Arquivo do mês: fevereiro 2017

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“Lançamos o barco, sonhamos a viagem:
quem viaja é sempre o mar.”
Mia Couto

Histórias de um velho andarilho

Giordana Bonifácio

Meus olhos, máquinas fotográficas que sempre levei comigo, registraram todos os pontos desta Terra. Nem sei mais por quantos anos estou nessa caminhada. Fui muito além do que qualquer homem. Só pelo prazer de andar. Só pelo gosto do novo. O viajar, creiam em mim, vale muito mais que a viagem. No passado, deixei a rede na varanda de casa para seguir meu destino de ser um homem sem destino, pelo simples prazer de conhecer o que estava além de mim. A vida abria-se em logos mapas que eu esquadrinhava em mente.
“A vida é uma ponte entre dois nadas”. Li isto em algum lugar. Deve ser de um autor famoso. Não me lembro qual. Tenho de corrigir esta frase já tão bonita, talvez, para acrescentar que a vida não é só uma ponte, mas todo espaço que as suas pernas alcançarem e eu, meus caros, tenho pernas compridas. Calcei as minhas sandálias e desbravei… Muito antes dos meus quinze anos, o Brasil inteiro era-me conhecido. Fui do Oiapoque ao Chuí. Sempre com uma trouxa de roupa e muita cara-de-pau para pedir emprego aonde aportasse. Não sou homem de esmolar. Trabalho por meu sustento. As minhas posses, porém, nunca foram além do que podia levar comigo. A minha família, deixei por anos a minha espera. A minha casa era o relento, e as luzidias estrelas, que enfeitavam o manto da noite, serviam-me de cobertor.
Não conseguia criar raízes. O hábito era-me enfadonho. Quando me cansava de um lugar, não tinha amigo ou “rabo-de-saia” que me fizesse permanecer. Juntava os meus “panos-de-bunda” e caía na estrada. A minha vida era andar por este país. Mas, depois de alguns anos, as cores e os ritmos do Brasil, eram-me tão conhecidos que me enfastiaram. Então fui abrindo o compasso. Fui primeiro aos pampas argentinos, provei muitos vinhos e até me apaixonei por uma dançarina de tango. Mas foi só “fogo-de-palha”. Logo, já me encontrava de novo a procura de algo que nunca soube. No Chile, até aprendi a esquiar com uma bela instrutora por quem me engracei por algum tempo. Bateu-me uma vontadezinha de ficar…. Mas nem os belos olhos castanhos claros da “chica”, conseguiram me amarrar. Fui ao Peru e subi as ruínas das cidades Incas. Então só fui subindo. Quando dei por mim, estava já no gélido Alasca, pescando com os esquimós.
As Américas não me foram suficientes e eu sempre fui muito guloso. Pensei cá para mim: “já se foram dois continentes. Não me custa seguir para os demais”. Então, embarquei num navio com destino à Europa. Era o cozinheiro e perdi a conta de quantas batatas eu descasquei. Já havia visto a beleza do mar nas minhas andanças, porém, jamais estivemos tão próximos quanto estávamos. Acho que sou meio oceano também: imprevisível, misterioso e, como muitas vezes presenciei, deveras perigoso. Eu e a morte ficamos frente à frente, pela primeira vez, nesta fatídica viagem. Houve uma epidemia a bordo. Os corpos que lançávamos ao mar era como marcávamos nosso caminho rumo ao Velho Continente. Em pouco tempo, só havia um terço dos tripulantes, pois, todo resto, até o médico, havia falecido. Quando chegamos à Europa ficamos um tempo em quarentena até tomarem consciência que estávamos limpos. Os “portugas” disseram que o mal que nos atacou foi uma violenta malária, à qual, sabe-se lá o porquê, sobrevivi.
O frio europeu foi-me acolhedor, sempre me disseram que tinha couro de jacaré. Eu que nem sabia o que era história, (pois estudei muito pouco, só sabia ler e escrever), gostei do que vi. A comida é que não era lá essas coisas, (não tem nada mais gostoso que o cuscuz com ovo do nordeste brasileiro), mas sempre fui de comer pouco e nem me incomodava a sofisticação exacerbada da culinária europeia. Não me ative as fronteiras da Europa Ocidental e, em plena segunda guerra mundial, segui para o oriente sem medo do conflito que sobrepujava a humanidade. Presenciei mais do que posso contar, pois as feridas da sociedade afloram nos conflitos. Na Rússia, o comunismo encarcerava o povo em seu próprio país. Havia demonstrações de força, que se esvairia completamente no final do século vinte. Estive no Japão quando da explosão das duas bombas nucleares. Mas estava longe do epicentro. Ainda assim, foi-me horrível estar, durante tais anos de fome e dor, naquele país devastado que procurava um norte para seguir. Um povo destruído que ainda assistiu envergonhando a rendição e submissão da realeza japonesa ao poder americano recém-revelado ao mundo.
Então, a violência da guerra fez-me procurar os países africanos, ainda colônias da enfraquecida Europa. Mas a realidade pouco amistosa da guerra logo os fariam rebelar-se e cair em outro violento conflito pela independência que logo seria sucedido por sangrentas guerras civis. Foi-me necessário buscar a distante Austrália com as suas criaturas fantásticas e desertos inóspitos. Os mares australianos fizeram-me feliz por muito tempo. Mas os meus olhos agora buscavam paisagens conhecidas e a acolhedora rede na varanda, a que abandonara há tantos anos, causava-me uma enorme saudade. Jamais havia sentido banzo, este sentimento de nostalgia nem me atingia na já distante juventude. Eu era um andarilho. Um explorador. O mundo era minha casa. Mas a idade vai quebrando certas coisas em nós. A gente fica com medo de morrer sozinho. E eu estava bem longe. Claro que fizera muitas amizades e, não posso mentir, algumas inimizades também. Quase morri quando fui defender um menininho judeu da truculência de um soldado Alemão. Outra vez, no dia em que cuspi num branquelo inglês que tratava desrespeitosamente duas garotas negras na África do Sul. Depois do meu ato, um tanto inconsequente, vim a saber que aquele era um soldado, mas me escondi na casa de uns amigos e a polícia jamais veio a me encontrar para saldarmos as nossas contas.
Na verdade, a morte esteve sempre rodopiando ao meu lado. Mas eu nunca a convidei para uma dança. Fui envelhecendo sob o olhar atento desta dama fatal. Ela sempre sondando quando era a hora mais propícia para se apresentar. Mas eu me esgueirava e a driblava mais que o Pelé na Copa do Mundo. Ela se aproximava e eu fugia com um lençol bem constrangedor, deixando a “capa preta” consternada. Ela vinha de novo e eu jogava a bola entre as pernas da ceifadora que ficava atônita, sem saber por onde eu passara. Foi sempre assim. Eu e a morte, gato e rato numa guerra silenciosa e eterna. Mas segui minha vida sem pensar muito nela. Claro que sabia de sua proximidade, mas eu a desafiava. E ela como um cão manso, ladrava, ladrava, mas não mordia nada. Não tinha medo de morrer. Mas não o queria, lógico. O mundo tinha de ser meu antes disso. Queria sentir todos os gostos, todos os aromas e ver todas as belezas que existiam neste planeta antes de mostrar o osso branco à terra. Mas, cansa fugir, sabe. A gente fica sem saco. O pega-pega já estava na hora de acabar. Disse para meus patrões australianos que retornaria ao Brasil. Entrei num avião com o dinheiro que poupara e voltei para o nordeste.
Quando cheguei e pisei o solo de casa, chorei feito um menino. Como era bom estar de volta. Não sabia se meus parentes estavam vivos e custou-me a achá-los. Foram quase dois meses procurando por minha irmã mais nova. Mas, por um golpe da sorte que nunca me abandonou, descobri o endereço da sogra dela. A senhora levou um susto quando lhe bati a porta. Pensara ser um desses golpistas que queriam passar a perna em gente simples. Mas como eu sou um idoso transmiti-lhe a confiança de ouvir-me. Assim, apresentei-lhe os poucos documentos que possuía (sempre tinha o meu passaporte à mão) e consegui convencê-la que eu era mesmo da família. Ela, então, me permitiu um banho e serviu-me cuscuz com carne de sol. Comi como se fosse o manjar dos deuses. Não imaginava o quanto aquele “temperozinho” da terrinha fazia-me falta. Por já ser alta noite, só no dia seguinte, segui para a casa de minha irmã. Ficava em Caicó. No ônibus, as imagens da minha infância, voltavam-me a toda hora. Reconhecia cada pedaço de chão, cada árvore daquela caatinga. Queria gritar: “estou de volta, meu sertão”! Mas temi os olhos reprovadores a minha volta, que questionavam o que me emocionava tanto naquelas paisagens e eles tão corriqueiras. Meus pés calejados ainda andaram um bom pedaço desde a rodoviária à casa de minha irmã. Ao bater na porta, dois jovens, que viria a saber serem meus sobrinhos, avisaram-me que a dona da casa estava nos fundos colocando a roupa para quarar. Segui de mansinho entre lençóis e camisas, para surpreender a mana. Ao ver-me, ela soltou um grito. Abraçou-me e beijou-me. Não queria se desvencilhar de mim. “Vai que você foge de novo”. Dizia. Perguntou por onde eu andara e o que fizera por tanto tempo. Antes de dar início a esta narrativa, pedi-lhe que deixasse as perguntas para depois. Pois o que queria, naquele momento, era prostrar-me na aconchegante redinha estendida na varanda, começo e fim das minhas longas histórias.

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“- Isto… é a árvore de Natal de Cristo – respondem-lhe.
– Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo,
uma árvore de Natal, para os meninos que
não tiveram sua árvore na terra…”
A árvore de Natal na casa de Cristo- Fiódor Dostoiévski

O conto sobre o qual lhe falei

Giordana Bonifácio

-Sabe aquele conto sobre o qual lhe falei? Disse o estudante de casaco largo e capuz.
Fazia frio e como já se aproximavam as férias, a universidade estava praticamente vazia. Sua calça surrada guardava alguns rasgos de velhice que ele insistia em dizer que era estilo. Seu nome era Heitor, uma homenagem a Villa Lobos, ídolo de seus pais, de quem o rapaz não herdou o talento musical. Paciência. Nem sempre o nome faz com que sigamos o caminho que previamente nos foi trilhado. Talvez porque só nós possamos construir nossa vida. Não adianta o desespero da mãe e do pai. Às vezes, o menino quer estudar literatura mesmo. Pode não ser rentável como Direito, mas quem disse que um ótimo educador não pode ter uma vida confortável? Bem, sigamos para o diálogo que pode ser, quem sabe, interessante.
-Ã? Respondeu o outro rapaz cuja camiseta mostrava-se muito pouco para protegê-lo do frio abissal que fazia aquela noite. Mas Ricardo costumava enfrentar as intempéries sem casacos ou guarda-chuvas. Era sempre o mesmo esquema: frio = camiseta, calor = camiseta, chuva = camiseta. Às vezes a equação era mais ou menos a seguinte, chuva + frio + camiseta = pneumonia, mas, ainda assim, a teimosia não o permitia a fraqueza de um casaco, mesmo que fino.
-Aquele, do Dostoiévski, “A árvore de Natal na casa de Cristo”. Eu até o narrei para você. Ainda lhe contei sobre a questão que pesa sobre o possível plágio do conto do Andersen, “A pequena vendedora de fósforos”.
-Sim, o que é que há? Respondeu sem muita empolgação Ricardo, que preferia linguística à literatura e não compartilhava do interesse literário do amigo. Às vezes, só ouvia o amigo por educação, ou não ouvia, ficava pensando em árvores sintáticas e nas ideias de Chomsky enquanto o amigo narrava um livro ou um conto que havia lido.
-Eu o reli ontem à noite. Pensei muito sobre ele a madrugada passada.
Ricardo, “coração de leão”, como chamava Heitor, pois este último sempre estava ligando a vida à literatura riu-se da ocupação do amigo:
– Você não tinha o trabalho de Literatura Contemporânea para fazer? Por que ficou perdendo tempo com besteira?
-Não é besteira, sabe? A vida é muito mesquinha…. Onde há mais gente, o menino está só; onde há mais fartura, o menino passa fome; onde há mais recursos contra a crueldade do inverno, o menino está mais desabrigado diante do frio. Dostoiévski disse: “Nos ambientes mais mesquinhos encontrei as maiores provas da espiritualidade humana”.
-É só um conto, cara, vai por mim.
-Não, não é. Você não entende…. Ontem, o meu pai dispensou a Creusa. Disse que, se ela não poderia estar na hora no trabalho, os serviços dela lá em casa não eram necessários. Mas ela tem um filho que necessita fazer hemodiálise e outros dois que estão na escola. Meu pai não se apiedou da situação dela e nem mesmo o comoveu os anos que ela passou lá em casa. Por quê? A lógica do capital faz dos homens, seres desumanos. Seguir horários, bater o ponto, obedecer à risca a letra da lei, tudo isto faz dos homens menos humanos.
-Você está falando do conto ou de um problema familiar? O que você pode fazer? “A vida é cruel”. Já diziam os Titãs.
-Ricardo, vocês linguistas são muito lógicos. É algo que se repete. Quem mais tem, menos faz pelo mundo. No conto, poderiam ter acolhido o menino que congelava no frio. Mas ninguém lhe tinha compaixão, nem mesmo numa data significativa como é o Natal.
-Seu pai precisa de um funcionário que cumpra os horários. Sua casa não é uma entidade filantrópica. Disse o rapaz colocando as mãos nos bolsos para disfarçar o fato de estar sentido frio.
-O mundo é injusto. O sofrimento do menino e o sentido de justiça são, no conto, uma crítica à sociedade, que, na época e ainda hoje, ignora e marginaliza, insensivelmente. Meu pai agiu como os personagens que discriminam o menino no conto. Dostoiévski faz uma descrição detalhada de uma criança, ingênua, porém angustiada, como se soubesse da situação em que se encontrava. O autor denuncia a despreocupação com o sujeito estigmatizado e não só com a criança de rua. Meu pai deveria ter se apiedado da condição da Creusa. Mas não o fez. Isto me fez pensar. Pensar que o mundo não mudará nunca. Eu creio que sempre haverá toda esta diferença entre ricos e pobres. E sofro pelo fato de fazer parte de uma sociedade que fecha os olhos a dor dos mais fracos e alimenta com colheradas a riqueza dos milionários.
– E o que você pode fazer a respeito? Perguntou com um certo desdém, Ricardo, que já duvidava da sanidade do amigo, que queria transformar o mundo com um simples diploma de licenciatura que só o permitiria ser professor.
– Não posso fazer muito. Mas já estou procurando um emprego para a Creusa e vou ensinar meus alunos que todos são iguais.
– “Mas uns são mais iguais que os outros”, não? Não se esqueça da Revolução dos Bichos. Você que me indicou o Orwell. Sempre haverá privilegiados e despossuídos. Os que prometem mudanças são os primeiros a locupletarem-se do trabalho dos mais pobres. Meu amigo, os porcos tomaram o controle do mundo. Eles têm os cães que são a força policial, não nos é dado nem sequer o direito de indignarmo-nos. Pois poderemos ser calados ou, pior, assassinados.
– Em que planeta estamos? Um lugar em que o bem é desprezado, em que o sofrimento é ignorado e nada podemos fazer para mudar isto. Ser bom é uma tarefa inglória. É como se estivéssemos todos perdidos. O que podemos fazer? Estamos com mãos e pés atados ante os desmandos dos donos do poder. Heitor despencou sobre a cadeira, quando adentraram à sala onde haveria aula de Romantismo. Estava desvalido de todas as esperanças. Certo de que não tinha como mudar o mundo. E que não importa quanto tempo passasse, mesmo depois de mais de um século, tudo ficaria exatamente como era.
-Coragem, meu amigo. Nem tudo está perdido. Façamos o que está ao nosso alcance. Nem que tenhamos de trabalhar a vida toda para fazer ver um só aluno, será o bastante. Sejamos a mudança que esperamos no mundo. Se nada fizermos, nada mudará. Sozinhos, não nos é dado o poder de mudança. Mas a cada discente que façamos ser melhores que este sistema, fará valer à pena todo o nosso esforço.
-Tarefa inglória, esta, não? Olhou para o amigo que pregava com as palavras de Gandhi, os meios de modificar a realidade em que viviam.
-Meu caro Heitor, não disse que seria fácil. Mas é possível. É um trabalho de longo prazo, é verdade, mas, possível. Temos que ter fé. É tudo que nos resta.
-Você, linguista, já está falando como um literato! Agora, sente-se que a professora já está em classe. Heitor sorriu e, por um instante, pensou: “seria mesmo possível?”

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