27315e

“Mas não chores, que no meu dia,
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem”.
Cecília Meireles

O pesadelo que se vive

Giordana Bonifácio

Fecho os olhos: “está tudo bem”, tento inutilmente convencer-me disto. Os dias doem-me e o futuro chega rápido demais. Não estou preparada! Esperem um segundo para que eu possa respirar. Sorvi o ar límpido e fresco. Abri os olhos. Tudo está em seu perfeito local. Menos eu. Estranho, não é? Sou uma peça perdida de um outro quebra-cabeça. Não me encaixo em nenhum lugar. Dizem que nós que devemos nos adaptar ao mundo. Então, devo ser uma extraterrestre. Na minha carteira de identidade está escrito: Rosa Lima Valência. Mas estou com medo que eu não seja quem dizem que sou. Um nome não é referência. Um nome é um nome, tal qual casa, cadeira ou flor.
Por falar em flor, há um buquê sobre a mesa a espera que eu lhe coloque num vaso. Não sei se devo fazer isto. Comprei-o na feira hoje de manhã. Naquele momento, pareceu-me belo. Mas tão rápido entrei em meu apartamento, a beleza desbotou. Ele destoava naquele ambiente. Era bonito demais para mim. Será que o merecia? Peguei as flores e tive raiva. Raiva de não ser bonita assim. Então agarrei-as para que se desfizessem entre meus dedos. As pétalas caíram. “Caim, onde está teu irmão”? Dizia-me o meu reflexo no espelho. Chorei. Por que? Não sei, as lágrimas surgiam sem razão. Talvez, por não haver pena para o pecado que cometi. Fiquei de joelhos velando o outrora lindo buquê. “Sinto muito”. Escapou-me. Mas ele era meu. Tinha direito de fazer o que quisesse. Se queria destruí-lo, poderia fazê-lo. Quem me condenaria? “E agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para receber da tua mão o sangue do teu irmão”.
Peguei os restos mortais do meu mais recente pecado e despejei na lixeira da cozinha. Estava tudo impecavelmente arrumado. Eu, em minha insana fúria, queria o caos. Pois só isso retrataria a dor que habita em minha alma. “Eu. Eu. Eu”. Criticam-me por preocupar-me tanto com que sou. Mas se o meu maior problema é ser, por que imaginariam que falaria de outro alguém? “Você está muito bonita”. Ele disse-me. As flores eram bonitas também. “Lírios do campo que crescem; não trabalham nem fiam; e nem mesmo o rei Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”. Alvos, incólumes, inocentes. A culpa era toda minha. “Meu Deus, porque me abandonastes”?
Fecho os olhos, mais uma vez. Concentro-me no som do relógio da sala. O tempo: a Parca que fia nossa vida, marcando as horas, os minutos e os segundos de nossa existência na Terra. Uma bomba relógio prestes a explodir. Nunca saberia como desarmá-la. “Corte o fio azul”, diriam. Mas meu coração obrigar-me-ia a cortar o vermelho. Um filme sem final feliz.
Fui até a sala. O relógio pendurado na parede era por demais ameaçador. Joguei-o no chão. Porém ainda funcionava. Enfiei a mão no visor quebrado para arrancar os ponteiros da minha vítima. Cortei-me e meu sangue pingou sobre o alvo tapete das horas. Mesmo destruído, o bravo guerreiro continuava a mentir o tempo. Tiquetaqueava, mesmo sem poder dizer-me quanto faltava. Mas para o quê?
A lua que brilhava no céu dizia-me: é noite. O silêncio do apartamento confessava-me: sou só eu e você, solidão. Todavia, o relógio não parava. Como se não o pudesse deter. “Eu já combati moinhos de vento”. Respondi à máquina ameaçadora. O corte em minha mão ardia. Peguei um lenço e amarrei-o sobre o ferimento. Uma nódoa vermelha rapidamente se formou no tecido branco. Maculei a alvura do pano. Igual a um pintor que na primeira pincelada já desiste de seu quadro. Mas não há como apagar o que se pintou. Não há?
Queria dormir e esquecer de acordar no outro dia. Restar eternamente num sonho. Por que permanecer neste pesadelo que se vive? Ouvi o som de passos na rua. Corri para a janela. Um senhor cruzava a avenida. Pensei em lhe apelar por socorro: “salve-me”. Mas ele já ia distante. Segurei o choro. Entretanto, uma lágrima misturou-se ao sangue em minha mão.
O relógio permanecia mentindo. Caído sobre o chão, ainda que derrubado, jazia vitorioso. Não posso vencê-lo. Ninguém pode. Desisti de tentar. Deixei-o sozinho na sala, contando horas que não se viam. Fui para o quarto. Sob o criado, um livro de Hugo contava-me sobre uma Paris histórica que não mais existe. O mundo mudou. Só eu permaneço a mesma. “Você continua como antigamente”. Como eu era quando eu era o que sabia que era, mas não sou o que fui. Eu fui, mas não sou mais. “Hoje sou”. Diz-me o meu coração. Mas não o que era antes. Não sou a mesma. Não sou. Sou, mas não o que fui. Sou o que sou. Algo totalmente novo que ainda não compreendo.
Minha mão ferida dói. Mas algo em mim doía mais. Porém, não entendia o quê. Talvez por amar um sentimento que persiste como uma erva-daninha em meu peito, devorando a flor que em mim vicejava. Hugo dizia que “o amor é como uma árvore: cresce por si mesmo, lança profundamente suas raízes em todo o nosso ser, e continua sempre a verdejar num coração em ruínas”. Estranho querer algo que só me faz sofrer. Uma loucura. Uma paixão inexplicável. Mas não designada por Eros. Penso que me foi apresentada pela flecha de Tânatos. Não são gêmeos o amor e a morte? Desejo o sepulcral destino dos fracos. Amo o fim, são três letras de cada palavra que, para mim, associam-se. Alfa e ômega que guardam o mundo em si. “E o inexplicável é que quanto mais cega a paixão, mais tenaz. É sem se apoiar em razão alguma que ela é mais firme”. Repito Hugo.
Querem que me explique? São Cinco os Motivos da Rosa: “Meus olhos te ofereço:/espelho para a face/que terás, no meu verso,/quando, depois que passes,/jamais ninguém te esqueça”. Este foi o primeiro, que roubo de Cecília. Pois as palavras já me faltam. Não sei como definir a dor que me aflige. Ela lateja ainda mais que o ferimento em minha mão. A dor determina, o amor pede e o desejo quer.
Segue o Segundo Motivo da Rosa: “Sem terra, nem estrelas, brilhas, presa /a meu sonho, insensível à beleza /que és e não sabes, porque não me escutas…” Lírios não são rosas. As rosas calam. Mas a simplicidade dos lírios grita. Tive de emudecê-los.
Mais um motivo que me impinge dizê-lo: “Se Omar te visse/esta manhã, /talvez sorvesse com meiguice /teu cheiro de mel e maçã. /Talvez em suas mãos morenas /te tomasse, e dissesse apenas: /“É curta a vida, minha irmã””. O relógio destruído sobre o piso continuava a contar um tempo etéreo. Pois lhe tomei os ponteiros que me determinavam maldosamente a vida. Agora, obrigo-o a mentir.
Também é meu o quarto motivo, que vem de Cecília e não de mim: “Não te aflijas com a pétala que voa: /também é ser, deixar de ser assim”. Desfolhada, estou a esperar, presa, neste imenso jardim. Quem vai enfim podar o roseiral? O fim é um término em si? Um ponto, uma vírgula? O que será que espera por mim?
Mas ainda falta o quinto motivo que conclui o poema de Meireles. Ela escreve o que sinto melhor do que eu. Pois, para lhes dizer a verdade, eu minto. “Não sou eu, mas sim o perfume /que em ti me conserva e resume /o resto, que as horas consomem”. Segue tempo, na sua terrível condição, fazendo perecer tudo o que sente o coração.
São estes os meus cinco motivos, que tomei de Cecília, que dizem o que sou mais do que eu sei de mim. Os versos são brancos, mas, sobre mim, cobrem-se de nódoas. Quem consegue ser puro assim? Meu relógio bate tiquetaqueando a dor que existe em si. Contando-me o tempo sem ponteiros. Sem saber quando será realmente o término de meus dias. A parca destroçada agoniza num tique e taque seco e resoluto.
Minha mão para de sangrar. Desfaço-me do lenço. Fico olhando para o ferimento. Uma ferida visível. Diferente das outras que possuo. Só posso ver a mágoa em minha alma quando se traduz em lágrimas. Mas aquela estava ali. Para me dizer: sofra. Eu respondo, tão somente, sim. Coloquei o dedo na ferida. Ai. Suspiro. Foi melhor assim. Nunca saberia falar as ilusões que despejei aqui. Mas lhes previno. Nem tudo aqui é verdadeiro. É ouro de tolo. Apesar de reluzir, não tem valor. Se quiserem, podem tomar para si. Não me fará falta. É só uma pétala que caiu de minha corola. Um fio de cabelo branco que me condena: “não sou tão velha assim”!
Eu destrocei os lírios com as mãos. Feri-os com meus espinhos. Pois eram belos. Muito belos. Uma beleza contundente, que me dizia o quanto eu era cruel. Depois desferi meu ódio sobre a moira na sala. Para apagar o tempo, para torna-lo invisível e indefinido. “Só eu posso dizer os anos que vivi”. Tomei-lhe os ponteiros com que me fiava a vida, pois ela é minha e dela faço o que quiser. Mas, valente, ele permaneceu no seu caminhar inexorável. Escondi a verdade, contudo ela permanecia ali. Dizendo ora que sim, ora que não, pulsando-me revolta no peito. A isto, costumam dizer, chama-se coração.

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: