Arquivo do mês: março 2017

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“A morte é uma de duas coisas… Ou é aniquilação,
e os mortos não têm consciência de qualquer coisa;
ou, como nos é dito, é realmente uma mudança:
uma migração da alma de um lugar para outro.”
Sócrates

A experiência

Giordana Bonifácio

Estou escrevendo este e-mail no auge do meu desespero. A morte é certa e tenho que dividir minha dor com os outros de minha espécie. Descobri que o universo não está resumido a nossa minúscula sabedoria de vida. Mas quando compreendi isto, já foi muito, muito tarde. O conhecimento que possuímos é mínimo. Somos seres rudes, comparados ao que existe além do que nossos olhos podem ver. Os homens olham as estrelas e sequer imaginam o que há além do vazio, o que ainda está além do nosso alcance. Penso que os primeiros navegadores sofreram dos mesmos temores que nos cercam, hoje: monstros terríveis, queda no fim da abóbada terrestre, morte e tragédia. Incrível como somos assaltados pelos mesmos medos, ou, talvez, deles nunca nos desfizemos. Minha imaginação é muito restrita para descrever estes últimos dias no laboratório. Não consigo escolher as melhores palavras para informar ao mundo o que descobrimos. E temo que já seja tarde demais. Talvez, ninguém tenha sobrevivido. Talvez, agora, sejamos apenas uma vaga lembrança na memória dos seres que passaram por aqui. Não sei se podemos designar alienígenas por seres. Eles estão vivos, então devem ser seres. Ou espécimes, ou “a experiência”, como costumávamos denominar a amostra que analisávamos no laboratório. Não nos parecia perigosa, de início. Era um tipo de musgo que reagia a eletricidade. Foi encontrado no casco de uma nave enviada a Marte. Achávamos que se tratava de algum vegetal marciano. Estudamo-lo por anos e nada indicava o que iria acontecer. Eu era o engenheiro químico chefe da “Missão Marte”, um trabalho de pesquisas ultrassecretas dos Estados Unidos. Éramos cientistas de várias áreas do conhecimento e de inúmeros países estudando os resultados da última missão no planeta vermelho. Chamo-me, ou, ao menos, chamava-me, Michael Jones Collins, estava entusiasmado com nossas descobertas a respeito “da experiência”. Os geneticistas diziam nunca terem visto um ser como aquele. Regenerava-se e parecia sobreviver as condições mais adversas de frio e pressão. Estávamos abismados com nossas descobertas. Mas quando pensávamos saber tudo sobre o ser que grudou no casco da nave que aterrissou em solo marciano, ela finalmente apresentou todo o seu risco.
Um dos geneticistas foi recolher com uma seringa um pedaço do corpo daquele musgo de cor avermelhada. Mas, por acidente, picou o próprio dedo e uma gota de sangue caiu sobre “a experiência”. Imediatamente, a esta foi ativada, pois ao que me parece, antes de ser provocada, ela parecia inerte. Esperava pelas vítimas. Não imaginava que um musgo poderia ser um perigosíssimo espécime de predador. O ser grudou-se ao dedo do cientista e alimentava-se da carne com voracidade e sua cor avermelhada fosca foi ganhando um avermelhado vivo e mortal. O cientista tentava retirar de si aquele musgo que crescia à medida que o consumia, mas, em pouco tempo, este já cobria todo o braço do nosso colega. Uma cobertura vegetal formou-se sobre George e logo descobrimos ser, este estranho espécime, um monstro terrível e letal. O ser alimentava-se vorazmente de nosso colega, mas não sabíamos o que fazer, o monstro regenerava-se sempre que lhe cortávamos uma parte. Então, não tivemos escolha: arrancamos o braço do cientista. E conseguimos recolher o monstro a um ambiente fechado de onde não poderia disseminar-se para atacar outras pessoas. Fizemos todos os procedimentos de saúde no nosso colega. Porém, descobrimos, que todo o tempo que ficamos a estudar “a experiência” não foi o suficiente para a conhecer verdadeiramente. Ela distribuía esporos no corpo do ser atacado e devorava o hospedeiro até não sobrar nada dele. Nem sequer os ossos. Após termos feito os procedimentos de desinfecção normal exigido num momento como o que passamos, encaminhamos George, a primeira vítima, ao quarto dele para que descansasse. No dia seguinte, o homem não mais existia. Tinha virado parte daquele musgo que se alastrou pelas dependências da estação pelos dutos de ar. Não acreditávamos que aquele ser poderia pensar e atacar a presa com tamanha astúcia e dissimulação. Muitos dos nossos cientistas despertaram com o musgo sobre si. Sugando-lhe o sangue, comendo seus órgãos, desintegrando-lhes feito um ácido e o mostro tornava-se assim, maior e mais mortal. Espalhava-se pelo edifício e nada parecia detê-lo. Quando nos demos conta da morte certa, era demasiado tarde. Só fomos nos conscientizar da quantidade de vítimas no início do expediente, quando um número expressivo de empregados não compareceu ao laboratório. Mas, ao procurarmo-los em seus aposentos, nada achamos. Sequer uma mera gota de sangue.
Eu logo percebi que aquilo não era normal. Fui ver o espécime isolado no laboratório e este se espalhava pela parede do cubículo em que estava, tal qual uma praga. Então, procurei George em seu quarto, a ausência dele fez-me imaginar que algo errado acontecia. Reportei-me ao chefe da missão que logo acionou o alarme. Mas não sabíamos contra o que lutávamos e a experiência disseminava-se por todo duto e ar do laboratório. Ela poderia separar-se e ainda assim, comunicar-se entre as suas partes. Um cérebro vivo que devorava a carne humana. A inteligência desse monstro era fenomenal. Escondia-se e planejava um modo de alimentar-se de todos que encontrava. Foi então, que descobri que aquele musgo não conseguia ultrapassar as roupas de isolamento. Travamos uma luta homérica contra o cérebro alienígena. Mas ele, incrivelmente, parecia bem mais esperto que nós. Era como se todo o tempo que pensávamos estar o estudando era ele que nos submetia a uma imensa e pormenorizada pesquisa. Um predador avaliando suas presas. Muitas foram as vítimas desse monstro. Tivemos alguns avanços. Descobrimos que não sobrevivia ao fogo e foi então que planejamos queimar todo o edifício. Mas esquecemos da encanação e o monstro espalhou-se nos arredores do laboratório feito uma praga. Fui um dos pouquíssimos sobreviventes da primeira infestação. Foi com o presente de Prometeu que o atacamos, nas cidades mais próximas, colocávamos fogo sobre tudo, até espalhamos gasolina em chamas pela encanação. Foram tentativas inócuas, o alienígena era uma máquina predadora. Diziam os jornais tratar-se do monstro do juízo final.
Então, fizemos nossa derradeira e mais desesperada tentativa: bombas atômicas, que devastariam grande parte dos Estados Unidos, mas nos deixariam livre do monstro. E, desta forma, salvaríamos a raça humana do extermínio certo. Quem lê agora, se for humano, tenha certeza que fizemos de tudo para salvar o planeta. Agora, creio que o musgo extraterrestre devorou toda a vida de Marte. Após, isto, entrou em hibernação. Até seus instintos serem de novo acionados por uma mísera gota de sangue. Eu escrevi este e-mail pouco antes de as bombas serem lançadas. Quem teve contato com o monstro não foi poupado devido aos esporos. Não se sabe ainda como desinfestar o corpo humano deles. Eu vi e vivi o terror e tenho que dividir minhas experiências com vocês. Sejam mais espertos. A raça humana é extremamente adaptável, não vamos nos deixar destruir por uma porcaria de vegetal alienígena! O fogo os destrói as baixas temperaturas conduzem-no de volta ao estado de hibernação. Ele pensa em conjunto, então, todas as partes devem ser pulverizadas no mesmo momento. De posse destas informações vitais, desejo-lhes sorte. Queria dizer algumas belas palavras para coroar o fim do meu e-mail de despedida, mas só me recordo de uma citação que li na internet a que deferiam a autoria a Sócrates: “A morte é uma de duas coisas… Ou é aniquilação, e os mortos não têm consciência de qualquer coisa; ou, como nos é dito, é realmente uma mudança: uma migração da alma de um lugar para outro.” Espero que minha alma siga para os Campos Elíseos e eu possa perguntar a Sócrates se este meu réquiem é mesmo do famoso filósofo. Adeus Terra. Adeus vida. O engraçado é que, por mais longa que seja nossa existência, sempre achamos que a morte chega num piscar de olhos. E o pior: a gente nunca está preparado para o nosso momento derradeiro. Não fiz tudo o que queria, nem o que deveria. Maldição! No fim, achava que iria viver para sempre. O mais estranho é que nós, seres humanos, estamos sempre errados quanto ao futuro. Afinal, só espero que haja um devir para nós.

Michael Jones Collins, 30 de março de 2034.

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“Nossas cicatrizes servem para nos
lembrar que o passado foi real”.
Hannibal Lecter

Jeremy

Giordana Bonifácio

A noite costumava ser minha amiga. Mas, agora, nem no silêncio da madrugada tenho paz. Minha vida se perdeu entre tantas vidas que perdi. Sim, perdi muitos amores. Lindas mulheres que não me compreenderam o suficiente para restarem comigo. Elas sempre se encantam, de início, com o homem charmoso e bacana, mas quando me conhecem tal qual realmente sou, não me querem mais. Rejeitam-me. Um misantropo disse uma delas, referindo-se a mim. Ela sorriu. Eu não. Perguntei se ela estava me chamando de esquisito. Fiquei com raiva. Ela pediu desculpas pelo comentário. Mas via no olhar dela: ela me achava estranho. Foi a que menos tempo restou comigo, percebeu logo quem eu era. Sou “um lobo da estepe”. Um homem criativo e excepcional. Sim, sou mais do que me consideram. Não um louco. Não, tenho as ideias perfeitamente no lugar. Quando quebrei o vaso da sala porque me irritei com Beatrice, foi só um impulso. Sou muito impulsivo. Beatrice é minha cobra. Às vezes, ela sibila coisas sobre mim. Ela é muito desrespeitosa, vez em quando. Isso me irrita. Mas, em geral, gosto da Beatrice. Ela conversa comigo e não tenho muitos com que conversar. As minhas namoradas são fugazes. Romances instantâneos, diria. Acho que sou viciado neles. Sair e ser como os outros por alguns instantes. Mas eu sou normal. Sim. Sou. Não é verdade os comentários dos vizinhos. Dizem de tudo sobre mim. São um bando de fofoqueiros. Já foram dizer à polícia que eu era terrorista. Eu sou um cara pacífico. Em algumas ocasiões, apenas, eu fui violento. Mas, em geral não faço mal a ninguém. As mulheres somem… Elas vêm à minha casa. Porém, sequer ficam para o jantar. Eu sempre janto sozinho. Só Beatrice fica aqui, condenando-me. Eu queria que Beatrice sumisse. Mas, tenho pena dela. Eu sou um bom homem. É sério. Eu ajudo aos desabrigados. Dou comida a eles. Sobras do jantar cuja convidada sequer provou. Eles gostam de mim. Dizem que sou legal. Beatrice nunca está presente nestes momentos. Ela sempre fica sibilando no meu ouvido o quanto sou mau. Ela me reprova. Diz que um dia o mundo vai descobrir quem eu sou. Não ligo. O que ela sabe sobre mim? Nada. Maldita cobra. Queria matá-la.
Se eu pudesse jogava uma bomba no mundo. Os homens e mulheres, todos são maus. Eu não. Eu sou “o cara legal”. Eu deixo as senhoritas sentarem-se no meu lugar no metrô. Gosto de pegar o trem às três horas. Sempre às três. É o horário em que Cristo morreu. Dizem. Sim, sempre dizem algo. Ninguém sabe o que é mentira ou verdade nesse mundo. Mas eu sou justo. No meu tribunal, a humanidade está condenada. Conheci várias garotas no trem. Elas me acharam simpático. “Deve ser por causa dos seus olhos azuis”. Disse uma delas. Chamei-a para jantar comigo. Ela gostou da Beatrice. Eu falei-lhe para não confiar nela. “É uma jiboia sem presas, mas tem uma peçonha…” Não sei o que a fez partir. Ela deixou-me enquanto preparava o jantar. Mais uma vez dei tudo para os mendigos. Beatrice zomba de mim. “Quem quer ficar com um esquisitão como você?” Eu deveria me livrar dessa cobra. Mas ela era da minha mãe e não posso perder essa última lembrança dela. Mamãe também me abandonou. Como fazem todas. Ninguém resta mais de algumas horas comigo. Por que me temem? Eu sou “o cara legal”. Sei cozinhar, sou simpático, tenho belos olhos azuis e “um sorriso cativante”. Foi o que me disse a última garota com quem saí. Mas ela se foi. Todas se vão. Mamãe se foi. Ninguém fica comigo. Ninguém. Eu tenho muita vontade de chorar. Mas quem se importaria com minhas lágrimas? Beatrice se regozijaria com minha dor. Eu tenho de me livrar dessa cobra! Os mendigos têm fome. Eu também. Minha fome é imensa. Eu tenho de comer. Mamãe não me dava comida. Ela bebia e me batia. Eu chorei muito. Mas, um dia, eu estava com muita fome. E… Não tinha comida. No armário, só havia garrafas de bebida vazias. Pedi comida para a mamãe. Não. Para! Não vou me lembrar disso! Lá, lá, lá, lá! Não quero ver! Um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais. Dois elefantes incomodam muita gente, três elefantes incomodam muito mais. Mamãe me bateu e minha fome era enorme. Eu queria comer. Precisava.
“E o que você fez, Jeremy?” Não fiz nada! Nada! Pare de perguntar Beatrice, você é o quê? Uma maldita cobra tagarela! É isso o que você é. Não fiz nada. Nada. “E esse sangue em suas mãos, Jeremy? De onde vem?”. Eu só estava cozinhando. Não vê? Cobra detestável! “Você não compra comida já faz anos, Jeremy. Nos armários, só estão as garrafas de bebida empoeiradas da sua mãe. O que você fez? O que você come?” Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que vem da boca de Deus. “O que você fez?” Mamãe não me dava comida e eu estava com muita fome. “Isso você já disse. Eu quero saber o que você realmente fez”. Eu… Eu… Peguei esta faca. E quando ela virou as costas, zás! Eu cortei-lhe o pescoço, como se mata uma galinha e depois preparei o jantar. “O que você comeu?” A carne da galinha… “Não havia galinha, Jeremy…” Eu comi a carne, bebi o sangue e chupei os ossos. Depois arrumei tudo. Para mamãe não perceber o que tinha feito. Ela iria ficar uma fera se soubesse que fiz galinha cozida. As sobras, eu dividi com os mendigos. Mas parece que, a partir desse dia, abriu-se um enorme vazio dentro de mim. Uma fome insaciável que me obriga, impele-me a buscar mais comida. Eu tenho de comer. Eu preciso. Eu necessito. A palavra de Deus não me é o suficiente. Nada aplaca essa fome voraz que me consome. Desejo sempre mais. É uma carne adocicada. Saborosa. Eu lambo os lábios só de pensar. Quero compartilhar esse prazer incomparável com alguém, mas mamãe não volta e as mulheres, que trago aqui, todas, desaparecem. Não consigo compreender… Eu iria preparar-lhes o manjar dos deuses. Às três horas pego o trem. Jesus, que é Cristo, morreu às três horas. Jesus jejuou quarenta dias no deserto. Mas eu tenho fome.
“Jeremy, o que faz com essa faca aí na mão?” Ora Beatrice, matei a galinha para comer. Essa gritou, mas foi num instante que lhe cortei o pescoço. Não adianta que não vou dividir com você. O ruim é depenar. Mas a pele é uma delícia bem fritinha. Contudo, eu prefiro a carne das coxas. Gosto de assar na própria gordura também… . “Jeremy, onde está a moça que trouxe com você?” Você vai gostar dela, Beatrice. É bem legal, gosta de literatura e estuda Letras. Ela veio jantar conosco. Só não apronte das suas Beatrice. Talvez essa fique conosco. E, se a mamãe voltar, vai gostar dela, também.
Porém, como em todas as outras noites, eu volto para a sala e o vazio me surpreende como é contumaz. Foi tudo sua culpa, Beatrice! Sibilando mentiras sobre mim! Eu não matei minha mãe, eu não matei ninguém. Eu só tenho fome. Muita fome. A cada jantar, mais a fome me domina e me impele. Sem freios. Em busca do prazer do alimento, do sangue que jorra vermelho e quente, da carne que pulsa em minhas mãos. As mulheres não ficam. O estranho é que, no canto da sala, começam a se amontoar vestidos, blusas femininas sapatos e outros trajes que não sei de onde aparecem. Deve ser a Beatrice que traz essas coisas para casa. Tomara que você não esteja a roubar dos vizinhos, cobra maluca! Hahahaha. Cobra maluca! Doidinha! Não sabe o que fala! Eu não, eu sou “o cara legal”, eu divido meu alimento com os pobres, enquanto você, sua cobra invejosa, come ratos! Às três horas Jesus morreu, às três horas eu pego o trem na estação central. Olá, como vai? Deseja sentar-se? Não precisa me agradecer, eu sempre cedo meu lugar para garotas bonitas como você. E pelo que vejo, também é inteligente, qual é o livro que está a ler? Frankenstein? É um dos meus favoritos. Mas prefiro assistir a filmes, por acaso já assistiu ao Silêncio dos Inocentes? Aquele Hannibal me dá calafrios! A propósito, chamo-me Jeremy!

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“A vida toda é um aprender a morrer”.
Sêneca

Antes do fim do mundo

Giordana Bonifácio

A imprensa está falando a todo momento: “um asteroide vai se chocar com a Terra. Não há o que possa ser feito. Aproveitem seus últimos dias. O epicentro do impacto será o Brasil”. A gente já enxerga no céu a grande pedra flamejante aproximar-se. As pessoas dividiram-se entre aqueles que se reúnem em igrejas e pedem por suas almas e os que soltaram seus instintos primitivos. Há uma onda de saques ao comércio que a polícia nem repreende mais. Sinceramente, não sei o que fará o ladrão com uma televisão de 50 polegadas se dela desfrutará por míseros três dias. É a previsão oficial da colisão. Depois disso, a morte se disseminará pelo mundo. Já fizeram todos os estudos possíveis. A raça humana será extinta em menos de dois anos devido as consequências do cataclismo. Tal qual os dinossauros, vamos todos virar petróleo. Quem sabe daqui a milhões de anos não surja uma espécie que realmente mereça este planeta?
Não estou com medo. Na verdade, queria temer. O fim é-me tão indiferente quanto o começo. Para onde vamos? Que me importa? Se a vida acaba aqui, se existe um “outro plano”, como dizem, é-me igual. Não estou preocupada em me salvar a alma. Não ajoelharei em busca de piedade. Assumo minhas faltas com uma coragem que sequer sabia possuir. Minhas palavras finais não serão ouvidas por ninguém, porque não direi nada. Deitarei resignadamente sobre o solo até ser esmagada por uma força de milhões de toneladas. E fim. Termina aqui a história? Não, pois tenho de relatar o que era meu mundo antes deste derradeiro momento.
O tempo corria sem arreios. Não sabia que o desperdiçava porque o cria infinito. Mas ninguém poderia prever que a vida teria um fim tão clichê: vem um asteroide e bum! Foi-se o mundo! Não tive tempo de fazer o que sempre sonhei: visitar a histórica Europa, berço da civilização ocidental. Gostaria de ir à Grécia para ver as ruínas tão famosas. Mas as viagens intercontinentais foram proibidas antes que pudesse fazê-lo. Eu queria ter filhos, mas a perspectiva de uma família agora é impossível. A realidade estendeu-me a mão repleta de possibilidades e recolheu-a abruptamente. E um imenso “não” tombou sobre mim. Eu trabalhava como bibliotecária em uma grande universidade e tudo que conhecia do mundo vinha-me dos livros que lia. Só vivi a França das páginas das obras de Dumas e Hugo, a Rússia que lia em Dostoievski. E muitos outros incríveis lugares do relato fenomenal dos grandes escritores. Viajei no tempo e espaço pela literatura. Apesar de saber muito da vida na teoria dos ensinamentos recolhidos dos mais famosos autores, pouco me era conhecido da prática. Sempre estive protegida detrás dos muros da minha covardia. E assim, estava a salvo. Ou, ao menos, acreditava nisto. Homero diria que “a flecha não fere os covardes”. E meu tempo foi perdido num confinamento que me impus cujo propósito era não me machucar. E agora? O fim do mundo é presente (presente de grego, devo dizer) e nada posso fazer para mudar isso.
Se tivesse outra chance faria diferente? Não o creio. Deus não deu uma segunda chance à Sodoma e Gomorra. Se houvesse cinquenta justos neste mundo, poupá-lo-ia Deus por amor a eles? Mas não o há. “Quem dentre vós nunca pecou que atire a primeira pedra”. Só Ele pode lançá-la sobre nós. Chega-me o fim sem que tenha começado a viver. E o tempo é exíguo demais para que o faça agora. A única certeza que tínhamos na vida era a morte, mas jamais estamos preparados para ela. Sêneca dizia que a vida toda é um aprender a morrer. Mas por que sempre somos reprovados no exame final? Não importa quão esforçado seja o estudante, a nota do vestibular da vida nunca o permite adentrar nos portões do Paraíso. Para começar a gente já carrega nos ombros uma falta que não é nossa: o pecado original, que passa por gerações como uma herança maldita que eternamente nos acompanha. Não fui eu quem mordeu a maçã, mas ganhei como prêmio a mortalidade. E agora vou provar-lhe o gosto amargo assim que o asteroide se chocar com a Terra.
“Pequena é a parte da vida que vivemos”. Diria Sêneca. Estive ocupada demais aguardando o tempo que poderia fazer o que realmente queria. A espera decerto tem um fim, mas nem sempre nos é satisfatório. Maldito livre-arbítrio que nos permite escolher a nossa história. Eu tinha múltiplas possibilidades que hoje se resumem a uma só: morrer. Não posso dizer-me satisfeita, mas assumo: fui eu quem quis assim. Minhas chances de viver foram inúmeras, mas resolvi esperar, numa esperança vã de, no futuro, tudo ser mais propício. Não sei tocar violão porque não tinha tempo de ensaiar, não sei falar alemão porque o horário das aulas não se encaixava em minha rotina. Não sei cozinhar, pois não dei a chance que minha mãe tanto queria de me ensinar. É uma lista longa de “não seis” acompanhados sempre de uma desculpa com a qual me alivio a culpa de não fazer, de não ter, de não ser. Eu hoje sou muito pouco, mas o que importa? Vamos todos morrer e para isto não há remédio. Mas eu poderia ter sido? Sim poderia! Mas não o fui, não o sou e nem mesmo o serei.
Que me resta senão deitar sobre esse imenso gramado à espera da morte? Sem me importar com o caos a minha volta, com a dor e o medo que se disseminam na sociedade. Não há como evitar o choque próximo. Como diria minha mãe o “o que está feito não está por fazer”. Digo sim à bola de fogo que cruza o céu em nossa direção. Aceito-a. Ainda que me assuste. Quem se sente preparado para a morte? Quem se pode dizer confortável com ela? Queremos a vida, ansiamos por ela. Mas não sei o porquê de a desperdiçarmos. Não fui o que deveria ter sido, nem o que gostaria ter sido, mas aquilo que pude ser. Não que me agrade. Temos vergonha de nossas derrotas. Mas deveríamos nos orgulharmos de nossas feridas. São a prova de nossas tentativas. Nem sempre tudo está no script: a vida é uma peça cheia de improvisos. E já se aproxima o seu ato derradeiro. Fecho os olhos para aplacar o fogo que me consome. E ainda nem me chegou a morte enfim.

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