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bebe a nadar sozinho

“Continue a nadar, continue a nadar”.
Dory

 

Nada que o mundo anda

Giordana Bonifácio

 

A gente prende a respiração e mergulha. A água quente toca a pele num arrepio bom. Vou nadando cortando de um canto a outro a extensão da piscina. O mais incrível é que, quando tinha a obrigação de nadar, não gostava de fazê-lo. Agora, proporciona-me um alívio estar em contato com este elemento tão instável. A gente sou eu e minha alma. Eu e meu corpo. Eu e o tempo que goteja com a água em minhas mãos. Cruzo novamente a piscina com facilidade. O som da água espirrando com minhas pernadas é reconfortante. Quem será que ensinou o homem a nadar? Será que já nascíamos sabendo? Como os bebês que nadam logo após o parto como se tivessem de volta ao seu próprio elemento?
A cada braçada deixo um tanto de dor para trás. A água está morna e consoladora. Sinto-me envolta em líquido amniótico e de volta ao útero de minha mãe. Aqui, livre dos sons ao redor, escutando bem distante o ruído do mundo. O mundo me circunda, mas estou protegida dele. Sem medo, sem lamentações e dúvidas. É só esquecer, lavar-se do mal da Terra. O que poderia me ferir, nesta solidão repleta de sentimentos e água?
Os meus olhos, protegidos pelos óculos de natação, veem uma realidade embaçada. Mas não se preocupem: é só água. Sem ter muita certeza do que sinto, vou seguindo, primeiro no nado crawl, depois, peito, costas e borboleta. Sou livre para ser peixe quando a vida me quer humana. Desobedecendo quando tudo nos obriga a obedecer. Nem vou dizer o porquê. Não me vou justificar. “Quem manda em mim sou eu”! Se quero calar, mergulho fundo para não sair um só som de meus lábios. Se quero respirar, subo à superfície, mas por pouco tempo. O mínimo para lembrar que não tenho guelras e sou humana, ainda.
Não vou me desatrelar do mundo das águas. Narizinho que conheceu o Príncipe Escamado. Sei dizer sim quando me convém. Mas, se não me interessa, digo não mesmo. Porém, para a água, que me aceita plenamente, digo sim. Sem reservas, ela deixa-me invadir seu reino. Esfria a espinha com um raio de dor. Tem de ser assim, ninguém entra em uma outra dimensão sem um tanto de desconforto. Contudo, depois, é só o prazer de estar a sós consigo.
Meu dia termina com a suavidade da água, o cheiro forte de cloro e com a fadiga sendo lavada de mim. Quem me poderia negar este prazer? O trabalho que me inunda de preocupações? A minha família que me enche de obrigações? Ou a minha consciência que me faz transbordar de responsabilidades? Não, ninguém pode me furtar este momento a sós comigo, em que me conheço mais plenamente. Conheço-me verdadeiramente, sem máscaras e disfarces. Eu sou quem nada nesta piscina cheia de mágoas.
O sonho do homem é triunfar sobre si mesmo. A cada nova conquista tentamos provar que nos podemos vencer. Sou mais forte do que era há um ano atrás. Você também. Todos nós. O ruim é termos de aprender com nossos erros. A gente não nasce sabendo tudo, só a nadar. Coisa estranha, né? Mas, se não praticamos, até esta sabedoria primeva, desaprendemos.
Nosso elemento mais desafiador sempre foi o mar. Tínhamos ao seu respeito muito medo e curiosidade. Fomos aprendendo a domá-lo. Mas ele não amansou. É uma fera selvagem da qual a natureza não se desvencilhou. Sempre há o perigo de, em algum momento, sofrermos um novo ataque. Não feche os olhos para o mar. Ele é um amigo traiçoeiro. Não hesita em apunhalar-nos nas costas quando distraídos. Nem caberá nos valer da frase de Júlio César: “tu quoque, tu quoque”. Pois era mais que sabido que não poderíamos confiar-lhe a nossa vida plenamente.
Não existem Hidras de Lerna, mas outros perigos vivem nas águas e nos ameaçam. Feras como tubarões, correntezas que podem afogar o nadador mais experiente, peixes venenosos como o baiacu, e outras ameaças que, se não formos sagazes, levam-nos mais cedo para o reino dos céus.
Bem que o Paraíso poderia ser feito de água e não de ar. Nuvens são muito fofas, mas não se pode nadar sobre elas. Jesus poderia ter aproveitado para dar um mergulho no mar, mas preferiu andar sobre ele. Dá para entender? Um oceano inteiro para divertir-se, fez Ele, do mar, uma enorme calçada. “Mulher de pouca fé”. Dir-me-ia, mas, é ou não é um desperdício? Nadar é tão mais prazeroso que andar, a água nos acolhe. Abraça-nos o ar vira-nos a costas e deixa-nos sob nossa própria vontade.
A água é mais mãe que a terra. Podemos sobreviver sem comer por um mês, mas sem beber água por apenas por quatro dias. A importância da água é enorme. Fartar-nos de água será muito raro no futuro. O presente mostra que tudo aponta para um intensificamento da escassez. Nossos netos não terão tanta água limpa como nós temos hoje. Na verdade, o líquido da vida, em sua forma mais pura, será uma raridade. A água será mais cara que o petróleo. Ouro cristalino que desperdiçamos soberbos e despreocupados, como se fossemos o ter em abundância para sempre. Mas não dizem que “água mole, pedra dura, tanto bate até que fura”? Um dia a gente aprende. Tenho fé nisto.
Eu emerjo das águas profundas do meu ser. E estou ainda mais limpa do que fui. Não há quem me obrigue a ser o que não sou. Sou eu que sou o que sou. Sou mais clara que um lago de água cristalina. Todos me podem ver por dentro. De cara lavada, aceito o julgamento do mundo. Se me condenam, é porque não me compreendem. Sou muito franca, minha sinceridade sobrepõe-se a mim. Mas não me vou dar o luxo de falhar. Que seja do meu jeito agora. Mesmo que escreva torto por linhas retas. (Minha letra nunca foi lá estas coisas. Todos que me conhecem o sabem bem).
A água em que não respiro, faz-me sorver o ar com mais vontade. Um minuto sem respirar já nos lembra o quão importante é, para nós, encher nossos pulmões com oxigênio. Ainda que este gás mate-nos aos poucos oxidando-nos e envelhecendo-nos. Mas a água é onde nasceu a vida. Há milhões de anos sequer respirávamos. A evolução caminha para a morte. Fomos transformando-nos em seres aeróbicos e esquecemo-nos da mãe da vida: a água.
A água é tão essencial que é o primeiro sinal que a Nasa procura num planeta para ser este capaz de portar vida. E questionam-se logo se poderíamos viver lá. Fazer nossa casa num outro lugar, já que destruímos onde morávamos. E, então, vamos devastando cada planeta em que vamos pousando até que todo o universo seja um vazio tomado de lixo.
Ouço a chuva que cai lá fora. Saio da piscina procurando a textura fofa da toalha. Os pés pisam o chão. Estou respirando. Sou o primeiro ser que abandonou o ambiente aquático para viver na terra. Minhas guelras desapareceram. Necessito de ar. Solto meu cabelo da touca e retiro meus óculos de natação. O mundo está embaçado e vultos vão de cá para lá. Súbito, lembro-me da minha miopia, coloco os meus óculos e tudo volta a ser como era antes. Lentes de vidro fazem da minha vida mais compreensível. Ainda que realmente não a consiga entender. Vou dizer o que acho: um dia vou morrer. E o pó a que retornarei será levado pelas águas da chuva a um rio, que, por sua vez, desaguará no mar. Pois para mim o ditado é meio diferente: do mar vieste ao mar retornará. E serei aquática e anaeróbica novamente. Bactéria minúscula que só o que quer da vida é evoluir e um dia andar. Para, depois, lamentar-se por ter abandonado por livre escolha e vontade seu lar ulterior: o mar.

 

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coração

“Quem segue o coração é o pulmão, ninguém mais”
Carpinejar.

Prosopopeia

Giordana Bonifácio

Um fim de tarde febril. Nenhuma nuvem passeava no céu. As árvores não sentiam uma mínima brisa soprar-lhes entre os galhos. Nas ruas, apenas cães vadios caminhavam felizes com sua liberdade, apesar de famintos e sedentos. Um bem-te-vi mentia em gritos agudos na varanda. O relógio da sala compassado, marcava, um tempo que não se podia reter. Quando badalou as seis horas, sereno e magnânimo, como os sinos da capela Sistina, o trem passou, cobra de metal que estalava suas articulações e soltava baforadas de fumaça que lhe seguiam o caminho. Maritacas barulhentas faziam algazarra nas árvores da praça, pousando ora em uma mangueira, ora no telhado das casas próximas.
Aos poucos, “as coisas” iam se assentando, o mundo desacelerava. Os olhos descansavam no pôr-do-sol. O coração sentia um tanto assim de melancolia. Saudades da época em que batia faceiro, sem amarras, tempo em que tudo era uma aventura. Mas agora, agora nem trota mais, é um músculo sedentário, só não para de vez porque não quer morrer. Quem seguiria tão covarde coração?
A rede balançava lânguida, ia de cá para lá, para fazer adormecer. Lá longe, roupas secavam no varal cheirando a amaciante e sabão em pó, esperavam estendidas que alguém as recolhesse. Senão, ficavam por lá mesmo. Se ventasse, pairavam sobre os muros até tombar na terra. Talvez, porque gostassem de embolarem-se sensuais na máquina de lavar. Calças enroscavam-se em vestidos sem qualquer pudor. Pervertidas!
O céu ia avermelhando-se, pois amava em segredo a lua. Era só ela chegar que ele enrubescia, depois trocava de roupa e vestia-se em black tie com um terno negro coberto de estrelas. A lua, com seu véu de luar, vivia a orbitar no céu. Porém, nunca lhe deu muitas esperanças. Ela era uma celibatária convicta, não estava interessada em relacionamentos sérios. O céu sofria e, vez em quando, chorava estrelas cadentes.
As luzes dos postes abriam os olhos em um despertar em cadeia. Ficavam a perscrutar a vida da vizinhança, sempre a observar tudo. Fofoqueiras!
Na janela em frente, um cigarro queimava numa brasa incandescente. No escuro, era tudo que se via. Não queriam sair da escuridão os lábios que o amparavam. Melhor. O cérebro nem quer se esforçar para manter um papo inteligente. Ultimamente, fazia a boca tão somente resmungar contra o jantar frio, o barulho das crianças e o som da tevê alto demais. Melhor deixar o silêncio reinar sobre os ambientes. Mudo que é, não perguntava do encanamento da cozinha, não obrigava a pôr o lixo para fora ou levar o cachorro para passear. Por isso, é o amigo que todos queriam ter. Além de guardar segredo sobre tudo. Não abria o bico por nada!
Gatos de rua derrubaram num estrondo uma lata de lixo, rebeldes, não se espantaram com o ralhar das vozes nervosas. Só desistiram do seu intento quando uma sandália voou certeira em sua direção. Num miado forte, reclamaram de sua algoz e abandonaram a lixeira.
Um rádio começou a tocar uma melodia triste. Chorava de dor numa língua estrangeira.
O ambiente foi tomado por um cheiro de canja delicioso, cujo intento principal era abrir o apetite do estômago. E o corpo, ainda preguiçoso, levantou-se. Gigante desperto pela necessidade básica de comer. Iria em direção ao alimento. De dentro da casa, surgiu uma voz aguda e forte: “o jantar esperava sobre a mesa da cozinha”. O homem, faminto, pôs fim a este conto: o estômago a tudo domina. “Quem segue o coração é o pulmão, ninguém mais”, já dizia Carpinejar. Vida que segue.

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Parabéns, Dona Nadine, pelo seu aniversário!

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“Os ratos vão roer – já roeram!- todo o dinheiro!…”
Dyonélio Machado – Os ratos

Um homem, não um rato.

Giordana Bonifácio

Ouve o som do carro. Um Corola freia bruscamente. O motorista grita impropérios para ninguém. O outro carro já ia longe. O tempo estava absurdamente quente. Ele nem suava. Difícil suar em Brasília. O ar seco não colabora, é como se cozinhássemos. O calor forte deixava-o zonzo. Talvez, por não ter comido nada. Não tinha muito o que comer em casa, era o combustível ou os pães do café. Comprara só o suficiente para a mãe idosa comer pela manhã. “E você, meu filho”? “Eu me viro”. Queria ganhar o dinheiro das entregas para pagar o combustível e comprar o suficiente para comerem no dia seguinte. Mas até agora, parado há horas perto da Rodoviária, nenhum trabalho surgira e não parecia que mudaria tal situação. Encarou seus olhos no retrovisor: “Você tinha de ser o orgulho de seus pais… E o que você é? Seu bosta, seu merda? Nada”. Esperou que o silêncio lhe dissesse algo. Mas teve de engolir a verdade, sem sequer um gole d’água. O sol brilhava ultrajante. Redemoinhos formavam-se na poeira dos gramados. Seco. Quente. O pó subia vermelho, aderindo a lataria dos automóveis. “Eu não tenho como lavar o carro”. Pensava. “Deveria vender esta lata velha e comprar uma moto. Mas mamãe tem medo de motocicletas. Sonhou que eu morreria num acidente. Chorou a manhã inteira. “‘Quem cuidaria de mim’? Soluçava… Fiquei com dó”. Sorriu da inocência da velha. Súbito o celular vibrou, ele atendeu rapidamente. “Sim, sou office boy, mas trabalho com carro. É, é estranho. Mas não confio muito em veículos de duas rodas. Assim, posso fazer entregas maiores. Bolos de casamento, pizzas, móveis, minha fiorino carrega tudo e mais um pouco. Se posso fazer uma entrega para uma festa de quinze anos? Lógico. Conheço essa casa de festas, fica no Park Way, não é? Sim, às 18h. O serviço fica em R$ 100,00, pois são muitas coisas a se transportar. Sim. OK. Fechado. Chego à loja no Núcleo Bandeirante às 17h30”. Olhou no relógio: 14h38. O estômago roncava-lhe. Mas pelo jeito, só teria algo para comer à noite. Comeria um hambúrguer no McDonalds da Candangolândia e levaria batatas-fritas para a mãe. Ela ficaria feliz. Ele ficaria feliz. E no dia seguinte haveria pão no café e leite. E, se quisesse esbanjar, queijo.
Estava com sede. Mas não tinha sequer o suficiente para um copinho de água mineral. Se parasse em alguma loja, talvez lhe dessem água para beber. Mas tem gente ruim que costuma pegar água da privada. Queria dizer-lhes que era pobre, mas era um ser humano. Humano. Não um bicho. Não um rato. Um homem.
Tinha de levar comida para casa como qualquer um. “Minha mãe é idosa, mas faz crochê para ajudar no orçamento. Só que os tempos estão difíceis, ninguém compra nada”. O relógio de pulso começou a tiquetaquear na sua cabeça e os prédios cresceram ao seu redor. Abriu a porta do carro. Tinha de respirar. O ar não vinha e o seu estômago embrulhou-se e só não vomitou porque não havia o que pôr para fora. Um guarda veio ao seu encontro. “O senhor está bem”? A voz do policial chegava-lhe distante. “Não, acho que a minha pressão caiu”. O guarda distorcido, parecia mais alto, já ele, estava menor que um rato. “Preciso beber água”. Alguém lhe trouxe um copo. Bebeu o conteúdo que parecia ser de água pura, se não estava enganado. O oficial queria que ele fosse a um hospital, mas ele declinou da proposta. Tinha muito a fazer. Um homem tem de pôr comida na mesa. Ele era um homem, não um rato. Pensou em ir à casa de um velho amigo, no Guará I. Ele, com certeza, não lhe negaria um tanto de comida. O sol escaldante deixava-o tonto, lerdo. Nem pensava direito. Por sorte não causara nenhum acidente.
A casa parecia-lhe ameaçadora. Teria forças para pedir o que comer? “Quem depende da bondade alheia, não é um homem, é um fraco. Não merece viver. O mundo é para os fortes. Não para os maricas”. Era o que lhe dizia seu pai. Ele era sapateiro, mas não lhe passou o ofício. Queria que o filho estudasse, para ser gente, não rato. Tocou a campainha. Uma senhora apareceu. “O Luciano está?” “Não, está na faculdade. Quem gostaria de falar com ele”? “Sou um velho amigo da escola, vim fazer-lhe uma visita, mas já que ele não está vou embora”. Sorriu amarelo com vergonha de sua situação. “Ok, falo para ele que você esteve aqui”. “Ok. Até a vista”. O carro engasgou duas vezes até partir. Ele ficou constrangido, pois a senhora olhava-o de forma inquisitiva. Ela deveria estar se perguntando o que ele realmente queria ali. Mas ele não tinha coragem de dizer que desejava comer, nem que fosse um pão dormido. O sol não dava trégua. O corpo, debilitado, também não. A mente fraquejava e seus reflexos estavam mais lentos. “Um homem, não um rato”. Pensou. Se não fosse tão orgulhoso, imploraria e mendigaria para comer. Mas ele tem seus brios.
Um golpe de sorte fez o telefone vibrar novamente. “Sim, faço transporte de móveis. Uma escrivaninha do Recanto das Emas para o Riacho Fundo? Sim, eu anoto o endereço. Cobro R$70,00 para o transporte, se tiver de subir escadas R$100,00. Agora? Sim, claro. Chego em alguns minutos. “O trabalho dignifica o homem”. Diria seu pai. Ele ganharia o suficiente para almoçar. As pernas ainda estavam bambas, mas tinham de aguentar subir dois andares. O carro deslizou até o endereço combinado. A esperança de ter algum dinheiro fez com que ele ficasse mais forte, conseguiu trazer a escrivaninha para o carro e depois carregá-la por dois andares no Riacho Fundo. “Posso pagar com cheque”? Foi o que ouvira após ter concluído o transporte. “Não, eu não trabalho com cheque, amigo. Só com dinheiro”. “Então passe aqui no mesmo horário amanhã que lhe darei a quantia devida”. O peso da escrivaninha caiu-lhe de uma vez sobre os ombros. “Senhor… Eu preciso do dinheiro… Não posso esperar para amanhã”. “Não confia em mim? Se estou dizendo que pago amanhã, eu pago amanhã”. “Eu tenho uma mãe idosa…” “Não dá para esperar? Qual a diferença que fará um dia na sua vida”? Ele não teve coragem de dizer que não tinha almoçado e sequer tomado café da manhã. Não discutiu. Restou com a promessa de receber o dinheiro no dia seguinte. E também com a fome de não ter comido nada o dia inteiro.
Os prédios avançavam sobre a pista e a afunilavam como se quisessem tolher-lhe os caminhos. Ele avançava sabe-se lá como. O carro parecia um autômato cuja inteligência artificial fazia-lhe chegar sem auxílio do homem aonde este último pretendesse ir. Chegou ao Núcleo Bandeirante mais pela força de vontade do carro que pelo esforço do motorista. O sol já arrefecia e o calor já não era tão grande. Mas o pobre homem não conseguia sequer ter fé na possibilidade de receber algum dinheiro hoje. “O suficiente para comer e para a gasolina”. Ainda que quase nenhuma energia lhe sobrasse, transportou os aperitivos da festa, colocou-os todos no carro e garantiu que não tombariam com o movimento do veículo. No momento de demandar seu pagamento, o homem, constrangido, estendeu a mão. E a mão que lhe retribuiu o gesto, para sua surpresa, vinha, na direção da outra, trazendo consigo uma nota de R$ 100,00. O azul do papel moeda cegou-o por alguns instantes, incrédulo, tocou-o com as duas mãos. Era realmente dinheiro. A poção mágica que fazia de ratos, homens. Ou fazia de homens, ratos, em casos bem específicos da política.
Ele ficou algum tempo com a nota na mão. Sentia vontade de chorar. A senhora do buffet perguntou se não era o que tinham contratado. “Sim, sim. Está tudo, ok. Muito obrigado”. Partiu com os olhos marejados. Deixou as encomendas na casa de festas e seguiu para abastecer o automóvel. Metade de seus lucros restaram no posto e, com o restante, pode comprar tão só o suficiente para a carne do almoço e os pães do café da manhã. Tinha o bastante até para o jantar. E, também, havia a promessa dos cem reais para o dia seguinte. Ele não comeu o Big Mac com o que sonhava. Isto porque, para ele, comer no McDonalds fá-lo-ia tão homem quanto os que habitam nestas mansões bonitas cujos muros escondem a vida dos mais abastados. Na casa dele não há muros, mas um portãozinho que rangia toda vez que era aberto. E uma jabuticabeira que nunca dera frutos. E muitos sonhos que jamais ultrapassaram as venezianas das janelas. Presos que estão às lembranças do passado. Nas memórias de um pai falecido cuja morte fez homem, um jovem, que acabara de entrar no ensino médio. Era tão só um menino que teve de abdicar do futuro para alimentar a mãe idosa. De bens, só tinha a velha fiorino com o que trazia o pão de cada dia. Apesar de, nem sempre, Deus ouvir as suas preces. Às vezes, guardavam, mãe e filho, a fome para o dia seguinte. Mas por sorte, naquela noite, havia carne e pão, que juntos resultaram num sanduíche cujo sabor superava com louvor àquele vendido a R$8,00 pela multinacional de fast food. E, pelo menos, naquele momento, o rapaz considerava-se um homem e não um rato.

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27315e

“Mas não chores, que no meu dia,
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem”.
Cecília Meireles

O pesadelo que se vive

Giordana Bonifácio

Fecho os olhos: “está tudo bem”, tento inutilmente convencer-me disto. Os dias doem-me e o futuro chega rápido demais. Não estou preparada! Esperem um segundo para que eu possa respirar. Sorvi o ar límpido e fresco. Abri os olhos. Tudo está em seu perfeito local. Menos eu. Estranho, não é? Sou uma peça perdida de um outro quebra-cabeça. Não me encaixo em nenhum lugar. Dizem que nós que devemos nos adaptar ao mundo. Então, devo ser uma extraterrestre. Na minha carteira de identidade está escrito: Rosa Lima Valência. Mas estou com medo que eu não seja quem dizem que sou. Um nome não é referência. Um nome é um nome, tal qual casa, cadeira ou flor.
Por falar em flor, há um buquê sobre a mesa a espera que eu lhe coloque num vaso. Não sei se devo fazer isto. Comprei-o na feira hoje de manhã. Naquele momento, pareceu-me belo. Mas tão rápido entrei em meu apartamento, a beleza desbotou. Ele destoava naquele ambiente. Era bonito demais para mim. Será que o merecia? Peguei as flores e tive raiva. Raiva de não ser bonita assim. Então agarrei-as para que se desfizessem entre meus dedos. As pétalas caíram. “Caim, onde está teu irmão”? Dizia-me o meu reflexo no espelho. Chorei. Por que? Não sei, as lágrimas surgiam sem razão. Talvez, por não haver pena para o pecado que cometi. Fiquei de joelhos velando o outrora lindo buquê. “Sinto muito”. Escapou-me. Mas ele era meu. Tinha direito de fazer o que quisesse. Se queria destruí-lo, poderia fazê-lo. Quem me condenaria? “E agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para receber da tua mão o sangue do teu irmão”.
Peguei os restos mortais do meu mais recente pecado e despejei na lixeira da cozinha. Estava tudo impecavelmente arrumado. Eu, em minha insana fúria, queria o caos. Pois só isso retrataria a dor que habita em minha alma. “Eu. Eu. Eu”. Criticam-me por preocupar-me tanto com que sou. Mas se o meu maior problema é ser, por que imaginariam que falaria de outro alguém? “Você está muito bonita”. Ele disse-me. As flores eram bonitas também. “Lírios do campo que crescem; não trabalham nem fiam; e nem mesmo o rei Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”. Alvos, incólumes, inocentes. A culpa era toda minha. “Meu Deus, porque me abandonastes”?
Fecho os olhos, mais uma vez. Concentro-me no som do relógio da sala. O tempo: a Parca que fia nossa vida, marcando as horas, os minutos e os segundos de nossa existência na Terra. Uma bomba relógio prestes a explodir. Nunca saberia como desarmá-la. “Corte o fio azul”, diriam. Mas meu coração obrigar-me-ia a cortar o vermelho. Um filme sem final feliz.
Fui até a sala. O relógio pendurado na parede era por demais ameaçador. Joguei-o no chão. Porém ainda funcionava. Enfiei a mão no visor quebrado para arrancar os ponteiros da minha vítima. Cortei-me e meu sangue pingou sobre o alvo tapete das horas. Mesmo destruído, o bravo guerreiro continuava a mentir o tempo. Tiquetaqueava, mesmo sem poder dizer-me quanto faltava. Mas para o quê?
A lua que brilhava no céu dizia-me: é noite. O silêncio do apartamento confessava-me: sou só eu e você, solidão. Todavia, o relógio não parava. Como se não o pudesse deter. “Eu já combati moinhos de vento”. Respondi à máquina ameaçadora. O corte em minha mão ardia. Peguei um lenço e amarrei-o sobre o ferimento. Uma nódoa vermelha rapidamente se formou no tecido branco. Maculei a alvura do pano. Igual a um pintor que na primeira pincelada já desiste de seu quadro. Mas não há como apagar o que se pintou. Não há?
Queria dormir e esquecer de acordar no outro dia. Restar eternamente num sonho. Por que permanecer neste pesadelo que se vive? Ouvi o som de passos na rua. Corri para a janela. Um senhor cruzava a avenida. Pensei em lhe apelar por socorro: “salve-me”. Mas ele já ia distante. Segurei o choro. Entretanto, uma lágrima misturou-se ao sangue em minha mão.
O relógio permanecia mentindo. Caído sobre o chão, ainda que derrubado, jazia vitorioso. Não posso vencê-lo. Ninguém pode. Desisti de tentar. Deixei-o sozinho na sala, contando horas que não se viam. Fui para o quarto. Sob o criado, um livro de Hugo contava-me sobre uma Paris histórica que não mais existe. O mundo mudou. Só eu permaneço a mesma. “Você continua como antigamente”. Como eu era quando eu era o que sabia que era, mas não sou o que fui. Eu fui, mas não sou mais. “Hoje sou”. Diz-me o meu coração. Mas não o que era antes. Não sou a mesma. Não sou. Sou, mas não o que fui. Sou o que sou. Algo totalmente novo que ainda não compreendo.
Minha mão ferida dói. Mas algo em mim doía mais. Porém, não entendia o quê. Talvez por amar um sentimento que persiste como uma erva-daninha em meu peito, devorando a flor que em mim vicejava. Hugo dizia que “o amor é como uma árvore: cresce por si mesmo, lança profundamente suas raízes em todo o nosso ser, e continua sempre a verdejar num coração em ruínas”. Estranho querer algo que só me faz sofrer. Uma loucura. Uma paixão inexplicável. Mas não designada por Eros. Penso que me foi apresentada pela flecha de Tânatos. Não são gêmeos o amor e a morte? Desejo o sepulcral destino dos fracos. Amo o fim, são três letras de cada palavra que, para mim, associam-se. Alfa e ômega que guardam o mundo em si. “E o inexplicável é que quanto mais cega a paixão, mais tenaz. É sem se apoiar em razão alguma que ela é mais firme”. Repito Hugo.
Querem que me explique? São Cinco os Motivos da Rosa: “Meus olhos te ofereço:/espelho para a face/que terás, no meu verso,/quando, depois que passes,/jamais ninguém te esqueça”. Este foi o primeiro, que roubo de Cecília. Pois as palavras já me faltam. Não sei como definir a dor que me aflige. Ela lateja ainda mais que o ferimento em minha mão. A dor determina, o amor pede e o desejo quer.
Segue o Segundo Motivo da Rosa: “Sem terra, nem estrelas, brilhas, presa /a meu sonho, insensível à beleza /que és e não sabes, porque não me escutas…” Lírios não são rosas. As rosas calam. Mas a simplicidade dos lírios grita. Tive de emudecê-los.
Mais um motivo que me impinge dizê-lo: “Se Omar te visse/esta manhã, /talvez sorvesse com meiguice /teu cheiro de mel e maçã. /Talvez em suas mãos morenas /te tomasse, e dissesse apenas: /“É curta a vida, minha irmã””. O relógio destruído sobre o piso continuava a contar um tempo etéreo. Pois lhe tomei os ponteiros que me determinavam maldosamente a vida. Agora, obrigo-o a mentir.
Também é meu o quarto motivo, que vem de Cecília e não de mim: “Não te aflijas com a pétala que voa: /também é ser, deixar de ser assim”. Desfolhada, estou a esperar, presa, neste imenso jardim. Quem vai enfim podar o roseiral? O fim é um término em si? Um ponto, uma vírgula? O que será que espera por mim?
Mas ainda falta o quinto motivo que conclui o poema de Meireles. Ela escreve o que sinto melhor do que eu. Pois, para lhes dizer a verdade, eu minto. “Não sou eu, mas sim o perfume /que em ti me conserva e resume /o resto, que as horas consomem”. Segue tempo, na sua terrível condição, fazendo perecer tudo o que sente o coração.
São estes os meus cinco motivos, que tomei de Cecília, que dizem o que sou mais do que eu sei de mim. Os versos são brancos, mas, sobre mim, cobrem-se de nódoas. Quem consegue ser puro assim? Meu relógio bate tiquetaqueando a dor que existe em si. Contando-me o tempo sem ponteiros. Sem saber quando será realmente o término de meus dias. A parca destroçada agoniza num tique e taque seco e resoluto.
Minha mão para de sangrar. Desfaço-me do lenço. Fico olhando para o ferimento. Uma ferida visível. Diferente das outras que possuo. Só posso ver a mágoa em minha alma quando se traduz em lágrimas. Mas aquela estava ali. Para me dizer: sofra. Eu respondo, tão somente, sim. Coloquei o dedo na ferida. Ai. Suspiro. Foi melhor assim. Nunca saberia falar as ilusões que despejei aqui. Mas lhes previno. Nem tudo aqui é verdadeiro. É ouro de tolo. Apesar de reluzir, não tem valor. Se quiserem, podem tomar para si. Não me fará falta. É só uma pétala que caiu de minha corola. Um fio de cabelo branco que me condena: “não sou tão velha assim”!
Eu destrocei os lírios com as mãos. Feri-os com meus espinhos. Pois eram belos. Muito belos. Uma beleza contundente, que me dizia o quanto eu era cruel. Depois desferi meu ódio sobre a moira na sala. Para apagar o tempo, para torna-lo invisível e indefinido. “Só eu posso dizer os anos que vivi”. Tomei-lhe os ponteiros com que me fiava a vida, pois ela é minha e dela faço o que quiser. Mas, valente, ele permaneceu no seu caminhar inexorável. Escondi a verdade, contudo ela permanecia ali. Dizendo ora que sim, ora que não, pulsando-me revolta no peito. A isto, costumam dizer, chama-se coração.

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20140102133245295476o

“He’s a real nowhere man
Sitting in his nowhere land
Making all his nowhere plans
for nobody

Doesn’t have a point of view
Knows not where he’s going to
Isn’t he a bit like you and me?”
The Nowhere man – The Beatles

O homem de lugar nenhum

Giordana Bonifácio

Eu sou o homem de lugar nenhum. Vivo entre sites de relacionamento, ora detonando, ora ovacionando políticos que pouco se interessam pelo povo. Sou o homem que o tempo excretou. Sou a consequência da ausência de boa educação e costumes. O homem que foi digerido pela mídia e defecado na internet. Sou o homem que não tem nacionalidade, estou ora aqui, ora ali. Nem cá, nem lá. Sou massa de manobra. Sou o dejeto fétido da nossa nação. Sou o homem destruído. O projeto rejeitado da nossa criação. Sou o homem retratado em inúmeras selfies demonstrando uma falsa alegria que nunca tive. Não sou real. Sou um fake. Você não me conhece, mas compartilha as frases pseudoliterárias que crio e confiro a autoria a escritores famosos. Sou o homem abjeto que defende a submissão feminina e a discrepância entre os sexos. Sou o homem que esconde o seu preconceito sob uma máscara amistosa e na rede mundial de computadores espalha posts racistas e misóginos sem qualquer culpa. Sou o homem que arrota caviar e come sardinha. Sou aquele que permanece a madrugada na internet procrastinando trabalhos que deveriam ter sido concluídos há semanas. Sou o homem que comete a mais cruel das violências: a calúnia. Sou o homem que espalha falsas notícias de morte de alguém famoso, para divertir-me com os comentários de condolências daqueles a quem engano. Sou o ridículo. Sou o patético. Sou o insignificante que quer ser visto ao menos uma vez. Sou o idiota que faz piada com a dor alheia. Sou o monstro que libera os seus desejos sexuais em trens e ônibus, esfregando-se nas mulheres, pois sei que isto não vai dar em nada. “No máximo, serei repreendido numa delegacia. Na qual a mulher chorosa vai se dizer deveras humilhada. Paciência”. Sou o homem que defende a morte de negros, homossexuais e nordestinos, pois me creio pertencer a uma raça ariana pura que nunca existiu no Brasil. Sou o homem que vai a estádios não para assistir a jogos de futebol, mas para confrontar violentamente a torcida adversária. Vou tomar minha bandeira cujo mastro é uma arma e vou agredir um inocente até a morte porque cometeu o crime imperdoável de não escolher o mesmo time que eu.
Sou o homem que mistura papelão à carne para conseguir angariar mais lucro com a minha empresa frigorífica. Sou quem se diz Cristão e não age segundo os ditames da sua religião. Na verdade, acredito que, se rezar com fé, eu posso descumprir as lições de solidariedade e compaixão que Jesus pregava. Sei que não basta ajoelhar-me na frente dos outros, mas enquanto o juízo final não vem, vou vivendo segundo meus próprios conceitos. Ainda que os saiba errados. Sou o homem que ludibria, sou o homem que rouba, sou o homem que mata. Sou o homem que lincha o criminoso, ainda isto me faça tão criminoso quanto ele. Sou o homem-porco. Na verdade, não dá para distinguir quem é porco e quem é homem. Vivo num requintado chiqueiro protegido por câmeras e seguranças. Ninguém pode adentrar na pocilga em que vivo com a minha família. Sou o homem que destrata a empregada doméstica que me serve. Sou aquele que fura o sinal vermelho para não perder tempo e por isso atropelo uma criança. Por medo da represália, fujo sem prestar socorro. Abandonando, assim, minha vítima agonizante no chão. Sou o homem que assiste as notícias acreditando estar longe de tudo, sequer me comovendo com o sofrimento dos miseráveis. Tranco-me na minha cobertura à beira-mar enquanto os pobres vivem em barracos sob pontes ou em favelas. Sou o homem que se diverte em shoppings, centros da sociedade capitalista de consumo, enquanto prego o socialismo. Ainda que tenha um iPhone de última geração e ande com roupas de grife, prego uma igualdade falsa, em que os únicos privilegiados são os membros do meu partido. Sou o homem que quer desmantelar o tráfico de drogas, mas não dispensa uma cheirada em festas e eventos. Sou o homem que prefere não ver a verdade e fico repetindo mil vezes uma mentira até que eu passe acreditar cegamente nela.
Sou o homem que não se solidariza com a mulher raquítica que, com uma criança no colo, pede esmolas nos cruzamentos. Aquele que prega a beleza do corpo, discriminando quem não se enquadra no padrão estético determinado pela sociedade. Sou o homem que faz bullying com aqueles que não têm como se defender e em tom jocoso digo: “era só brincadeira”. Ainda que saiba que tal “brincadeira” vai marcar a minha vítima para sempre. Sou o homem que bate na esposa para provar sua masculinidade, pois caso não o faça, seria chamado de broxa ou “mandado-pela-mulher” por outros homens tão minúsculos quanto eu. Sou o homem que estupra, sem se preocupar com a dignidade feminina, pois penso serem “coisas” de uso dos machos. Sou o homem que degrada a natureza, joga lixo nas ruas, faz queimadas e despeja esgoto nos rios, tudo isto sem me preocupar com impacto ambiental de minhas ações. Sou aquele rico dono de mineradora que não cuidou das barragens de dejetos até que uma se rompeu, destruiu cidades e poluiu sem retorno um rio inteiro. Sou o homem que venera bandidos tomando-lhes autógrafos e fotos, devido a sua notoriedade pública. Sou o homem retrógado que impede a evolução da sociedade por pavor de perder o meu emprego. Sou o homem que prefere não se atualizar ou estudar para impulsionar a minha carreira. Sou o homem que se contenta com migalhas de bolsas distribuídas pelos governantes, pois assim não necessito trabalhar para saciar a minha fome e dos meus filhos. Sou o homem que comete crimes, mas, pela minha condição econômica, creio-me acima da lei. Para mim, quando desvendado meu esquema de fraudes e corrupção, o juiz que preside o meu processo, não passa de um “juizeco” muito aquém da minha importância. Sou o homem que causa enormes engarrafamentos, pois passo em baixa velocidade assim que vejo um acidente, não para ajudar, mas, ver as consequências do atropelamento de pedestres e motos e da colisão de veículos.
Sou o homem que consome bebidas alcoolicas em festas e shows e ainda assim conduz o seu carro, embora saiba que desta forma possa matar. Assumo o risco de vitimar inocentes, porque não quero deixar meu conforto de lado, mesmo que seja possível não voltar para casa nunca mais. Sou o homem que destrói veículos alheios em protestos. Não sei se desfrutam da minha ideologia, mas atear fogo em algo faz a nossa causa bem mais visível. Sou aquele que depreda patrimônio público por diversão. Picho muros e placas, num visível sinal de desrespeito. Sou um vândalo que, ao invés de fazer arte como os grafiteiros, quero deixar suja e feia a própria cidade em que vivo. Sou o médico que não vai aos plantões nos hospitais públicos e bato o ponto ainda que não tenha trabalhado. Sou o homem que frauda a previdência e toma para si a aposentadoria de pessoas que trabalharam a vida toda e no final da vida, se veem sem nada. Sou o aluno que vai para escola somente para se divertir, deixando de lado o estudo, desconsiderando o esforço do professor para ensinar o seu arcabouço cultural. Sou o marido que trai sua mulher sem a menor culpa, apesar de isto poder desestruturar a sua família. Sou o pai que não paga a pensão alimentícia do filho, mesmo que saiba a dependência daquele dinheiro para seus estudos e subsistência. Sou o jovem que perturba a paz familiar, sendo violento com seus pais ou avós. Sou o literato que não vê a realidade a sua volta e se isola na sua arte. Sou o passageiro que senta nos assentos preferenciais e sequer se levanta quando um deficiente ou mulher grávida adentra no transporte público. Sou um homem podre. Sou um ser ignóbil. Mas não sou um homem qualquer, eu sou aquele que se vê todo dia no espelho e repete-se angustiadamente que naquela manhã tudo seria diferente. Muito embora, nada tenha feito para mudar a si. Repetindo comportamentos como um rato de laboratório condicionado a agir sempre da mesma maneira, a procura de reforços positivos das suas ações nos likes inverídicos que recebe no facebook. “He’s as blind as he can be/Just sees what he wants to see”. Muito prazer, eu sou você.

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luto

“Só as pessoas que amamos morrem.
Só a sua morte é absoluta separação.”
José Luís Nunes Martins

O luto

Giordana Bonifácio

Um dia. Dois dias. Três dias. Quatro, cinco, seis, uma semana, um mês, um ano. Dois anos. Três. Quatro. Quanto tempo isto iria durar? Às vezes achava que o mundo doía em mim. Queria ter fé. Esperança. Mas tudo estava coberto de cinzas. Tudo. Mas meus olhos nem choravam mais. Não. A dor ficara seca. Permanente. Como um espinho encravado na alma. Ai, quantos momentos ficaram no passado. Uma vida inteira. Vivia para me recordar disso. O meu sol nascia no Norte, não mais no Este. Nas terras mais gélidas do Alasca. Lá estava meu coração, congelado no meio de um iceberg. Meu pranto curvou-se à força do tempo. A semente secou antes de nascer o broto. O futuro não é mais uma promessa, mas uma pena a mim imposta. Dedilham o piano, os meus dedos, tentando fazer música para acalmar este sofrer. Só acalmar. Não sabia como findá-lo. Acredite, eu tentei. Quis mentir para mim. Dizer que poderia recomeçar. Mas não, perdera tudo num lance de dados. É que a morte joga com os homens. Ela beija seus dados viciados e condena a todos nós. Eu… Meu Deus, se tudo tivesse sido diferente… Eu deveria ter dito tanto. Mas me calei em meu orgulho. E ele se foi. Sim, para sempre. Todo o sempre. E eu tive medo de dizer o quanto importava para mim. Foi numa noite fria, era outono. Disse-lhe para vestir um casaco. Ele retornou para se cobrir como havia pedido. Pensei que um simples blusão poderia protegê-lo. Mas, na verdade, nossas precauções são inúteis. Quando deve findar a nossa vida, as Parcas sequer hesitam em cortar o fio que nos prende aqui. E ele partiu. Dividindo meu coração em dois. Meu marido, ex-marido, fez de tudo para me consolar. Mas não era possível. Todos os dias, passava horas olhando as fotos de um passado feliz. Não queria me esquecer do sorriso dele. Não poderia. Mas o cheiro dele, que respirava sempre que ele me abraçava, fugira-me. Torturei-me desde que perdi esta memória. Mas é inevitável, nosso cérebro sucumbe ao tempo. Mas não definitivamente, não quando queremos.
Naquele dia, havíamos brigado. Tinha lhe dito para não sair àquela noite. Era tarde e no dia seguinte ele tinha de ir para o cursinho. Não queria ser engenheiro? Tinha de estudar. Mas discutimos. Ele se foi. Quando pedi, contrariada, que levasse um casaco, cria ser uma espécie de armadura mágica que lhe fosse proteger de tudo. Não era. Ele não teve culpa no acidente. Três carros faziam um “racha” na L4 Sul. Ele estava indo para uma festa, mas seu carro foi atingido, ficou totalmente destruído. Não tive coragem de ver seu corpo. Fui covarde. E nunca mais esta ferida cicatrizou em mim. Pensei ter minha vida acabado ali. A partir de então, eu somente vegetava. Todos os dias eram iguais. Meu marido não suportou. E me disse adeus também. Pois ele tinha de continuar. “Você está enraizada nessas memórias dolorosas”. Ele me disse. Não entendia como podia doer menos nele e mais em mim. Ele prosseguiu. Não pude, não poderia. “Depressão”. “Tome estes remédios”. “Tente entrar em uma terapia de grupo”. Foi o que me disse o psiquiatra. Além de um monte de baboseiras em que não prestei atenção. “O quê?” “Olha, tente fazer coisas que lhe deem prazer. Não foi a senhora que morreu. Saia, divirta-se.” Todos queriam que me refizesse. Diziam-me para deixar o luto. “Já faz tanto tempo!” Mas para mim, ele morria todos os dias em meu coração. Sou uma tola, eu sei. Mas ele cresceu em mim. Ele nasceu de mim, era uma parte minha que perdera para sempre. Nunca mais vou ouvir sua voz, nem sentir seu abraço. Recordo os dentinhos perdidos, as noites em claro que passei ao seu lado devido uma gripe forte ou em razão da catapora. Ele gabava-se de nunca ter tido caxumba. “Deveria ser estudado, devo ter a cura desta doença no meu sangue!” Ele dizia umas bobagens tão engraçadas! O que fazer quando se perde tudo de uma vez? Deveríamos sorrir? Comemorar? Não conseguia, não podia fazê-lo. Apesar dos apelos de todos, não podia apagar esta dor de mim. Ela que me dava forças para ainda acordar. Para respirar nessa vida tão injusta.
O que me machucou mais foi o fato dos condutores dos carros envolvidos no racha, terem restado um tempo quase irrisório na prisão. No julgamento, olhavam-me com um olhar de culpa, para comover aos jurados somente. A mim, aquilo nada causou além de ódio. Quando a sentença foi proferida, tive muita raiva do nosso sistema penal, das injustiças que passam impunes e de todas as mortes que ninguém vinga. “O sistema penal visa à reabilitação, a reinserção do apenado na sociedade.” Disse o advogado de defesa, num discurso pomposo, para ludibriar aos jurados e à população. Eu queria expressar minha indignação. Gritar por justiça. Mas me contiveram. Fui retirada do tribunal. Expulsa. Como se a culpada do crime fosse eu e não os monstros sentados frente o juiz encenando rostos piedosos, de uma falsa culpa, por terem tirado a vida de um inocente. Os assassinos, os irresponsáveis, comemoraram a sentença. Não pagariam na mesma letra por seu crime. Usaram o carro como arma, fizeram sua vítima e ficariam um ano ou menos cumprindo pena. Os mortos já estão mortos, os vivos que sambem sobre sua memória. E todos seguiram em frente, culpados ou inocentes, ninguém mais queria lembrar. Menos eu. Não podia esquecer. Queria lembrar das expressões que ele fazia, do jeito esquisito de sorrir, dos olhos castanhos… Ele sorria com o olhar. Mas tudo isto vai se perdendo, aos poucos a fotografia da lembrança vai desbotando e se apagando até que nada mais restará além da minha dor. A “pílula da felicidade” que me receitava o médico iria sobrepujar tudo isto? Será que este placebo curaria toda a saudade que tenho em mim? Bebia num gole os remédios, mais para satisfazer minha irmã que imaginava estar cuidando da caçulinha doente. Ela mudou-se aqui para casa para restar comigo. “Tolice”, eu disse. Mas ela o fez. Não me causou qualquer diferença. Fechei-me para a vida. Fechei-me para as pessoas, no intuito enlouquecido de aguardar a morte.
Hoje, quando fortemente tomada da intenção de dar cabo a minha vida, algo fez nascer uma plantinha vicejante em mim. Num último adeus, fui caminhando pela casa até adentrar no quarto que era dele. Folheei seus cadernos e recordei a sua letra horrenda. “Comprei-lhe tantos cadernos de caligrafia, tudo em vão…” Dentro de um dos cadernos, com a cor amarelada pelo tempo, caiu uma carta escrita por ele sem destinatário. Talvez ele tenha escrito para mim sem o saber, como se quisesse preparar-me para o futuro. Sei que, revelando-me agora aquele pedaço de papel, seu espírito tinha o firme propósito salvar-me a vida. Talvez fosse um milagre, não sei, minha fé desgastara-se muito pela dor. Estava assim escrito com sua letra terrível cujo entendimento era difícil para quem não o conhecesse, mas eu sabia e compreendia tudo que estava ali em verdadeiros hieróglifos.
“O Amor faz com que a nossa vida continue a ter sentido. A partida dos que foram antes de nós ensina-nos a viver melhor, de forma mais séria, mais profunda, de uma forma, inequivocamente, mais autêntica.
Devemos cuidar de todos os que amamos. Aos que partiram, porém, aquilo que lhes podemos dar é o amor àqueles que ficaram cá. Porque estes continuam a precisar de nós, do melhor de nós… e é sempre uma iniquidade quando um amor por quem partiu mata, em alguém, o amor por aqueles que ainda cá estão.
A morte ensina-nos que o Amor é perdoar mais do que vingar; consolar mais do que ser consolado; partilhar mais do que acumular; compreender mais do que julgar; dar, darmo-nos, oferecer o melhor de nós, mais do que termos o que sonhamos.” José Luís Nunes Martins
Estranhamente, senti que ele estava comigo. Chorei mais uma vez, como nunca mais havia conseguido e depois sorri, gargalhei mesmo. Feliz sem saber a razão. Minha irmã assustou-se e pensou que eu tinha perdido de vez o juízo. Mas eu a abracei e agradeci por ter me amado quando ninguém o conseguiria. E ela me abraçou e choramos juntas por minutos até que tive fome e chamei-a para tomar um sorvete na sorveteria que íamos quando crianças. Ela perguntou-me o que fez nascer em mim aquela mudança tão drástica e súbita, eu lhe respondi que, depois de tanto tempo eu reencontrara o filho que havia perdido e ele estava ali, bem ao meu lado e nem nos piores momentos abandonara-me. Mostrei-lhe a carta e entre lágrimas ela agradeceu por ter de volta a irmã que, por tantos anos, havia, na tristeza, se escondido.

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“Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações”
Chico Buarque de Holanda – Vai passar

O Brasil que não se vê na tevê

Giordana Bonifácio

“Salve o lindo pendão da esperança”, que esvoaça aos farrapos no alto de uma velha antena sem uso, sobre um barraco em que os moradores já utilizam a tevê digital. A imagem não tem chuvisco. Não é ótimo, isto? Podemos ser enganados com uma imagem totalmente perfeita. A senhora, dona do barraco, cata latinhas por todo o dia, assim mantém a família. À noite, nada melhor que assistir à televisão. Na novela das nove, uma rica senhora reclama do preço do caviar. A catadora de latinha não sabia o que era isto. A filha pesquisou na internet: “ovas de peixe.” Que nojo! Gritaram em uníssono. A família jamais comeria caviar, mas até a mortadela era algo raro em sua mesa.
Mas a culpa é do cidadão que não pesquisa os preços. A inflação é toda causada pelo consumismo do povo. O governo não tem nada a ver com isto, na verdade, até se esforça para conter a alta dos preços: aumenta os juros. Não para alimentar a gana dos banqueiros, mas para conter o avanço da inflação. Acreditem, é a mais límpida e clara verdade. Os investidores têm de ter onde colocar seu dinheiro escuso. Que seja aqui onde a ilicitude é vista como natural e até normal pela população: “ele rouba, mas faz”.
Mas o povo não deixa de ser desleixado, o consumo de água subiu assustadoramente. Não por culpa das invasões legalizadas pelo governo, nem pelo crescimento demográfico comum às cidades, mas pela sociedade que não sabe como utilizar a água. Gente ignorante é fogo! Não se pode responsabilizar o governo por não ter erigido novos reservatórios. Não, ele até tentou, mas a obra foi parada por desvio de dinheiro e material superfaturado. Pena, a população que arque com as consequências. As pessoas no Brasil não estão acostumadas com a escassez. Devem aprender que a água é o novo petróleo. Aliás, os preços estão até equiparados.
Fez-se a Copa do Mundo nesse nosso grande país de terceiro mundo. Também as Olimpíadas. Prometeu-se despoluir, preservar e reflorestar. O resultado: nadadores disputavam medalhas entre as fezes que boiavam na Baía de Guanabara. O dourado da vitória perdeu o brilho. Literalmente: as medalhas estão descascando e vários atletas pediram para que se fizesse um recall de sua premiação. Vergonhoso? Não, mais ridículos foram os elefantes brancos construídos, estádios enormes e superfaturados que hoje estão a devorar, com a sua preservação, o dinheiro dos impostos do povo.
“Bela bandeira de estrelas rutilantes”. Seria lindo escrever isto em uma poesia, a qual a maioria da população do Brasil jamais leria. Neste país, as pessoas não leem sequer cinco livros por ano. Mas não vamos ser rudes, não se pode dizer que não se gosta de ler no Brasil. Na verdade, as pessoas jamais devem ter tido a oportunidade de relacionar-se com a leitura. As escolas públicas estão em situação deplorável, os professores, recebem salários baixos e nem sequer têm assegurada a sua previdência. E, neste exato momento, o dinheiro público é desviado para paraísos fiscais, pelos políticos que roubam, mas fazem. Os mesmos que prometeram erradicar a pobreza do país, mas só preservaram seus ricos interesses. Oremos.
“Nessa terra, plantando-se, tudo dá”. Sim, monoculturas, que prejudicam o meio ambiente, proliferam-se pelo território brasileiro. Bem como, o uso abusivo de inseticidas, pesticidas e outros venenos que vão parar diretamente na nossa mesa. O resultado: doenças relacionadas a ingestão de tais produtos disseminam-se. E mesmo que saibamos estar comprando veneno, o que podemos fazer? Não se pode deixar de comer.
Nos hospitais superlotados, falta tudo, até mesmo uma simples gaze. Pessoas são esquecidas em cima de macas, ou no chão, esperando um tratamento médico que tarda e muitas vezes, não vem. Quebrou a perna? Aguarde pacientemente a cirurgia. E esta espera poderá durar semanas, na hipótese mais otimista, na realista, meses. Onde estão os nossos impostos? No carro esportivo de luxo do senador. Na última viagem à Europa do Deputado. Mas, muito, muito longe dos hospitais brasileiros.
O transporte público, além de caro é raro. O ônibus, na possibilidade de passar no ponto na hora certa, está invariavelmente lotado. As pessoas apertam-se feito sardinhas. Ninguém quer perder a condução. Pois, além de ser mais uma longa hora de espera, corre-se o risco de não assistir à novela das nove. E isso é inconcebível. Aquele ator lindo com quem as meninas sonham, está no elenco. Dizem que abusou de uma contra-regra, mas quem se importa? O povo brasileiro logo se esquecerá. A memória das massas é irrisória. Logo, logo, o corrupto é absolvido, o assassino perdoado e o lobo pode retornar a cobrir-se com a sua pele de cordeiro.
Muitos temem fantasmas, como se a possibilidade de um ser não vivo fazer-nos mal fosse real. Mas eu temo outro tipo de espectro: os funcionários fantasmas. Estes são bem reais. E causam um mal muito pior que poderia nos causar os seres que não habitam mais este plano, ou habitam, vai saber. Os funcionários fantasmas ganham sem trabalhar. Não servem aos que deveriam servir. Chamam-se servidores, mas não servem a ninguém. São, na realidade, usurpadores. Sugam nosso dinheiro e nada dão em troca. Um dia aparecem, mas só batem o ponto e se vão. Não se sabe mais deles. Dizem que existem, mas, não creio. Não sou daquelas que acreditam em assombração.
”Ciclistas morrem nas pistas”. “Não há ciclovias suficientes”. “Motorista embriagado atropela ciclista”. As notícias repetem-se continuamente. Contudo, nada se faz a respeito. De fato, o que falta é respeito. No trânsito, as pessoas insistem em dirigir alcoolizadas. Os governantes não constroem ciclovias, as bicicletas disputam um lugar em uma luta desigual. Não há como vencê-la, pois só Davi poderia vencer Golias. Fora do texto bíblico, automóveis e caminhões derrotam a bike que resta retorcida no asfalto enquanto mais uma vida é perdida na batalha cruel das ruas. O motorista foge sem prestar socorro. E as manchetes dos jornais retratam a triste realidade do nosso tráfego enlouquecido.
Coisa chata esta de dizer a verdade. É mais fácil criar uma história e fazer sonhar. Mas o meu intuito, é o inverso: quero acordar. Abrir os olhos desse gigante adormecido que nem sabe a força que tem. Poderia evitar tudo isto, se ouvisse estes apelos ensandecidos. Mas crê que tudo é normal. Morrer na fila do hospital público? Banal. Ter dinheiro para conversor digital, mas não para medicamento? Aceitável. O ensino público sofrível? Absolutamente corriqueiro. Bilhões investidos na Copa do Mundo e Olimpíada com nenhum retorno? Trivial. Fim da contribuição sindical que só teve como consequência o enriquecimento de sindicatos corruptos? Isto não, é inaceitável. É escravidão.
Mas o povo não sabe o que defender, está confuso em meio a uma chuva de notícias falsas e verdadeiras, em que dois lados, absolutamente iguais, disputam o poder. O que os diferem? A cor da camisa que usam. Fora disto, roubam, matam e fazem tudo de mais escuso para permanecer no poder. Enquanto isto a bandeira brasileira continua a tremular. Não pelo vento, mas de pavor de tudo que vem acontecendo. Contudo, diante desta enorme convulsão social continua a “dormir a nossa pátria mãe tão distraída sem saber que é subtraída em tenebrosas transações”. Mas o que importa é a televisão digital, cujas emissoras informam o que quer da maneira que lhes é mais favorável, mas invejem os demais países: em alta resolução!

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“Deus existe mesmo quando não há.
Mas o demônio não precisa existir para haver.”
(Guimarães Rosa- Grande Sertão: Veredas)

O jogo entre Deus e o diabo

Giordana Bonifácio

Deus e o diabo, numa peleja eterna, jogam com os homens. Fizeram assim com o pobre do Jó. Comigo fazem decerto da mesma maneira. Chega Deus e diz: “esta é uma mulher íntegra e reta, temente a Deus e que se desvia do mal”. Mas o cramulhão duvida da minha hombridade e responde ao Todo poderoso: “sei não, essa aí fraqueja com uma dorzinha de dente”. Então o Pai, que põe a mão no fogo por seus filhos, retruca: “quer apostar? Lá vai uma cólica vesicular”. Vejo estrelas e, no começo do jogo, já começo a encomendar a minha alma. Sequer suspeitava do que estava por vir. Porém, não me fez maldizer minha vida esta convalescência. Mas seria somente o início da disputa, algo meio Hunger Games. Acho que até cheguei a ver uma mulher de cabelo rosa gritar ao microfone: “que os Jogos Vorazes comecem e que a sorte esteja sempre a seu favor”.
Pois é. Outro dia, caí no banheiro e o vidro do box talhou-me o braço com um corte que levou mais de 10 pontos. Ok, ok, sobrevivi. Só perdi sangue pra caramba. Mas foi apenas o susto. “Deus estava comigo”. Disse, na oportunidade, deixando o capiroto louco de raiva. Então, fui vítima de assaltos que levaram de mim tudo o que a muito custo conquistara. “Pô, Senhor, caraca,” eu pensei, “por que eu?” Mas não dizem que Ele escreve certo por linhas tortas? Aceitei a dor. Prossegui. Contudo, o capeta não se dá por vencido. Com a minha idade já avançando resolveu: “será que ela se daria bem com um hipotireoidismo?” Deus, todo confiante, “claro que sim. Toma-lhe!” Está certo, estou aqui. Não desisti ainda. Vou continuar. O pulso ainda pulsa. Comecei a correr para ajudar na perda de peso e no controle no problema da tireoide. Mas não é que os Dois estavam achando o jogo divertido? Lesionei os dois pés o que me impediu de continuar exercitando-me. Mas o pulso ainda pulsa. Fisioterapia existe para quê? Então, o filhote de cruz-credo tomou consciência de que não me atingiria deste modo, pois a saúde frágil sempre me foi uma constante e a matéria é substituível. Então, começou a atormentar-me com o meu calcanhar de Aquiles. Minhas crônicas e contos foram criticados e menosprezados por inúmeras editoras. Algumas aniquilaram minhas pretensões artísticas. Mais uma vez, recolhi os cacos do meu orgulho, respirei fundo e disse: “tudo bem, um dia, o moundo compreenderá o valor da minha arte.”.
Sabe quando a gente joga ludo e o peão inimigo “come” sua peça e você é obrigado a regressar ao início? Chato, né? É como me sinto, às vezes. Como dizem: “eu devo ter sido um balde na última encarnação tantas foram as vezes que cheguei ao fundo do poço e retornei”. Mas, tal qual um carrinho importado da china, eu bato e volto. Ninguém sabe toda a dor que senti. Todavia, nas palavras da grande “pensadora contemporânea” Shakira: “Estoy aqui”. Levanto-me destruída e enfrento o meu algoz: “já acabou, Jéssica?”. Mas o belzebu ainda tem cartas na manga. Deus joga limpo, mas o diabo é o pior adversário que pode haver: não consegue disputar honestamente. Claro, não é do seu feitio. Fausto está aí para provar o que digo. A gente nunca ganha num contrato assinado com o capeta. Sempre somos desvalidos de mais do que queríamos receber nesse acordo que será sempre malfadado. Por isso, prefiro estar ao lado dos mocinhos. Mas confesso: não é fácil.
Quando o bem e o mal estão numa contenda por sua alma, aí é que a coisa degringola de vez. A gente anda numa corda bamba, cabe a nós escolhermos para qual lado vamos pender. Apesar de toda a prova a que fui submetida, nada disso fez-me jogar a toalha. É verdade que, teve momentos que pensei mesmo em desistir de tudo, mas minha teimosia levou-me a continuar. A roda da fortuna tem seus altos e baixos. Caí, levantei, bati a poeira e segui. “Keep walking”. Mas se você é abstêmio como eu, prefira o lema da Dory em Procurando Nemo: “Continue a nadar, continue a nadar”! “Pois o certo é que Deus não rejeita o íntegro e não fortalece as mãos dos que fazem o mal.” Diria Jó, quando desafiaram sua fé.
Na verdade, eu tenho muito medo de falhar. Ainda que tenha vencido as últimas batalhas, não sou um bom soldado. A carne é fraca e meu espírito ainda não está preparado. Tenho medo dos leões na minha cova. Os desafios estão cada vez mais difíceis. Preciso guiar-me pela luz, ainda que seja tão só uma chama bruxuleante em meio às trevas. Nessa contenda entre o Yin e o Yang, só eu sairei prejudicada.
Mas, como disse, o anjo caído ainda reservava algo para mim: a velhice dos meus avós. É triste ver entes tão queridos sofrerem tanto em seus últimos anos de vida. O tempo não corre mansinho, mas aos tropeços. E a gente o sente chegar desajeitado, derrubando tudo, instalando-se em nossos músculos, ossos e tendões. Tudo em nós resta frágil e quebradiço. O corpo é o templo do senhor, muito embora, ao final, tenha o mesmo destino do templo de Salomão, nada dele restará. “Do pó viestes ao pó retornarás”. A vida vira história.
Dói em mim a senescência dos meus avós. Saber que a morte está mais próxima a cada minuto que se passa… Uma bomba relógio prestes a explodir. Mas, nesse caso, nem mesmo cortar o fio azul desativa o explosivo. A inexorabilidade do tempo é real. Esta foi a revelação mais assustadora que me atingiu. Sim, atingiu-me, tal qual uma bala de fuzil, abrindo-me um rombo no peito. Fiquei triste, pelo sofrimento de meus ascendentes. Mesmo assim, creio que deve haver alguma razão divina para a morte. Ainda que não consiga compreender qual seja. Não tenho o espírito tão elevado como julgam alguns.
“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa existir para haver.” Cito o mais sertanejo de nossos escritores: Guimarães Rosa. Nessa guerra de haveres quem sai vitorioso? Tenho medo. Essa é minha maior fraqueza. O medo afasta-nos do caminho certo. Pois se tememos é porque não confiamos e, ao contrário, devemos entregar-nos completamente ao bem maior. Mas somos homens de pouca fé, sempre duvidamos. E somos, assim, surpreendidos pela verdade. Temos de cuidar de nossos arados, pois, nas sábias palavras do autor de Grande Sertão: Veredas, “a colheita é comum, mas o capinar é sozinho.” Tendo em vista que, quando o momento derradeiro chegar, “bem-aventurados serão aqueles servos a quem o senhor, quando vier, os encontrará vigilantes… Quer ele venha na segunda vigília, quer na terceira, bem-aventurados serão eles, se assim os achar.” Lc. 12. 37, 38.
A nossa vida está em disputa num imenso jogo de xadrez entre Deus e o Diabo, ganhará quem possuir a melhor estratégia. Mas penso que Deus deixa o mal tomar a dianteira, para depois dar o golpe de misericórdia. Xeque-mate: esta alma está salva. Como jogadores de baseball que correm em disparada para vencer o deslocamento da bola e chegarem à base antes daquela. Para, no fim, ouvir com um grande alívio: está salvo! “O diabo está na rua no meio do redemoinho”, segundo o grande Guimarães. O capiroto está em meio ao nosso turbilhão de emoções e da bagunça que é a nossa vida. Não sei quem vai ganhar a disputa por meu espírito, mas espero que o bem vença. Não é à toa que torcia sempre para o He-man ganhar do Esqueleto e para o Munrá voltar a ser múmia depois de ser derrotado pelos Thundercats. Temos todos boa índole. Cabe só sabermos cultivar a vinha. Ninguém quer virar churrasquinho no inferno, não é? Mesmo que não creia que há realmente um. Mas vai saber…

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“A morte é uma de duas coisas… Ou é aniquilação,
e os mortos não têm consciência de qualquer coisa;
ou, como nos é dito, é realmente uma mudança:
uma migração da alma de um lugar para outro.”
Sócrates

A experiência

Giordana Bonifácio

Estou escrevendo este e-mail no auge do meu desespero. A morte é certa e tenho que dividir minha dor com os outros de minha espécie. Descobri que o universo não está resumido a nossa minúscula sabedoria de vida. Mas quando compreendi isto, já foi muito, muito tarde. O conhecimento que possuímos é mínimo. Somos seres rudes, comparados ao que existe além do que nossos olhos podem ver. Os homens olham as estrelas e sequer imaginam o que há além do vazio, o que ainda está além do nosso alcance. Penso que os primeiros navegadores sofreram dos mesmos temores que nos cercam, hoje: monstros terríveis, queda no fim da abóbada terrestre, morte e tragédia. Incrível como somos assaltados pelos mesmos medos, ou, talvez, deles nunca nos desfizemos. Minha imaginação é muito restrita para descrever estes últimos dias no laboratório. Não consigo escolher as melhores palavras para informar ao mundo o que descobrimos. E temo que já seja tarde demais. Talvez, ninguém tenha sobrevivido. Talvez, agora, sejamos apenas uma vaga lembrança na memória dos seres que passaram por aqui. Não sei se podemos designar alienígenas por seres. Eles estão vivos, então devem ser seres. Ou espécimes, ou “a experiência”, como costumávamos denominar a amostra que analisávamos no laboratório. Não nos parecia perigosa, de início. Era um tipo de musgo que reagia a eletricidade. Foi encontrado no casco de uma nave enviada a Marte. Achávamos que se tratava de algum vegetal marciano. Estudamo-lo por anos e nada indicava o que iria acontecer. Eu era o engenheiro químico chefe da “Missão Marte”, um trabalho de pesquisas ultrassecretas dos Estados Unidos. Éramos cientistas de várias áreas do conhecimento e de inúmeros países estudando os resultados da última missão no planeta vermelho. Chamo-me, ou, ao menos, chamava-me, Michael Jones Collins, estava entusiasmado com nossas descobertas a respeito “da experiência”. Os geneticistas diziam nunca terem visto um ser como aquele. Regenerava-se e parecia sobreviver as condições mais adversas de frio e pressão. Estávamos abismados com nossas descobertas. Mas quando pensávamos saber tudo sobre o ser que grudou no casco da nave que aterrissou em solo marciano, ela finalmente apresentou todo o seu risco.
Um dos geneticistas foi recolher com uma seringa um pedaço do corpo daquele musgo de cor avermelhada. Mas, por acidente, picou o próprio dedo e uma gota de sangue caiu sobre “a experiência”. Imediatamente, a esta foi ativada, pois ao que me parece, antes de ser provocada, ela parecia inerte. Esperava pelas vítimas. Não imaginava que um musgo poderia ser um perigosíssimo espécime de predador. O ser grudou-se ao dedo do cientista e alimentava-se da carne com voracidade e sua cor avermelhada fosca foi ganhando um avermelhado vivo e mortal. O cientista tentava retirar de si aquele musgo que crescia à medida que o consumia, mas, em pouco tempo, este já cobria todo o braço do nosso colega. Uma cobertura vegetal formou-se sobre George e logo descobrimos ser, este estranho espécime, um monstro terrível e letal. O ser alimentava-se vorazmente de nosso colega, mas não sabíamos o que fazer, o monstro regenerava-se sempre que lhe cortávamos uma parte. Então, não tivemos escolha: arrancamos o braço do cientista. E conseguimos recolher o monstro a um ambiente fechado de onde não poderia disseminar-se para atacar outras pessoas. Fizemos todos os procedimentos de saúde no nosso colega. Porém, descobrimos, que todo o tempo que ficamos a estudar “a experiência” não foi o suficiente para a conhecer verdadeiramente. Ela distribuía esporos no corpo do ser atacado e devorava o hospedeiro até não sobrar nada dele. Nem sequer os ossos. Após termos feito os procedimentos de desinfecção normal exigido num momento como o que passamos, encaminhamos George, a primeira vítima, ao quarto dele para que descansasse. No dia seguinte, o homem não mais existia. Tinha virado parte daquele musgo que se alastrou pelas dependências da estação pelos dutos de ar. Não acreditávamos que aquele ser poderia pensar e atacar a presa com tamanha astúcia e dissimulação. Muitos dos nossos cientistas despertaram com o musgo sobre si. Sugando-lhe o sangue, comendo seus órgãos, desintegrando-lhes feito um ácido e o mostro tornava-se assim, maior e mais mortal. Espalhava-se pelo edifício e nada parecia detê-lo. Quando nos demos conta da morte certa, era demasiado tarde. Só fomos nos conscientizar da quantidade de vítimas no início do expediente, quando um número expressivo de empregados não compareceu ao laboratório. Mas, ao procurarmo-los em seus aposentos, nada achamos. Sequer uma mera gota de sangue.
Eu logo percebi que aquilo não era normal. Fui ver o espécime isolado no laboratório e este se espalhava pela parede do cubículo em que estava, tal qual uma praga. Então, procurei George em seu quarto, a ausência dele fez-me imaginar que algo errado acontecia. Reportei-me ao chefe da missão que logo acionou o alarme. Mas não sabíamos contra o que lutávamos e a experiência disseminava-se por todo duto e ar do laboratório. Ela poderia separar-se e ainda assim, comunicar-se entre as suas partes. Um cérebro vivo que devorava a carne humana. A inteligência desse monstro era fenomenal. Escondia-se e planejava um modo de alimentar-se de todos que encontrava. Foi então, que descobri que aquele musgo não conseguia ultrapassar as roupas de isolamento. Travamos uma luta homérica contra o cérebro alienígena. Mas ele, incrivelmente, parecia bem mais esperto que nós. Era como se todo o tempo que pensávamos estar o estudando era ele que nos submetia a uma imensa e pormenorizada pesquisa. Um predador avaliando suas presas. Muitas foram as vítimas desse monstro. Tivemos alguns avanços. Descobrimos que não sobrevivia ao fogo e foi então que planejamos queimar todo o edifício. Mas esquecemos da encanação e o monstro espalhou-se nos arredores do laboratório feito uma praga. Fui um dos pouquíssimos sobreviventes da primeira infestação. Foi com o presente de Prometeu que o atacamos, nas cidades mais próximas, colocávamos fogo sobre tudo, até espalhamos gasolina em chamas pela encanação. Foram tentativas inócuas, o alienígena era uma máquina predadora. Diziam os jornais tratar-se do monstro do juízo final.
Então, fizemos nossa derradeira e mais desesperada tentativa: bombas atômicas, que devastariam grande parte dos Estados Unidos, mas nos deixariam livre do monstro. E, desta forma, salvaríamos a raça humana do extermínio certo. Quem lê agora, se for humano, tenha certeza que fizemos de tudo para salvar o planeta. Agora, creio que o musgo extraterrestre devorou toda a vida de Marte. Após, isto, entrou em hibernação. Até seus instintos serem de novo acionados por uma mísera gota de sangue. Eu escrevi este e-mail pouco antes de as bombas serem lançadas. Quem teve contato com o monstro não foi poupado devido aos esporos. Não se sabe ainda como desinfestar o corpo humano deles. Eu vi e vivi o terror e tenho que dividir minhas experiências com vocês. Sejam mais espertos. A raça humana é extremamente adaptável, não vamos nos deixar destruir por uma porcaria de vegetal alienígena! O fogo os destrói as baixas temperaturas conduzem-no de volta ao estado de hibernação. Ele pensa em conjunto, então, todas as partes devem ser pulverizadas no mesmo momento. De posse destas informações vitais, desejo-lhes sorte. Queria dizer algumas belas palavras para coroar o fim do meu e-mail de despedida, mas só me recordo de uma citação que li na internet a que deferiam a autoria a Sócrates: “A morte é uma de duas coisas… Ou é aniquilação, e os mortos não têm consciência de qualquer coisa; ou, como nos é dito, é realmente uma mudança: uma migração da alma de um lugar para outro.” Espero que minha alma siga para os Campos Elíseos e eu possa perguntar a Sócrates se este meu réquiem é mesmo do famoso filósofo. Adeus Terra. Adeus vida. O engraçado é que, por mais longa que seja nossa existência, sempre achamos que a morte chega num piscar de olhos. E o pior: a gente nunca está preparado para o nosso momento derradeiro. Não fiz tudo o que queria, nem o que deveria. Maldição! No fim, achava que iria viver para sempre. O mais estranho é que nós, seres humanos, estamos sempre errados quanto ao futuro. Afinal, só espero que haja um devir para nós.

Michael Jones Collins, 30 de março de 2034.

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