luto

“Só as pessoas que amamos morrem.
Só a sua morte é absoluta separação.”
José Luís Nunes Martins

O luto

Giordana Bonifácio

Um dia. Dois dias. Três dias. Quatro, cinco, seis, uma semana, um mês, um ano. Dois anos. Três. Quatro. Quanto tempo isto iria durar? Às vezes achava que o mundo doía em mim. Queria ter fé. Esperança. Mas tudo estava coberto de cinzas. Tudo. Mas meus olhos nem choravam mais. Não. A dor ficara seca. Permanente. Como um espinho encravado na alma. Ai, quantos momentos ficaram no passado. Uma vida inteira. Vivia para me recordar disso. O meu sol nascia no Norte, não mais no Este. Nas terras mais gélidas do Alasca. Lá estava meu coração, congelado no meio de um iceberg. Meu pranto curvou-se à força do tempo. A semente secou antes de nascer o broto. O futuro não é mais uma promessa, mas uma pena a mim imposta. Dedilham o piano, os meus dedos, tentando fazer música para acalmar este sofrer. Só acalmar. Não sabia como findá-lo. Acredite, eu tentei. Quis mentir para mim. Dizer que poderia recomeçar. Mas não, perdera tudo num lance de dados. É que a morte joga com os homens. Ela beija seus dados viciados e condena a todos nós. Eu… Meu Deus, se tudo tivesse sido diferente… Eu deveria ter dito tanto. Mas me calei em meu orgulho. E ele se foi. Sim, para sempre. Todo o sempre. E eu tive medo de dizer o quanto importava para mim. Foi numa noite fria, era outono. Disse-lhe para vestir um casaco. Ele retornou para se cobrir como havia pedido. Pensei que um simples blusão poderia protegê-lo. Mas, na verdade, nossas precauções são inúteis. Quando deve findar a nossa vida, as Parcas sequer hesitam em cortar o fio que nos prende aqui. E ele partiu. Dividindo meu coração em dois. Meu marido, ex-marido, fez de tudo para me consolar. Mas não era possível. Todos os dias, passava horas olhando as fotos de um passado feliz. Não queria me esquecer do sorriso dele. Não poderia. Mas o cheiro dele, que respirava sempre que ele me abraçava, fugira-me. Torturei-me desde que perdi esta memória. Mas é inevitável, nosso cérebro sucumbe ao tempo. Mas não definitivamente, não quando queremos.
Naquele dia, havíamos brigado. Tinha lhe dito para não sair àquela noite. Era tarde e no dia seguinte ele tinha de ir para o cursinho. Não queria ser engenheiro? Tinha de estudar. Mas discutimos. Ele se foi. Quando pedi, contrariada, que levasse um casaco, cria ser uma espécie de armadura mágica que lhe fosse proteger de tudo. Não era. Ele não teve culpa no acidente. Três carros faziam um “racha” na L4 Sul. Ele estava indo para uma festa, mas seu carro foi atingido, ficou totalmente destruído. Não tive coragem de ver seu corpo. Fui covarde. E nunca mais esta ferida cicatrizou em mim. Pensei ter minha vida acabado ali. A partir de então, eu somente vegetava. Todos os dias eram iguais. Meu marido não suportou. E me disse adeus também. Pois ele tinha de continuar. “Você está enraizada nessas memórias dolorosas”. Ele me disse. Não entendia como podia doer menos nele e mais em mim. Ele prosseguiu. Não pude, não poderia. “Depressão”. “Tome estes remédios”. “Tente entrar em uma terapia de grupo”. Foi o que me disse o psiquiatra. Além de um monte de baboseiras em que não prestei atenção. “O quê?” “Olha, tente fazer coisas que lhe deem prazer. Não foi a senhora que morreu. Saia, divirta-se.” Todos queriam que me refizesse. Diziam-me para deixar o luto. “Já faz tanto tempo!” Mas para mim, ele morria todos os dias em meu coração. Sou uma tola, eu sei. Mas ele cresceu em mim. Ele nasceu de mim, era uma parte minha que perdera para sempre. Nunca mais vou ouvir sua voz, nem sentir seu abraço. Recordo os dentinhos perdidos, as noites em claro que passei ao seu lado devido uma gripe forte ou em razão da catapora. Ele gabava-se de nunca ter tido caxumba. “Deveria ser estudado, devo ter a cura desta doença no meu sangue!” Ele dizia umas bobagens tão engraçadas! O que fazer quando se perde tudo de uma vez? Deveríamos sorrir? Comemorar? Não conseguia, não podia fazê-lo. Apesar dos apelos de todos, não podia apagar esta dor de mim. Ela que me dava forças para ainda acordar. Para respirar nessa vida tão injusta.
O que me machucou mais foi o fato dos condutores dos carros envolvidos no racha, terem restado um tempo quase irrisório na prisão. No julgamento, olhavam-me com um olhar de culpa, para comover aos jurados somente. A mim, aquilo nada causou além de ódio. Quando a sentença foi proferida, tive muita raiva do nosso sistema penal, das injustiças que passam impunes e de todas as mortes que ninguém vinga. “O sistema penal visa à reabilitação, a reinserção do apenado na sociedade.” Disse o advogado de defesa, num discurso pomposo, para ludibriar aos jurados e à população. Eu queria expressar minha indignação. Gritar por justiça. Mas me contiveram. Fui retirada do tribunal. Expulsa. Como se a culpada do crime fosse eu e não os monstros sentados frente o juiz encenando rostos piedosos, de uma falsa culpa, por terem tirado a vida de um inocente. Os assassinos, os irresponsáveis, comemoraram a sentença. Não pagariam na mesma letra por seu crime. Usaram o carro como arma, fizeram sua vítima e ficariam um ano ou menos cumprindo pena. Os mortos já estão mortos, os vivos que sambem sobre sua memória. E todos seguiram em frente, culpados ou inocentes, ninguém mais queria lembrar. Menos eu. Não podia esquecer. Queria lembrar das expressões que ele fazia, do jeito esquisito de sorrir, dos olhos castanhos… Ele sorria com o olhar. Mas tudo isto vai se perdendo, aos poucos a fotografia da lembrança vai desbotando e se apagando até que nada mais restará além da minha dor. A “pílula da felicidade” que me receitava o médico iria sobrepujar tudo isto? Será que este placebo curaria toda a saudade que tenho em mim? Bebia num gole os remédios, mais para satisfazer minha irmã que imaginava estar cuidando da caçulinha doente. Ela mudou-se aqui para casa para restar comigo. “Tolice”, eu disse. Mas ela o fez. Não me causou qualquer diferença. Fechei-me para a vida. Fechei-me para as pessoas, no intuito enlouquecido de aguardar a morte.
Hoje, quando fortemente tomada da intenção de dar cabo a minha vida, algo fez nascer uma plantinha vicejante em mim. Num último adeus, fui caminhando pela casa até adentrar no quarto que era dele. Folheei seus cadernos e recordei a sua letra horrenda. “Comprei-lhe tantos cadernos de caligrafia, tudo em vão…” Dentro de um dos cadernos, com a cor amarelada pelo tempo, caiu uma carta escrita por ele sem destinatário. Talvez ele tenha escrito para mim sem o saber, como se quisesse preparar-me para o futuro. Sei que, revelando-me agora aquele pedaço de papel, seu espírito tinha o firme propósito salvar-me a vida. Talvez fosse um milagre, não sei, minha fé desgastara-se muito pela dor. Estava assim escrito com sua letra terrível cujo entendimento era difícil para quem não o conhecesse, mas eu sabia e compreendia tudo que estava ali em verdadeiros hieróglifos.
“O Amor faz com que a nossa vida continue a ter sentido. A partida dos que foram antes de nós ensina-nos a viver melhor, de forma mais séria, mais profunda, de uma forma, inequivocamente, mais autêntica.
Devemos cuidar de todos os que amamos. Aos que partiram, porém, aquilo que lhes podemos dar é o amor àqueles que ficaram cá. Porque estes continuam a precisar de nós, do melhor de nós… e é sempre uma iniquidade quando um amor por quem partiu mata, em alguém, o amor por aqueles que ainda cá estão.
A morte ensina-nos que o Amor é perdoar mais do que vingar; consolar mais do que ser consolado; partilhar mais do que acumular; compreender mais do que julgar; dar, darmo-nos, oferecer o melhor de nós, mais do que termos o que sonhamos.” José Luís Nunes Martins
Estranhamente, senti que ele estava comigo. Chorei mais uma vez, como nunca mais havia conseguido e depois sorri, gargalhei mesmo. Feliz sem saber a razão. Minha irmã assustou-se e pensou que eu tinha perdido de vez o juízo. Mas eu a abracei e agradeci por ter me amado quando ninguém o conseguiria. E ela me abraçou e choramos juntas por minutos até que tive fome e chamei-a para tomar um sorvete na sorveteria que íamos quando crianças. Ela perguntou-me o que fez nascer em mim aquela mudança tão drástica e súbita, eu lhe respondi que, depois de tanto tempo eu reencontrara o filho que havia perdido e ele estava ali, bem ao meu lado e nem nos piores momentos abandonara-me. Mostrei-lhe a carta e entre lágrimas ela agradeceu por ter de volta a irmã que, por tantos anos, havia, na tristeza, se escondido.

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