanguentado, a mulher levanta-se e corre para preparar o jantar. O sangue escorre do nariz quebrado e ensopa-lhe a roupa. Mas ela só se preocupa em alimentar o brutamontes do marido. Porque ela não quer mais apanhar. As amigas diziam-lhe para abandonar o esposo troglodita. Mas ela tinha medo não conseguir se manter e aos filhos. A necessidade impingia-lhe o sofrimento. O sangue não estancava e pingava sobre o piso. A pobre mulher, aflita, corria com o jantar para limpar aquela sujeira, antes de o marido perceber que ela emporcalhara o chão.
O mundo deteriora-se numa imensa podridão. O mal cheiro até rescende no ar. O homem é “um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas”. Fedendo a mijo e bosta, um bêbado grita: “de que tecido é feita a carne do coração”? Então, eu recordo-me que nosso corpo é feito de carne e osso. Só isto já justifica toda a sujeira sob o tapete da sociedade. Mas a vida resiste “a cada nova manhã nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais”, outro prematuro, desprezado no lixo, é resgatado com vida. Graças a Deus! Eu, contudo, desde logo, pergunto-me, como será a vida deste pobre menino, que já se inicia triste? Posso até vê-lo, sujo de líquido amniótico e sangue, entre restos de comida e ratos, chorando de frio e de fome. A vida, por si só, é um poema sujo. Já pré-anunciara Ferreira Gullar. Nas cidades, a poluição se estende do ar ao leito dos rios. A cidade cobre-se de lixo. O homem cobre-se de lixo. E toda a humanidade chafurda nos requintados chiqueiros que erigiu. Entre o monturo desta falsa construção minha voz se eleva: onde está a pureza que me prometia, ó Deus, Rei de toda criação? A resposta cai numa chuva chorosa, que lamenta a derrocada da civilização.

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“Hulk esmaga”!
Hulk

Foi sem querer!

Giordana Bonifácio

Pedro feria as pessoas, não importava que fosse na escola, na rua, brincando de pegar, ou, em casa, quando estava com sua família. Ficava nervoso e batia no que estivesse na frente. Nem pedia desculpas, dizia só: “foi sem querer”!
Ficava irritado por ninguém mais querer brincar com ele. Pedro estava convencido que não fazia mal a ninguém.
Sua irmãzinha tinha medo de Pedro. Quando ele se aproximava, ela fugia para os braços da mãe.
Pedro não fazia por mal. Não sabia ser cuidadoso com as pessoas. Não queria lhes ferir, mas ele não controlava sua força.
Muitas vezes, ficava com bastante raiva, por não ter biscoitos antes do almoço, por não poder assistir televisão antes de fazer o dever, então, descontava na primeira pessoa que via pela frente. Quando batia em alguém, só repetia: “foi sem querer”!
Até Salsicha, o cachorrinho da família de Pedro, sofreu com a ira do menino. Levou, de Pedro, um chute bem no bumbum e saiu latindo de dor e mágoa. O filhotinho gostava tanto do dono!
Pedro, não era mau. Era um menino normal. Gostava de sorvete de chocolate e balas de amendoim. Era fã de super-heróis e, um dia, queria salvar o mundo.
Mal sabia que antes de socorrer o mundo, tinha de salvar a si próprio. É, porque estava se tornando um menino sozinho. Ninguém queria ficar perto dele. Quem quer levar um soco sem motivo? Estar perto de Pedro era um perigo!
Pobre menino. Naquela tarde, ele empurrou um coleguinha da escola que acabou com um machucado na testa ao cair. Foi então que os professores pediram aos pais de Pedro para virem à escola.
Pedro ficou com medo. Pensou que iria ficar de castigo pelo resto da vida. Imaginou-se bem velhinho preso dentro do quarto sem poder ir jogar bola como gostava de fazer.
Mas, ainda que fosse uma falta grave, a escola não queria castiga-lo. Na verdade, queriam ajuda-lo. A professora, os pais de Pedro e uma doutora chamada pela diretora de “terapeuta” conversaram por horas, na sala do orientador, sem a presença do menino. Pedro roía as unhas de tão assustado. Foi então que o chamaram para conversar.
Pedro entrou encabulado. A terapeuta sorriu para ele. “Ela era até legal”, pensou Pedrinho. Ela perguntou se estava tudo bem e se poderiam falar um instante. Pedrinho balançou a cabeça: sim.
Então ela perguntou por que ele tinha machucado o coleguinha. Pedrinho disse:
– Eu estava com muita raiva. Joaquim tinha rasgado meu desenho.
– Joaquim era seu coleguinha, certo? Pedrinho disse que sim.
– E você acha certo o que fez? Perguntou, novamente, a terapeuta.
-Não, mas eu disse que foi sem querer! Respondeu o menino.
-Muitas vezes fazemos coisas sem querer mesmo. Como quebrar um vaso por acidente. Ou rasgar o trabalhinho do outro. O seu coleguinha rasgou seu desenho porque quis? Falou com uma voz bem tranquila a doutora.
-Não, ele queria mostrar para a professora e rasgou sem querer. Disse Pedro numa voz bem fraquinha.
– Calma, Pedrinho. Não estamos aqui para brigar com você. Na verdade, a gente quer que você aprenda a controlar sua raiva. Disse a diretora.
– Sei que as vezes a gente fica nervoso e quer descontar tudo que sentimos em alguém. Mas já pensou se fizéssemos isso? Seria uma tremenda confusão. Juntou a doutora.
– Eu disse que foi sem querer. Disse o Pedrinho já chorando.
– Nós sabemos. Temos certeza que não pensa quando faz algo assim. Sua mãe disse que você já machucou a sua irmãzinha e até chutou o cachorro. É verdade?
– Ela estava na frente e o Salsicha estava latindo. Enxugou as lágrimas com as costas da mão.
– Nem sempre a gente pode agir com raiva. Sabe o Hulk? Sua mãe disse que você gosta de super-heróis. É verdade?
– É. Tenho um monte de bonecos. Tenho o Capitão-América, o Thor, o Homem-Aranha, o Wolverine e também tenho o Hulk. Falou Pedrinho bastante orgulhoso.
– Você sabe que o Hulk só se transforma quando está com raiva, não é?
– Sei. Pedrinho estava curioso, será que ele se transformaria no Hulk?
– Bom, você também se transforma quando está nervoso. Você tem que segurar. Se não, vai machucar muita gente. O Hulk não gosta quando fere as pessoas, não é? “A doutora sabia “um monte” de super-heróis. Que legal”! Pensou Pedro.
– Não. Ele fica triste. Pedrinho, disse bem fraquinho e baixou a cabeça.
– Você fica triste quando machuca alguém, mesmo sem querer? A doutora olhou para o menino bem nos olhos e Pedro, envergonhado, disse:
– Fico.
– Então, para não ficar triste, a gente não pode ficar nervoso como o Hulk e descontar nos outros. Vou contar para você um segredo: quando fico com muita raiva eu pego uma folha de papel e amasso bem amassadinha com as mãos. Ou, então, pego uma almofada e fico batendo nela até me sentir calminha, calminha. Não podemos quebrar as coisas e machucar os bichinhos, os amigos e a irmãzinha. Quer tentar? A doutora pegou uma folha branca e deu para Pedrinho amassar.
Pedrinho pegou a folha e disse como o herói: “Hulk esmaga”! E fez uma bola de papel com toda a força.
– Agora está mais calmo? A doutora perguntou, com um sorriso. Pedro pensou que ela era mesmo muito legal e respondeu:
-Sim!
-De agora em diante, quando ficar com raiva, o Hulk só esmaga folhas de papel e a almofadas. Combinado?
– Combinado. Respondeu Pedrinho bem feliz. Não iria ficar de castigo. E o melhor, ele tinha o poder do Hulk, mas como todo super-herói, tinha de manter as pessoas a salvo. Agora, para não machucar ninguém, iria amassar folhas de papel até toda raiva passar.
-Ah, quando algum acidente acontecer, não fale que foi sem querer, mas me desculpe. Está certo? Disse a doutora com uma piscadela.
Com o tempo, Pedrinho foi aprendendo a controlar a raiva. E algum dia, sabia, ele iria salvar o mundo.

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“Sim, do mundo nada se leva.
Mas é formidável ter uma porção
de coisas a que dizer adeus”.
Millôr Fernandes

Vamos, vamos, Chape!

Giordana Bonifácio

Mãe, queria lhe dizer que estou bem. Não senti nada no momento do acidente. Não esqueci de rezar. Sabia que Deus não me abandonaria. Eu e meus amigos estávamos todos muito felizes, afinal, disputaríamos nosso primeiro campeonato internacional. Vivíamos nosso melhor momento. Nosso time, que era considerado pequeno, foi grande! Estávamos voando para a glória. Tudo parecia favorável. Estávamos muito entusiasmados. Sabe, mãe, eu esperava até dedicar um gol à senhora. Seria lindo. Eu tomaria a bola no meio do campo, driblaria todos os zagueiros e ao chegar na meia-lua adversária, lançaria uma bomba indefensável no ângulo ou “onde a coruja faz o ninho”, como dizem os narradores dos jogos de futebol.
Eu queria só ver a torcida indo à loucura. Pularíamos eu e meus amigos uns sobre os outros para comemorar o gol. No fim da partida, levantaríamos a taça, nosso maior prêmio, nossa melhor aquisição. Seríamos ovacionados na nossa volta. Todos estariam a nossa espera na cidade. Seríamos recebidos como heróis. Passearíamos, em carro aberto, segurando a taça e comemorando com o povo a nossa vitória. Seria lindo. Comovente. E você, mãe, choraria cheia de orgulho de mim.
Eu sei que o time seria lembrado para sempre por nossos feitos. Era nosso ano. Tudo contribuía para que isto ocorresse. Mãe, você gabar-se-ia para todos: “esse é meu filho”. Também exibiria com orgulho as fotos da nossa vitória. Eu levaria como lembrança a camisa do time derrotado a qual o meu filho recebê-la-ia como herança.
Meus dias de glória só estariam começando. Devido ao meu destaque, seria sondado por equipes europeias. E poderia até escolher em qual jogaria no ano seguinte. E não pararia por aí. Em alguns anos, meu destaque no futebol internacional levar-me-ia à Seleção Brasileira. A próxima Copa do mundo seria nossa e eu faria os gols da final. Tite ficaria muito feliz de trazermos o Hexa tão esperado. Eu envelheceria jogando futebol. Talvez, até me tornasse técnico no futuro. Sempre ligado ao meu esporte favorito que se tornou a minha vida.
Tudo isto teria acontecido, se a morte não tivesse vindo cedo demais. Como eu dizia, está tudo bem. Mas não como você gostaria. Eu morri na queda do avião que fez todo o mundo chorar. Não ganhamos o título, não fiz o gol decisivo, não trouxemos de volta a taça. Na verdade, só meu corpo inerte e sem vida voltará, para que a senhora pranteie meu falecimento. Sei que dói. Mas não tem jeito. Quem somos nós para discutir os desígnios de Deus? Chegou a minha hora. Foi o que me disse um anjo nos meus instantes finais. Deixei que me levassem. E fui. Mas não tema, sempre estarei com vocês.
Aqui de cima, estou vendo o mundo todo entristecido pelo ocorrido. Foi um choque, admito. Também tive medo de partir. Foi difícil. Queria ficar, tinha tanto pela frente. Contudo, não pude ir contra à morte. Ninguém pode. E ela nem é tão feia quanto pintam. Não é um esqueleto cheio de ossos, coberto com uma túnica negra, armado com uma foice. É, na verdade, um anjo que nos toma no braço e leva-nos no colo, em segurança, para o lado de Deus.
Estava com medo, pensei que iria doer. Mas não dói. A gente sequer sente. Passa num segundo. De repente, a vida passou. Sei que vocês também pensam assim. Mas não creia que estão sozinhos. Eu estarei com vocês, não vou lhes abandonar jamais. A vida não acabou, ela continua. Você e os demais estão feridos, mas a dor vai passar. Não há mal que permaneça. A saudade é eterna, eu sei. Mas a vida é infinitamente pequena, não sabe o quanto. Isto só compreendi aqui em cima.
Voltaremos a estar juntos um dia. Mais rápido do que imagina. Contudo, não pense nisto. Aproveite a vida, tal qual eu fiz até os momentos finais. Fui muito feliz. Você proporcionou-me isto, mãe. Não seria nada se não fosse por você. A única que acreditou em mim desde o começo.
Eu queria poder agradecer-lhe por tudo que fez por mim, mãe. Você teve fé, foi forte nos momentos em que fui fraco e fortaleceu-me quando fraquejei. Agora sou eu que peço para que volte a ser o colosso que é. A vida tem dessas coisas, nunca esperamos que a morte ocorra. Mesmo sabendo que ela é inevitável.
Minha história passou rapidamente frente aos meus olhos e nesse momento percebi que devo muito a você, mãe. A vida que tive foi curta para dizer-lhe tudo que precisava. Nem houve tempo suficiente para lhe recompensar por tudo que foi em minha vida. Portanto, digo-lhe agora, ainda que não possa ouvir: obrigado, estou, mais perto que pode pensar, assistindo suas lágrimas, vendo sua dor. Queria consolar-lhe nesse dia tão difícil. Estarei consigo, mas não me verá. Mesmo assim, acredite, estarei aí, ao seu lado. A vida acabou para mim, mas não para você. Portanto não vá se esquecer de se cuidar. Estarei de olho!
Aqui é muito agradável. Não há dor, fome, tristeza ou qualquer sentimento angustiante. Estamos, na Terra, tão preocupados em não sofrer. Mas no pós-vida, não existe sequer a ansiedade de esperar. O tempo é relativo e, depois da morte, é muito mais estranho. Não há presente, passado ou futuro. Só há o agora. Estamos, em vida, tão preocupados com o amanhã que esquecemos de hoje. Aqui, o tempo inexiste. O medo do futuro não nos atinge. E isso é tão bom!
Mas a partida ainda está marcada. O jogo vai ocorrer nos campos do Paraíso. Temos uma pelada programada para daqui a pouco contra o time dos anjos. Vamos ganhar de goleada! Eles vão ver quem é a Chape! Ninguém segura a gente! Estamos preparados e vamos ganhar, enfim, o campeonato. Porém, o prêmio mais legal é o reconhecimento que nosso time está recebendo aí na Terra. Estamos emocionados com as demonstrações de carinho. É tudo tão lindo, estamos muito agradecidos.
Mãe, você é bastante sábia, disse para que não me preocupasse muito com o amanhã. Pois poderia acontecer de não existir um novo dia. O sol continuaria a nascer, pois não precisa de mim. Mas eu necessitava dele. Não deveria angustiar-me tão só em ter, mas em ser. Ser o mais feliz possível. Eu acredito que aproveitei bem a vida. Foi curta? Talvez, não foi suficientemente longa para viver tudo o que deveria. Mas graças a você mãe, fui muito feliz. Então, escute, estarei aqui ouvindo quando rezar aos pés da Nossa Senhora. Esperando por você, pois, logo, estaremos todos reunidos novamente. Nossa família se reencontrará aqui em cima. Não duvide nunca da bondade de Deus. Nem lamente a minha morte. A vida tem um fim. Cedo ou tarde ela termina. Ainda que nunca estejamos preparados para um término tão abrupto.
A vida é só um sopro, num suspiro profundo ela se vai. Fiquei apavorado, não vou mentir. Contudo, agora que estou aqui, estou muito calmo e satisfeito, como jamais estive. Não vá se preocupar, não há frio ou qualquer perigo que nos ameace no pós-vida. É um local ótimo para se estar. E, com os meus companheiros da Chapecoense, aguardamos um novo campeonato, aquele que se passa nos Campos Elíseos do Céu. O título é certo!
Em seu coração e nos corações de todos brasileiros vai continuar, por muito tempo, a soar o hino da Chape. Um hino que representa toda a emoção de um time cuja torcida uniu o mundo inteiro, todos juntos numa só canção. Ressoam aos meus ouvidos os gritos de “Vamos, Vamos Chape”! Mãe, diga que eu e meus companheiros estamos muito agradecidos pela comoção social que causamos. Diga a todos que a vida é efêmera. Nunca sabemos quando chegará nosso fim e, não adianta, não estamos jamais preparados para ele. Por isso, pode ser até um clichê, mas diga a todos que curtam ao máximo a vida. Posso afirmar que o céu, hoje, está mais verde. Iluminado pelas cores do clube de Chapecó.

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“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração”.
(Fernando Pessoa, Autopsicografia)

Estasoueu.doc

Giordana Bonifácio

Um dia, comecei a escrever. Não tinha ideia de onde minha escrita terminaria. Escrevia sem objetivo. Como se escrever fosse verbo intransitivo. (Desculpem-me, mas citar Drummond é imprescindível a qualquer escritor). Quem necessita de complemento? Escrevo. Tão somente. Nem quero ter motivo. Faço porque faço. Nem quero saber a razão de meu desejo de escrever. Mas nem sou escritora. Sou uma menina, sim, criança ainda, no mundo das letras. Vou brincando de criar. Às vezes, surge algo bonito. Mas nem sempre. Tem hora que tenho de usar o backspace e apagar tudo com lágrimas nos olhos. Dói quando minha criatividade está em baixa. Fico frente ao computador forçando meu cérebro, como num parto por fórceps. Tem horas que não surge nada mesmo. Então deixo estar. Não sou de lutar comigo mesma. Deixo as coisas como são. Tudo é como deve ser.
Escrever é expor-se da forma mais constrangedora possível. É desnudar-se frente ao mundo. As pessoas passam a conhecer-nos o mais profundamente possível. Escrevo o que sou. E penso que sou algo muito complexo. Um emaranhado de pensamentos luminosos e apagados, como em um pisca-pisca natalino. É difícil traduzir em palavras o que sou realmente. Mas, às vezes consigo. Vem um pensamento e bum! Tomba como uma bomba sobre mim. Destrói tudo em mim a minha Rosa de Hiroshima. (O mundo pede desculpa por nossa maldade). Eu sei que escrevi algumas verdades que não deveriam ser ditas. Mas agora é tarde. Foi. Cachoeira de sentimentos que caem em nuvens de lágrimas.
O que ganho por minha sinceridade? Só a minha paz de espírito. Na verdade, nem isto. A paz não me acompanha. A minha vida é turbilhão. Afundo em mim todas as noites. Consigo recuperar um tanto dos sonhos quando acordo. Mas sempre me resta a impressão que deveria lembrar-me de algo mais. Como se minha mente quisesse dar-me um aviso. Mas as advertências que tinham de chegar-me mediante os sonhos perdem-se no minuto em que desperto. Morfeu falhou imensamente em sua missão.
Tenho medo do que escrevo. Vai que revele mais do que o gostaria? (O que invariavelmente ocorre). O que irão pensar de mim? Talvez nem pensem. As pessoas não costumam mesmo ler o que escrevo. Sou uma escritora sem leitores. Também falhei vergonhosamente em minha missão. Não tenho como repreender o Deus dos Sonhos. Quem quer saber sobre minha dor? Se fosse ao menos alguém famoso, mas uma mulher de trinta e poucos anos sem qualquer feito impressionante para constar em seu currículo? Sou humana. Sou comum. Sou. Ainda que ser seja um resumo um tanto previsível de mim. Ser é existir num mundo em que o valor é contado em capital. Sou ainda que nada tenha. Sou um buraco negro de emoções que são puxadas para mim e chegam sabe-se lá aonde.
Eu quero um casulo de livros que me afastem da realidade. A vida é real demais para mim. Quero que a literatura me guarde num sonho, num adormecer eterno do qual jamais desperte. Algo próximo à morte, mas quem pode saber se falecer não seria despertar num sonho? Será que é como desligar a televisão? Deus usa o seu controle remoto e puff!: A vida acabou para nós. Seria impressionante descobrir a vida após a morte. O que devemos pensar quando chegamos lá? Estaríamos assustados? Estaríamos apavorados ou seríamos coniventes com nossa sorte? Ah, quantas perguntas e comecei este texto falando do dia que comecei a escrever. Nesse dia, pensei que resolveria todos os meus conflitos. Ledo engano, criei ainda mais problemas cujas soluções jamais encontrei. “Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima e não uma solução”. Faço uso, novamente, do nosso fantástico Drummond. Há como se entender este planeta de loucos? Não. Nem adianta tentar. O lúcido é o ensandecido num mundo de malucos.
Escrevo porque nem sei. Escrevo porque não sou normal. Escrevo porque sou por demais sonhadora. Escrevo para tentar fazer do meu mundo um lugar melhor. Sim, é puro egoísmo. Nem sequer penso na coletividade. Sei que a escrita não tem o poder de modificar a nossa tão estranha ilusão de sociedade. Mas creio que ela, pelo menos, doura a pílula. Deixa-a engolível, por assim dizer. Escrever é um ato solitário, não escrevemos para mundo, mas para nós mesmos. Ficamos satisfeitos por abrir nossa alma. Ainda que ninguém sequer compreenda isto. É como desentupir uma pia entupida, quando a dor surge voraz canalizamos toda para o papel. Pena que pensem ser só arte. É ilusão também. E medo, e mágoa, e solidão, e dor, e silêncio, e morte. Tudo isso e mais um pouco.
Queria dizer que isto que escrevo não sou eu. Contudo sou eu. É tudo sobre mim. As tristezas foram vividas por mim. A escrita é o exercício da dor. Escrever é revelar-se nas páginas de um livro. O que digo é verdade, ao menos a maior parte. O resto invento. Mas até minhas mentiras retratam o que sou. O escritor sofre. As palavras fogem, a emoção não é perfeitamente compreendida e o riso não vem quando provocado. Não controla o autor os sentimentos que surgem com suas palavras. É uma quimera pensar estar o escritor no controle de sua obra. Na verdade, é o leitor o senhor absoluto das palavras. São eles que ditam o que vai acontecer. Por isso, concordo que a escrita é um mistério sem solução. Não devemos enganar-nos pensando que vamos domar a besta, pois ela nos fará cair no primeiro segundo. Um rodeio onde os animais ditam as regras.
Queria saber escrever o que não sou eu. Mas não posso. Pois eu sou eu o tempo todo. Nem sei ser diferente do que sou. Porque quando quero ser diferente, o mundo me obriga a ser eu. Não posso andar um passo fora do espaço milimetrado para mim. Não posso fingir ser outra pessoa. No fim, até mesmo meu personagem torna-se parte de mim. Conheço este labirinto em que me perco. Somente o silêncio traz de volta o que perdi. O passado é uma confusão de fatos que minha memória cuida de apagar. Não quero dormir. Pois no sono não sou em que me guio. Perco a direção de minha carruagem e os meus cavalos, indomáveis, levam-me para o abismo. Não quero cair nesse precipício que há em mim. A escrita é minha tábua de salvação. Os dias em que não escrevo são como sinopses imperfeitas da vida.
O mundo atual está repleto de escritores. Hoje, todo mundo pode ser um autor (ainda que, tal qual a mim, não possua leitores). Há um sem número de computadores com o Office instalado. Para ser escritor, basta ter coragem de confessar-se para uma máquina fria que não nos oferece quaisquer respostas as nossas questões. Ela só absorve o que dizemos e coloca sob símbolos num arquivo de texto: estasoueu.doc. No dia que comecei a escrever não possuía nem mesmo uma simples máquina de escrever. Fiz um manuscrito que se perdeu pela força do tempo. Seria uma ótima relíquia. Uma lembrança do passado que restaria viva. São coisas assim que deveria ter guardado, mas não o fiz. Ao invés disso, tenho um bando de pequenos souvenires que nem me lembro a situação em que os adquiri. Eu sou um caso raro a ser estudado.
Quando comecei a escrever não sabia os caminhos que trilharia, nem mesmo os objetivos que buscaria. Só sentei peguei a pena e fiz dela uma arma. “Nũa mão sempre a espada e noutra a pena”. Já dizia Camões no seu fantástico “Os Lusíadas”. Quem escreve não sabe bem porque o faz. Apenas lança os dados. A sorte dita o resto. Não posso reclamar. Tenho de me livrar de algum modo de meus monstros. “Só não vá abrir essa caixa, Pandora”! O que esperavam encontrar? Só tenho aqui um relato de viagem de uma sonhadora. Os caminhos levam-me para o mundo. E a pena acompanha-me nas minhas aventuras. Somos uma só. Pois sou o que escrevo. (Sei que já disse isto. Só queria enfatizar). E o que escrevo o que é? Uma miragem de sonhos num deserto de solidão. Quando escrevo desperto a minha alma da qual surgem as mais estranhas fantasias. Sou o médico e o monstro. Uso uma máscara da qual me livro toda vez eu vou escrever. Por isso, não me reconhecem na minha escrita. Mas sou eu. Isto sou eu. Ainda que nunca revele a ninguém. Mas, os poucos que me leem sabem da minha estranha lucidez. Um dia, alguém vai abrir o baú de sonhos e deixar escapar de mim todas as minhas facetas. São as diversas personalidades que adquiri. (Como os heterônimos de Pessoa). Todas são um tanto do que sou, são minhas criações que surgiram no dia que comecei a escrever. Quando recuperei a sanidade que, no passado, havia perdido.

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