unb2

“- Isto… é a árvore de Natal de Cristo – respondem-lhe.
– Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo,
uma árvore de Natal, para os meninos que
não tiveram sua árvore na terra…”
A árvore de Natal na casa de Cristo- Fiódor Dostoiévski

O conto sobre o qual lhe falei

Giordana Bonifácio

-Sabe aquele conto sobre o qual lhe falei? Disse o estudante de casaco largo e capuz.
Fazia frio e como já se aproximavam as férias, a universidade estava praticamente vazia. Sua calça surrada guardava alguns rasgos de velhice que ele insistia em dizer que era estilo. Seu nome era Heitor, uma homenagem a Villa Lobos, ídolo de seus pais, de quem o rapaz não herdou o talento musical. Paciência. Nem sempre o nome faz com que sigamos o caminho que previamente nos foi trilhado. Talvez porque só nós possamos construir nossa vida. Não adianta o desespero da mãe e do pai. Às vezes, o menino quer estudar literatura mesmo. Pode não ser rentável como Direito, mas quem disse que um ótimo educador não pode ter uma vida confortável? Bem, sigamos para o diálogo que pode ser, quem sabe, interessante.
-Ã? Respondeu o outro rapaz cuja camiseta mostrava-se muito pouco para protegê-lo do frio abissal que fazia aquela noite. Mas Ricardo costumava enfrentar as intempéries sem casacos ou guarda-chuvas. Era sempre o mesmo esquema: frio = camiseta, calor = camiseta, chuva = camiseta. Às vezes a equação era mais ou menos a seguinte, chuva + frio + camiseta = pneumonia, mas, ainda assim, a teimosia não o permitia a fraqueza de um casaco, mesmo que fino.
-Aquele, do Dostoiévski, “A árvore de Natal na casa de Cristo”. Eu até o narrei para você. Ainda lhe contei sobre a questão que pesa sobre o possível plágio do conto do Andersen, “A pequena vendedora de fósforos”.
-Sim, o que é que há? Respondeu sem muita empolgação Ricardo, que preferia linguística à literatura e não compartilhava do interesse literário do amigo. Às vezes, só ouvia o amigo por educação, ou não ouvia, ficava pensando em árvores sintáticas e nas ideias de Chomsky enquanto o amigo narrava um livro ou um conto que havia lido.
-Eu o reli ontem à noite. Pensei muito sobre ele a madrugada passada.
Ricardo, “coração de leão”, como chamava Heitor, pois este último sempre estava ligando a vida à literatura riu-se da ocupação do amigo:
– Você não tinha o trabalho de Literatura Contemporânea para fazer? Por que ficou perdendo tempo com besteira?
-Não é besteira, sabe? A vida é muito mesquinha…. Onde há mais gente, o menino está só; onde há mais fartura, o menino passa fome; onde há mais recursos contra a crueldade do inverno, o menino está mais desabrigado diante do frio. Dostoiévski disse: “Nos ambientes mais mesquinhos encontrei as maiores provas da espiritualidade humana”.
-É só um conto, cara, vai por mim.
-Não, não é. Você não entende…. Ontem, o meu pai dispensou a Creusa. Disse que, se ela não poderia estar na hora no trabalho, os serviços dela lá em casa não eram necessários. Mas ela tem um filho que necessita fazer hemodiálise e outros dois que estão na escola. Meu pai não se apiedou da situação dela e nem mesmo o comoveu os anos que ela passou lá em casa. Por quê? A lógica do capital faz dos homens, seres desumanos. Seguir horários, bater o ponto, obedecer à risca a letra da lei, tudo isto faz dos homens menos humanos.
-Você está falando do conto ou de um problema familiar? O que você pode fazer? “A vida é cruel”. Já diziam os Titãs.
-Ricardo, vocês linguistas são muito lógicos. É algo que se repete. Quem mais tem, menos faz pelo mundo. No conto, poderiam ter acolhido o menino que congelava no frio. Mas ninguém lhe tinha compaixão, nem mesmo numa data significativa como é o Natal.
-Seu pai precisa de um funcionário que cumpra os horários. Sua casa não é uma entidade filantrópica. Disse o rapaz colocando as mãos nos bolsos para disfarçar o fato de estar sentido frio.
-O mundo é injusto. O sofrimento do menino e o sentido de justiça são, no conto, uma crítica à sociedade, que, na época e ainda hoje, ignora e marginaliza, insensivelmente. Meu pai agiu como os personagens que discriminam o menino no conto. Dostoiévski faz uma descrição detalhada de uma criança, ingênua, porém angustiada, como se soubesse da situação em que se encontrava. O autor denuncia a despreocupação com o sujeito estigmatizado e não só com a criança de rua. Meu pai deveria ter se apiedado da condição da Creusa. Mas não o fez. Isto me fez pensar. Pensar que o mundo não mudará nunca. Eu creio que sempre haverá toda esta diferença entre ricos e pobres. E sofro pelo fato de fazer parte de uma sociedade que fecha os olhos a dor dos mais fracos e alimenta com colheradas a riqueza dos milionários.
– E o que você pode fazer a respeito? Perguntou com um certo desdém, Ricardo, que já duvidava da sanidade do amigo, que queria transformar o mundo com um simples diploma de licenciatura que só o permitiria ser professor.
– Não posso fazer muito. Mas já estou procurando um emprego para a Creusa e vou ensinar meus alunos que todos são iguais.
– “Mas uns são mais iguais que os outros”, não? Não se esqueça da Revolução dos Bichos. Você que me indicou o Orwell. Sempre haverá privilegiados e despossuídos. Os que prometem mudanças são os primeiros a locupletarem-se do trabalho dos mais pobres. Meu amigo, os porcos tomaram o controle do mundo. Eles têm os cães que são a força policial, não nos é dado nem sequer o direito de indignarmo-nos. Pois poderemos ser calados ou, pior, assassinados.
– Em que planeta estamos? Um lugar em que o bem é desprezado, em que o sofrimento é ignorado e nada podemos fazer para mudar isto. Ser bom é uma tarefa inglória. É como se estivéssemos todos perdidos. O que podemos fazer? Estamos com mãos e pés atados ante os desmandos dos donos do poder. Heitor despencou sobre a cadeira, quando adentraram à sala onde haveria aula de Romantismo. Estava desvalido de todas as esperanças. Certo de que não tinha como mudar o mundo. E que não importa quanto tempo passasse, mesmo depois de mais de um século, tudo ficaria exatamente como era.
-Coragem, meu amigo. Nem tudo está perdido. Façamos o que está ao nosso alcance. Nem que tenhamos de trabalhar a vida toda para fazer ver um só aluno, será o bastante. Sejamos a mudança que esperamos no mundo. Se nada fizermos, nada mudará. Sozinhos, não nos é dado o poder de mudança. Mas a cada discente que façamos ser melhores que este sistema, fará valer à pena todo o nosso esforço.
-Tarefa inglória, esta, não? Olhou para o amigo que pregava com as palavras de Gandhi, os meios de modificar a realidade em que viviam.
-Meu caro Heitor, não disse que seria fácil. Mas é possível. É um trabalho de longo prazo, é verdade, mas, possível. Temos que ter fé. É tudo que nos resta.
-Você, linguista, já está falando como um literato! Agora, sente-se que a professora já está em classe. Heitor sorriu e, por um instante, pensou: “seria mesmo possível?”

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: