gullar-em-b-aires-1975-for-web2

“Um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas”.
O poema sujo – Ferreira Gullar

O conto sujo

Giordana Bonifácio

Este aqui é um conto sujo. Já vou prevenindo. Nada aqui é límpido, mas turvo como as águas do Tietê. O odor que exala deste texto é sufocante. Sinto pena dos personagens aqui retratados. O primeiro deles é uma aposentada na fila de um hospital público. Foi diagnosticada com um câncer há alguns meses. Tenta tratamento pelo SUS, tendo em vista que sua aposentadoria não a possibilita arcar com todas as despesas médicas. A mulher limpou a poeira dos móveis antes de sair. Mas o pó voltou a cobrir a casa inteira. Há algo errado. Faltam remédios e a o equipamento de radioterapia está em manutenção há mais de seis meses. A mulher volta para casa e seus olhos marejados enfrentam o pó. Ela volta a limpar tudo. Mas a sujeira permanece. O que se passa?
Na rua, meninos jogando futebol disputam espaço com a imundice dos esgotos. As obras de saneamento nunca finalizaram na comunidade. O dinheiro escorreu pelas manilhas destinadas aos dejetos humanos. O dinheiro é a podridão do mundo. As crianças brincam entre fezes e urina. O fedor é execrável. De quatro em quatro anos políticos em pele de cordeiro se deslocam para lá. Prometem, beijam crianças e angariam votos. Depois, abandonam a favela, para sempre. Doenças disseminam-se e os meninos, entre os detritos, driblam a miséria com sonhos. Um dia, quem sabe, tornem-se jogadores profissionais e sujem as mãos para sonegar impostos. A honra deteriora-se numa propaganda de tevê.
O Rio Doce morreu soterrado por uma tsunami de lama. Pobre Mariana, encoberta por tanta sujeira, não pode sequer respirar. Um pescador chora sobre as águas turvas de um rio morto. Não consegue mais alimentar os filhos. O sustento da família provinha da pesca. No Rio Doce, envenenado, não há mais peixes. A água potável também se tornou rara. E cara. As indenizações, fruto da maior tragédia ambiental do país, são ridículas. Famílias, que perderam tudo no incidente, têm de sobreviver com apenas um salário mínimo que a mineradora Samarco se comprometeu a pagar aos prejudicados. O tempo passa e a justiça cala-se. Por quê? Têmis submerge nesse horrendo mar de lama?
Um professor tenta limpar seu guarda-pó, mas as nódoas não querem desaparecer. São manchas terríveis: baixos salários, péssimas condições de trabalho, previdência ameaçada, dupla jornada, estresse, doenças ligadas ao ofício e desmerecimento da profissão. A docência é uma vocação, dizem ao professor. Mas, diferente dos religiosos, não faz voto de pobreza quem se torna um educador. Não pode, uma categoria que estuda tanto e trabalha sobremaneira, ser desprezada como são os docentes. Marcas indeléveis que minam o progresso do país. Não sabem, os governantes, que sem educação não há progresso. Pouco se importam com isto, preferem desviar o dinheiro para novas escolas e para manutenção da infraestrutura das já existentes para contas escusas em paraísos fiscais.
A noite apavora, mas mesmo na escuridão, garotos sujos passeiam com charutos de crack e garrafas cheias de cola de sapateiro. Nem se lembram mais há quanto tempo vivem nas ruas. Para conseguir a droga, cometem furtos e roubos. Trocam tudo por entorpecentes. Até mesmo a vida. Não sabem o que é asseio. Sobrevivem feito animais nas crackolândias. A podridão espalha-se nesses espaços. Entre lixo e excremento tornam-se sub-humanos esquecidos no buraco negro do vício. Vez em quando a polícia passa por ali. Mas diante de tanta miséria, eles fingem não ver. A justiça faz-se cega quando ela quer. Uma menina com roupas maltrapilhas e encardidas prostitui-se para comprar a pedra da morte. Necessita dela, pois se fosse viver sóbria, não suportaria o peso da pobreza. A morte por overdose poderia ser até um alento. O corpo se deterioraria algum tempo a céu aberto até o IML vir recolhê-lo. Enterrada como indigente, ninguém questiona se aquela falecida foi gente algum dia. Ela deveria ter um nome. Mas ninguém se importa. Morreu, fazendo a alegria dos urubus.
Um mendigo numa noite fria de fim de ano foi queimado vivo por adolescentes de classe média que queriam “zoar”. Marcas de fuligem e trapos queimados restaram no lugar da morte. “Mas era só um mendigo”. Diriam os jovens quando apreendidos. Será que a pertença ao gênero humano excluem os moradores de rua? Matar é algo tão trivial assim? O ponto de ônibus em que dormia o homem, (sim ele era gente), ficou tomado por cinzas escuras e pelo odor de carne queimada. A morte é feia, não é como romantiza o cinema e a televisão. É suja e fétida, como o é quanto a qualquer animal. Embora, não consigamos admitir, não somos mais do que os seres que denominamos bestas. Porque, às vezes, ser humano é sórdido demais, podre demais para admitirmos.
Pessoas se acotovelam dentro de um ônibus lotado. O odor de suor é insuportável. Voltam do trabalho encardidas das tarefas do dia. Espremem-se como sardinhas em lata. Mas nada é tão ruim que não possa piorar: o ônibus é assaltado no meio da viagem. O ladrão obriga os passageiros a deitarem-se no chão. O que foi muito difícil, pois não havia sequer lugar para estarem em pé. A perversidade do bandido é incomparável: pisava com os pés enlameados sobre os corpos apavorados para tomar-lhes celulares e outros objetos de valor, deixando pegadas nas roupas das pessoas. Partiu, desfalcando as vítimas até de seu amor próprio. “Melhor ser pisoteado do que morto”. Pensou o estagiário que acabara de receber o salário. Ainda que perdesse o valor de um mês de trabalho, estava feliz de estar vivo. Apesar de sujo. Mal sabe ele, que há certas manchas que nem mesmo o melhor sabão em pó não pode tirar. Estas ficam na alma para sempre.
Um homem embriagado volta para casa tarde da noite. Reclama da janta fria. Exala um cheiro desagradável de álcool. A mulher tenta explicar que a comida esfriou porque ele demorou a chegar. O homem, alterado pela bebida, age com extrema violência. Dá um soco no rosto da esposa. Depois continua, com um variado repertório e brutalidades, a chutá-la e golpeá-la. A mulher, encolhida no chão, espera que o acesso de raiva do marido acabe. Depois desta cena deplorável, ele cospe na esposa caída. E ainda alerta: “quero o jantar pronto em cinco minutos, sua vadia”! Com o rosto inchado e ensanguentado, a mulher levanta-se e corre para preparar o jantar. O sangue escorre do nariz quebrado e ensopa-lhe a roupa. Mas ela só se preocupa em alimentar o brutamontes do marido. Porque ela não quer mais apanhar. As amigas diziam-lhe para abandonar o esposo troglodita. Mas ela tinha medo não conseguir se manter e aos filhos. A necessidade impingia-lhe o sofrimento. O sangue não estancava e pingava sobre o piso. A pobre mulher, aflita, corria com o jantar para limpar aquela sujeira, antes de o marido perceber que ela emporcalhara o chão.
O mundo deteriora-se numa imensa podridão. O mal cheiro até rescende no ar. O homem é “um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas”. Fedendo a mijo e bosta, um bêbado grita: “de que tecido é feita a carne do coração”? Então, eu recordo-me que nosso corpo é feito de carne e osso. Só isto já justifica toda a sujeira sob o tapete da sociedade. Mas a vida resiste “a cada nova manhã nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais”, outro prematuro, desprezado no lixo, é resgatado com vida. Graças a Deus! Eu, contudo, desde logo, pergunto-me, como será a vida deste pobre menino, que já se inicia triste? Posso até vê-lo, sujo de líquido amniótico e sangue, entre restos de comida e ratos, chorando de frio e de fome. A vida, por si só, é um poema sujo. Já pré-anunciara Ferreira Gullar. Nas cidades, a poluição se estende do ar ao leito dos rios. A cidade cobre-se de lixo. O homem cobre-se de lixo. E toda a humanidade chafurda nos requintados chiqueiros que erigiu. Entre o monturo desta falsa construção minha voz se eleva: onde está a pureza que me prometia, ó Deus, Rei de toda criação? A resposta cai numa chuva chorosa, que lamenta a derrocada da civilização.

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: