tres-casos-de-canibalismo-2

“Nossas cicatrizes servem para nos
lembrar que o passado foi real”.
Hannibal Lecter

Jeremy

Giordana Bonifácio

A noite costumava ser minha amiga. Mas, agora, nem no silêncio da madrugada tenho paz. Minha vida se perdeu entre tantas vidas que perdi. Sim, perdi muitos amores. Lindas mulheres que não me compreenderam o suficiente para restarem comigo. Elas sempre se encantam, de início, com o homem charmoso e bacana, mas quando me conhecem tal qual realmente sou, não me querem mais. Rejeitam-me. Um misantropo disse uma delas, referindo-se a mim. Ela sorriu. Eu não. Perguntei se ela estava me chamando de esquisito. Fiquei com raiva. Ela pediu desculpas pelo comentário. Mas via no olhar dela: ela me achava estranho. Foi a que menos tempo restou comigo, percebeu logo quem eu era. Sou “um lobo da estepe”. Um homem criativo e excepcional. Sim, sou mais do que me consideram. Não um louco. Não, tenho as ideias perfeitamente no lugar. Quando quebrei o vaso da sala porque me irritei com Beatrice, foi só um impulso. Sou muito impulsivo. Beatrice é minha cobra. Às vezes, ela sibila coisas sobre mim. Ela é muito desrespeitosa, vez em quando. Isso me irrita. Mas, em geral, gosto da Beatrice. Ela conversa comigo e não tenho muitos com que conversar. As minhas namoradas são fugazes. Romances instantâneos, diria. Acho que sou viciado neles. Sair e ser como os outros por alguns instantes. Mas eu sou normal. Sim. Sou. Não é verdade os comentários dos vizinhos. Dizem de tudo sobre mim. São um bando de fofoqueiros. Já foram dizer à polícia que eu era terrorista. Eu sou um cara pacífico. Em algumas ocasiões, apenas, eu fui violento. Mas, em geral não faço mal a ninguém. As mulheres somem… Elas vêm à minha casa. Porém, sequer ficam para o jantar. Eu sempre janto sozinho. Só Beatrice fica aqui, condenando-me. Eu queria que Beatrice sumisse. Mas, tenho pena dela. Eu sou um bom homem. É sério. Eu ajudo aos desabrigados. Dou comida a eles. Sobras do jantar cuja convidada sequer provou. Eles gostam de mim. Dizem que sou legal. Beatrice nunca está presente nestes momentos. Ela sempre fica sibilando no meu ouvido o quanto sou mau. Ela me reprova. Diz que um dia o mundo vai descobrir quem eu sou. Não ligo. O que ela sabe sobre mim? Nada. Maldita cobra. Queria matá-la.
Se eu pudesse jogava uma bomba no mundo. Os homens e mulheres, todos são maus. Eu não. Eu sou “o cara legal”. Eu deixo as senhoritas sentarem-se no meu lugar no metrô. Gosto de pegar o trem às três horas. Sempre às três. É o horário em que Cristo morreu. Dizem. Sim, sempre dizem algo. Ninguém sabe o que é mentira ou verdade nesse mundo. Mas eu sou justo. No meu tribunal, a humanidade está condenada. Conheci várias garotas no trem. Elas me acharam simpático. “Deve ser por causa dos seus olhos azuis”. Disse uma delas. Chamei-a para jantar comigo. Ela gostou da Beatrice. Eu falei-lhe para não confiar nela. “É uma jiboia sem presas, mas tem uma peçonha…” Não sei o que a fez partir. Ela deixou-me enquanto preparava o jantar. Mais uma vez dei tudo para os mendigos. Beatrice zomba de mim. “Quem quer ficar com um esquisitão como você?” Eu deveria me livrar dessa cobra. Mas ela era da minha mãe e não posso perder essa última lembrança dela. Mamãe também me abandonou. Como fazem todas. Ninguém resta mais de algumas horas comigo. Por que me temem? Eu sou “o cara legal”. Sei cozinhar, sou simpático, tenho belos olhos azuis e “um sorriso cativante”. Foi o que me disse a última garota com quem saí. Mas ela se foi. Todas se vão. Mamãe se foi. Ninguém fica comigo. Ninguém. Eu tenho muita vontade de chorar. Mas quem se importaria com minhas lágrimas? Beatrice se regozijaria com minha dor. Eu tenho de me livrar dessa cobra! Os mendigos têm fome. Eu também. Minha fome é imensa. Eu tenho de comer. Mamãe não me dava comida. Ela bebia e me batia. Eu chorei muito. Mas, um dia, eu estava com muita fome. E… Não tinha comida. No armário, só havia garrafas de bebida vazias. Pedi comida para a mamãe. Não. Para! Não vou me lembrar disso! Lá, lá, lá, lá! Não quero ver! Um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais. Dois elefantes incomodam muita gente, três elefantes incomodam muito mais. Mamãe me bateu e minha fome era enorme. Eu queria comer. Precisava.
“E o que você fez, Jeremy?” Não fiz nada! Nada! Pare de perguntar Beatrice, você é o quê? Uma maldita cobra tagarela! É isso o que você é. Não fiz nada. Nada. “E esse sangue em suas mãos, Jeremy? De onde vem?”. Eu só estava cozinhando. Não vê? Cobra detestável! “Você não compra comida já faz anos, Jeremy. Nos armários, só estão as garrafas de bebida empoeiradas da sua mãe. O que você fez? O que você come?” Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que vem da boca de Deus. “O que você fez?” Mamãe não me dava comida e eu estava com muita fome. “Isso você já disse. Eu quero saber o que você realmente fez”. Eu… Eu… Peguei esta faca. E quando ela virou as costas, zás! Eu cortei-lhe o pescoço, como se mata uma galinha e depois preparei o jantar. “O que você comeu?” A carne da galinha… “Não havia galinha, Jeremy…” Eu comi a carne, bebi o sangue e chupei os ossos. Depois arrumei tudo. Para mamãe não perceber o que tinha feito. Ela iria ficar uma fera se soubesse que fiz galinha cozida. As sobras, eu dividi com os mendigos. Mas parece que, a partir desse dia, abriu-se um enorme vazio dentro de mim. Uma fome insaciável que me obriga, impele-me a buscar mais comida. Eu tenho de comer. Eu preciso. Eu necessito. A palavra de Deus não me é o suficiente. Nada aplaca essa fome voraz que me consome. Desejo sempre mais. É uma carne adocicada. Saborosa. Eu lambo os lábios só de pensar. Quero compartilhar esse prazer incomparável com alguém, mas mamãe não volta e as mulheres, que trago aqui, todas, desaparecem. Não consigo compreender… Eu iria preparar-lhes o manjar dos deuses. Às três horas pego o trem. Jesus, que é Cristo, morreu às três horas. Jesus jejuou quarenta dias no deserto. Mas eu tenho fome.
“Jeremy, o que faz com essa faca aí na mão?” Ora Beatrice, matei a galinha para comer. Essa gritou, mas foi num instante que lhe cortei o pescoço. Não adianta que não vou dividir com você. O ruim é depenar. Mas a pele é uma delícia bem fritinha. Contudo, eu prefiro a carne das coxas. Gosto de assar na própria gordura também… . “Jeremy, onde está a moça que trouxe com você?” Você vai gostar dela, Beatrice. É bem legal, gosta de literatura e estuda Letras. Ela veio jantar conosco. Só não apronte das suas Beatrice. Talvez essa fique conosco. E, se a mamãe voltar, vai gostar dela, também.
Porém, como em todas as outras noites, eu volto para a sala e o vazio me surpreende como é contumaz. Foi tudo sua culpa, Beatrice! Sibilando mentiras sobre mim! Eu não matei minha mãe, eu não matei ninguém. Eu só tenho fome. Muita fome. A cada jantar, mais a fome me domina e me impele. Sem freios. Em busca do prazer do alimento, do sangue que jorra vermelho e quente, da carne que pulsa em minhas mãos. As mulheres não ficam. O estranho é que, no canto da sala, começam a se amontoar vestidos, blusas femininas sapatos e outros trajes que não sei de onde aparecem. Deve ser a Beatrice que traz essas coisas para casa. Tomara que você não esteja a roubar dos vizinhos, cobra maluca! Hahahaha. Cobra maluca! Doidinha! Não sabe o que fala! Eu não, eu sou “o cara legal”, eu divido meu alimento com os pobres, enquanto você, sua cobra invejosa, come ratos! Às três horas Jesus morreu, às três horas eu pego o trem na estação central. Olá, como vai? Deseja sentar-se? Não precisa me agradecer, eu sempre cedo meu lugar para garotas bonitas como você. E pelo que vejo, também é inteligente, qual é o livro que está a ler? Frankenstein? É um dos meus favoritos. Mas prefiro assistir a filmes, por acaso já assistiu ao Silêncio dos Inocentes? Aquele Hannibal me dá calafrios! A propósito, chamo-me Jeremy!

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