rato-ratao-gravata

“Os ratos vão roer – já roeram!- todo o dinheiro!…”
Dyonélio Machado – Os ratos

Um homem, não um rato.

Giordana Bonifácio

Ouve o som do carro. Um Corola freia bruscamente. O motorista grita impropérios para ninguém. O outro carro já ia longe. O tempo estava absurdamente quente. Ele nem suava. Difícil suar em Brasília. O ar seco não colabora, é como se cozinhássemos. O calor forte deixava-o zonzo. Talvez, por não ter comido nada. Não tinha muito o que comer em casa, era o combustível ou os pães do café. Comprara só o suficiente para a mãe idosa comer pela manhã. “E você, meu filho”? “Eu me viro”. Queria ganhar o dinheiro das entregas para pagar o combustível e comprar o suficiente para comerem no dia seguinte. Mas até agora, parado há horas perto da Rodoviária, nenhum trabalho surgira e não parecia que mudaria tal situação. Encarou seus olhos no retrovisor: “Você tinha de ser o orgulho de seus pais… E o que você é? Seu bosta, seu merda? Nada”. Esperou que o silêncio lhe dissesse algo. Mas teve de engolir a verdade, sem sequer um gole d’água. O sol brilhava ultrajante. Redemoinhos formavam-se na poeira dos gramados. Seco. Quente. O pó subia vermelho, aderindo a lataria dos automóveis. “Eu não tenho como lavar o carro”. Pensava. “Deveria vender esta lata velha e comprar uma moto. Mas mamãe tem medo de motocicletas. Sonhou que eu morreria num acidente. Chorou a manhã inteira. “‘Quem cuidaria de mim’? Soluçava… Fiquei com dó”. Sorriu da inocência da velha. Súbito o celular vibrou, ele atendeu rapidamente. “Sim, sou office boy, mas trabalho com carro. É, é estranho. Mas não confio muito em veículos de duas rodas. Assim, posso fazer entregas maiores. Bolos de casamento, pizzas, móveis, minha fiorino carrega tudo e mais um pouco. Se posso fazer uma entrega para uma festa de quinze anos? Lógico. Conheço essa casa de festas, fica no Park Way, não é? Sim, às 18h. O serviço fica em R$ 100,00, pois são muitas coisas a se transportar. Sim. OK. Fechado. Chego à loja no Núcleo Bandeirante às 17h30”. Olhou no relógio: 14h38. O estômago roncava-lhe. Mas pelo jeito, só teria algo para comer à noite. Comeria um hambúrguer no McDonalds da Candangolândia e levaria batatas-fritas para a mãe. Ela ficaria feliz. Ele ficaria feliz. E no dia seguinte haveria pão no café e leite. E, se quisesse esbanjar, queijo.
Estava com sede. Mas não tinha sequer o suficiente para um copinho de água mineral. Se parasse em alguma loja, talvez lhe dessem água para beber. Mas tem gente ruim que costuma pegar água da privada. Queria dizer-lhes que era pobre, mas era um ser humano. Humano. Não um bicho. Não um rato. Um homem.
Tinha de levar comida para casa como qualquer um. “Minha mãe é idosa, mas faz crochê para ajudar no orçamento. Só que os tempos estão difíceis, ninguém compra nada”. O relógio de pulso começou a tiquetaquear na sua cabeça e os prédios cresceram ao seu redor. Abriu a porta do carro. Tinha de respirar. O ar não vinha e o seu estômago embrulhou-se e só não vomitou porque não havia o que pôr para fora. Um guarda veio ao seu encontro. “O senhor está bem”? A voz do policial chegava-lhe distante. “Não, acho que a minha pressão caiu”. O guarda distorcido, parecia mais alto, já ele, estava menor que um rato. “Preciso beber água”. Alguém lhe trouxe um copo. Bebeu o conteúdo que parecia ser de água pura, se não estava enganado. O oficial queria que ele fosse a um hospital, mas ele declinou da proposta. Tinha muito a fazer. Um homem tem de pôr comida na mesa. Ele era um homem, não um rato. Pensou em ir à casa de um velho amigo, no Guará I. Ele, com certeza, não lhe negaria um tanto de comida. O sol escaldante deixava-o tonto, lerdo. Nem pensava direito. Por sorte não causara nenhum acidente.
A casa parecia-lhe ameaçadora. Teria forças para pedir o que comer? “Quem depende da bondade alheia, não é um homem, é um fraco. Não merece viver. O mundo é para os fortes. Não para os maricas”. Era o que lhe dizia seu pai. Ele era sapateiro, mas não lhe passou o ofício. Queria que o filho estudasse, para ser gente, não rato. Tocou a campainha. Uma senhora apareceu. “O Luciano está?” “Não, está na faculdade. Quem gostaria de falar com ele”? “Sou um velho amigo da escola, vim fazer-lhe uma visita, mas já que ele não está vou embora”. Sorriu amarelo com vergonha de sua situação. “Ok, falo para ele que você esteve aqui”. “Ok. Até a vista”. O carro engasgou duas vezes até partir. Ele ficou constrangido, pois a senhora olhava-o de forma inquisitiva. Ela deveria estar se perguntando o que ele realmente queria ali. Mas ele não tinha coragem de dizer que desejava comer, nem que fosse um pão dormido. O sol não dava trégua. O corpo, debilitado, também não. A mente fraquejava e seus reflexos estavam mais lentos. “Um homem, não um rato”. Pensou. Se não fosse tão orgulhoso, imploraria e mendigaria para comer. Mas ele tem seus brios.
Um golpe de sorte fez o telefone vibrar novamente. “Sim, faço transporte de móveis. Uma escrivaninha do Recanto das Emas para o Riacho Fundo? Sim, eu anoto o endereço. Cobro R$70,00 para o transporte, se tiver de subir escadas R$100,00. Agora? Sim, claro. Chego em alguns minutos. “O trabalho dignifica o homem”. Diria seu pai. Ele ganharia o suficiente para almoçar. As pernas ainda estavam bambas, mas tinham de aguentar subir dois andares. O carro deslizou até o endereço combinado. A esperança de ter algum dinheiro fez com que ele ficasse mais forte, conseguiu trazer a escrivaninha para o carro e depois carregá-la por dois andares no Riacho Fundo. “Posso pagar com cheque”? Foi o que ouvira após ter concluído o transporte. “Não, eu não trabalho com cheque, amigo. Só com dinheiro”. “Então passe aqui no mesmo horário amanhã que lhe darei a quantia devida”. O peso da escrivaninha caiu-lhe de uma vez sobre os ombros. “Senhor… Eu preciso do dinheiro… Não posso esperar para amanhã”. “Não confia em mim? Se estou dizendo que pago amanhã, eu pago amanhã”. “Eu tenho uma mãe idosa…” “Não dá para esperar? Qual a diferença que fará um dia na sua vida”? Ele não teve coragem de dizer que não tinha almoçado e sequer tomado café da manhã. Não discutiu. Restou com a promessa de receber o dinheiro no dia seguinte. E também com a fome de não ter comido nada o dia inteiro.
Os prédios avançavam sobre a pista e a afunilavam como se quisessem tolher-lhe os caminhos. Ele avançava sabe-se lá como. O carro parecia um autômato cuja inteligência artificial fazia-lhe chegar sem auxílio do homem aonde este último pretendesse ir. Chegou ao Núcleo Bandeirante mais pela força de vontade do carro que pelo esforço do motorista. O sol já arrefecia e o calor já não era tão grande. Mas o pobre homem não conseguia sequer ter fé na possibilidade de receber algum dinheiro hoje. “O suficiente para comer e para a gasolina”. Ainda que quase nenhuma energia lhe sobrasse, transportou os aperitivos da festa, colocou-os todos no carro e garantiu que não tombariam com o movimento do veículo. No momento de demandar seu pagamento, o homem, constrangido, estendeu a mão. E a mão que lhe retribuiu o gesto, para sua surpresa, vinha, na direção da outra, trazendo consigo uma nota de R$ 100,00. O azul do papel moeda cegou-o por alguns instantes, incrédulo, tocou-o com as duas mãos. Era realmente dinheiro. A poção mágica que fazia de ratos, homens. Ou fazia de homens, ratos, em casos bem específicos da política.
Ele ficou algum tempo com a nota na mão. Sentia vontade de chorar. A senhora do buffet perguntou se não era o que tinham contratado. “Sim, sim. Está tudo, ok. Muito obrigado”. Partiu com os olhos marejados. Deixou as encomendas na casa de festas e seguiu para abastecer o automóvel. Metade de seus lucros restaram no posto e, com o restante, pode comprar tão só o suficiente para a carne do almoço e os pães do café da manhã. Tinha o bastante até para o jantar. E, também, havia a promessa dos cem reais para o dia seguinte. Ele não comeu o Big Mac com o que sonhava. Isto porque, para ele, comer no McDonalds fá-lo-ia tão homem quanto os que habitam nestas mansões bonitas cujos muros escondem a vida dos mais abastados. Na casa dele não há muros, mas um portãozinho que rangia toda vez que era aberto. E uma jabuticabeira que nunca dera frutos. E muitos sonhos que jamais ultrapassaram as venezianas das janelas. Presos que estão às lembranças do passado. Nas memórias de um pai falecido cuja morte fez homem, um jovem, que acabara de entrar no ensino médio. Era tão só um menino que teve de abdicar do futuro para alimentar a mãe idosa. De bens, só tinha a velha fiorino com o que trazia o pão de cada dia. Apesar de, nem sempre, Deus ouvir as suas preces. Às vezes, guardavam, mãe e filho, a fome para o dia seguinte. Mas por sorte, naquela noite, havia carne e pão, que juntos resultaram num sanduíche cujo sabor superava com louvor àquele vendido a R$8,00 pela multinacional de fast food. E, pelo menos, naquele momento, o rapaz considerava-se um homem e não um rato.

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