Arquivo do mês: abril 2017

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“Deus existe mesmo quando não há.
Mas o demônio não precisa existir para haver.”
(Guimarães Rosa- Grande Sertão: Veredas)

O jogo entre Deus e o diabo

Giordana Bonifácio

Deus e o diabo, numa peleja eterna, jogam com os homens. Fizeram assim com o pobre do Jó. Comigo fazem decerto da mesma maneira. Chega Deus e diz: “esta é uma mulher íntegra e reta, temente a Deus e que se desvia do mal”. Mas o cramulhão duvida da minha hombridade e responde ao Todo poderoso: “sei não, essa aí fraqueja com uma dorzinha de dente”. Então o Pai, que põe a mão no fogo por seus filhos, retruca: “quer apostar? Lá vai uma cólica vesicular”. Vejo estrelas e, no começo do jogo, já começo a encomendar a minha alma. Sequer suspeitava do que estava por vir. Porém, não me fez maldizer minha vida esta convalescência. Mas seria somente o início da disputa, algo meio Hunger Games. Acho que até cheguei a ver uma mulher de cabelo rosa gritar ao microfone: “que os Jogos Vorazes comecem e que a sorte esteja sempre a seu favor”.
Pois é. Outro dia, caí no banheiro e o vidro do box talhou-me o braço com um corte que levou mais de 10 pontos. Ok, ok, sobrevivi. Só perdi sangue pra caramba. Mas foi apenas o susto. “Deus estava comigo”. Disse, na oportunidade, deixando o capiroto louco de raiva. Então, fui vítima de assaltos que levaram de mim tudo o que a muito custo conquistara. “Pô, Senhor, caraca,” eu pensei, “por que eu?” Mas não dizem que Ele escreve certo por linhas tortas? Aceitei a dor. Prossegui. Contudo, o capeta não se dá por vencido. Com a minha idade já avançando resolveu: “será que ela se daria bem com um hipotireoidismo?” Deus, todo confiante, “claro que sim. Toma-lhe!” Está certo, estou aqui. Não desisti ainda. Vou continuar. O pulso ainda pulsa. Comecei a correr para ajudar na perda de peso e no controle no problema da tireoide. Mas não é que os Dois estavam achando o jogo divertido? Lesionei os dois pés o que me impediu de continuar exercitando-me. Mas o pulso ainda pulsa. Fisioterapia existe para quê? Então, o filhote de cruz-credo tomou consciência de que não me atingiria deste modo, pois a saúde frágil sempre me foi uma constante e a matéria é substituível. Então, começou a atormentar-me com o meu calcanhar de Aquiles. Minhas crônicas e contos foram criticados e menosprezados por inúmeras editoras. Algumas aniquilaram minhas pretensões artísticas. Mais uma vez, recolhi os cacos do meu orgulho, respirei fundo e disse: “tudo bem, um dia, o moundo compreenderá o valor da minha arte.”.
Sabe quando a gente joga ludo e o peão inimigo “come” sua peça e você é obrigado a regressar ao início? Chato, né? É como me sinto, às vezes. Como dizem: “eu devo ter sido um balde na última encarnação tantas foram as vezes que cheguei ao fundo do poço e retornei”. Mas, tal qual um carrinho importado da china, eu bato e volto. Ninguém sabe toda a dor que senti. Todavia, nas palavras da grande “pensadora contemporânea” Shakira: “Estoy aqui”. Levanto-me destruída e enfrento o meu algoz: “já acabou, Jéssica?”. Mas o belzebu ainda tem cartas na manga. Deus joga limpo, mas o diabo é o pior adversário que pode haver: não consegue disputar honestamente. Claro, não é do seu feitio. Fausto está aí para provar o que digo. A gente nunca ganha num contrato assinado com o capeta. Sempre somos desvalidos de mais do que queríamos receber nesse acordo que será sempre malfadado. Por isso, prefiro estar ao lado dos mocinhos. Mas confesso: não é fácil.
Quando o bem e o mal estão numa contenda por sua alma, aí é que a coisa degringola de vez. A gente anda numa corda bamba, cabe a nós escolhermos para qual lado vamos pender. Apesar de toda a prova a que fui submetida, nada disso fez-me jogar a toalha. É verdade que, teve momentos que pensei mesmo em desistir de tudo, mas minha teimosia levou-me a continuar. A roda da fortuna tem seus altos e baixos. Caí, levantei, bati a poeira e segui. “Keep walking”. Mas se você é abstêmio como eu, prefira o lema da Dory em Procurando Nemo: “Continue a nadar, continue a nadar”! “Pois o certo é que Deus não rejeita o íntegro e não fortalece as mãos dos que fazem o mal.” Diria Jó, quando desafiaram sua fé.
Na verdade, eu tenho muito medo de falhar. Ainda que tenha vencido as últimas batalhas, não sou um bom soldado. A carne é fraca e meu espírito ainda não está preparado. Tenho medo dos leões na minha cova. Os desafios estão cada vez mais difíceis. Preciso guiar-me pela luz, ainda que seja tão só uma chama bruxuleante em meio às trevas. Nessa contenda entre o Yin e o Yang, só eu sairei prejudicada.
Mas, como disse, o anjo caído ainda reservava algo para mim: a velhice dos meus avós. É triste ver entes tão queridos sofrerem tanto em seus últimos anos de vida. O tempo não corre mansinho, mas aos tropeços. E a gente o sente chegar desajeitado, derrubando tudo, instalando-se em nossos músculos, ossos e tendões. Tudo em nós resta frágil e quebradiço. O corpo é o templo do senhor, muito embora, ao final, tenha o mesmo destino do templo de Salomão, nada dele restará. “Do pó viestes ao pó retornarás”. A vida vira história.
Dói em mim a senescência dos meus avós. Saber que a morte está mais próxima a cada minuto que se passa… Uma bomba relógio prestes a explodir. Mas, nesse caso, nem mesmo cortar o fio azul desativa o explosivo. A inexorabilidade do tempo é real. Esta foi a revelação mais assustadora que me atingiu. Sim, atingiu-me, tal qual uma bala de fuzil, abrindo-me um rombo no peito. Fiquei triste, pelo sofrimento de meus ascendentes. Mesmo assim, creio que deve haver alguma razão divina para a morte. Ainda que não consiga compreender qual seja. Não tenho o espírito tão elevado como julgam alguns.
“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa existir para haver.” Cito o mais sertanejo de nossos escritores: Guimarães Rosa. Nessa guerra de haveres quem sai vitorioso? Tenho medo. Essa é minha maior fraqueza. O medo afasta-nos do caminho certo. Pois se tememos é porque não confiamos e, ao contrário, devemos entregar-nos completamente ao bem maior. Mas somos homens de pouca fé, sempre duvidamos. E somos, assim, surpreendidos pela verdade. Temos de cuidar de nossos arados, pois, nas sábias palavras do autor de Grande Sertão: Veredas, “a colheita é comum, mas o capinar é sozinho.” Tendo em vista que, quando o momento derradeiro chegar, “bem-aventurados serão aqueles servos a quem o senhor, quando vier, os encontrará vigilantes… Quer ele venha na segunda vigília, quer na terceira, bem-aventurados serão eles, se assim os achar.” Lc. 12. 37, 38.
A nossa vida está em disputa num imenso jogo de xadrez entre Deus e o Diabo, ganhará quem possuir a melhor estratégia. Mas penso que Deus deixa o mal tomar a dianteira, para depois dar o golpe de misericórdia. Xeque-mate: esta alma está salva. Como jogadores de baseball que correm em disparada para vencer o deslocamento da bola e chegarem à base antes daquela. Para, no fim, ouvir com um grande alívio: está salvo! “O diabo está na rua no meio do redemoinho”, segundo o grande Guimarães. O capiroto está em meio ao nosso turbilhão de emoções e da bagunça que é a nossa vida. Não sei quem vai ganhar a disputa por meu espírito, mas espero que o bem vença. Não é à toa que torcia sempre para o He-man ganhar do Esqueleto e para o Munrá voltar a ser múmia depois de ser derrotado pelos Thundercats. Temos todos boa índole. Cabe só sabermos cultivar a vinha. Ninguém quer virar churrasquinho no inferno, não é? Mesmo que não creia que há realmente um. Mas vai saber…

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