bebe a nadar sozinho

“Continue a nadar, continue a nadar”.
Dory

 

Nada que o mundo anda

Giordana Bonifácio

 

A gente prende a respiração e mergulha. A água quente toca a pele num arrepio bom. Vou nadando cortando de um canto a outro a extensão da piscina. O mais incrível é que, quando tinha a obrigação de nadar, não gostava de fazê-lo. Agora, proporciona-me um alívio estar em contato com este elemento tão instável. A gente sou eu e minha alma. Eu e meu corpo. Eu e o tempo que goteja com a água em minhas mãos. Cruzo novamente a piscina com facilidade. O som da água espirrando com minhas pernadas é reconfortante. Quem será que ensinou o homem a nadar? Será que já nascíamos sabendo? Como os bebês que nadam logo após o parto como se tivessem de volta ao seu próprio elemento?
A cada braçada deixo um tanto de dor para trás. A água está morna e consoladora. Sinto-me envolta em líquido amniótico e de volta ao útero de minha mãe. Aqui, livre dos sons ao redor, escutando bem distante o ruído do mundo. O mundo me circunda, mas estou protegida dele. Sem medo, sem lamentações e dúvidas. É só esquecer, lavar-se do mal da Terra. O que poderia me ferir, nesta solidão repleta de sentimentos e água?
Os meus olhos, protegidos pelos óculos de natação, veem uma realidade embaçada. Mas não se preocupem: é só água. Sem ter muita certeza do que sinto, vou seguindo, primeiro no nado crawl, depois, peito, costas e borboleta. Sou livre para ser peixe quando a vida me quer humana. Desobedecendo quando tudo nos obriga a obedecer. Nem vou dizer o porquê. Não me vou justificar. “Quem manda em mim sou eu”! Se quero calar, mergulho fundo para não sair um só som de meus lábios. Se quero respirar, subo à superfície, mas por pouco tempo. O mínimo para lembrar que não tenho guelras e sou humana, ainda.
Não vou me desatrelar do mundo das águas. Narizinho que conheceu o Príncipe Escamado. Sei dizer sim quando me convém. Mas, se não me interessa, digo não mesmo. Porém, para a água, que me aceita plenamente, digo sim. Sem reservas, ela deixa-me invadir seu reino. Esfria a espinha com um raio de dor. Tem de ser assim, ninguém entra em uma outra dimensão sem um tanto de desconforto. Contudo, depois, é só o prazer de estar a sós consigo.
Meu dia termina com a suavidade da água, o cheiro forte de cloro e com a fadiga sendo lavada de mim. Quem me poderia negar este prazer? O trabalho que me inunda de preocupações? A minha família que me enche de obrigações? Ou a minha consciência que me faz transbordar de responsabilidades? Não, ninguém pode me furtar este momento a sós comigo, em que me conheço mais plenamente. Conheço-me verdadeiramente, sem máscaras e disfarces. Eu sou quem nada nesta piscina cheia de mágoas.
O sonho do homem é triunfar sobre si mesmo. A cada nova conquista tentamos provar que nos podemos vencer. Sou mais forte do que era há um ano atrás. Você também. Todos nós. O ruim é termos de aprender com nossos erros. A gente não nasce sabendo tudo, só a nadar. Coisa estranha, né? Mas, se não praticamos, até esta sabedoria primeva, desaprendemos.
Nosso elemento mais desafiador sempre foi o mar. Tínhamos ao seu respeito muito medo e curiosidade. Fomos aprendendo a domá-lo. Mas ele não amansou. É uma fera selvagem da qual a natureza não se desvencilhou. Sempre há o perigo de, em algum momento, sofrermos um novo ataque. Não feche os olhos para o mar. Ele é um amigo traiçoeiro. Não hesita em apunhalar-nos nas costas quando distraídos. Nem caberá nos valer da frase de Júlio César: “tu quoque, tu quoque”. Pois era mais que sabido que não poderíamos confiar-lhe a nossa vida plenamente.
Não existem Hidras de Lerna, mas outros perigos vivem nas águas e nos ameaçam. Feras como tubarões, correntezas que podem afogar o nadador mais experiente, peixes venenosos como o baiacu, e outras ameaças que, se não formos sagazes, levam-nos mais cedo para o reino dos céus.
Bem que o Paraíso poderia ser feito de água e não de ar. Nuvens são muito fofas, mas não se pode nadar sobre elas. Jesus poderia ter aproveitado para dar um mergulho no mar, mas preferiu andar sobre ele. Dá para entender? Um oceano inteiro para divertir-se, fez Ele, do mar, uma enorme calçada. “Mulher de pouca fé”. Dir-me-ia, mas, é ou não é um desperdício? Nadar é tão mais prazeroso que andar, a água nos acolhe. Abraça-nos o ar vira-nos a costas e deixa-nos sob nossa própria vontade.
A água é mais mãe que a terra. Podemos sobreviver sem comer por um mês, mas sem beber água por apenas por quatro dias. A importância da água é enorme. Fartar-nos de água será muito raro no futuro. O presente mostra que tudo aponta para um intensificamento da escassez. Nossos netos não terão tanta água limpa como nós temos hoje. Na verdade, o líquido da vida, em sua forma mais pura, será uma raridade. A água será mais cara que o petróleo. Ouro cristalino que desperdiçamos soberbos e despreocupados, como se fossemos o ter em abundância para sempre. Mas não dizem que “água mole, pedra dura, tanto bate até que fura”? Um dia a gente aprende. Tenho fé nisto.
Eu emerjo das águas profundas do meu ser. E estou ainda mais limpa do que fui. Não há quem me obrigue a ser o que não sou. Sou eu que sou o que sou. Sou mais clara que um lago de água cristalina. Todos me podem ver por dentro. De cara lavada, aceito o julgamento do mundo. Se me condenam, é porque não me compreendem. Sou muito franca, minha sinceridade sobrepõe-se a mim. Mas não me vou dar o luxo de falhar. Que seja do meu jeito agora. Mesmo que escreva torto por linhas retas. (Minha letra nunca foi lá estas coisas. Todos que me conhecem o sabem bem).
A água em que não respiro, faz-me sorver o ar com mais vontade. Um minuto sem respirar já nos lembra o quão importante é, para nós, encher nossos pulmões com oxigênio. Ainda que este gás mate-nos aos poucos oxidando-nos e envelhecendo-nos. Mas a água é onde nasceu a vida. Há milhões de anos sequer respirávamos. A evolução caminha para a morte. Fomos transformando-nos em seres aeróbicos e esquecemo-nos da mãe da vida: a água.
A água é tão essencial que é o primeiro sinal que a Nasa procura num planeta para ser este capaz de portar vida. E questionam-se logo se poderíamos viver lá. Fazer nossa casa num outro lugar, já que destruímos onde morávamos. E, então, vamos devastando cada planeta em que vamos pousando até que todo o universo seja um vazio tomado de lixo.
Ouço a chuva que cai lá fora. Saio da piscina procurando a textura fofa da toalha. Os pés pisam o chão. Estou respirando. Sou o primeiro ser que abandonou o ambiente aquático para viver na terra. Minhas guelras desapareceram. Necessito de ar. Solto meu cabelo da touca e retiro meus óculos de natação. O mundo está embaçado e vultos vão de cá para lá. Súbito, lembro-me da minha miopia, coloco os meus óculos e tudo volta a ser como era antes. Lentes de vidro fazem da minha vida mais compreensível. Ainda que realmente não a consiga entender. Vou dizer o que acho: um dia vou morrer. E o pó a que retornarei será levado pelas águas da chuva a um rio, que, por sua vez, desaguará no mar. Pois para mim o ditado é meio diferente: do mar vieste ao mar retornará. E serei aquática e anaeróbica novamente. Bactéria minúscula que só o que quer da vida é evoluir e um dia andar. Para, depois, lamentar-se por ter abandonado por livre escolha e vontade seu lar ulterior: o mar.

 

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