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“Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações”
Chico Buarque de Holanda – Vai passar

O Brasil que não se vê na tevê

Giordana Bonifácio

“Salve o lindo pendão da esperança”, que esvoaça aos farrapos no alto de uma velha antena sem uso, sobre um barraco em que os moradores já utilizam a tevê digital. A imagem não tem chuvisco. Não é ótimo, isto? Podemos ser enganados com uma imagem totalmente perfeita. A senhora, dona do barraco, cata latinhas por todo o dia, assim mantém a família. À noite, nada melhor que assistir à televisão. Na novela das nove, uma rica senhora reclama do preço do caviar. A catadora de latinha não sabia o que era isto. A filha pesquisou na internet: “ovas de peixe.” Que nojo! Gritaram em uníssono. A família jamais comeria caviar, mas até a mortadela era algo raro em sua mesa.
Mas a culpa é do cidadão que não pesquisa os preços. A inflação é toda causada pelo consumismo do povo. O governo não tem nada a ver com isto, na verdade, até se esforça para conter a alta dos preços: aumenta os juros. Não para alimentar a gana dos banqueiros, mas para conter o avanço da inflação. Acreditem, é a mais límpida e clara verdade. Os investidores têm de ter onde colocar seu dinheiro escuso. Que seja aqui onde a ilicitude é vista como natural e até normal pela população: “ele rouba, mas faz”.
Mas o povo não deixa de ser desleixado, o consumo de água subiu assustadoramente. Não por culpa das invasões legalizadas pelo governo, nem pelo crescimento demográfico comum às cidades, mas pela sociedade que não sabe como utilizar a água. Gente ignorante é fogo! Não se pode responsabilizar o governo por não ter erigido novos reservatórios. Não, ele até tentou, mas a obra foi parada por desvio de dinheiro e material superfaturado. Pena, a população que arque com as consequências. As pessoas no Brasil não estão acostumadas com a escassez. Devem aprender que a água é o novo petróleo. Aliás, os preços estão até equiparados.
Fez-se a Copa do Mundo nesse nosso grande país de terceiro mundo. Também as Olimpíadas. Prometeu-se despoluir, preservar e reflorestar. O resultado: nadadores disputavam medalhas entre as fezes que boiavam na Baía de Guanabara. O dourado da vitória perdeu o brilho. Literalmente: as medalhas estão descascando e vários atletas pediram para que se fizesse um recall de sua premiação. Vergonhoso? Não, mais ridículos foram os elefantes brancos construídos, estádios enormes e superfaturados que hoje estão a devorar, com a sua preservação, o dinheiro dos impostos do povo.
“Bela bandeira de estrelas rutilantes”. Seria lindo escrever isto em uma poesia, a qual a maioria da população do Brasil jamais leria. Neste país, as pessoas não leem sequer cinco livros por ano. Mas não vamos ser rudes, não se pode dizer que não se gosta de ler no Brasil. Na verdade, as pessoas jamais devem ter tido a oportunidade de relacionar-se com a leitura. As escolas públicas estão em situação deplorável, os professores, recebem salários baixos e nem sequer têm assegurada a sua previdência. E, neste exato momento, o dinheiro público é desviado para paraísos fiscais, pelos políticos que roubam, mas fazem. Os mesmos que prometeram erradicar a pobreza do país, mas só preservaram seus ricos interesses. Oremos.
“Nessa terra, plantando-se, tudo dá”. Sim, monoculturas, que prejudicam o meio ambiente, proliferam-se pelo território brasileiro. Bem como, o uso abusivo de inseticidas, pesticidas e outros venenos que vão parar diretamente na nossa mesa. O resultado: doenças relacionadas a ingestão de tais produtos disseminam-se. E mesmo que saibamos estar comprando veneno, o que podemos fazer? Não se pode deixar de comer.
Nos hospitais superlotados, falta tudo, até mesmo uma simples gaze. Pessoas são esquecidas em cima de macas, ou no chão, esperando um tratamento médico que tarda e muitas vezes, não vem. Quebrou a perna? Aguarde pacientemente a cirurgia. E esta espera poderá durar semanas, na hipótese mais otimista, na realista, meses. Onde estão os nossos impostos? No carro esportivo de luxo do senador. Na última viagem à Europa do Deputado. Mas, muito, muito longe dos hospitais brasileiros.
O transporte público, além de caro é raro. O ônibus, na possibilidade de passar no ponto na hora certa, está invariavelmente lotado. As pessoas apertam-se feito sardinhas. Ninguém quer perder a condução. Pois, além de ser mais uma longa hora de espera, corre-se o risco de não assistir à novela das nove. E isso é inconcebível. Aquele ator lindo com quem as meninas sonham, está no elenco. Dizem que abusou de uma contra-regra, mas quem se importa? O povo brasileiro logo se esquecerá. A memória das massas é irrisória. Logo, logo, o corrupto é absolvido, o assassino perdoado e o lobo pode retornar a cobrir-se com a sua pele de cordeiro.
Muitos temem fantasmas, como se a possibilidade de um ser não vivo fazer-nos mal fosse real. Mas eu temo outro tipo de espectro: os funcionários fantasmas. Estes são bem reais. E causam um mal muito pior que poderia nos causar os seres que não habitam mais este plano, ou habitam, vai saber. Os funcionários fantasmas ganham sem trabalhar. Não servem aos que deveriam servir. Chamam-se servidores, mas não servem a ninguém. São, na realidade, usurpadores. Sugam nosso dinheiro e nada dão em troca. Um dia aparecem, mas só batem o ponto e se vão. Não se sabe mais deles. Dizem que existem, mas, não creio. Não sou daquelas que acreditam em assombração.
”Ciclistas morrem nas pistas”. “Não há ciclovias suficientes”. “Motorista embriagado atropela ciclista”. As notícias repetem-se continuamente. Contudo, nada se faz a respeito. De fato, o que falta é respeito. No trânsito, as pessoas insistem em dirigir alcoolizadas. Os governantes não constroem ciclovias, as bicicletas disputam um lugar em uma luta desigual. Não há como vencê-la, pois só Davi poderia vencer Golias. Fora do texto bíblico, automóveis e caminhões derrotam a bike que resta retorcida no asfalto enquanto mais uma vida é perdida na batalha cruel das ruas. O motorista foge sem prestar socorro. E as manchetes dos jornais retratam a triste realidade do nosso tráfego enlouquecido.
Coisa chata esta de dizer a verdade. É mais fácil criar uma história e fazer sonhar. Mas o meu intuito, é o inverso: quero acordar. Abrir os olhos desse gigante adormecido que nem sabe a força que tem. Poderia evitar tudo isto, se ouvisse estes apelos ensandecidos. Mas crê que tudo é normal. Morrer na fila do hospital público? Banal. Ter dinheiro para conversor digital, mas não para medicamento? Aceitável. O ensino público sofrível? Absolutamente corriqueiro. Bilhões investidos na Copa do Mundo e Olimpíada com nenhum retorno? Trivial. Fim da contribuição sindical que só teve como consequência o enriquecimento de sindicatos corruptos? Isto não, é inaceitável. É escravidão.
Mas o povo não sabe o que defender, está confuso em meio a uma chuva de notícias falsas e verdadeiras, em que dois lados, absolutamente iguais, disputam o poder. O que os diferem? A cor da camisa que usam. Fora disto, roubam, matam e fazem tudo de mais escuso para permanecer no poder. Enquanto isto a bandeira brasileira continua a tremular. Não pelo vento, mas de pavor de tudo que vem acontecendo. Contudo, diante desta enorme convulsão social continua a “dormir a nossa pátria mãe tão distraída sem saber que é subtraída em tenebrosas transações”. Mas o que importa é a televisão digital, cujas emissoras informam o que quer da maneira que lhes é mais favorável, mas invejem os demais países: em alta resolução!

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