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“He’s a real nowhere man
Sitting in his nowhere land
Making all his nowhere plans
for nobody

Doesn’t have a point of view
Knows not where he’s going to
Isn’t he a bit like you and me?”
The Nowhere man – The Beatles

O homem de lugar nenhum

Giordana Bonifácio

Eu sou o homem de lugar nenhum. Vivo entre sites de relacionamento, ora detonando, ora ovacionando políticos que pouco se interessam pelo povo. Sou o homem que o tempo excretou. Sou a consequência da ausência de boa educação e costumes. O homem que foi digerido pela mídia e defecado na internet. Sou o homem que não tem nacionalidade, estou ora aqui, ora ali. Nem cá, nem lá. Sou massa de manobra. Sou o dejeto fétido da nossa nação. Sou o homem destruído. O projeto rejeitado da nossa criação. Sou o homem retratado em inúmeras selfies demonstrando uma falsa alegria que nunca tive. Não sou real. Sou um fake. Você não me conhece, mas compartilha as frases pseudoliterárias que crio e confiro a autoria a escritores famosos. Sou o homem abjeto que defende a submissão feminina e a discrepância entre os sexos. Sou o homem que esconde o seu preconceito sob uma máscara amistosa e na rede mundial de computadores espalha posts racistas e misóginos sem qualquer culpa. Sou o homem que arrota caviar e come sardinha. Sou aquele que permanece a madrugada na internet procrastinando trabalhos que deveriam ter sido concluídos há semanas. Sou o homem que comete a mais cruel das violências: a calúnia. Sou o homem que espalha falsas notícias de morte de alguém famoso, para divertir-me com os comentários de condolências daqueles a quem engano. Sou o ridículo. Sou o patético. Sou o insignificante que quer ser visto ao menos uma vez. Sou o idiota que faz piada com a dor alheia. Sou o monstro que libera os seus desejos sexuais em trens e ônibus, esfregando-se nas mulheres, pois sei que isto não vai dar em nada. “No máximo, serei repreendido numa delegacia. Na qual a mulher chorosa vai se dizer deveras humilhada. Paciência”. Sou o homem que defende a morte de negros, homossexuais e nordestinos, pois me creio pertencer a uma raça ariana pura que nunca existiu no Brasil. Sou o homem que vai a estádios não para assistir a jogos de futebol, mas para confrontar violentamente a torcida adversária. Vou tomar minha bandeira cujo mastro é uma arma e vou agredir um inocente até a morte porque cometeu o crime imperdoável de não escolher o mesmo time que eu.
Sou o homem que mistura papelão à carne para conseguir angariar mais lucro com a minha empresa frigorífica. Sou quem se diz Cristão e não age segundo os ditames da sua religião. Na verdade, acredito que, se rezar com fé, eu posso descumprir as lições de solidariedade e compaixão que Jesus pregava. Sei que não basta ajoelhar-me na frente dos outros, mas enquanto o juízo final não vem, vou vivendo segundo meus próprios conceitos. Ainda que os saiba errados. Sou o homem que ludibria, sou o homem que rouba, sou o homem que mata. Sou o homem que lincha o criminoso, ainda isto me faça tão criminoso quanto ele. Sou o homem-porco. Na verdade, não dá para distinguir quem é porco e quem é homem. Vivo num requintado chiqueiro protegido por câmeras e seguranças. Ninguém pode adentrar na pocilga em que vivo com a minha família. Sou o homem que destrata a empregada doméstica que me serve. Sou aquele que fura o sinal vermelho para não perder tempo e por isso atropelo uma criança. Por medo da represália, fujo sem prestar socorro. Abandonando, assim, minha vítima agonizante no chão. Sou o homem que assiste as notícias acreditando estar longe de tudo, sequer me comovendo com o sofrimento dos miseráveis. Tranco-me na minha cobertura à beira-mar enquanto os pobres vivem em barracos sob pontes ou em favelas. Sou o homem que se diverte em shoppings, centros da sociedade capitalista de consumo, enquanto prego o socialismo. Ainda que tenha um iPhone de última geração e ande com roupas de grife, prego uma igualdade falsa, em que os únicos privilegiados são os membros do meu partido. Sou o homem que quer desmantelar o tráfico de drogas, mas não dispensa uma cheirada em festas e eventos. Sou o homem que prefere não ver a verdade e fico repetindo mil vezes uma mentira até que eu passe acreditar cegamente nela.
Sou o homem que não se solidariza com a mulher raquítica que, com uma criança no colo, pede esmolas nos cruzamentos. Aquele que prega a beleza do corpo, discriminando quem não se enquadra no padrão estético determinado pela sociedade. Sou o homem que faz bullying com aqueles que não têm como se defender e em tom jocoso digo: “era só brincadeira”. Ainda que saiba que tal “brincadeira” vai marcar a minha vítima para sempre. Sou o homem que bate na esposa para provar sua masculinidade, pois caso não o faça, seria chamado de broxa ou “mandado-pela-mulher” por outros homens tão minúsculos quanto eu. Sou o homem que estupra, sem se preocupar com a dignidade feminina, pois penso serem “coisas” de uso dos machos. Sou o homem que degrada a natureza, joga lixo nas ruas, faz queimadas e despeja esgoto nos rios, tudo isto sem me preocupar com impacto ambiental de minhas ações. Sou aquele rico dono de mineradora que não cuidou das barragens de dejetos até que uma se rompeu, destruiu cidades e poluiu sem retorno um rio inteiro. Sou o homem que venera bandidos tomando-lhes autógrafos e fotos, devido a sua notoriedade pública. Sou o homem retrógado que impede a evolução da sociedade por pavor de perder o meu emprego. Sou o homem que prefere não se atualizar ou estudar para impulsionar a minha carreira. Sou o homem que se contenta com migalhas de bolsas distribuídas pelos governantes, pois assim não necessito trabalhar para saciar a minha fome e dos meus filhos. Sou o homem que comete crimes, mas, pela minha condição econômica, creio-me acima da lei. Para mim, quando desvendado meu esquema de fraudes e corrupção, o juiz que preside o meu processo, não passa de um “juizeco” muito aquém da minha importância. Sou o homem que causa enormes engarrafamentos, pois passo em baixa velocidade assim que vejo um acidente, não para ajudar, mas, ver as consequências do atropelamento de pedestres e motos e da colisão de veículos.
Sou o homem que consome bebidas alcoolicas em festas e shows e ainda assim conduz o seu carro, embora saiba que desta forma possa matar. Assumo o risco de vitimar inocentes, porque não quero deixar meu conforto de lado, mesmo que seja possível não voltar para casa nunca mais. Sou o homem que destrói veículos alheios em protestos. Não sei se desfrutam da minha ideologia, mas atear fogo em algo faz a nossa causa bem mais visível. Sou aquele que depreda patrimônio público por diversão. Picho muros e placas, num visível sinal de desrespeito. Sou um vândalo que, ao invés de fazer arte como os grafiteiros, quero deixar suja e feia a própria cidade em que vivo. Sou o médico que não vai aos plantões nos hospitais públicos e bato o ponto ainda que não tenha trabalhado. Sou o homem que frauda a previdência e toma para si a aposentadoria de pessoas que trabalharam a vida toda e no final da vida, se veem sem nada. Sou o aluno que vai para escola somente para se divertir, deixando de lado o estudo, desconsiderando o esforço do professor para ensinar o seu arcabouço cultural. Sou o marido que trai sua mulher sem a menor culpa, apesar de isto poder desestruturar a sua família. Sou o pai que não paga a pensão alimentícia do filho, mesmo que saiba a dependência daquele dinheiro para seus estudos e subsistência. Sou o jovem que perturba a paz familiar, sendo violento com seus pais ou avós. Sou o literato que não vê a realidade a sua volta e se isola na sua arte. Sou o passageiro que senta nos assentos preferenciais e sequer se levanta quando um deficiente ou mulher grávida adentra no transporte público. Sou um homem podre. Sou um ser ignóbil. Mas não sou um homem qualquer, eu sou aquele que se vê todo dia no espelho e repete-se angustiadamente que naquela manhã tudo seria diferente. Muito embora, nada tenha feito para mudar a si. Repetindo comportamentos como um rato de laboratório condicionado a agir sempre da mesma maneira, a procura de reforços positivos das suas ações nos likes inverídicos que recebe no facebook. “He’s as blind as he can be/Just sees what he wants to see”. Muito prazer, eu sou você.

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