Arquivo do mês: abril 2017

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“Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações”
Chico Buarque de Holanda – Vai passar

O Brasil que não se vê na tevê

Giordana Bonifácio

“Salve o lindo pendão da esperança”, que esvoaça aos farrapos no alto de uma velha antena sem uso, sobre um barraco em que os moradores já utilizam a tevê digital. A imagem não tem chuvisco. Não é ótimo, isto? Podemos ser enganados com uma imagem totalmente perfeita. A senhora, dona do barraco, cata latinhas por todo o dia, assim mantém a família. À noite, nada melhor que assistir à televisão. Na novela das nove, uma rica senhora reclama do preço do caviar. A catadora de latinha não sabia o que era isto. A filha pesquisou na internet: “ovas de peixe.” Que nojo! Gritaram em uníssono. A família jamais comeria caviar, mas até a mortadela era algo raro em sua mesa.
Mas a culpa é do cidadão que não pesquisa os preços. A inflação é toda causada pelo consumismo do povo. O governo não tem nada a ver com isto, na verdade, até se esforça para conter a alta dos preços: aumenta os juros. Não para alimentar a gana dos banqueiros, mas para conter o avanço da inflação. Acreditem, é a mais límpida e clara verdade. Os investidores têm de ter onde colocar seu dinheiro escuso. Que seja aqui onde a ilicitude é vista como natural e até normal pela população: “ele rouba, mas faz”.
Mas o povo não deixa de ser desleixado, o consumo de água subiu assustadoramente. Não por culpa das invasões legalizadas pelo governo, nem pelo crescimento demográfico comum às cidades, mas pela sociedade que não sabe como utilizar a água. Gente ignorante é fogo! Não se pode responsabilizar o governo por não ter erigido novos reservatórios. Não, ele até tentou, mas a obra foi parada por desvio de dinheiro e material superfaturado. Pena, a população que arque com as consequências. As pessoas no Brasil não estão acostumadas com a escassez. Devem aprender que a água é o novo petróleo. Aliás, os preços estão até equiparados.
Fez-se a Copa do Mundo nesse nosso grande país de terceiro mundo. Também as Olimpíadas. Prometeu-se despoluir, preservar e reflorestar. O resultado: nadadores disputavam medalhas entre as fezes que boiavam na Baía de Guanabara. O dourado da vitória perdeu o brilho. Literalmente: as medalhas estão descascando e vários atletas pediram para que se fizesse um recall de sua premiação. Vergonhoso? Não, mais ridículos foram os elefantes brancos construídos, estádios enormes e superfaturados que hoje estão a devorar, com a sua preservação, o dinheiro dos impostos do povo.
“Bela bandeira de estrelas rutilantes”. Seria lindo escrever isto em uma poesia, a qual a maioria da população do Brasil jamais leria. Neste país, as pessoas não leem sequer cinco livros por ano. Mas não vamos ser rudes, não se pode dizer que não se gosta de ler no Brasil. Na verdade, as pessoas jamais devem ter tido a oportunidade de relacionar-se com a leitura. As escolas públicas estão em situação deplorável, os professores, recebem salários baixos e nem sequer têm assegurada a sua previdência. E, neste exato momento, o dinheiro público é desviado para paraísos fiscais, pelos políticos que roubam, mas fazem. Os mesmos que prometeram erradicar a pobreza do país, mas só preservaram seus ricos interesses. Oremos.
“Nessa terra, plantando-se, tudo dá”. Sim, monoculturas, que prejudicam o meio ambiente, proliferam-se pelo território brasileiro. Bem como, o uso abusivo de inseticidas, pesticidas e outros venenos que vão parar diretamente na nossa mesa. O resultado: doenças relacionadas a ingestão de tais produtos disseminam-se. E mesmo que saibamos estar comprando veneno, o que podemos fazer? Não se pode deixar de comer.
Nos hospitais superlotados, falta tudo, até mesmo uma simples gaze. Pessoas são esquecidas em cima de macas, ou no chão, esperando um tratamento médico que tarda e muitas vezes, não vem. Quebrou a perna? Aguarde pacientemente a cirurgia. E esta espera poderá durar semanas, na hipótese mais otimista, na realista, meses. Onde estão os nossos impostos? No carro esportivo de luxo do senador. Na última viagem à Europa do Deputado. Mas, muito, muito longe dos hospitais brasileiros.
O transporte público, além de caro é raro. O ônibus, na possibilidade de passar no ponto na hora certa, está invariavelmente lotado. As pessoas apertam-se feito sardinhas. Ninguém quer perder a condução. Pois, além de ser mais uma longa hora de espera, corre-se o risco de não assistir à novela das nove. E isso é inconcebível. Aquele ator lindo com quem as meninas sonham, está no elenco. Dizem que abusou de uma contra-regra, mas quem se importa? O povo brasileiro logo se esquecerá. A memória das massas é irrisória. Logo, logo, o corrupto é absolvido, o assassino perdoado e o lobo pode retornar a cobrir-se com a sua pele de cordeiro.
Muitos temem fantasmas, como se a possibilidade de um ser não vivo fazer-nos mal fosse real. Mas eu temo outro tipo de espectro: os funcionários fantasmas. Estes são bem reais. E causam um mal muito pior que poderia nos causar os seres que não habitam mais este plano, ou habitam, vai saber. Os funcionários fantasmas ganham sem trabalhar. Não servem aos que deveriam servir. Chamam-se servidores, mas não servem a ninguém. São, na realidade, usurpadores. Sugam nosso dinheiro e nada dão em troca. Um dia aparecem, mas só batem o ponto e se vão. Não se sabe mais deles. Dizem que existem, mas, não creio. Não sou daquelas que acreditam em assombração.
”Ciclistas morrem nas pistas”. “Não há ciclovias suficientes”. “Motorista embriagado atropela ciclista”. As notícias repetem-se continuamente. Contudo, nada se faz a respeito. De fato, o que falta é respeito. No trânsito, as pessoas insistem em dirigir alcoolizadas. Os governantes não constroem ciclovias, as bicicletas disputam um lugar em uma luta desigual. Não há como vencê-la, pois só Davi poderia vencer Golias. Fora do texto bíblico, automóveis e caminhões derrotam a bike que resta retorcida no asfalto enquanto mais uma vida é perdida na batalha cruel das ruas. O motorista foge sem prestar socorro. E as manchetes dos jornais retratam a triste realidade do nosso tráfego enlouquecido.
Coisa chata esta de dizer a verdade. É mais fácil criar uma história e fazer sonhar. Mas o meu intuito, é o inverso: quero acordar. Abrir os olhos desse gigante adormecido que nem sabe a força que tem. Poderia evitar tudo isto, se ouvisse estes apelos ensandecidos. Mas crê que tudo é normal. Morrer na fila do hospital público? Banal. Ter dinheiro para conversor digital, mas não para medicamento? Aceitável. O ensino público sofrível? Absolutamente corriqueiro. Bilhões investidos na Copa do Mundo e Olimpíada com nenhum retorno? Trivial. Fim da contribuição sindical que só teve como consequência o enriquecimento de sindicatos corruptos? Isto não, é inaceitável. É escravidão.
Mas o povo não sabe o que defender, está confuso em meio a uma chuva de notícias falsas e verdadeiras, em que dois lados, absolutamente iguais, disputam o poder. O que os diferem? A cor da camisa que usam. Fora disto, roubam, matam e fazem tudo de mais escuso para permanecer no poder. Enquanto isto a bandeira brasileira continua a tremular. Não pelo vento, mas de pavor de tudo que vem acontecendo. Contudo, diante desta enorme convulsão social continua a “dormir a nossa pátria mãe tão distraída sem saber que é subtraída em tenebrosas transações”. Mas o que importa é a televisão digital, cujas emissoras informam o que quer da maneira que lhes é mais favorável, mas invejem os demais países: em alta resolução!

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“Deus existe mesmo quando não há.
Mas o demônio não precisa existir para haver.”
(Guimarães Rosa- Grande Sertão: Veredas)

O jogo entre Deus e o diabo

Giordana Bonifácio

Deus e o diabo, numa peleja eterna, jogam com os homens. Fizeram assim com o pobre do Jó. Comigo fazem decerto da mesma maneira. Chega Deus e diz: “esta é uma mulher íntegra e reta, temente a Deus e que se desvia do mal”. Mas o cramulhão duvida da minha hombridade e responde ao Todo poderoso: “sei não, essa aí fraqueja com uma dorzinha de dente”. Então o Pai, que põe a mão no fogo por seus filhos, retruca: “quer apostar? Lá vai uma cólica vesicular”. Vejo estrelas e, no começo do jogo, já começo a encomendar a minha alma. Sequer suspeitava do que estava por vir. Porém, não me fez maldizer minha vida esta convalescência. Mas seria somente o início da disputa, algo meio Hunger Games. Acho que até cheguei a ver uma mulher de cabelo rosa gritar ao microfone: “que os Jogos Vorazes comecem e que a sorte esteja sempre a seu favor”.
Pois é. Outro dia, caí no banheiro e o vidro do box talhou-me o braço com um corte que levou mais de 10 pontos. Ok, ok, sobrevivi. Só perdi sangue pra caramba. Mas foi apenas o susto. “Deus estava comigo”. Disse, na oportunidade, deixando o capiroto louco de raiva. Então, fui vítima de assaltos que levaram de mim tudo o que a muito custo conquistara. “Pô, Senhor, caraca,” eu pensei, “por que eu?” Mas não dizem que Ele escreve certo por linhas tortas? Aceitei a dor. Prossegui. Contudo, o capeta não se dá por vencido. Com a minha idade já avançando resolveu: “será que ela se daria bem com um hipotireoidismo?” Deus, todo confiante, “claro que sim. Toma-lhe!” Está certo, estou aqui. Não desisti ainda. Vou continuar. O pulso ainda pulsa. Comecei a correr para ajudar na perda de peso e no controle no problema da tireoide. Mas não é que os Dois estavam achando o jogo divertido? Lesionei os dois pés o que me impediu de continuar exercitando-me. Mas o pulso ainda pulsa. Fisioterapia existe para quê? Então, o filhote de cruz-credo tomou consciência de que não me atingiria deste modo, pois a saúde frágil sempre me foi uma constante e a matéria é substituível. Então, começou a atormentar-me com o meu calcanhar de Aquiles. Minhas crônicas e contos foram criticados e menosprezados por inúmeras editoras. Algumas aniquilaram minhas pretensões artísticas. Mais uma vez, recolhi os cacos do meu orgulho, respirei fundo e disse: “tudo bem, um dia, o moundo compreenderá o valor da minha arte.”.
Sabe quando a gente joga ludo e o peão inimigo “come” sua peça e você é obrigado a regressar ao início? Chato, né? É como me sinto, às vezes. Como dizem: “eu devo ter sido um balde na última encarnação tantas foram as vezes que cheguei ao fundo do poço e retornei”. Mas, tal qual um carrinho importado da china, eu bato e volto. Ninguém sabe toda a dor que senti. Todavia, nas palavras da grande “pensadora contemporânea” Shakira: “Estoy aqui”. Levanto-me destruída e enfrento o meu algoz: “já acabou, Jéssica?”. Mas o belzebu ainda tem cartas na manga. Deus joga limpo, mas o diabo é o pior adversário que pode haver: não consegue disputar honestamente. Claro, não é do seu feitio. Fausto está aí para provar o que digo. A gente nunca ganha num contrato assinado com o capeta. Sempre somos desvalidos de mais do que queríamos receber nesse acordo que será sempre malfadado. Por isso, prefiro estar ao lado dos mocinhos. Mas confesso: não é fácil.
Quando o bem e o mal estão numa contenda por sua alma, aí é que a coisa degringola de vez. A gente anda numa corda bamba, cabe a nós escolhermos para qual lado vamos pender. Apesar de toda a prova a que fui submetida, nada disso fez-me jogar a toalha. É verdade que, teve momentos que pensei mesmo em desistir de tudo, mas minha teimosia levou-me a continuar. A roda da fortuna tem seus altos e baixos. Caí, levantei, bati a poeira e segui. “Keep walking”. Mas se você é abstêmio como eu, prefira o lema da Dory em Procurando Nemo: “Continue a nadar, continue a nadar”! “Pois o certo é que Deus não rejeita o íntegro e não fortalece as mãos dos que fazem o mal.” Diria Jó, quando desafiaram sua fé.
Na verdade, eu tenho muito medo de falhar. Ainda que tenha vencido as últimas batalhas, não sou um bom soldado. A carne é fraca e meu espírito ainda não está preparado. Tenho medo dos leões na minha cova. Os desafios estão cada vez mais difíceis. Preciso guiar-me pela luz, ainda que seja tão só uma chama bruxuleante em meio às trevas. Nessa contenda entre o Yin e o Yang, só eu sairei prejudicada.
Mas, como disse, o anjo caído ainda reservava algo para mim: a velhice dos meus avós. É triste ver entes tão queridos sofrerem tanto em seus últimos anos de vida. O tempo não corre mansinho, mas aos tropeços. E a gente o sente chegar desajeitado, derrubando tudo, instalando-se em nossos músculos, ossos e tendões. Tudo em nós resta frágil e quebradiço. O corpo é o templo do senhor, muito embora, ao final, tenha o mesmo destino do templo de Salomão, nada dele restará. “Do pó viestes ao pó retornarás”. A vida vira história.
Dói em mim a senescência dos meus avós. Saber que a morte está mais próxima a cada minuto que se passa… Uma bomba relógio prestes a explodir. Mas, nesse caso, nem mesmo cortar o fio azul desativa o explosivo. A inexorabilidade do tempo é real. Esta foi a revelação mais assustadora que me atingiu. Sim, atingiu-me, tal qual uma bala de fuzil, abrindo-me um rombo no peito. Fiquei triste, pelo sofrimento de meus ascendentes. Mesmo assim, creio que deve haver alguma razão divina para a morte. Ainda que não consiga compreender qual seja. Não tenho o espírito tão elevado como julgam alguns.
“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa existir para haver.” Cito o mais sertanejo de nossos escritores: Guimarães Rosa. Nessa guerra de haveres quem sai vitorioso? Tenho medo. Essa é minha maior fraqueza. O medo afasta-nos do caminho certo. Pois se tememos é porque não confiamos e, ao contrário, devemos entregar-nos completamente ao bem maior. Mas somos homens de pouca fé, sempre duvidamos. E somos, assim, surpreendidos pela verdade. Temos de cuidar de nossos arados, pois, nas sábias palavras do autor de Grande Sertão: Veredas, “a colheita é comum, mas o capinar é sozinho.” Tendo em vista que, quando o momento derradeiro chegar, “bem-aventurados serão aqueles servos a quem o senhor, quando vier, os encontrará vigilantes… Quer ele venha na segunda vigília, quer na terceira, bem-aventurados serão eles, se assim os achar.” Lc. 12. 37, 38.
A nossa vida está em disputa num imenso jogo de xadrez entre Deus e o Diabo, ganhará quem possuir a melhor estratégia. Mas penso que Deus deixa o mal tomar a dianteira, para depois dar o golpe de misericórdia. Xeque-mate: esta alma está salva. Como jogadores de baseball que correm em disparada para vencer o deslocamento da bola e chegarem à base antes daquela. Para, no fim, ouvir com um grande alívio: está salvo! “O diabo está na rua no meio do redemoinho”, segundo o grande Guimarães. O capiroto está em meio ao nosso turbilhão de emoções e da bagunça que é a nossa vida. Não sei quem vai ganhar a disputa por meu espírito, mas espero que o bem vença. Não é à toa que torcia sempre para o He-man ganhar do Esqueleto e para o Munrá voltar a ser múmia depois de ser derrotado pelos Thundercats. Temos todos boa índole. Cabe só sabermos cultivar a vinha. Ninguém quer virar churrasquinho no inferno, não é? Mesmo que não creia que há realmente um. Mas vai saber…

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