lua

“Pinto as coisas como as imagino e não como as vejo”.
Pablo Picasso

Cores

Giordana Bonifácio

Pessoas tristes, em um fim de dia cinza, esperam o ônibus no ponto. Estudantes voltam da escola num amargo blues. Laranjas verdes esperam ser compradas na barraca de um feirante. Sorrisos amarelos são trocados por conhecidos na rua: “Nossa, você por aqui”? Um pingado para acordar os que ainda não despertaram. “Mas o dia já termina”! Bandeiras vermelhas, que não mais significam o que foram no passado, tremulam nas mãos de manifestantes. Do outro lado, usa-se verde e amarelo para defender o país. Será? Lutam todos pelo que nem sabem de pés no chão, que se confundem com o vermelho do solo. Em contraponto, nos hotéis cinco estrelas, políticos, sem qualquer pudor, enchem a boca de róseas lagostas e lagostins. O povo entre nuvens brancas de gás lacrimogêneo, pensa ser o fator de mudança no país. Mas tudo continua do jeito que sempre foi. Não importa a cor da farda de quem entre ou de quem ficou. E o nosso imposto? Em verdes notas de dólares, está escondido num paraíso fiscal.
Gizes brancos e quadros negros. Nada mais, além de torneiras quebradas, paredes rachadas e cobertas de negro mofo. Os olhos avermelhados dos estudantes denotam alergia e não choro. Mas bem que o poderia ser, a situação da educação pública no Brasil leva fácil qualquer um às lágrimas. Lençóis que nunca mais foram brancos, banheiros sujos, camas e material hospitalar em falta, esta é a imagem da saúde no país. Uma lua sorridente no céu, cheia de tanta política, pede-nos para calar nossas vozes. “Como está linda esta noite…” Luzes laranjas de mercúrio acendem em sequência. “Vamos que já é noite” Pichações de todas as cores fazem-se mais visíveis que a arte do grafite. Em um outdoor verde e vermelho tenta-se convencer o transeunte a beber um novo refrigerante. “É a maior curtição”!
Os faróis luminosos fazem da estrada uma imensa cobra iluminada, dourada pelas luzes, enorme em função do engarrafamento. Lábios arroxeados pelo frio e envelhecidos pelo tempo, sibilam ave-marias numa igreja próxima. “Amém”. Papelões pardos servem de cama para os mendigos que vão sofrer no frio da madrugada. Corpos hirtos durante a noite, tão encolhidos que parecem fetos no útero da mãe. Luzes de neon lilases brilham anunciando um novo bar com música ao vivo. “Vamos lá tomar umas cervas”?
A bandeira tremula em verde e ouro. Flâmula tão vilipendiada que, se perdesse as suas cores cada vez que desonram o desenvolvimento do Brasil, seria um pano branco que demanda paz e não ordem e progresso. Um violinista interpreta, na entrada do metrô, “As quatro estações” num inverno muito diferente do esbranquiçado da Europa. Não temos neve. Aqui tudo fica seco, árvores tortas sobrevivem a seis meses sem uma gota d’água. O solo vermelho, ferruginoso, que deu origem ao cerrado brasileiro entranha-se nos sapatos e cabelos. A nuvem de poeira sobe na noite escura, carros vão de lá para cá e ninguém pergunta ao pó de onde vêm. Estrelas pontilham o céu, como pequenas pedrinhas alvas em uma tela cor de ébano. São a luz de um passado em que sequer vivíamos. Algumas nem existem mais, mas a sua luminosidade ainda chega até nós. Para nos lembrar de um passado que não podemos esquecer. Ainda que o queiramos.
Seria bom acordar num sonho cor de rosa e desvanecer nesse pesadelo real. Meninos tão homens que trabalham, juntam moedas prateadas de 50 centavos vendendo balas nos ônibus. “É para ajudar minha irmã que está com câncer…” Ipês roxos de flores rosas deixam mais bonita a noite tão fria. “Esse é o nosso colorido”. “Somos um povo de todas as cores”. “Temos um país alegre e cheio de cor”. Luzes artificiais fazem mais pálida a pele dos doentes na fila de espera do hospital. “Tantas horas nessa agonia, tenho medo de morrer…” Mas ninguém morre. Porque Deus é tão bom que preserva a vida dos que penam, ou demasiado ruim para lhes alongar o sofrimento. Homens em ternos pretos, com bíblias sob os braços, dizem espalhar a fé em Nosso Senhor, mas cobram por cada palavra disseminada. Será um novo sentido para a parábola do semeador?
Gatos fazem sinfonias nos telhados da capital, o que importa se são rajados, pretos ou acinzentados se, à noite, todos estes felinos são pardos? Um bêbado recita poesias de Cruz e Souza. “Gargalha, ri, num riso de tormenta,/como um palhaço, que desengonçado,/nervoso, ri, num riso absurdo, inflado/de uma ironia e de uma dor violenta”. Eis tal cisne negro que enfeita o lago espelho desta noite. Um Van Gogh não saberia usar tão bem as cores, nesse quadro em que a pintura é presente. Sim, um presente… de grego! Saia Ulisses desse cavalo de madeira e destrua Tróia de uma vez. O pior é que não existe Helena cujo sequestro possamos culpar. “Vamos eleger um bode expiatório”! E a paz voltou a reinar em Brasília.
Elefantes brancos deram cria em todos os cantos do Brasil. Herança da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Mas que belo legado! É incrível a quantidade de água que estes paquidermes consomem. Vide Mané Garrincha, estádio de Brasília. Quem liga para racionamento? O mais importante é que o estádio custou um bilhão. Pena que mais da metade escorreu para os bolsos dos governantes e o restante, mal investido, fez um estádio mais instável que vidro. Ainda não se sabe para que servem estes monumentos ao desperdício, além de devorarem notas de cem azuis de real. São vorazes, comem milhões todo ano. Belo legado, ano que vem os governantes pensam o que fazer com eles. Devem servir para algo. Talvez algum dia descubram para quê.
No dia que se aproxima, mais políticos amanhecerão rubros de vergonha. A Lava Jato está lavando as suas máscaras de sujeira, deixando à mostra as suas caras-de-pau. O presidente que balança mais não cai, aumentará mais uma vez os impostos. O brasileiro não irá se importar em pagar mais, pelos roubos deles. Afinal, a conta sobra sempre para o povo. Como ninguém se manifesta, deve mesmo estar concordando com tudo. Ou este povo brasileiro perdeu de vez a fé no mundo. A esperança foi mesmo a última a morrer. O que lhes resta? Narizes vermelhos de palhaço para usarem na próxima manifestação que não ocorrerá. Pena. Assim, só se eterniza a festa da propina.
A noite, com sua escuridão sonolenta, cobre este hemisfério, do outro lado do mundo é claro dia. A estrela mãe brilha quente e amarela. Em algum lugar, uma criança desenha este sol, com olhinhos e sorriso vermelho. A noite tem uma lua em forma de vírgula e olhos azuis. Aonde que São Jorge se esconde? Só dá para vê-lo quando a lua está cheia e brilha muito. Nos outros dias, penso que ele se muda para a Terra com o seu dragão. Fica numa das suas muitas igrejas. Ser santo tem as suas vantagens…
Garis em alaranjado recolhem sacos de lixo, trabalho duro, que só fazem durante a noite. Correm com os sacos nas mãos para lançarem-nos nos caminhões de lixo. Fazem isto conversando, rindo e brincando. Felizes sem motivo… Ou com um único só: o de estarem vivos. Guardas do Detran em amarelo e negro fazem uma blits na estrada, nesta madrugada gélida, ficam esperando os motoristas mais afoitos que beberam e foram dirigir. Quando fisgam um, este, se submetido ao teste do bafômetro e acusar a presença de álcool, volta a pé para casa, se for uma quantidade anormal, fica mofando na cadeia. Muitos espertinhos são fisgados nesta estranha pescaria.
Esta noite parece uma pintura cheia de cores. Uma peça expressionista em que se mostram todos os personagens que polvilham de acontecimentos esse texto, com exceção de um que permanece oculto. Frente à tela em branco, ora já coberta de frases e orações, está um artista que, ao lado de sua inseparável xícara de café preto, imaginou tudo que se passou nesse curto conto. Pintou de muitas tintas esse maravilhoso quadro, sentado frente a máquina que destoa com a sua luz no quarto escuro. Este, meus caros, é o camarada escritor. Um pintor cujo pincel são as palavras e cujo quadro são os livros. Faz, este renomado artista que ninguém conhece, maravilhosas obras com cores inigualáveis, usando só do preto e branco. Uma espécie de Carlitos que faz “irreverências mil à noite do Brasil”.

 

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