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“A morte é uma de duas coisas… Ou é aniquilação,
e os mortos não têm consciência de qualquer coisa;
ou, como nos é dito, é realmente uma mudança:
uma migração da alma de um lugar para outro.”
Sócrates

A experiência

Giordana Bonifácio

Estou escrevendo este e-mail no auge do meu desespero. A morte é certa e tenho que dividir minha dor com os outros de minha espécie. Descobri que o universo não está resumido a nossa minúscula sabedoria de vida. Mas quando compreendi isto, já foi muito, muito tarde. O conhecimento que possuímos é mínimo. Somos seres rudes, comparados ao que existe além do que nossos olhos podem ver. Os homens olham as estrelas e sequer imaginam o que há além do vazio, o que ainda está além do nosso alcance. Penso que os primeiros navegadores sofreram dos mesmos temores que nos cercam, hoje: monstros terríveis, queda no fim da abóbada terrestre, morte e tragédia. Incrível como somos assaltados pelos mesmos medos, ou, talvez, deles nunca nos desfizemos. Minha imaginação é muito restrita para descrever estes últimos dias no laboratório. Não consigo escolher as melhores palavras para informar ao mundo o que descobrimos. E temo que já seja tarde demais. Talvez, ninguém tenha sobrevivido. Talvez, agora, sejamos apenas uma vaga lembrança na memória dos seres que passaram por aqui. Não sei se podemos designar alienígenas por seres. Eles estão vivos, então devem ser seres. Ou espécimes, ou “a experiência”, como costumávamos denominar a amostra que analisávamos no laboratório. Não nos parecia perigosa, de início. Era um tipo de musgo que reagia a eletricidade. Foi encontrado no casco de uma nave enviada a Marte. Achávamos que se tratava de algum vegetal marciano. Estudamo-lo por anos e nada indicava o que iria acontecer. Eu era o engenheiro químico chefe da “Missão Marte”, um trabalho de pesquisas ultrassecretas dos Estados Unidos. Éramos cientistas de várias áreas do conhecimento e de inúmeros países estudando os resultados da última missão no planeta vermelho. Chamo-me, ou, ao menos, chamava-me, Michael Jones Collins, estava entusiasmado com nossas descobertas a respeito “da experiência”. Os geneticistas diziam nunca terem visto um ser como aquele. Regenerava-se e parecia sobreviver as condições mais adversas de frio e pressão. Estávamos abismados com nossas descobertas. Mas quando pensávamos saber tudo sobre o ser que grudou no casco da nave que aterrissou em solo marciano, ela finalmente apresentou todo o seu risco.
Um dos geneticistas foi recolher com uma seringa um pedaço do corpo daquele musgo de cor avermelhada. Mas, por acidente, picou o próprio dedo e uma gota de sangue caiu sobre “a experiência”. Imediatamente, a esta foi ativada, pois ao que me parece, antes de ser provocada, ela parecia inerte. Esperava pelas vítimas. Não imaginava que um musgo poderia ser um perigosíssimo espécime de predador. O ser grudou-se ao dedo do cientista e alimentava-se da carne com voracidade e sua cor avermelhada fosca foi ganhando um avermelhado vivo e mortal. O cientista tentava retirar de si aquele musgo que crescia à medida que o consumia, mas, em pouco tempo, este já cobria todo o braço do nosso colega. Uma cobertura vegetal formou-se sobre George e logo descobrimos ser, este estranho espécime, um monstro terrível e letal. O ser alimentava-se vorazmente de nosso colega, mas não sabíamos o que fazer, o monstro regenerava-se sempre que lhe cortávamos uma parte. Então, não tivemos escolha: arrancamos o braço do cientista. E conseguimos recolher o monstro a um ambiente fechado de onde não poderia disseminar-se para atacar outras pessoas. Fizemos todos os procedimentos de saúde no nosso colega. Porém, descobrimos, que todo o tempo que ficamos a estudar “a experiência” não foi o suficiente para a conhecer verdadeiramente. Ela distribuía esporos no corpo do ser atacado e devorava o hospedeiro até não sobrar nada dele. Nem sequer os ossos. Após termos feito os procedimentos de desinfecção normal exigido num momento como o que passamos, encaminhamos George, a primeira vítima, ao quarto dele para que descansasse. No dia seguinte, o homem não mais existia. Tinha virado parte daquele musgo que se alastrou pelas dependências da estação pelos dutos de ar. Não acreditávamos que aquele ser poderia pensar e atacar a presa com tamanha astúcia e dissimulação. Muitos dos nossos cientistas despertaram com o musgo sobre si. Sugando-lhe o sangue, comendo seus órgãos, desintegrando-lhes feito um ácido e o mostro tornava-se assim, maior e mais mortal. Espalhava-se pelo edifício e nada parecia detê-lo. Quando nos demos conta da morte certa, era demasiado tarde. Só fomos nos conscientizar da quantidade de vítimas no início do expediente, quando um número expressivo de empregados não compareceu ao laboratório. Mas, ao procurarmo-los em seus aposentos, nada achamos. Sequer uma mera gota de sangue.
Eu logo percebi que aquilo não era normal. Fui ver o espécime isolado no laboratório e este se espalhava pela parede do cubículo em que estava, tal qual uma praga. Então, procurei George em seu quarto, a ausência dele fez-me imaginar que algo errado acontecia. Reportei-me ao chefe da missão que logo acionou o alarme. Mas não sabíamos contra o que lutávamos e a experiência disseminava-se por todo duto e ar do laboratório. Ela poderia separar-se e ainda assim, comunicar-se entre as suas partes. Um cérebro vivo que devorava a carne humana. A inteligência desse monstro era fenomenal. Escondia-se e planejava um modo de alimentar-se de todos que encontrava. Foi então, que descobri que aquele musgo não conseguia ultrapassar as roupas de isolamento. Travamos uma luta homérica contra o cérebro alienígena. Mas ele, incrivelmente, parecia bem mais esperto que nós. Era como se todo o tempo que pensávamos estar o estudando era ele que nos submetia a uma imensa e pormenorizada pesquisa. Um predador avaliando suas presas. Muitas foram as vítimas desse monstro. Tivemos alguns avanços. Descobrimos que não sobrevivia ao fogo e foi então que planejamos queimar todo o edifício. Mas esquecemos da encanação e o monstro espalhou-se nos arredores do laboratório feito uma praga. Fui um dos pouquíssimos sobreviventes da primeira infestação. Foi com o presente de Prometeu que o atacamos, nas cidades mais próximas, colocávamos fogo sobre tudo, até espalhamos gasolina em chamas pela encanação. Foram tentativas inócuas, o alienígena era uma máquina predadora. Diziam os jornais tratar-se do monstro do juízo final.
Então, fizemos nossa derradeira e mais desesperada tentativa: bombas atômicas, que devastariam grande parte dos Estados Unidos, mas nos deixariam livre do monstro. E, desta forma, salvaríamos a raça humana do extermínio certo. Quem lê agora, se for humano, tenha certeza que fizemos de tudo para salvar o planeta. Agora, creio que o musgo extraterrestre devorou toda a vida de Marte. Após, isto, entrou em hibernação. Até seus instintos serem de novo acionados por uma mísera gota de sangue. Eu escrevi este e-mail pouco antes de as bombas serem lançadas. Quem teve contato com o monstro não foi poupado devido aos esporos. Não se sabe ainda como desinfestar o corpo humano deles. Eu vi e vivi o terror e tenho que dividir minhas experiências com vocês. Sejam mais espertos. A raça humana é extremamente adaptável, não vamos nos deixar destruir por uma porcaria de vegetal alienígena! O fogo os destrói as baixas temperaturas conduzem-no de volta ao estado de hibernação. Ele pensa em conjunto, então, todas as partes devem ser pulverizadas no mesmo momento. De posse destas informações vitais, desejo-lhes sorte. Queria dizer algumas belas palavras para coroar o fim do meu e-mail de despedida, mas só me recordo de uma citação que li na internet a que deferiam a autoria a Sócrates: “A morte é uma de duas coisas… Ou é aniquilação, e os mortos não têm consciência de qualquer coisa; ou, como nos é dito, é realmente uma mudança: uma migração da alma de um lugar para outro.” Espero que minha alma siga para os Campos Elíseos e eu possa perguntar a Sócrates se este meu réquiem é mesmo do famoso filósofo. Adeus Terra. Adeus vida. O engraçado é que, por mais longa que seja nossa existência, sempre achamos que a morte chega num piscar de olhos. E o pior: a gente nunca está preparado para o nosso momento derradeiro. Não fiz tudo o que queria, nem o que deveria. Maldição! No fim, achava que iria viver para sempre. O mais estranho é que nós, seres humanos, estamos sempre errados quanto ao futuro. Afinal, só espero que haja um devir para nós.

Michael Jones Collins, 30 de março de 2034.

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