coração

“Quem segue o coração é o pulmão, ninguém mais”
Carpinejar.

Prosopopeia

Giordana Bonifácio

Um fim de tarde febril. Nenhuma nuvem passeava no céu. As árvores não sentiam uma mínima brisa soprar-lhes entre os galhos. Nas ruas, apenas cães vadios caminhavam felizes com sua liberdade, apesar de famintos e sedentos. Um bem-te-vi mentia em gritos agudos na varanda. O relógio da sala compassado, marcava, um tempo que não se podia reter. Quando badalou as seis horas, sereno e magnânimo, como os sinos da capela Sistina, o trem passou, cobra de metal que estalava suas articulações e soltava baforadas de fumaça que lhe seguiam o caminho. Maritacas barulhentas faziam algazarra nas árvores da praça, pousando ora em uma mangueira, ora no telhado das casas próximas.
Aos poucos, “as coisas” iam se assentando, o mundo desacelerava. Os olhos descansavam no pôr-do-sol. O coração sentia um tanto assim de melancolia. Saudades da época em que batia faceiro, sem amarras, tempo em que tudo era uma aventura. Mas agora, agora nem trota mais, é um músculo sedentário, só não para de vez porque não quer morrer. Quem seguiria tão covarde coração?
A rede balançava lânguida, ia de cá para lá, para fazer adormecer. Lá longe, roupas secavam no varal cheirando a amaciante e sabão em pó, esperavam estendidas que alguém as recolhesse. Senão, ficavam por lá mesmo. Se ventasse, pairavam sobre os muros até tombar na terra. Talvez, porque gostassem de embolarem-se sensuais na máquina de lavar. Calças enroscavam-se em vestidos sem qualquer pudor. Pervertidas!
O céu ia avermelhando-se, pois amava em segredo a lua. Era só ela chegar que ele enrubescia, depois trocava de roupa e vestia-se em black tie com um terno negro coberto de estrelas. A lua, com seu véu de luar, vivia a orbitar no céu. Porém, nunca lhe deu muitas esperanças. Ela era uma celibatária convicta, não estava interessada em relacionamentos sérios. O céu sofria e, vez em quando, chorava estrelas cadentes.
As luzes dos postes abriam os olhos em um despertar em cadeia. Ficavam a perscrutar a vida da vizinhança, sempre a observar tudo. Fofoqueiras!
Na janela em frente, um cigarro queimava numa brasa incandescente. No escuro, era tudo que se via. Não queriam sair da escuridão os lábios que o amparavam. Melhor. O cérebro nem quer se esforçar para manter um papo inteligente. Ultimamente, fazia a boca tão somente resmungar contra o jantar frio, o barulho das crianças e o som da tevê alto demais. Melhor deixar o silêncio reinar sobre os ambientes. Mudo que é, não perguntava do encanamento da cozinha, não obrigava a pôr o lixo para fora ou levar o cachorro para passear. Por isso, é o amigo que todos queriam ter. Além de guardar segredo sobre tudo. Não abria o bico por nada!
Gatos de rua derrubaram num estrondo uma lata de lixo, rebeldes, não se espantaram com o ralhar das vozes nervosas. Só desistiram do seu intento quando uma sandália voou certeira em sua direção. Num miado forte, reclamaram de sua algoz e abandonaram a lixeira.
Um rádio começou a tocar uma melodia triste. Chorava de dor numa língua estrangeira.
O ambiente foi tomado por um cheiro de canja delicioso, cujo intento principal era abrir o apetite do estômago. E o corpo, ainda preguiçoso, levantou-se. Gigante desperto pela necessidade básica de comer. Iria em direção ao alimento. De dentro da casa, surgiu uma voz aguda e forte: “o jantar espera sobre a mesa da cozinha”. O homem, faminto, pôs fim a este conto: o estômago a tudo domina. “Quem segue o coração é o pulmão, ninguém mais”, já dizia Carpinejar. Vida que segue.

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: