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“… minhas histórias são sempre
coisas que de fato aconteceram”.
Elvira Vigna

Se eu quiser falar com Deus…

Giordana Bonifácio

-Badalam os sinos ao meio dia. Como está atrasada! Estes que vêm ali são homens ou santos?
-Às vezes homens, outras, santos. Não são muito assíduos em sua santidade. As pessoas são assim. É a vida que levam. “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.
-Gostei, João Guimarães Rosa.
-Sim, o Senhor conhece tudo realmente.
-Estive presente quando o ilustre escritor sertanejo criou o Grande Sertão: Veredas. Não há obra-prima que desconheça.
-Mas, o senhor aceitou fácil que o Riobaldo tenha feito o pacto com o “coisa ruim”?
-Coisa ruim?
-O sete-peles…
-Quem?
-O cramulhão, o santanás, o capeta, o caído…
-Pare, claro que sei de quem você está falando. O engraçado é que os homens acreditem que ele exista realmente. O mal está no coração das pessoas. Riobaldo queria ter forças para vencer Hermóneges e os Judas, um poder que estava todo tempo dentro de si, mas, por não o saber, foi promover um pacto com um suposto diabo para, sob a forma de Urutu-branco, conseguir vencer o bando de Hermógenes.
– Mestre, não sabia que entendia tanto assim de literatura.
– Não há o que aconteça na Terra que não o saiba, meu caro. Pobres homens, acreditam que estamos longe deles, que não sabemos as suas aflições. Eles têm tanto medo… A cada passo, um novo temor. Temem perder o emprego, não serem aprovados, não serem amados, não terem dinheiro, não conseguir um destaque na firma. Tudo é uma preocupação para eles. Não sabem o quão simples é viver. Um dia de casa vez. Sem se afobar, o futuro, Eu garanto.
– “Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo”.
-Não é tão perigoso quanto os homens supõem. Aprende-se todo dia um novo saber. E essa é a vida. Nesse ponto concordo com Guimarães Rosa. Criei os homens para descobrirem o mundo, sempre em busca de novidades. Claro, que fui traído pela curiosidade deles. Mas, mesmo longe do Paraíso, criaram um mundo estupendo. São tantas coisas, tantas novidades que lhes tornam a vida mais fácil. Tenho orgulho de ter soprado o barro e, desta forma, dado-lhes vida.
-Mas e a morte, meu Senhor? Por que todos devem passar por ela?
-Ah, a morte. “A morte é para os que morrem”. A vida é uma travessia. Ninguém vê a poesia que há nisto… Mas, pudera, os homens não compreendem sequer a vida, irão compreender a morte? Freud dizia: “se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte”. Mas ao contrário, sentem pavor. Fugindo da morte como o diabo da cruz.
-O Senhor é quem manda, a gente só obedece.
-Não mando em nada. Sei os caminhos de cada homem, todos criados por sua escolha, é o livre-arbítrio. Não posso obrigá-los a seguir os meus passos. Mas quando me procuram estou sempre pronto a ajudar. Nem que os seja ouvindo por horas e horas, relatarem-Me a sua pena. Dizem-me que a sua cruz está pesada. Não sabem que a do meu Filho pesava ainda mais.
-Eles não suportam o sofrer com tanta facilidade, são fracos.
-Na verdade, meu caro, são bem mais fortes do que pensam. Não lhes concedo um fado que não possam carregar. Pois conheço cada um como a Mim mesmo. E levo-os Comigo, quando me buscam de algum modo.
-Algum modo?
-Sim, os homens procuram-Me por várias religiões que no fim acabam sempre em Mim.
-Mas eles não discutem tanto que uma religião vale mais que outra… E que esta ou aquela é pagã. E outras disputas insensatas que se tornam até mesmo guerras violentas?
-Os homens estão cegos pelo poder e pelo dinheiro, quando se discriminam por causa da religião que professam, buscam mais fiéis para o seu culto, não para render graças a Mim, mas para satisfazer a sua cobiça pelo vil metal.
-E o pior é que sabem que quando morrem nada levam consigo. Deixam tudo que acumularam e sequer usufruíram.
-Sim. Deixam o mundo assim como vieram a ele. Acertam suas contas comigo e acabam por lamentar terem perdido tanto tempo com o que não era realmente importante. Victor Hugo, o famoso escritor francês, na sua hora, disse-me: “a vida já é curta, mas nós tornamo-la ainda mais curta, desperdiçando tempo”… No momento final, todos pedem mais alguns anos, para deixarem os filhos encaminhados, para ajudar o pai idoso,,, Em fim, nunca estão preparados.
-Todos temem a morte. Retratam-na como uma ceifadora de capa preta que leva os homens sem piedade.
-Falando nisto, deixei-a com uma aparência mais moderna, uma luz ofuscante que leva os homens. Quando seguem por ela, a dor finda, sem traumas. Mas, mesmo assim, os Meus filhos, não a veem com olhos melhores. Eu os disse: “do pó vieste ao pó retornarás”. Porém, a passagem final continua, para eles, muito difícil.
– Já pensou em fazer um upgrade na morte, deixa-la isenta de dor? Ou talvez prazerosa?
-Está louco? Por uma pequenina dificuldade os homens já tentam tirar a própria vida, imagina se a morte for isenta de sofrimento?
-É mesmo uma solução um tanto estúpida.
-Tenho de fazê-los amar este presente que lhes conferi. Sêneca dizia: “apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida”. Se os homens escutassem o que estes sábios diziam, o Meu trabalho seria bem mais fácil.
-Muitos homens não leem. Alguns por nunca terem aprendido, outros por não o quererem.
-É triste que tantos não tenham acesso à boa educação. E ainda mais que outros a desprezem, porque não os ensinaram a amar os estudos. E a causa principal deste fato é ter, a verba da educação, escoado pelos canos da corrupção.
-Não pode o Senhor fazer nada a respeito?
-Estaria interferindo no livre-arbítrio dos políticos que fazem tanto mal ao seu país corrompendo-se e sendo corrompidos. Posso amenizar a dor da ferida, mas não a curar.
– Os homens têm de ter compaixão pelo próximo.
– Um cara muito bom lá da Terra, conhecido como Martin Luther King dizia: “temos de aprender a viver todos como irmãos ou morreremos todos como loucos”. Eu apreciava bastante seus discursos.
-Há certos homens que nascem especiais…
-Todos os meus filhos são especiais. Cada um só precisa descobrir a sua luz interior. Mas será que ela não vai chegar? Ah, Graças a Mim… Bem-vinda ao céu, Dona Elvira Vigna, vamos ter um bocadinho de conversa e depois o meu amigo Rafael vai lhe apresentar as nossas, digamos, acomodações. É um grande prazer tê-la conosco novamente.

 

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