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“Mas não chores, que no meu dia,
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem”.
Cecília Meireles

O pesadelo que se vive

Giordana Bonifácio

Fecho os olhos: “está tudo bem”, tento inutilmente convencer-me disto. Os dias doem-me e o futuro chega rápido demais. Não estou preparada! Esperem um segundo para que eu possa respirar. Sorvi o ar límpido e fresco. Abri os olhos. Tudo está em seu perfeito local. Menos eu. Estranho, não é? Sou uma peça perdida de um outro quebra-cabeça. Não me encaixo em nenhum lugar. Dizem que nós que devemos nos adaptar ao mundo. Então, devo ser uma extraterrestre. Na minha carteira de identidade está escrito: Rosa Lima Valência. Mas estou com medo que eu não seja quem dizem que sou. Um nome não é referência. Um nome é um nome, tal qual casa, cadeira ou flor.
Por falar em flor, há um buquê sobre a mesa a espera que eu lhe coloque num vaso. Não sei se devo fazer isto. Comprei-o na feira hoje de manhã. Naquele momento, pareceu-me belo. Mas tão rápido entrei em meu apartamento, a beleza desbotou. Ele destoava naquele ambiente. Era bonito demais para mim. Será que o merecia? Peguei as flores e tive raiva. Raiva de não ser bonita assim. Então agarrei-as para que se desfizessem entre meus dedos. As pétalas caíram. “Caim, onde está teu irmão”? Dizia-me o meu reflexo no espelho. Chorei. Por que? Não sei, as lágrimas surgiam sem razão. Talvez, por não haver pena para o pecado que cometi. Fiquei de joelhos velando o outrora lindo buquê. “Sinto muito”. Escapou-me. Mas ele era meu. Tinha direito de fazer o que quisesse. Se queria destruí-lo, poderia fazê-lo. Quem me condenaria? “E agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para receber da tua mão o sangue do teu irmão”.
Peguei os restos mortais do meu mais recente pecado e despejei na lixeira da cozinha. Estava tudo impecavelmente arrumado. Eu, em minha insana fúria, queria o caos. Pois só isso retrataria a dor que habita em minha alma. “Eu. Eu. Eu”. Criticam-me por preocupar-me tanto com que sou. Mas se o meu maior problema é ser, por que imaginariam que falaria de outro alguém? “Você está muito bonita”. Ele disse-me. As flores eram bonitas também. “Lírios do campo que crescem; não trabalham nem fiam; e nem mesmo o rei Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”. Alvos, incólumes, inocentes. A culpa era toda minha. “Meu Deus, porque me abandonastes”?
Fecho os olhos, mais uma vez. Concentro-me no som do relógio da sala. O tempo: a Parca que fia nossa vida, marcando as horas, os minutos e os segundos de nossa existência na Terra. Uma bomba relógio prestes a explodir. Nunca saberia como desarmá-la. “Corte o fio azul”, diriam. Mas meu coração obrigar-me-ia a cortar o vermelho. Um filme sem final feliz.
Fui até a sala. O relógio pendurado na parede era por demais ameaçador. Joguei-o no chão. Porém ainda funcionava. Enfiei a mão no visor quebrado para arrancar os ponteiros da minha vítima. Cortei-me e meu sangue pingou sobre o alvo tapete das horas. Mesmo destruído, o bravo guerreiro continuava a mentir o tempo. Tiquetaqueava, mesmo sem poder dizer-me quanto faltava. Mas para o quê?
A lua que brilhava no céu dizia-me: é noite. O silêncio do apartamento confessava-me: sou só eu e você, solidão. Todavia, o relógio não parava. Como se não o pudesse deter. “Eu já combati moinhos de vento”. Respondi à máquina ameaçadora. O corte em minha mão ardia. Peguei um lenço e amarrei-o sobre o ferimento. Uma nódoa vermelha rapidamente se formou no tecido branco. Maculei a alvura do pano. Igual a um pintor que na primeira pincelada já desiste de seu quadro. Mas não há como apagar o que se pintou. Não há?
Queria dormir e esquecer de acordar no outro dia. Restar eternamente num sonho. Por que permanecer neste pesadelo que se vive? Ouvi o som de passos na rua. Corri para a janela. Um senhor cruzava a avenida. Pensei em lhe apelar por socorro: “salve-me”. Mas ele já ia distante. Segurei o choro. Entretanto, uma lágrima misturou-se ao sangue em minha mão.
O relógio permanecia mentindo. Caído sobre o chão, ainda que derrubado, jazia vitorioso. Não posso vencê-lo. Ninguém pode. Desisti de tentar. Deixei-o sozinho na sala, contando horas que não se viam. Fui para o quarto. Sob o criado, um livro de Hugo contava-me sobre uma Paris histórica que não mais existe. O mundo mudou. Só eu permaneço a mesma. “Você continua como antigamente”. Como eu era quando eu era o que sabia que era, mas não sou o que fui. Eu fui, mas não sou mais. “Hoje sou”. Diz-me o meu coração. Mas não o que era antes. Não sou a mesma. Não sou. Sou, mas não o que fui. Sou o que sou. Algo totalmente novo que ainda não compreendo.
Minha mão ferida dói. Mas algo em mim doía mais. Porém, não entendia o quê. Talvez por amar um sentimento que persiste como uma erva-daninha em meu peito, devorando a flor que em mim vicejava. Hugo dizia que “o amor é como uma árvore: cresce por si mesmo, lança profundamente suas raízes em todo o nosso ser, e continua sempre a verdejar num coração em ruínas”. Estranho querer algo que só me faz sofrer. Uma loucura. Uma paixão inexplicável. Mas não designada por Eros. Penso que me foi apresentada pela flecha de Tânatos. Não são gêmeos o amor e a morte? Desejo o sepulcral destino dos fracos. Amo o fim, são três letras de cada palavra que, para mim, associam-se. Alfa e ômega que guardam o mundo em si. “E o inexplicável é que quanto mais cega a paixão, mais tenaz. É sem se apoiar em razão alguma que ela é mais firme”. Repito Hugo.
Querem que me explique? São Cinco os Motivos da Rosa: “Meus olhos te ofereço:/espelho para a face/que terás, no meu verso,/quando, depois que passes,/jamais ninguém te esqueça”. Este foi o primeiro, que roubo de Cecília. Pois as palavras já me faltam. Não sei como definir a dor que me aflige. Ela lateja ainda mais que o ferimento em minha mão. A dor determina, o amor pede e o desejo quer.
Segue o Segundo Motivo da Rosa: “Sem terra, nem estrelas, brilhas, presa /a meu sonho, insensível à beleza /que és e não sabes, porque não me escutas…” Lírios não são rosas. As rosas calam. Mas a simplicidade dos lírios grita. Tive de emudecê-los.
Mais um motivo que me impinge dizê-lo: “Se Omar te visse/esta manhã, /talvez sorvesse com meiguice /teu cheiro de mel e maçã. /Talvez em suas mãos morenas /te tomasse, e dissesse apenas: /“É curta a vida, minha irmã””. O relógio destruído sobre o piso continuava a contar um tempo etéreo. Pois lhe tomei os ponteiros que me determinavam maldosamente a vida. Agora, obrigo-o a mentir.
Também é meu o quarto motivo, que vem de Cecília e não de mim: “Não te aflijas com a pétala que voa: /também é ser, deixar de ser assim”. Desfolhada, estou a esperar, presa, neste imenso jardim. Quem vai enfim podar o roseiral? O fim é um término em si? Um ponto, uma vírgula? O que será que espera por mim?
Mas ainda falta o quinto motivo que conclui o poema de Meireles. Ela escreve o que sinto melhor do que eu. Pois, para lhes dizer a verdade, eu minto. “Não sou eu, mas sim o perfume /que em ti me conserva e resume /o resto, que as horas consomem”. Segue tempo, na sua terrível condição, fazendo perecer tudo o que sente o coração.
São estes os meus cinco motivos, que tomei de Cecília, que dizem o que sou mais do que eu sei de mim. Os versos são brancos, mas, sobre mim, cobrem-se de nódoas. Quem consegue ser puro assim? Meu relógio bate tiquetaqueando a dor que existe em si. Contando-me o tempo sem ponteiros. Sem saber quando será realmente o término de meus dias. A parca destroçada agoniza num tique e taque seco e resoluto.
Minha mão para de sangrar. Desfaço-me do lenço. Fico olhando para o ferimento. Uma ferida visível. Diferente das outras que possuo. Só posso ver a mágoa em minha alma quando se traduz em lágrimas. Mas aquela estava ali. Para me dizer: sofra. Eu respondo, tão somente, sim. Coloquei o dedo na ferida. Ai. Suspiro. Foi melhor assim. Nunca saberia falar as ilusões que despejei aqui. Mas lhes previno. Nem tudo aqui é verdadeiro. É ouro de tolo. Apesar de reluzir, não tem valor. Se quiserem, podem tomar para si. Não me fará falta. É só uma pétala que caiu de minha corola. Um fio de cabelo branco que me condena: “não sou tão velha assim”!
Eu destrocei os lírios com as mãos. Feri-os com meus espinhos. Pois eram belos. Muito belos. Uma beleza contundente, que me dizia o quanto eu era cruel. Depois desferi meu ódio sobre a moira na sala. Para apagar o tempo, para torna-lo invisível e indefinido. “Só eu posso dizer os anos que vivi”. Tomei-lhe os ponteiros com que me fiava a vida, pois ela é minha e dela faço o que quiser. Mas, valente, ele permaneceu no seu caminhar inexorável. Escondi a verdade, contudo ela permanecia ali. Dizendo ora que sim, ora que não, pulsando-me revolta no peito. A isto, costumam dizer, chama-se coração.

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“He’s a real nowhere man
Sitting in his nowhere land
Making all his nowhere plans
for nobody

Doesn’t have a point of view
Knows not where he’s going to
Isn’t he a bit like you and me?”
The Nowhere man – The Beatles

O homem de lugar nenhum

Giordana Bonifácio

Eu sou o homem de lugar nenhum. Vivo entre sites de relacionamento, ora detonando, ora ovacionando políticos que pouco se interessam pelo povo. Sou o homem que o tempo excretou. Sou a consequência da ausência de boa educação e costumes. O homem que foi digerido pela mídia e defecado na internet. Sou o homem que não tem nacionalidade, estou ora aqui, ora ali. Nem cá, nem lá. Sou massa de manobra. Sou o dejeto fétido da nossa nação. Sou o homem destruído. O projeto rejeitado da nossa criação. Sou o homem retratado em inúmeras selfies demonstrando uma falsa alegria que nunca tive. Não sou real. Sou um fake. Você não me conhece, mas compartilha as frases pseudoliterárias que crio e confiro a autoria a escritores famosos. Sou o homem abjeto que defende a submissão feminina e a discrepância entre os sexos. Sou o homem que esconde o seu preconceito sob uma máscara amistosa e na rede mundial de computadores espalha posts racistas e misóginos sem qualquer culpa. Sou o homem que arrota caviar e come sardinha. Sou aquele que permanece a madrugada na internet procrastinando trabalhos que deveriam ter sido concluídos há semanas. Sou o homem que comete a mais cruel das violências: a calúnia. Sou o homem que espalha falsas notícias de morte de alguém famoso, para divertir-me com os comentários de condolências daqueles a quem engano. Sou o ridículo. Sou o patético. Sou o insignificante que quer ser visto ao menos uma vez. Sou o idiota que faz piada com a dor alheia. Sou o monstro que libera os seus desejos sexuais em trens e ônibus, esfregando-se nas mulheres, pois sei que isto não vai dar em nada. “No máximo, serei repreendido numa delegacia. Na qual a mulher chorosa vai se dizer deveras humilhada. Paciência”. Sou o homem que defende a morte de negros, homossexuais e nordestinos, pois me creio pertencer a uma raça ariana pura que nunca existiu no Brasil. Sou o homem que vai a estádios não para assistir a jogos de futebol, mas para confrontar violentamente a torcida adversária. Vou tomar minha bandeira cujo mastro é uma arma e vou agredir um inocente até a morte porque cometeu o crime imperdoável de não escolher o mesmo time que eu.
Sou o homem que mistura papelão à carne para conseguir angariar mais lucro com a minha empresa frigorífica. Sou quem se diz Cristão e não age segundo os ditames da sua religião. Na verdade, acredito que, se rezar com fé, eu posso descumprir as lições de solidariedade e compaixão que Jesus pregava. Sei que não basta ajoelhar-me na frente dos outros, mas enquanto o juízo final não vem, vou vivendo segundo meus próprios conceitos. Ainda que os saiba errados. Sou o homem que ludibria, sou o homem que rouba, sou o homem que mata. Sou o homem que lincha o criminoso, ainda isto me faça tão criminoso quanto ele. Sou o homem-porco. Na verdade, não dá para distinguir quem é porco e quem é homem. Vivo num requintado chiqueiro protegido por câmeras e seguranças. Ninguém pode adentrar na pocilga em que vivo com a minha família. Sou o homem que destrata a empregada doméstica que me serve. Sou aquele que fura o sinal vermelho para não perder tempo e por isso atropelo uma criança. Por medo da represália, fujo sem prestar socorro. Abandonando, assim, minha vítima agonizante no chão. Sou o homem que assiste as notícias acreditando estar longe de tudo, sequer me comovendo com o sofrimento dos miseráveis. Tranco-me na minha cobertura à beira-mar enquanto os pobres vivem em barracos sob pontes ou em favelas. Sou o homem que se diverte em shoppings, centros da sociedade capitalista de consumo, enquanto prego o socialismo. Ainda que tenha um iPhone de última geração e ande com roupas de grife, prego uma igualdade falsa, em que os únicos privilegiados são os membros do meu partido. Sou o homem que quer desmantelar o tráfico de drogas, mas não dispensa uma cheirada em festas e eventos. Sou o homem que prefere não ver a verdade e fico repetindo mil vezes uma mentira até que eu passe acreditar cegamente nela.
Sou o homem que não se solidariza com a mulher raquítica que, com uma criança no colo, pede esmolas nos cruzamentos. Aquele que prega a beleza do corpo, discriminando quem não se enquadra no padrão estético determinado pela sociedade. Sou o homem que faz bullying com aqueles que não têm como se defender e em tom jocoso digo: “era só brincadeira”. Ainda que saiba que tal “brincadeira” vai marcar a minha vítima para sempre. Sou o homem que bate na esposa para provar sua masculinidade, pois caso não o faça, seria chamado de broxa ou “mandado-pela-mulher” por outros homens tão minúsculos quanto eu. Sou o homem que estupra, sem se preocupar com a dignidade feminina, pois penso serem “coisas” de uso dos machos. Sou o homem que degrada a natureza, joga lixo nas ruas, faz queimadas e despeja esgoto nos rios, tudo isto sem me preocupar com impacto ambiental de minhas ações. Sou aquele rico dono de mineradora que não cuidou das barragens de dejetos até que uma se rompeu, destruiu cidades e poluiu sem retorno um rio inteiro. Sou o homem que venera bandidos tomando-lhes autógrafos e fotos, devido a sua notoriedade pública. Sou o homem retrógado que impede a evolução da sociedade por pavor de perder o meu emprego. Sou o homem que prefere não se atualizar ou estudar para impulsionar a minha carreira. Sou o homem que se contenta com migalhas de bolsas distribuídas pelos governantes, pois assim não necessito trabalhar para saciar a minha fome e dos meus filhos. Sou o homem que comete crimes, mas, pela minha condição econômica, creio-me acima da lei. Para mim, quando desvendado meu esquema de fraudes e corrupção, o juiz que preside o meu processo, não passa de um “juizeco” muito aquém da minha importância. Sou o homem que causa enormes engarrafamentos, pois passo em baixa velocidade assim que vejo um acidente, não para ajudar, mas, ver as consequências do atropelamento de pedestres e motos e da colisão de veículos.
Sou o homem que consome bebidas alcoolicas em festas e shows e ainda assim conduz o seu carro, embora saiba que desta forma possa matar. Assumo o risco de vitimar inocentes, porque não quero deixar meu conforto de lado, mesmo que seja possível não voltar para casa nunca mais. Sou o homem que destrói veículos alheios em protestos. Não sei se desfrutam da minha ideologia, mas atear fogo em algo faz a nossa causa bem mais visível. Sou aquele que depreda patrimônio público por diversão. Picho muros e placas, num visível sinal de desrespeito. Sou um vândalo que, ao invés de fazer arte como os grafiteiros, quero deixar suja e feia a própria cidade em que vivo. Sou o médico que não vai aos plantões nos hospitais públicos e bato o ponto ainda que não tenha trabalhado. Sou o homem que frauda a previdência e toma para si a aposentadoria de pessoas que trabalharam a vida toda e no final da vida, se veem sem nada. Sou o aluno que vai para escola somente para se divertir, deixando de lado o estudo, desconsiderando o esforço do professor para ensinar o seu arcabouço cultural. Sou o marido que trai sua mulher sem a menor culpa, apesar de isto poder desestruturar a sua família. Sou o pai que não paga a pensão alimentícia do filho, mesmo que saiba a dependência daquele dinheiro para seus estudos e subsistência. Sou o jovem que perturba a paz familiar, sendo violento com seus pais ou avós. Sou o literato que não vê a realidade a sua volta e se isola na sua arte. Sou o passageiro que senta nos assentos preferenciais e sequer se levanta quando um deficiente ou mulher grávida adentra no transporte público. Sou um homem podre. Sou um ser ignóbil. Mas não sou um homem qualquer, eu sou aquele que se vê todo dia no espelho e repete-se angustiadamente que naquela manhã tudo seria diferente. Muito embora, nada tenha feito para mudar a si. Repetindo comportamentos como um rato de laboratório condicionado a agir sempre da mesma maneira, a procura de reforços positivos das suas ações nos likes inverídicos que recebe no facebook. “He’s as blind as he can be/Just sees what he wants to see”. Muito prazer, eu sou você.

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luto

“Só as pessoas que amamos morrem.
Só a sua morte é absoluta separação.”
José Luís Nunes Martins

O luto

Giordana Bonifácio

Um dia. Dois dias. Três dias. Quatro, cinco, seis, uma semana, um mês, um ano. Dois anos. Três. Quatro. Quanto tempo isto iria durar? Às vezes achava que o mundo doía em mim. Queria ter fé. Esperança. Mas tudo estava coberto de cinzas. Tudo. Mas meus olhos nem choravam mais. Não. A dor ficara seca. Permanente. Como um espinho encravado na alma. Ai, quantos momentos ficaram no passado. Uma vida inteira. Vivia para me recordar disso. O meu sol nascia no Norte, não mais no Este. Nas terras mais gélidas do Alasca. Lá estava meu coração, congelado no meio de um iceberg. Meu pranto curvou-se à força do tempo. A semente secou antes de nascer o broto. O futuro não é mais uma promessa, mas uma pena a mim imposta. Dedilham o piano, os meus dedos, tentando fazer música para acalmar este sofrer. Só acalmar. Não sabia como findá-lo. Acredite, eu tentei. Quis mentir para mim. Dizer que poderia recomeçar. Mas não, perdera tudo num lance de dados. É que a morte joga com os homens. Ela beija seus dados viciados e condena a todos nós. Eu… Meu Deus, se tudo tivesse sido diferente… Eu deveria ter dito tanto. Mas me calei em meu orgulho. E ele se foi. Sim, para sempre. Todo o sempre. E eu tive medo de dizer o quanto importava para mim. Foi numa noite fria, era outono. Disse-lhe para vestir um casaco. Ele retornou para se cobrir como havia pedido. Pensei que um simples blusão poderia protegê-lo. Mas, na verdade, nossas precauções são inúteis. Quando deve findar a nossa vida, as Parcas sequer hesitam em cortar o fio que nos prende aqui. E ele partiu. Dividindo meu coração em dois. Meu marido, ex-marido, fez de tudo para me consolar. Mas não era possível. Todos os dias, passava horas olhando as fotos de um passado feliz. Não queria me esquecer do sorriso dele. Não poderia. Mas o cheiro dele, que respirava sempre que ele me abraçava, fugira-me. Torturei-me desde que perdi esta memória. Mas é inevitável, nosso cérebro sucumbe ao tempo. Mas não definitivamente, não quando queremos.
Naquele dia, havíamos brigado. Tinha lhe dito para não sair àquela noite. Era tarde e no dia seguinte ele tinha de ir para o cursinho. Não queria ser engenheiro? Tinha de estudar. Mas discutimos. Ele se foi. Quando pedi, contrariada, que levasse um casaco, cria ser uma espécie de armadura mágica que lhe fosse proteger de tudo. Não era. Ele não teve culpa no acidente. Três carros faziam um “racha” na L4 Sul. Ele estava indo para uma festa, mas seu carro foi atingido, ficou totalmente destruído. Não tive coragem de ver seu corpo. Fui covarde. E nunca mais esta ferida cicatrizou em mim. Pensei ter minha vida acabado ali. A partir de então, eu somente vegetava. Todos os dias eram iguais. Meu marido não suportou. E me disse adeus também. Pois ele tinha de continuar. “Você está enraizada nessas memórias dolorosas”. Ele me disse. Não entendia como podia doer menos nele e mais em mim. Ele prosseguiu. Não pude, não poderia. “Depressão”. “Tome estes remédios”. “Tente entrar em uma terapia de grupo”. Foi o que me disse o psiquiatra. Além de um monte de baboseiras em que não prestei atenção. “O quê?” “Olha, tente fazer coisas que lhe deem prazer. Não foi a senhora que morreu. Saia, divirta-se.” Todos queriam que me refizesse. Diziam-me para deixar o luto. “Já faz tanto tempo!” Mas para mim, ele morria todos os dias em meu coração. Sou uma tola, eu sei. Mas ele cresceu em mim. Ele nasceu de mim, era uma parte minha que perdera para sempre. Nunca mais vou ouvir sua voz, nem sentir seu abraço. Recordo os dentinhos perdidos, as noites em claro que passei ao seu lado devido uma gripe forte ou em razão da catapora. Ele gabava-se de nunca ter tido caxumba. “Deveria ser estudado, devo ter a cura desta doença no meu sangue!” Ele dizia umas bobagens tão engraçadas! O que fazer quando se perde tudo de uma vez? Deveríamos sorrir? Comemorar? Não conseguia, não podia fazê-lo. Apesar dos apelos de todos, não podia apagar esta dor de mim. Ela que me dava forças para ainda acordar. Para respirar nessa vida tão injusta.
O que me machucou mais foi o fato dos condutores dos carros envolvidos no racha, terem restado um tempo quase irrisório na prisão. No julgamento, olhavam-me com um olhar de culpa, para comover aos jurados somente. A mim, aquilo nada causou além de ódio. Quando a sentença foi proferida, tive muita raiva do nosso sistema penal, das injustiças que passam impunes e de todas as mortes que ninguém vinga. “O sistema penal visa à reabilitação, a reinserção do apenado na sociedade.” Disse o advogado de defesa, num discurso pomposo, para ludibriar aos jurados e à população. Eu queria expressar minha indignação. Gritar por justiça. Mas me contiveram. Fui retirada do tribunal. Expulsa. Como se a culpada do crime fosse eu e não os monstros sentados frente o juiz encenando rostos piedosos, de uma falsa culpa, por terem tirado a vida de um inocente. Os assassinos, os irresponsáveis, comemoraram a sentença. Não pagariam na mesma letra por seu crime. Usaram o carro como arma, fizeram sua vítima e ficariam um ano ou menos cumprindo pena. Os mortos já estão mortos, os vivos que sambem sobre sua memória. E todos seguiram em frente, culpados ou inocentes, ninguém mais queria lembrar. Menos eu. Não podia esquecer. Queria lembrar das expressões que ele fazia, do jeito esquisito de sorrir, dos olhos castanhos… Ele sorria com o olhar. Mas tudo isto vai se perdendo, aos poucos a fotografia da lembrança vai desbotando e se apagando até que nada mais restará além da minha dor. A “pílula da felicidade” que me receitava o médico iria sobrepujar tudo isto? Será que este placebo curaria toda a saudade que tenho em mim? Bebia num gole os remédios, mais para satisfazer minha irmã que imaginava estar cuidando da caçulinha doente. Ela mudou-se aqui para casa para restar comigo. “Tolice”, eu disse. Mas ela o fez. Não me causou qualquer diferença. Fechei-me para a vida. Fechei-me para as pessoas, no intuito enlouquecido de aguardar a morte.
Hoje, quando fortemente tomada da intenção de dar cabo a minha vida, algo fez nascer uma plantinha vicejante em mim. Num último adeus, fui caminhando pela casa até adentrar no quarto que era dele. Folheei seus cadernos e recordei a sua letra horrenda. “Comprei-lhe tantos cadernos de caligrafia, tudo em vão…” Dentro de um dos cadernos, com a cor amarelada pelo tempo, caiu uma carta escrita por ele sem destinatário. Talvez ele tenha escrito para mim sem o saber, como se quisesse preparar-me para o futuro. Sei que, revelando-me agora aquele pedaço de papel, seu espírito tinha o firme propósito salvar-me a vida. Talvez fosse um milagre, não sei, minha fé desgastara-se muito pela dor. Estava assim escrito com sua letra terrível cujo entendimento era difícil para quem não o conhecesse, mas eu sabia e compreendia tudo que estava ali em verdadeiros hieróglifos.
“O Amor faz com que a nossa vida continue a ter sentido. A partida dos que foram antes de nós ensina-nos a viver melhor, de forma mais séria, mais profunda, de uma forma, inequivocamente, mais autêntica.
Devemos cuidar de todos os que amamos. Aos que partiram, porém, aquilo que lhes podemos dar é o amor àqueles que ficaram cá. Porque estes continuam a precisar de nós, do melhor de nós… e é sempre uma iniquidade quando um amor por quem partiu mata, em alguém, o amor por aqueles que ainda cá estão.
A morte ensina-nos que o Amor é perdoar mais do que vingar; consolar mais do que ser consolado; partilhar mais do que acumular; compreender mais do que julgar; dar, darmo-nos, oferecer o melhor de nós, mais do que termos o que sonhamos.” José Luís Nunes Martins
Estranhamente, senti que ele estava comigo. Chorei mais uma vez, como nunca mais havia conseguido e depois sorri, gargalhei mesmo. Feliz sem saber a razão. Minha irmã assustou-se e pensou que eu tinha perdido de vez o juízo. Mas eu a abracei e agradeci por ter me amado quando ninguém o conseguiria. E ela me abraçou e choramos juntas por minutos até que tive fome e chamei-a para tomar um sorvete na sorveteria que íamos quando crianças. Ela perguntou-me o que fez nascer em mim aquela mudança tão drástica e súbita, eu lhe respondi que, depois de tanto tempo eu reencontrara o filho que havia perdido e ele estava ali, bem ao meu lado e nem nos piores momentos abandonara-me. Mostrei-lhe a carta e entre lágrimas ela agradeceu por ter de volta a irmã que, por tantos anos, havia, na tristeza, se escondido.

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“Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações”
Chico Buarque de Holanda – Vai passar

O Brasil que não se vê na tevê

Giordana Bonifácio

“Salve o lindo pendão da esperança”, que esvoaça aos farrapos no alto de uma velha antena sem uso, sobre um barraco em que os moradores já utilizam a tevê digital. A imagem não tem chuvisco. Não é ótimo, isto? Podemos ser enganados com uma imagem totalmente perfeita. A senhora, dona do barraco, cata latinhas por todo o dia, assim mantém a família. À noite, nada melhor que assistir à televisão. Na novela das nove, uma rica senhora reclama do preço do caviar. A catadora de latinha não sabia o que era isto. A filha pesquisou na internet: “ovas de peixe.” Que nojo! Gritaram em uníssono. A família jamais comeria caviar, mas até a mortadela era algo raro em sua mesa.
Mas a culpa é do cidadão que não pesquisa os preços. A inflação é toda causada pelo consumismo do povo. O governo não tem nada a ver com isto, na verdade, até se esforça para conter a alta dos preços: aumenta os juros. Não para alimentar a gana dos banqueiros, mas para conter o avanço da inflação. Acreditem, é a mais límpida e clara verdade. Os investidores têm de ter onde colocar seu dinheiro escuso. Que seja aqui onde a ilicitude é vista como natural e até normal pela população: “ele rouba, mas faz”.
Mas o povo não deixa de ser desleixado, o consumo de água subiu assustadoramente. Não por culpa das invasões legalizadas pelo governo, nem pelo crescimento demográfico comum às cidades, mas pela sociedade que não sabe como utilizar a água. Gente ignorante é fogo! Não se pode responsabilizar o governo por não ter erigido novos reservatórios. Não, ele até tentou, mas a obra foi parada por desvio de dinheiro e material superfaturado. Pena, a população que arque com as consequências. As pessoas no Brasil não estão acostumadas com a escassez. Devem aprender que a água é o novo petróleo. Aliás, os preços estão até equiparados.
Fez-se a Copa do Mundo nesse nosso grande país de terceiro mundo. Também as Olimpíadas. Prometeu-se despoluir, preservar e reflorestar. O resultado: nadadores disputavam medalhas entre as fezes que boiavam na Baía de Guanabara. O dourado da vitória perdeu o brilho. Literalmente: as medalhas estão descascando e vários atletas pediram para que se fizesse um recall de sua premiação. Vergonhoso? Não, mais ridículos foram os elefantes brancos construídos, estádios enormes e superfaturados que hoje estão a devorar, com a sua preservação, o dinheiro dos impostos do povo.
“Bela bandeira de estrelas rutilantes”. Seria lindo escrever isto em uma poesia, a qual a maioria da população do Brasil jamais leria. Neste país, as pessoas não leem sequer cinco livros por ano. Mas não vamos ser rudes, não se pode dizer que não se gosta de ler no Brasil. Na verdade, as pessoas jamais devem ter tido a oportunidade de relacionar-se com a leitura. As escolas públicas estão em situação deplorável, os professores, recebem salários baixos e nem sequer têm assegurada a sua previdência. E, neste exato momento, o dinheiro público é desviado para paraísos fiscais, pelos políticos que roubam, mas fazem. Os mesmos que prometeram erradicar a pobreza do país, mas só preservaram seus ricos interesses. Oremos.
“Nessa terra, plantando-se, tudo dá”. Sim, monoculturas, que prejudicam o meio ambiente, proliferam-se pelo território brasileiro. Bem como, o uso abusivo de inseticidas, pesticidas e outros venenos que vão parar diretamente na nossa mesa. O resultado: doenças relacionadas a ingestão de tais produtos disseminam-se. E mesmo que saibamos estar comprando veneno, o que podemos fazer? Não se pode deixar de comer.
Nos hospitais superlotados, falta tudo, até mesmo uma simples gaze. Pessoas são esquecidas em cima de macas, ou no chão, esperando um tratamento médico que tarda e muitas vezes, não vem. Quebrou a perna? Aguarde pacientemente a cirurgia. E esta espera poderá durar semanas, na hipótese mais otimista, na realista, meses. Onde estão os nossos impostos? No carro esportivo de luxo do senador. Na última viagem à Europa do Deputado. Mas, muito, muito longe dos hospitais brasileiros.
O transporte público, além de caro é raro. O ônibus, na possibilidade de passar no ponto na hora certa, está invariavelmente lotado. As pessoas apertam-se feito sardinhas. Ninguém quer perder a condução. Pois, além de ser mais uma longa hora de espera, corre-se o risco de não assistir à novela das nove. E isso é inconcebível. Aquele ator lindo com quem as meninas sonham, está no elenco. Dizem que abusou de uma contra-regra, mas quem se importa? O povo brasileiro logo se esquecerá. A memória das massas é irrisória. Logo, logo, o corrupto é absolvido, o assassino perdoado e o lobo pode retornar a cobrir-se com a sua pele de cordeiro.
Muitos temem fantasmas, como se a possibilidade de um ser não vivo fazer-nos mal fosse real. Mas eu temo outro tipo de espectro: os funcionários fantasmas. Estes são bem reais. E causam um mal muito pior que poderia nos causar os seres que não habitam mais este plano, ou habitam, vai saber. Os funcionários fantasmas ganham sem trabalhar. Não servem aos que deveriam servir. Chamam-se servidores, mas não servem a ninguém. São, na realidade, usurpadores. Sugam nosso dinheiro e nada dão em troca. Um dia aparecem, mas só batem o ponto e se vão. Não se sabe mais deles. Dizem que existem, mas, não creio. Não sou daquelas que acreditam em assombração.
”Ciclistas morrem nas pistas”. “Não há ciclovias suficientes”. “Motorista embriagado atropela ciclista”. As notícias repetem-se continuamente. Contudo, nada se faz a respeito. De fato, o que falta é respeito. No trânsito, as pessoas insistem em dirigir alcoolizadas. Os governantes não constroem ciclovias, as bicicletas disputam um lugar em uma luta desigual. Não há como vencê-la, pois só Davi poderia vencer Golias. Fora do texto bíblico, automóveis e caminhões derrotam a bike que resta retorcida no asfalto enquanto mais uma vida é perdida na batalha cruel das ruas. O motorista foge sem prestar socorro. E as manchetes dos jornais retratam a triste realidade do nosso tráfego enlouquecido.
Coisa chata esta de dizer a verdade. É mais fácil criar uma história e fazer sonhar. Mas o meu intuito, é o inverso: quero acordar. Abrir os olhos desse gigante adormecido que nem sabe a força que tem. Poderia evitar tudo isto, se ouvisse estes apelos ensandecidos. Mas crê que tudo é normal. Morrer na fila do hospital público? Banal. Ter dinheiro para conversor digital, mas não para medicamento? Aceitável. O ensino público sofrível? Absolutamente corriqueiro. Bilhões investidos na Copa do Mundo e Olimpíada com nenhum retorno? Trivial. Fim da contribuição sindical que só teve como consequência o enriquecimento de sindicatos corruptos? Isto não, é inaceitável. É escravidão.
Mas o povo não sabe o que defender, está confuso em meio a uma chuva de notícias falsas e verdadeiras, em que dois lados, absolutamente iguais, disputam o poder. O que os diferem? A cor da camisa que usam. Fora disto, roubam, matam e fazem tudo de mais escuso para permanecer no poder. Enquanto isto a bandeira brasileira continua a tremular. Não pelo vento, mas de pavor de tudo que vem acontecendo. Contudo, diante desta enorme convulsão social continua a “dormir a nossa pátria mãe tão distraída sem saber que é subtraída em tenebrosas transações”. Mas o que importa é a televisão digital, cujas emissoras informam o que quer da maneira que lhes é mais favorável, mas invejem os demais países: em alta resolução!

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“Deus existe mesmo quando não há.
Mas o demônio não precisa existir para haver.”
(Guimarães Rosa- Grande Sertão: Veredas)

O jogo entre Deus e o diabo

Giordana Bonifácio

Deus e o diabo, numa peleja eterna, jogam com os homens. Fizeram assim com o pobre do Jó. Comigo fazem decerto da mesma maneira. Chega Deus e diz: “esta é uma mulher íntegra e reta, temente a Deus e que se desvia do mal”. Mas o cramulhão duvida da minha hombridade e responde ao Todo poderoso: “sei não, essa aí fraqueja com uma dorzinha de dente”. Então o Pai, que põe a mão no fogo por seus filhos, retruca: “quer apostar? Lá vai uma cólica vesicular”. Vejo estrelas e, no começo do jogo, já começo a encomendar a minha alma. Sequer suspeitava do que estava por vir. Porém, não me fez maldizer minha vida esta convalescência. Mas seria somente o início da disputa, algo meio Hunger Games. Acho que até cheguei a ver uma mulher de cabelo rosa gritar ao microfone: “que os Jogos Vorazes comecem e que a sorte esteja sempre a seu favor”.
Pois é. Outro dia, caí no banheiro e o vidro do box talhou-me o braço com um corte que levou mais de 10 pontos. Ok, ok, sobrevivi. Só perdi sangue pra caramba. Mas foi apenas o susto. “Deus estava comigo”. Disse, na oportunidade, deixando o capiroto louco de raiva. Então, fui vítima de assaltos que levaram de mim tudo o que a muito custo conquistara. “Pô, Senhor, caraca,” eu pensei, “por que eu?” Mas não dizem que Ele escreve certo por linhas tortas? Aceitei a dor. Prossegui. Contudo, o capeta não se dá por vencido. Com a minha idade já avançando resolveu: “será que ela se daria bem com um hipotireoidismo?” Deus, todo confiante, “claro que sim. Toma-lhe!” Está certo, estou aqui. Não desisti ainda. Vou continuar. O pulso ainda pulsa. Comecei a correr para ajudar na perda de peso e no controle no problema da tireoide. Mas não é que os Dois estavam achando o jogo divertido? Lesionei os dois pés o que me impediu de continuar exercitando-me. Mas o pulso ainda pulsa. Fisioterapia existe para quê? Então, o filhote de cruz-credo tomou consciência de que não me atingiria deste modo, pois a saúde frágil sempre me foi uma constante e a matéria é substituível. Então, começou a atormentar-me com o meu calcanhar de Aquiles. Minhas crônicas e contos foram criticados e menosprezados por inúmeras editoras. Algumas aniquilaram minhas pretensões artísticas. Mais uma vez, recolhi os cacos do meu orgulho, respirei fundo e disse: “tudo bem, um dia, o moundo compreenderá o valor da minha arte.”.
Sabe quando a gente joga ludo e o peão inimigo “come” sua peça e você é obrigado a regressar ao início? Chato, né? É como me sinto, às vezes. Como dizem: “eu devo ter sido um balde na última encarnação tantas foram as vezes que cheguei ao fundo do poço e retornei”. Mas, tal qual um carrinho importado da china, eu bato e volto. Ninguém sabe toda a dor que senti. Todavia, nas palavras da grande “pensadora contemporânea” Shakira: “Estoy aqui”. Levanto-me destruída e enfrento o meu algoz: “já acabou, Jéssica?”. Mas o belzebu ainda tem cartas na manga. Deus joga limpo, mas o diabo é o pior adversário que pode haver: não consegue disputar honestamente. Claro, não é do seu feitio. Fausto está aí para provar o que digo. A gente nunca ganha num contrato assinado com o capeta. Sempre somos desvalidos de mais do que queríamos receber nesse acordo que será sempre malfadado. Por isso, prefiro estar ao lado dos mocinhos. Mas confesso: não é fácil.
Quando o bem e o mal estão numa contenda por sua alma, aí é que a coisa degringola de vez. A gente anda numa corda bamba, cabe a nós escolhermos para qual lado vamos pender. Apesar de toda a prova a que fui submetida, nada disso fez-me jogar a toalha. É verdade que, teve momentos que pensei mesmo em desistir de tudo, mas minha teimosia levou-me a continuar. A roda da fortuna tem seus altos e baixos. Caí, levantei, bati a poeira e segui. “Keep walking”. Mas se você é abstêmio como eu, prefira o lema da Dory em Procurando Nemo: “Continue a nadar, continue a nadar”! “Pois o certo é que Deus não rejeita o íntegro e não fortalece as mãos dos que fazem o mal.” Diria Jó, quando desafiaram sua fé.
Na verdade, eu tenho muito medo de falhar. Ainda que tenha vencido as últimas batalhas, não sou um bom soldado. A carne é fraca e meu espírito ainda não está preparado. Tenho medo dos leões na minha cova. Os desafios estão cada vez mais difíceis. Preciso guiar-me pela luz, ainda que seja tão só uma chama bruxuleante em meio às trevas. Nessa contenda entre o Yin e o Yang, só eu sairei prejudicada.
Mas, como disse, o anjo caído ainda reservava algo para mim: a velhice dos meus avós. É triste ver entes tão queridos sofrerem tanto em seus últimos anos de vida. O tempo não corre mansinho, mas aos tropeços. E a gente o sente chegar desajeitado, derrubando tudo, instalando-se em nossos músculos, ossos e tendões. Tudo em nós resta frágil e quebradiço. O corpo é o templo do senhor, muito embora, ao final, tenha o mesmo destino do templo de Salomão, nada dele restará. “Do pó viestes ao pó retornarás”. A vida vira história.
Dói em mim a senescência dos meus avós. Saber que a morte está mais próxima a cada minuto que se passa… Uma bomba relógio prestes a explodir. Mas, nesse caso, nem mesmo cortar o fio azul desativa o explosivo. A inexorabilidade do tempo é real. Esta foi a revelação mais assustadora que me atingiu. Sim, atingiu-me, tal qual uma bala de fuzil, abrindo-me um rombo no peito. Fiquei triste, pelo sofrimento de meus ascendentes. Mesmo assim, creio que deve haver alguma razão divina para a morte. Ainda que não consiga compreender qual seja. Não tenho o espírito tão elevado como julgam alguns.
“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa existir para haver.” Cito o mais sertanejo de nossos escritores: Guimarães Rosa. Nessa guerra de haveres quem sai vitorioso? Tenho medo. Essa é minha maior fraqueza. O medo afasta-nos do caminho certo. Pois se tememos é porque não confiamos e, ao contrário, devemos entregar-nos completamente ao bem maior. Mas somos homens de pouca fé, sempre duvidamos. E somos, assim, surpreendidos pela verdade. Temos de cuidar de nossos arados, pois, nas sábias palavras do autor de Grande Sertão: Veredas, “a colheita é comum, mas o capinar é sozinho.” Tendo em vista que, quando o momento derradeiro chegar, “bem-aventurados serão aqueles servos a quem o senhor, quando vier, os encontrará vigilantes… Quer ele venha na segunda vigília, quer na terceira, bem-aventurados serão eles, se assim os achar.” Lc. 12. 37, 38.
A nossa vida está em disputa num imenso jogo de xadrez entre Deus e o Diabo, ganhará quem possuir a melhor estratégia. Mas penso que Deus deixa o mal tomar a dianteira, para depois dar o golpe de misericórdia. Xeque-mate: esta alma está salva. Como jogadores de baseball que correm em disparada para vencer o deslocamento da bola e chegarem à base antes daquela. Para, no fim, ouvir com um grande alívio: está salvo! “O diabo está na rua no meio do redemoinho”, segundo o grande Guimarães. O capiroto está em meio ao nosso turbilhão de emoções e da bagunça que é a nossa vida. Não sei quem vai ganhar a disputa por meu espírito, mas espero que o bem vença. Não é à toa que torcia sempre para o He-man ganhar do Esqueleto e para o Munrá voltar a ser múmia depois de ser derrotado pelos Thundercats. Temos todos boa índole. Cabe só sabermos cultivar a vinha. Ninguém quer virar churrasquinho no inferno, não é? Mesmo que não creia que há realmente um. Mas vai saber…

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“A morte é uma de duas coisas… Ou é aniquilação,
e os mortos não têm consciência de qualquer coisa;
ou, como nos é dito, é realmente uma mudança:
uma migração da alma de um lugar para outro.”
Sócrates

A experiência

Giordana Bonifácio

Estou escrevendo este e-mail no auge do meu desespero. A morte é certa e tenho que dividir minha dor com os outros de minha espécie. Descobri que o universo não está resumido a nossa minúscula sabedoria de vida. Mas quando compreendi isto, já foi muito, muito tarde. O conhecimento que possuímos é mínimo. Somos seres rudes, comparados ao que existe além do que nossos olhos podem ver. Os homens olham as estrelas e sequer imaginam o que há além do vazio, o que ainda está além do nosso alcance. Penso que os primeiros navegadores sofreram dos mesmos temores que nos cercam, hoje: monstros terríveis, queda no fim da abóbada terrestre, morte e tragédia. Incrível como somos assaltados pelos mesmos medos, ou, talvez, deles nunca nos desfizemos. Minha imaginação é muito restrita para descrever estes últimos dias no laboratório. Não consigo escolher as melhores palavras para informar ao mundo o que descobrimos. E temo que já seja tarde demais. Talvez, ninguém tenha sobrevivido. Talvez, agora, sejamos apenas uma vaga lembrança na memória dos seres que passaram por aqui. Não sei se podemos designar alienígenas por seres. Eles estão vivos, então devem ser seres. Ou espécimes, ou “a experiência”, como costumávamos denominar a amostra que analisávamos no laboratório. Não nos parecia perigosa, de início. Era um tipo de musgo que reagia a eletricidade. Foi encontrado no casco de uma nave enviada a Marte. Achávamos que se tratava de algum vegetal marciano. Estudamo-lo por anos e nada indicava o que iria acontecer. Eu era o engenheiro químico chefe da “Missão Marte”, um trabalho de pesquisas ultrassecretas dos Estados Unidos. Éramos cientistas de várias áreas do conhecimento e de inúmeros países estudando os resultados da última missão no planeta vermelho. Chamo-me, ou, ao menos, chamava-me, Michael Jones Collins, estava entusiasmado com nossas descobertas a respeito “da experiência”. Os geneticistas diziam nunca terem visto um ser como aquele. Regenerava-se e parecia sobreviver as condições mais adversas de frio e pressão. Estávamos abismados com nossas descobertas. Mas quando pensávamos saber tudo sobre o ser que grudou no casco da nave que aterrissou em solo marciano, ela finalmente apresentou todo o seu risco.
Um dos geneticistas foi recolher com uma seringa um pedaço do corpo daquele musgo de cor avermelhada. Mas, por acidente, picou o próprio dedo e uma gota de sangue caiu sobre “a experiência”. Imediatamente, a esta foi ativada, pois ao que me parece, antes de ser provocada, ela parecia inerte. Esperava pelas vítimas. Não imaginava que um musgo poderia ser um perigosíssimo espécime de predador. O ser grudou-se ao dedo do cientista e alimentava-se da carne com voracidade e sua cor avermelhada fosca foi ganhando um avermelhado vivo e mortal. O cientista tentava retirar de si aquele musgo que crescia à medida que o consumia, mas, em pouco tempo, este já cobria todo o braço do nosso colega. Uma cobertura vegetal formou-se sobre George e logo descobrimos ser, este estranho espécime, um monstro terrível e letal. O ser alimentava-se vorazmente de nosso colega, mas não sabíamos o que fazer, o monstro regenerava-se sempre que lhe cortávamos uma parte. Então, não tivemos escolha: arrancamos o braço do cientista. E conseguimos recolher o monstro a um ambiente fechado de onde não poderia disseminar-se para atacar outras pessoas. Fizemos todos os procedimentos de saúde no nosso colega. Porém, descobrimos, que todo o tempo que ficamos a estudar “a experiência” não foi o suficiente para a conhecer verdadeiramente. Ela distribuía esporos no corpo do ser atacado e devorava o hospedeiro até não sobrar nada dele. Nem sequer os ossos. Após termos feito os procedimentos de desinfecção normal exigido num momento como o que passamos, encaminhamos George, a primeira vítima, ao quarto dele para que descansasse. No dia seguinte, o homem não mais existia. Tinha virado parte daquele musgo que se alastrou pelas dependências da estação pelos dutos de ar. Não acreditávamos que aquele ser poderia pensar e atacar a presa com tamanha astúcia e dissimulação. Muitos dos nossos cientistas despertaram com o musgo sobre si. Sugando-lhe o sangue, comendo seus órgãos, desintegrando-lhes feito um ácido e o mostro tornava-se assim, maior e mais mortal. Espalhava-se pelo edifício e nada parecia detê-lo. Quando nos demos conta da morte certa, era demasiado tarde. Só fomos nos conscientizar da quantidade de vítimas no início do expediente, quando um número expressivo de empregados não compareceu ao laboratório. Mas, ao procurarmo-los em seus aposentos, nada achamos. Sequer uma mera gota de sangue.
Eu logo percebi que aquilo não era normal. Fui ver o espécime isolado no laboratório e este se espalhava pela parede do cubículo em que estava, tal qual uma praga. Então, procurei George em seu quarto, a ausência dele fez-me imaginar que algo errado acontecia. Reportei-me ao chefe da missão que logo acionou o alarme. Mas não sabíamos contra o que lutávamos e a experiência disseminava-se por todo duto e ar do laboratório. Ela poderia separar-se e ainda assim, comunicar-se entre as suas partes. Um cérebro vivo que devorava a carne humana. A inteligência desse monstro era fenomenal. Escondia-se e planejava um modo de alimentar-se de todos que encontrava. Foi então, que descobri que aquele musgo não conseguia ultrapassar as roupas de isolamento. Travamos uma luta homérica contra o cérebro alienígena. Mas ele, incrivelmente, parecia bem mais esperto que nós. Era como se todo o tempo que pensávamos estar o estudando era ele que nos submetia a uma imensa e pormenorizada pesquisa. Um predador avaliando suas presas. Muitas foram as vítimas desse monstro. Tivemos alguns avanços. Descobrimos que não sobrevivia ao fogo e foi então que planejamos queimar todo o edifício. Mas esquecemos da encanação e o monstro espalhou-se nos arredores do laboratório feito uma praga. Fui um dos pouquíssimos sobreviventes da primeira infestação. Foi com o presente de Prometeu que o atacamos, nas cidades mais próximas, colocávamos fogo sobre tudo, até espalhamos gasolina em chamas pela encanação. Foram tentativas inócuas, o alienígena era uma máquina predadora. Diziam os jornais tratar-se do monstro do juízo final.
Então, fizemos nossa derradeira e mais desesperada tentativa: bombas atômicas, que devastariam grande parte dos Estados Unidos, mas nos deixariam livre do monstro. E, desta forma, salvaríamos a raça humana do extermínio certo. Quem lê agora, se for humano, tenha certeza que fizemos de tudo para salvar o planeta. Agora, creio que o musgo extraterrestre devorou toda a vida de Marte. Após, isto, entrou em hibernação. Até seus instintos serem de novo acionados por uma mísera gota de sangue. Eu escrevi este e-mail pouco antes de as bombas serem lançadas. Quem teve contato com o monstro não foi poupado devido aos esporos. Não se sabe ainda como desinfestar o corpo humano deles. Eu vi e vivi o terror e tenho que dividir minhas experiências com vocês. Sejam mais espertos. A raça humana é extremamente adaptável, não vamos nos deixar destruir por uma porcaria de vegetal alienígena! O fogo os destrói as baixas temperaturas conduzem-no de volta ao estado de hibernação. Ele pensa em conjunto, então, todas as partes devem ser pulverizadas no mesmo momento. De posse destas informações vitais, desejo-lhes sorte. Queria dizer algumas belas palavras para coroar o fim do meu e-mail de despedida, mas só me recordo de uma citação que li na internet a que deferiam a autoria a Sócrates: “A morte é uma de duas coisas… Ou é aniquilação, e os mortos não têm consciência de qualquer coisa; ou, como nos é dito, é realmente uma mudança: uma migração da alma de um lugar para outro.” Espero que minha alma siga para os Campos Elíseos e eu possa perguntar a Sócrates se este meu réquiem é mesmo do famoso filósofo. Adeus Terra. Adeus vida. O engraçado é que, por mais longa que seja nossa existência, sempre achamos que a morte chega num piscar de olhos. E o pior: a gente nunca está preparado para o nosso momento derradeiro. Não fiz tudo o que queria, nem o que deveria. Maldição! No fim, achava que iria viver para sempre. O mais estranho é que nós, seres humanos, estamos sempre errados quanto ao futuro. Afinal, só espero que haja um devir para nós.

Michael Jones Collins, 30 de março de 2034.

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“Nossas cicatrizes servem para nos
lembrar que o passado foi real”.
Hannibal Lecter

Jeremy

Giordana Bonifácio

A noite costumava ser minha amiga. Mas, agora, nem no silêncio da madrugada tenho paz. Minha vida se perdeu entre tantas vidas que perdi. Sim, perdi muitos amores. Lindas mulheres que não me compreenderam o suficiente para restarem comigo. Elas sempre se encantam, de início, com o homem charmoso e bacana, mas quando me conhecem tal qual realmente sou, não me querem mais. Rejeitam-me. Um misantropo disse uma delas, referindo-se a mim. Ela sorriu. Eu não. Perguntei se ela estava me chamando de esquisito. Fiquei com raiva. Ela pediu desculpas pelo comentário. Mas via no olhar dela: ela me achava estranho. Foi a que menos tempo restou comigo, percebeu logo quem eu era. Sou “um lobo da estepe”. Um homem criativo e excepcional. Sim, sou mais do que me consideram. Não um louco. Não, tenho as ideias perfeitamente no lugar. Quando quebrei o vaso da sala porque me irritei com Beatrice, foi só um impulso. Sou muito impulsivo. Beatrice é minha cobra. Às vezes, ela sibila coisas sobre mim. Ela é muito desrespeitosa, vez em quando. Isso me irrita. Mas, em geral, gosto da Beatrice. Ela conversa comigo e não tenho muitos com que conversar. As minhas namoradas são fugazes. Romances instantâneos, diria. Acho que sou viciado neles. Sair e ser como os outros por alguns instantes. Mas eu sou normal. Sim. Sou. Não é verdade os comentários dos vizinhos. Dizem de tudo sobre mim. São um bando de fofoqueiros. Já foram dizer à polícia que eu era terrorista. Eu sou um cara pacífico. Em algumas ocasiões, apenas, eu fui violento. Mas, em geral não faço mal a ninguém. As mulheres somem… Elas vêm à minha casa. Porém, sequer ficam para o jantar. Eu sempre janto sozinho. Só Beatrice fica aqui, condenando-me. Eu queria que Beatrice sumisse. Mas, tenho pena dela. Eu sou um bom homem. É sério. Eu ajudo aos desabrigados. Dou comida a eles. Sobras do jantar cuja convidada sequer provou. Eles gostam de mim. Dizem que sou legal. Beatrice nunca está presente nestes momentos. Ela sempre fica sibilando no meu ouvido o quanto sou mau. Ela me reprova. Diz que um dia o mundo vai descobrir quem eu sou. Não ligo. O que ela sabe sobre mim? Nada. Maldita cobra. Queria matá-la.
Se eu pudesse jogava uma bomba no mundo. Os homens e mulheres, todos são maus. Eu não. Eu sou “o cara legal”. Eu deixo as senhoritas sentarem-se no meu lugar no metrô. Gosto de pegar o trem às três horas. Sempre às três. É o horário em que Cristo morreu. Dizem. Sim, sempre dizem algo. Ninguém sabe o que é mentira ou verdade nesse mundo. Mas eu sou justo. No meu tribunal, a humanidade está condenada. Conheci várias garotas no trem. Elas me acharam simpático. “Deve ser por causa dos seus olhos azuis”. Disse uma delas. Chamei-a para jantar comigo. Ela gostou da Beatrice. Eu falei-lhe para não confiar nela. “É uma jiboia sem presas, mas tem uma peçonha…” Não sei o que a fez partir. Ela deixou-me enquanto preparava o jantar. Mais uma vez dei tudo para os mendigos. Beatrice zomba de mim. “Quem quer ficar com um esquisitão como você?” Eu deveria me livrar dessa cobra. Mas ela era da minha mãe e não posso perder essa última lembrança dela. Mamãe também me abandonou. Como fazem todas. Ninguém resta mais de algumas horas comigo. Por que me temem? Eu sou “o cara legal”. Sei cozinhar, sou simpático, tenho belos olhos azuis e “um sorriso cativante”. Foi o que me disse a última garota com quem saí. Mas ela se foi. Todas se vão. Mamãe se foi. Ninguém fica comigo. Ninguém. Eu tenho muita vontade de chorar. Mas quem se importaria com minhas lágrimas? Beatrice se regozijaria com minha dor. Eu tenho de me livrar dessa cobra! Os mendigos têm fome. Eu também. Minha fome é imensa. Eu tenho de comer. Mamãe não me dava comida. Ela bebia e me batia. Eu chorei muito. Mas, um dia, eu estava com muita fome. E… Não tinha comida. No armário, só havia garrafas de bebida vazias. Pedi comida para a mamãe. Não. Para! Não vou me lembrar disso! Lá, lá, lá, lá! Não quero ver! Um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais. Dois elefantes incomodam muita gente, três elefantes incomodam muito mais. Mamãe me bateu e minha fome era enorme. Eu queria comer. Precisava.
“E o que você fez, Jeremy?” Não fiz nada! Nada! Pare de perguntar Beatrice, você é o quê? Uma maldita cobra tagarela! É isso o que você é. Não fiz nada. Nada. “E esse sangue em suas mãos, Jeremy? De onde vem?”. Eu só estava cozinhando. Não vê? Cobra detestável! “Você não compra comida já faz anos, Jeremy. Nos armários, só estão as garrafas de bebida empoeiradas da sua mãe. O que você fez? O que você come?” Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que vem da boca de Deus. “O que você fez?” Mamãe não me dava comida e eu estava com muita fome. “Isso você já disse. Eu quero saber o que você realmente fez”. Eu… Eu… Peguei esta faca. E quando ela virou as costas, zás! Eu cortei-lhe o pescoço, como se mata uma galinha e depois preparei o jantar. “O que você comeu?” A carne da galinha… “Não havia galinha, Jeremy…” Eu comi a carne, bebi o sangue e chupei os ossos. Depois arrumei tudo. Para mamãe não perceber o que tinha feito. Ela iria ficar uma fera se soubesse que fiz galinha cozida. As sobras, eu dividi com os mendigos. Mas parece que, a partir desse dia, abriu-se um enorme vazio dentro de mim. Uma fome insaciável que me obriga, impele-me a buscar mais comida. Eu tenho de comer. Eu preciso. Eu necessito. A palavra de Deus não me é o suficiente. Nada aplaca essa fome voraz que me consome. Desejo sempre mais. É uma carne adocicada. Saborosa. Eu lambo os lábios só de pensar. Quero compartilhar esse prazer incomparável com alguém, mas mamãe não volta e as mulheres, que trago aqui, todas, desaparecem. Não consigo compreender… Eu iria preparar-lhes o manjar dos deuses. Às três horas pego o trem. Jesus, que é Cristo, morreu às três horas. Jesus jejuou quarenta dias no deserto. Mas eu tenho fome.
“Jeremy, o que faz com essa faca aí na mão?” Ora Beatrice, matei a galinha para comer. Essa gritou, mas foi num instante que lhe cortei o pescoço. Não adianta que não vou dividir com você. O ruim é depenar. Mas a pele é uma delícia bem fritinha. Contudo, eu prefiro a carne das coxas. Gosto de assar na própria gordura também… . “Jeremy, onde está a moça que trouxe com você?” Você vai gostar dela, Beatrice. É bem legal, gosta de literatura e estuda Letras. Ela veio jantar conosco. Só não apronte das suas Beatrice. Talvez essa fique conosco. E, se a mamãe voltar, vai gostar dela, também.
Porém, como em todas as outras noites, eu volto para a sala e o vazio me surpreende como é contumaz. Foi tudo sua culpa, Beatrice! Sibilando mentiras sobre mim! Eu não matei minha mãe, eu não matei ninguém. Eu só tenho fome. Muita fome. A cada jantar, mais a fome me domina e me impele. Sem freios. Em busca do prazer do alimento, do sangue que jorra vermelho e quente, da carne que pulsa em minhas mãos. As mulheres não ficam. O estranho é que, no canto da sala, começam a se amontoar vestidos, blusas femininas sapatos e outros trajes que não sei de onde aparecem. Deve ser a Beatrice que traz essas coisas para casa. Tomara que você não esteja a roubar dos vizinhos, cobra maluca! Hahahaha. Cobra maluca! Doidinha! Não sabe o que fala! Eu não, eu sou “o cara legal”, eu divido meu alimento com os pobres, enquanto você, sua cobra invejosa, come ratos! Às três horas Jesus morreu, às três horas eu pego o trem na estação central. Olá, como vai? Deseja sentar-se? Não precisa me agradecer, eu sempre cedo meu lugar para garotas bonitas como você. E pelo que vejo, também é inteligente, qual é o livro que está a ler? Frankenstein? É um dos meus favoritos. Mas prefiro assistir a filmes, por acaso já assistiu ao Silêncio dos Inocentes? Aquele Hannibal me dá calafrios! A propósito, chamo-me Jeremy!

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“A vida toda é um aprender a morrer”.
Sêneca

Antes do fim do mundo

Giordana Bonifácio

A imprensa está falando a todo momento: “um asteroide vai se chocar com a Terra. Não há o que possa ser feito. Aproveitem seus últimos dias. O epicentro do impacto será o Brasil”. A gente já enxerga no céu a grande pedra flamejante aproximar-se. As pessoas dividiram-se entre aqueles que se reúnem em igrejas e pedem por suas almas e os que soltaram seus instintos primitivos. Há uma onda de saques ao comércio que a polícia nem repreende mais. Sinceramente, não sei o que fará o ladrão com uma televisão de 50 polegadas se dela desfrutará por míseros três dias. É a previsão oficial da colisão. Depois disso, a morte se disseminará pelo mundo. Já fizeram todos os estudos possíveis. A raça humana será extinta em menos de dois anos devido as consequências do cataclismo. Tal qual os dinossauros, vamos todos virar petróleo. Quem sabe daqui a milhões de anos não surja uma espécie que realmente mereça este planeta?
Não estou com medo. Na verdade, queria temer. O fim é-me tão indiferente quanto o começo. Para onde vamos? Que me importa? Se a vida acaba aqui, se existe um “outro plano”, como dizem, é-me igual. Não estou preocupada em me salvar a alma. Não ajoelharei em busca de piedade. Assumo minhas faltas com uma coragem que sequer sabia possuir. Minhas palavras finais não serão ouvidas por ninguém, porque não direi nada. Deitarei resignadamente sobre o solo até ser esmagada por uma força de milhões de toneladas. E fim. Termina aqui a história? Não, pois tenho de relatar o que era meu mundo antes deste derradeiro momento.
O tempo corria sem arreios. Não sabia que o desperdiçava porque o cria infinito. Mas ninguém poderia prever que a vida teria um fim tão clichê: vem um asteroide e bum! Foi-se o mundo! Não tive tempo de fazer o que sempre sonhei: visitar a histórica Europa, berço da civilização ocidental. Gostaria de ir à Grécia para ver as ruínas tão famosas. Mas as viagens intercontinentais foram proibidas antes que pudesse fazê-lo. Eu queria ter filhos, mas a perspectiva de uma família agora é impossível. A realidade estendeu-me a mão repleta de possibilidades e recolheu-a abruptamente. E um imenso “não” tombou sobre mim. Eu trabalhava como bibliotecária em uma grande universidade e tudo que conhecia do mundo vinha-me dos livros que lia. Só vivi a França das páginas das obras de Dumas e Hugo, a Rússia que lia em Dostoievski. E muitos outros incríveis lugares do relato fenomenal dos grandes escritores. Viajei no tempo e espaço pela literatura. Apesar de saber muito da vida na teoria dos ensinamentos recolhidos dos mais famosos autores, pouco me era conhecido da prática. Sempre estive protegida detrás dos muros da minha covardia. E assim, estava a salvo. Ou, ao menos, acreditava nisto. Homero diria que “a flecha não fere os covardes”. E meu tempo foi perdido num confinamento que me impus cujo propósito era não me machucar. E agora? O fim do mundo é presente (presente de grego, devo dizer) e nada posso fazer para mudar isso.
Se tivesse outra chance faria diferente? Não o creio. Deus não deu uma segunda chance à Sodoma e Gomorra. Se houvesse cinquenta justos neste mundo, poupá-lo-ia Deus por amor a eles? Mas não o há. “Quem dentre vós nunca pecou que atire a primeira pedra”. Só Ele pode lançá-la sobre nós. Chega-me o fim sem que tenha começado a viver. E o tempo é exíguo demais para que o faça agora. A única certeza que tínhamos na vida era a morte, mas jamais estamos preparados para ela. Sêneca dizia que a vida toda é um aprender a morrer. Mas por que sempre somos reprovados no exame final? Não importa quão esforçado seja o estudante, a nota do vestibular da vida nunca o permite adentrar nos portões do Paraíso. Para começar a gente já carrega nos ombros uma falta que não é nossa: o pecado original, que passa por gerações como uma herança maldita que eternamente nos acompanha. Não fui eu quem mordeu a maçã, mas ganhei como prêmio a mortalidade. E agora vou provar-lhe o gosto amargo assim que o asteroide se chocar com a Terra.
“Pequena é a parte da vida que vivemos”. Diria Sêneca. Estive ocupada demais aguardando o tempo que poderia fazer o que realmente queria. A espera decerto tem um fim, mas nem sempre nos é satisfatório. Maldito livre-arbítrio que nos permite escolher a nossa história. Eu tinha múltiplas possibilidades que hoje se resumem a uma só: morrer. Não posso dizer-me satisfeita, mas assumo: fui eu quem quis assim. Minhas chances de viver foram inúmeras, mas resolvi esperar, numa esperança vã de, no futuro, tudo ser mais propício. Não sei tocar violão porque não tinha tempo de ensaiar, não sei falar alemão porque o horário das aulas não se encaixava em minha rotina. Não sei cozinhar, pois não dei a chance que minha mãe tanto queria de me ensinar. É uma lista longa de “não seis” acompanhados sempre de uma desculpa com a qual me alivio a culpa de não fazer, de não ter, de não ser. Eu hoje sou muito pouco, mas o que importa? Vamos todos morrer e para isto não há remédio. Mas eu poderia ter sido? Sim poderia! Mas não o fui, não o sou e nem mesmo o serei.
Que me resta senão deitar sobre esse imenso gramado à espera da morte? Sem me importar com o caos a minha volta, com a dor e o medo que se disseminam na sociedade. Não há como evitar o choque próximo. Como diria minha mãe o “o que está feito não está por fazer”. Digo sim à bola de fogo que cruza o céu em nossa direção. Aceito-a. Ainda que me assuste. Quem se sente preparado para a morte? Quem se pode dizer confortável com ela? Queremos a vida, ansiamos por ela. Mas não sei o porquê de a desperdiçarmos. Não fui o que deveria ter sido, nem o que gostaria ter sido, mas aquilo que pude ser. Não que me agrade. Temos vergonha de nossas derrotas. Mas deveríamos nos orgulharmos de nossas feridas. São a prova de nossas tentativas. Nem sempre tudo está no script: a vida é uma peça cheia de improvisos. E já se aproxima o seu ato derradeiro. Fecho os olhos para aplacar o fogo que me consome. E ainda nem me chegou a morte enfim.

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“Lançamos o barco, sonhamos a viagem:
quem viaja é sempre o mar.”
Mia Couto

Histórias de um velho andarilho

Giordana Bonifácio

Meus olhos, máquinas fotográficas que sempre levei comigo, registraram todos os pontos desta Terra. Nem sei mais por quantos anos estou nessa caminhada. Fui muito além do que qualquer homem. Só pelo prazer de andar. Só pelo gosto do novo. O viajar, creiam em mim, vale muito mais que a viagem. No passado, deixei a rede na varanda de casa para seguir meu destino de ser um homem sem destino, pelo simples prazer de conhecer o que estava além de mim. A vida abria-se em logos mapas que eu esquadrinhava em mente.
“A vida é uma ponte entre dois nadas”. Li isto em algum lugar. Deve ser de um autor famoso. Não me lembro qual. Tenho de corrigir esta frase já tão bonita, talvez, para acrescentar que a vida não é só uma ponte, mas todo espaço que as suas pernas alcançarem e eu, meus caros, tenho pernas compridas. Calcei as minhas sandálias e desbravei… Muito antes dos meus quinze anos, o Brasil inteiro era-me conhecido. Fui do Oiapoque ao Chuí. Sempre com uma trouxa de roupa e muita cara-de-pau para pedir emprego aonde aportasse. Não sou homem de esmolar. Trabalho por meu sustento. As minhas posses, porém, nunca foram além do que podia levar comigo. A minha família, deixei por anos a minha espera. A minha casa era o relento, e as luzidias estrelas, que enfeitavam o manto da noite, serviam-me de cobertor.
Não conseguia criar raízes. O hábito era-me enfadonho. Quando me cansava de um lugar, não tinha amigo ou “rabo-de-saia” que me fizesse permanecer. Juntava os meus “panos-de-bunda” e caía na estrada. A minha vida era andar por este país. Mas, depois de alguns anos, as cores e os ritmos do Brasil, eram-me tão conhecidos que me enfastiaram. Então fui abrindo o compasso. Fui primeiro aos pampas argentinos, provei muitos vinhos e até me apaixonei por uma dançarina de tango. Mas foi só “fogo-de-palha”. Logo, já me encontrava de novo a procura de algo que nunca soube. No Chile, até aprendi a esquiar com uma bela instrutora por quem me engracei por algum tempo. Bateu-me uma vontadezinha de ficar…. Mas nem os belos olhos castanhos claros da “chica”, conseguiram me amarrar. Fui ao Peru e subi as ruínas das cidades Incas. Então só fui subindo. Quando dei por mim, estava já no gélido Alasca, pescando com os esquimós.
As Américas não me foram suficientes e eu sempre fui muito guloso. Pensei cá para mim: “já se foram dois continentes. Não me custa seguir para os demais”. Então, embarquei num navio com destino à Europa. Era o cozinheiro e perdi a conta de quantas batatas eu descasquei. Já havia visto a beleza do mar nas minhas andanças, porém, jamais estivemos tão próximos quanto estávamos. Acho que sou meio oceano também: imprevisível, misterioso e, como muitas vezes presenciei, deveras perigoso. Eu e a morte ficamos frente à frente, pela primeira vez, nesta fatídica viagem. Houve uma epidemia a bordo. Os corpos que lançávamos ao mar era como marcávamos nosso caminho rumo ao Velho Continente. Em pouco tempo, só havia um terço dos tripulantes, pois, todo resto, até o médico, havia falecido. Quando chegamos à Europa ficamos um tempo em quarentena até tomarem consciência que estávamos limpos. Os “portugas” disseram que o mal que nos atacou foi uma violenta malária, à qual, sabe-se lá o porquê, sobrevivi.
O frio europeu foi-me acolhedor, sempre me disseram que tinha couro de jacaré. Eu que nem sabia o que era história, (pois estudei muito pouco, só sabia ler e escrever), gostei do que vi. A comida é que não era lá essas coisas, (não tem nada mais gostoso que o cuscuz com ovo do nordeste brasileiro), mas sempre fui de comer pouco e nem me incomodava a sofisticação exacerbada da culinária europeia. Não me ative as fronteiras da Europa Ocidental e, em plena segunda guerra mundial, segui para o oriente sem medo do conflito que sobrepujava a humanidade. Presenciei mais do que posso contar, pois as feridas da sociedade afloram nos conflitos. Na Rússia, o comunismo encarcerava o povo em seu próprio país. Havia demonstrações de força, que se esvairia completamente no final do século vinte. Estive no Japão quando da explosão das duas bombas nucleares. Mas estava longe do epicentro. Ainda assim, foi-me horrível estar, durante tais anos de fome e dor, naquele país devastado que procurava um norte para seguir. Um povo destruído que ainda assistiu envergonhando a rendição e submissão da realeza japonesa ao poder americano recém-revelado ao mundo.
Então, a violência da guerra fez-me procurar os países africanos, ainda colônias da enfraquecida Europa. Mas a realidade pouco amistosa da guerra logo os fariam rebelar-se e cair em outro violento conflito pela independência que logo seria sucedido por sangrentas guerras civis. Foi-me necessário buscar a distante Austrália com as suas criaturas fantásticas e desertos inóspitos. Os mares australianos fizeram-me feliz por muito tempo. Mas os meus olhos agora buscavam paisagens conhecidas e a acolhedora rede na varanda, a que abandonara há tantos anos, causava-me uma enorme saudade. Jamais havia sentido banzo, este sentimento de nostalgia nem me atingia na já distante juventude. Eu era um andarilho. Um explorador. O mundo era minha casa. Mas a idade vai quebrando certas coisas em nós. A gente fica com medo de morrer sozinho. E eu estava bem longe. Claro que fizera muitas amizades e, não posso mentir, algumas inimizades também. Quase morri quando fui defender um menininho judeu da truculência de um soldado Alemão. Outra vez, no dia em que cuspi num branquelo inglês que tratava desrespeitosamente duas garotas negras na África do Sul. Depois do meu ato, um tanto inconsequente, vim a saber que aquele era um soldado, mas me escondi na casa de uns amigos e a polícia jamais veio a me encontrar para saldarmos as nossas contas.
Na verdade, a morte esteve sempre rodopiando ao meu lado. Mas eu nunca a convidei para uma dança. Fui envelhecendo sob o olhar atento desta dama fatal. Ela sempre sondando quando era a hora mais propícia para se apresentar. Mas eu me esgueirava e a driblava mais que o Pelé na Copa do Mundo. Ela se aproximava e eu fugia com um lençol bem constrangedor, deixando a “capa preta” consternada. Ela vinha de novo e eu jogava a bola entre as pernas da ceifadora que ficava atônita, sem saber por onde eu passara. Foi sempre assim. Eu e a morte, gato e rato numa guerra silenciosa e eterna. Mas segui minha vida sem pensar muito nela. Claro que sabia de sua proximidade, mas eu a desafiava. E ela como um cão manso, ladrava, ladrava, mas não mordia nada. Não tinha medo de morrer. Mas não o queria, lógico. O mundo tinha de ser meu antes disso. Queria sentir todos os gostos, todos os aromas e ver todas as belezas que existiam neste planeta antes de mostrar o osso branco à terra. Mas, cansa fugir, sabe. A gente fica sem saco. O pega-pega já estava na hora de acabar. Disse para meus patrões australianos que retornaria ao Brasil. Entrei num avião com o dinheiro que poupara e voltei para o nordeste.
Quando cheguei e pisei o solo de casa, chorei feito um menino. Como era bom estar de volta. Não sabia se meus parentes estavam vivos e custou-me a achá-los. Foram quase dois meses procurando por minha irmã mais nova. Mas, por um golpe da sorte que nunca me abandonou, descobri o endereço da sogra dela. A senhora levou um susto quando lhe bati a porta. Pensara ser um desses golpistas que queriam passar a perna em gente simples. Mas como eu sou um idoso transmiti-lhe a confiança de ouvir-me. Assim, apresentei-lhe os poucos documentos que possuía (sempre tinha o meu passaporte à mão) e consegui convencê-la que eu era mesmo da família. Ela, então, me permitiu um banho e serviu-me cuscuz com carne de sol. Comi como se fosse o manjar dos deuses. Não imaginava o quanto aquele “temperozinho” da terrinha fazia-me falta. Por já ser alta noite, só no dia seguinte, segui para a casa de minha irmã. Ficava em Caicó. No ônibus, as imagens da minha infância, voltavam-me a toda hora. Reconhecia cada pedaço de chão, cada árvore daquela caatinga. Queria gritar: “estou de volta, meu sertão”! Mas temi os olhos reprovadores a minha volta, que questionavam o que me emocionava tanto naquelas paisagens e eles tão corriqueiras. Meus pés calejados ainda andaram um bom pedaço desde a rodoviária à casa de minha irmã. Ao bater na porta, dois jovens, que viria a saber serem meus sobrinhos, avisaram-me que a dona da casa estava nos fundos colocando a roupa para quarar. Segui de mansinho entre lençóis e camisas, para surpreender a mana. Ao ver-me, ela soltou um grito. Abraçou-me e beijou-me. Não queria se desvencilhar de mim. “Vai que você foge de novo”. Dizia. Perguntou por onde eu andara e o que fizera por tanto tempo. Antes de dar início a esta narrativa, pedi-lhe que deixasse as perguntas para depois. Pois o que queria, naquele momento, era prostrar-me na aconchegante redinha estendida na varanda, começo e fim das minhas longas histórias.

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“- Isto… é a árvore de Natal de Cristo – respondem-lhe.
– Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo,
uma árvore de Natal, para os meninos que
não tiveram sua árvore na terra…”
A árvore de Natal na casa de Cristo- Fiódor Dostoiévski

O conto sobre o qual lhe falei

Giordana Bonifácio

-Sabe aquele conto sobre o qual lhe falei? Disse o estudante de casaco largo e capuz.
Fazia frio e como já se aproximavam as férias, a universidade estava praticamente vazia. Sua calça surrada guardava alguns rasgos de velhice que ele insistia em dizer que era estilo. Seu nome era Heitor, uma homenagem a Villa Lobos, ídolo de seus pais, de quem o rapaz não herdou o talento musical. Paciência. Nem sempre o nome faz com que sigamos o caminho que previamente nos foi trilhado. Talvez porque só nós possamos construir nossa vida. Não adianta o desespero da mãe e do pai. Às vezes, o menino quer estudar literatura mesmo. Pode não ser rentável como Direito, mas quem disse que um ótimo educador não pode ter uma vida confortável? Bem, sigamos para o diálogo que pode ser, quem sabe, interessante.
-Ã? Respondeu o outro rapaz cuja camiseta mostrava-se muito pouco para protegê-lo do frio abissal que fazia aquela noite. Mas Ricardo costumava enfrentar as intempéries sem casacos ou guarda-chuvas. Era sempre o mesmo esquema: frio = camiseta, calor = camiseta, chuva = camiseta. Às vezes a equação era mais ou menos a seguinte, chuva + frio + camiseta = pneumonia, mas, ainda assim, a teimosia não o permitia a fraqueza de um casaco, mesmo que fino.
-Aquele, do Dostoiévski, “A árvore de Natal na casa de Cristo”. Eu até o narrei para você. Ainda lhe contei sobre a questão que pesa sobre o possível plágio do conto do Andersen, “A pequena vendedora de fósforos”.
-Sim, o que é que há? Respondeu sem muita empolgação Ricardo, que preferia linguística à literatura e não compartilhava do interesse literário do amigo. Às vezes, só ouvia o amigo por educação, ou não ouvia, ficava pensando em árvores sintáticas e nas ideias de Chomsky enquanto o amigo narrava um livro ou um conto que havia lido.
-Eu o reli ontem à noite. Pensei muito sobre ele a madrugada passada.
Ricardo, “coração de leão”, como chamava Heitor, pois este último sempre estava ligando a vida à literatura riu-se da ocupação do amigo:
– Você não tinha o trabalho de Literatura Contemporânea para fazer? Por que ficou perdendo tempo com besteira?
-Não é besteira, sabe? A vida é muito mesquinha…. Onde há mais gente, o menino está só; onde há mais fartura, o menino passa fome; onde há mais recursos contra a crueldade do inverno, o menino está mais desabrigado diante do frio. Dostoiévski disse: “Nos ambientes mais mesquinhos encontrei as maiores provas da espiritualidade humana”.
-É só um conto, cara, vai por mim.
-Não, não é. Você não entende…. Ontem, o meu pai dispensou a Creusa. Disse que, se ela não poderia estar na hora no trabalho, os serviços dela lá em casa não eram necessários. Mas ela tem um filho que necessita fazer hemodiálise e outros dois que estão na escola. Meu pai não se apiedou da situação dela e nem mesmo o comoveu os anos que ela passou lá em casa. Por quê? A lógica do capital faz dos homens, seres desumanos. Seguir horários, bater o ponto, obedecer à risca a letra da lei, tudo isto faz dos homens menos humanos.
-Você está falando do conto ou de um problema familiar? O que você pode fazer? “A vida é cruel”. Já diziam os Titãs.
-Ricardo, vocês linguistas são muito lógicos. É algo que se repete. Quem mais tem, menos faz pelo mundo. No conto, poderiam ter acolhido o menino que congelava no frio. Mas ninguém lhe tinha compaixão, nem mesmo numa data significativa como é o Natal.
-Seu pai precisa de um funcionário que cumpra os horários. Sua casa não é uma entidade filantrópica. Disse o rapaz colocando as mãos nos bolsos para disfarçar o fato de estar sentido frio.
-O mundo é injusto. O sofrimento do menino e o sentido de justiça são, no conto, uma crítica à sociedade, que, na época e ainda hoje, ignora e marginaliza, insensivelmente. Meu pai agiu como os personagens que discriminam o menino no conto. Dostoiévski faz uma descrição detalhada de uma criança, ingênua, porém angustiada, como se soubesse da situação em que se encontrava. O autor denuncia a despreocupação com o sujeito estigmatizado e não só com a criança de rua. Meu pai deveria ter se apiedado da condição da Creusa. Mas não o fez. Isto me fez pensar. Pensar que o mundo não mudará nunca. Eu creio que sempre haverá toda esta diferença entre ricos e pobres. E sofro pelo fato de fazer parte de uma sociedade que fecha os olhos a dor dos mais fracos e alimenta com colheradas a riqueza dos milionários.
– E o que você pode fazer a respeito? Perguntou com um certo desdém, Ricardo, que já duvidava da sanidade do amigo, que queria transformar o mundo com um simples diploma de licenciatura que só o permitiria ser professor.
– Não posso fazer muito. Mas já estou procurando um emprego para a Creusa e vou ensinar meus alunos que todos são iguais.
– “Mas uns são mais iguais que os outros”, não? Não se esqueça da Revolução dos Bichos. Você que me indicou o Orwell. Sempre haverá privilegiados e despossuídos. Os que prometem mudanças são os primeiros a locupletarem-se do trabalho dos mais pobres. Meu amigo, os porcos tomaram o controle do mundo. Eles têm os cães que são a força policial, não nos é dado nem sequer o direito de indignarmo-nos. Pois poderemos ser calados ou, pior, assassinados.
– Em que planeta estamos? Um lugar em que o bem é desprezado, em que o sofrimento é ignorado e nada podemos fazer para mudar isto. Ser bom é uma tarefa inglória. É como se estivéssemos todos perdidos. O que podemos fazer? Estamos com mãos e pés atados ante os desmandos dos donos do poder. Heitor despencou sobre a cadeira, quando adentraram à sala onde haveria aula de Romantismo. Estava desvalido de todas as esperanças. Certo de que não tinha como mudar o mundo. E que não importa quanto tempo passasse, mesmo depois de mais de um século, tudo ficaria exatamente como era.
-Coragem, meu amigo. Nem tudo está perdido. Façamos o que está ao nosso alcance. Nem que tenhamos de trabalhar a vida toda para fazer ver um só aluno, será o bastante. Sejamos a mudança que esperamos no mundo. Se nada fizermos, nada mudará. Sozinhos, não nos é dado o poder de mudança. Mas a cada discente que façamos ser melhores que este sistema, fará valer à pena todo o nosso esforço.
-Tarefa inglória, esta, não? Olhou para o amigo que pregava com as palavras de Gandhi, os meios de modificar a realidade em que viviam.
-Meu caro Heitor, não disse que seria fácil. Mas é possível. É um trabalho de longo prazo, é verdade, mas, possível. Temos que ter fé. É tudo que nos resta.
-Você, linguista, já está falando como um literato! Agora, sente-se que a professora já está em classe. Heitor sorriu e, por um instante, pensou: “seria mesmo possível?”

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