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“A vida toda é um aprender a morrer”.
Sêneca

Antes do fim do mundo

Giordana Bonifácio

A imprensa está falando a todo momento: “um asteroide vai se chocar com a Terra. Não há o que possa ser feito. Aproveitem seus últimos dias. O epicentro do impacto será o Brasil”. A gente já enxerga no céu a grande pedra flamejante aproximar-se. As pessoas dividiram-se entre aqueles que se reúnem em igrejas e pedem por suas almas e os que soltaram seus instintos primitivos. Há uma onda de saques ao comércio que a polícia nem repreende mais. Sinceramente, não sei o que fará o ladrão com uma televisão de 50 polegadas se dela desfrutará por míseros três dias. É a previsão oficial da colisão. Depois disso, a morte se disseminará pelo mundo. Já fizeram todos os estudos possíveis. A raça humana será extinta em menos de dois anos devido as consequências do cataclismo. Tal qual os dinossauros, vamos todos virar petróleo. Quem sabe daqui a milhões de anos não surja uma espécie que realmente mereça este planeta?
Não estou com medo. Na verdade, queria temer. O fim é-me tão indiferente quanto o começo. Para onde vamos? Que me importa? Se a vida acaba aqui, se existe um “outro plano”, como dizem, é-me igual. Não estou preocupada em me salvar a alma. Não ajoelharei em busca de piedade. Assumo minhas faltas com uma coragem que sequer sabia possuir. Minhas palavras finais não serão ouvidas por ninguém, porque não direi nada. Deitarei resignadamente sobre o solo até ser esmagada por uma força de milhões de toneladas. E fim. Termina aqui a história? Não, pois tenho de relatar o que era meu mundo antes deste derradeiro momento.
O tempo corria sem arreios. Não sabia que o desperdiçava porque o cria infinito. Mas ninguém poderia prever que a vida teria um fim tão clichê: vem um asteroide e bum! Foi-se o mundo! Não tive tempo de fazer o que sempre sonhei: visitar a histórica Europa, berço da civilização ocidental. Gostaria de ir à Grécia para ver as ruínas tão famosas. Mas as viagens intercontinentais foram proibidas antes que pudesse fazê-lo. Eu queria ter filhos, mas a perspectiva de uma família agora é impossível. A realidade estendeu-me a mão repleta de possibilidades e recolheu-a abruptamente. E um imenso “não” tombou sobre mim. Eu trabalhava como bibliotecária em uma grande universidade e tudo que conhecia do mundo vinha-me dos livros que lia. Só vivi a França das páginas das obras de Dumas e Hugo, a Rússia que lia em Dostoievski. E muitos outros incríveis lugares do relato fenomenal dos grandes escritores. Viajei no tempo e espaço pela literatura. Apesar de saber muito da vida na teoria dos ensinamentos recolhidos dos mais famosos autores, pouco me era conhecido da prática. Sempre estive protegida detrás dos muros da minha covardia. E assim, estava a salvo. Ou, ao menos, acreditava nisto. Homero diria que “a flecha não fere os covardes”. E meu tempo foi perdido num confinamento que me impus cujo propósito era não me machucar. E agora? O fim do mundo é presente (presente de grego, devo dizer) e nada posso fazer para mudar isso.
Se tivesse outra chance faria diferente? Não o creio. Deus não deu uma segunda chance à Sodoma e Gomorra. Se houvesse cinquenta justos neste mundo, poupá-lo-ia Deus por amor a eles? Mas não o há. “Quem dentre vós nunca pecou que atire a primeira pedra”. Só Ele pode lançá-la sobre nós. Chega-me o fim sem que tenha começado a viver. E o tempo é exíguo demais para que o faça agora. A única certeza que tínhamos na vida era a morte, mas jamais estamos preparados para ela. Sêneca dizia que a vida toda é um aprender a morrer. Mas por que sempre somos reprovados no exame final? Não importa quão esforçado seja o estudante, a nota do vestibular da vida nunca o permite adentrar nos portões do Paraíso. Para começar a gente já carrega nos ombros uma falta que não é nossa: o pecado original, que passa por gerações como uma herança maldita que eternamente nos acompanha. Não fui eu quem mordeu a maçã, mas ganhei como prêmio a mortalidade. E agora vou provar-lhe o gosto amargo assim que o asteroide se chocar com a Terra.
“Pequena é a parte da vida que vivemos”. Diria Sêneca. Estive ocupada demais aguardando o tempo que poderia fazer o que realmente queria. A espera decerto tem um fim, mas nem sempre nos é satisfatório. Maldito livre-arbítrio que nos permite escolher a nossa história. Eu tinha múltiplas possibilidades que hoje se resumem a uma só: morrer. Não posso dizer-me satisfeita, mas assumo: fui eu quem quis assim. Minhas chances de viver foram inúmeras, mas resolvi esperar, numa esperança vã de, no futuro, tudo ser mais propício. Não sei tocar violão porque não tinha tempo de ensaiar, não sei falar alemão porque o horário das aulas não se encaixava em minha rotina. Não sei cozinhar, pois não dei a chance que minha mãe tanto queria de me ensinar. É uma lista longa de “não seis” acompanhados sempre de uma desculpa com a qual me alivio a culpa de não fazer, de não ter, de não ser. Eu hoje sou muito pouco, mas o que importa? Vamos todos morrer e para isto não há remédio. Mas eu poderia ter sido? Sim poderia! Mas não o fui, não o sou e nem mesmo o serei.
Que me resta senão deitar sobre esse imenso gramado à espera da morte? Sem me importar com o caos a minha volta, com a dor e o medo que se disseminam na sociedade. Não há como evitar o choque próximo. Como diria minha mãe o “o que está feito não está por fazer”. Digo sim à bola de fogo que cruza o céu em nossa direção. Aceito-a. Ainda que me assuste. Quem se sente preparado para a morte? Quem se pode dizer confortável com ela? Queremos a vida, ansiamos por ela. Mas não sei o porquê de a desperdiçarmos. Não fui o que deveria ter sido, nem o que gostaria ter sido, mas aquilo que pude ser. Não que me agrade. Temos vergonha de nossas derrotas. Mas deveríamos nos orgulharmos de nossas feridas. São a prova de nossas tentativas. Nem sempre tudo está no script: a vida é uma peça cheia de improvisos. E já se aproxima o seu ato derradeiro. Fecho os olhos para aplacar o fogo que me consome. E ainda nem me chegou a morte enfim.

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