Arquivo do mês: dezembro 2016

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“Um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas”.
O poema sujo – Ferreira Gullar

O conto sujo

Giordana Bonifácio

Este aqui é um conto sujo. Já vou prevenindo. Nada aqui é límpido, mas turvo como as águas do Tietê. O odor que exala deste texto é sufocante. Sinto pena dos personagens aqui retratados. O primeiro deles é uma aposentada na fila de um hospital público. Foi diagnosticada com um câncer há alguns meses. Tenta tratamento pelo SUS, tendo em vista que sua aposentadoria não a possibilita arcar com todas as despesas médicas. A mulher limpou a poeira dos móveis antes de sair. Mas o pó voltou a cobrir a casa inteira. Há algo errado. Faltam remédios e a o equipamento de radioterapia está em manutenção há mais de seis meses. A mulher volta para casa e seus olhos marejados enfrentam o pó. Ela volta a limpar tudo. Mas a sujeira permanece. O que se passa?
Na rua, meninos jogando futebol disputam espaço com a imundice dos esgotos. As obras de saneamento nunca finalizaram na comunidade. O dinheiro escorreu pelas manilhas destinadas aos dejetos humanos. O dinheiro é a podridão do mundo. As crianças brincam entre fezes e urina. O fedor é execrável. De quatro em quatro anos políticos em pele de cordeiro se deslocam para lá. Prometem, beijam crianças e angariam votos. Depois, abandonam a favela, para sempre. Doenças disseminam-se e os meninos, entre os detritos, driblam a miséria com sonhos. Um dia, quem sabe, tornem-se jogadores profissionais e sujem as mãos para sonegar impostos. A honra deteriora-se numa propaganda de tevê.
O Rio Doce morreu soterrado por uma tsunami de lama. Pobre Mariana, encoberta por tanta sujeira, não pode sequer respirar. Um pescador chora sobre as águas turvas de um rio morto. Não consegue mais alimentar os filhos. O sustento da família provinha da pesca. No Rio Doce, envenenado, não há mais peixes. A água potável também se tornou rara. E cara. As indenizações, fruto da maior tragédia ambiental do país, são ridículas. Famílias, que perderam tudo no incidente, têm de sobreviver com apenas um salário mínimo que a mineradora Samarco se comprometeu a pagar aos prejudicados. O tempo passa e a justiça cala-se. Por quê? Têmis submerge nesse horrendo mar de lama?
Um professor tenta limpar seu guarda-pó, mas as nódoas não querem desaparecer. São manchas terríveis: baixos salários, péssimas condições de trabalho, previdência ameaçada, dupla jornada, estresse, doenças ligadas ao ofício e desmerecimento da profissão. A docência é uma vocação, dizem ao professor. Mas, diferente dos religiosos, não faz voto de pobreza quem se torna um educador. Não pode, uma categoria que estuda tanto e trabalha sobremaneira, ser desprezada como são os docentes. Marcas indeléveis que minam o progresso do país. Não sabem, os governantes, que sem educação não há progresso. Pouco se importam com isto, preferem desviar o dinheiro para novas escolas e para manutenção da infraestrutura das já existentes para contas escusas em paraísos fiscais.
A noite apavora, mas mesmo na escuridão, garotos sujos passeiam com charutos de crack e garrafas cheias de cola de sapateiro. Nem se lembram mais há quanto tempo vivem nas ruas. Para conseguir a droga, cometem furtos e roubos. Trocam tudo por entorpecentes. Até mesmo a vida. Não sabem o que é asseio. Sobrevivem feito animais nas crackolândias. A podridão espalha-se nesses espaços. Entre lixo e excremento tornam-se sub-humanos esquecidos no buraco negro do vício. Vez em quando a polícia passa por ali. Mas diante de tanta miséria, eles fingem não ver. A justiça faz-se cega quando ela quer. Uma menina com roupas maltrapilhas e encardidas prostitui-se para comprar a pedra da morte. Necessita dela, pois se fosse viver sóbria, não suportaria o peso da pobreza. A morte por overdose poderia ser até um alento. O corpo se deterioraria algum tempo a céu aberto até o IML vir recolhê-lo. Enterrada como indigente, ninguém questiona se aquela falecida foi gente algum dia. Ela deveria ter um nome. Mas ninguém se importa. Morreu, fazendo a alegria dos urubus.
Um mendigo numa noite fria de fim de ano foi queimado vivo por adolescentes de classe média que queriam “zoar”. Marcas de fuligem e trapos queimados restaram no lugar da morte. “Mas era só um mendigo”. Diriam os jovens quando apreendidos. Será que a pertença ao gênero humano excluem os moradores de rua? Matar é algo tão trivial assim? O ponto de ônibus em que dormia o homem, (sim ele era gente), ficou tomado por cinzas escuras e pelo odor de carne queimada. A morte é feia, não é como romantiza o cinema e a televisão. É suja e fétida, como o é quanto a qualquer animal. Embora, não consigamos admitir, não somos mais do que os seres que denominamos bestas. Porque, às vezes, ser humano é sórdido demais, podre demais para admitirmos.
Pessoas se acotovelam dentro de um ônibus lotado. O odor de suor é insuportável. Voltam do trabalho encardidas das tarefas do dia. Espremem-se como sardinhas em lata. Mas nada é tão ruim que não possa piorar: o ônibus é assaltado no meio da viagem. O ladrão obriga os passageiros a deitarem-se no chão. O que foi muito difícil, pois não havia sequer lugar para estarem em pé. A perversidade do bandido é incomparável: pisava com os pés enlameados sobre os corpos apavorados para tomar-lhes celulares e outros objetos de valor, deixando pegadas nas roupas das pessoas. Partiu, desfalcando as vítimas até de seu amor próprio. “Melhor ser pisoteado do que morto”. Pensou o estagiário que acabara de receber o salário. Ainda que perdesse o valor de um mês de trabalho, estava feliz de estar vivo. Apesar de sujo. Mal sabe ele, que há certas manchas que nem mesmo o melhor sabão em pó não pode tirar. Estas ficam na alma para sempre.
Um homem embriagado volta para casa tarde da noite. Reclama da janta fria. Exala um cheiro desagradável de álcool. A mulher tenta explicar que a comida esfriou porque ele demorou a chegar. O homem, alterado pela bebida, age com extrema violência. Dá um soco no rosto da esposa. Depois continua, com um variado repertório e brutalidades, a chutá-la e golpeá-la. A mulher, encolhida no chão, espera que o acesso de raiva do marido acabe. Depois desta cena deplorável, ele cospe na esposa caída. E ainda alerta: “quero o jantar pronto em cinco minutos, sua vadia”! Com o rosto inchado e ensanguentado, a mulher levanta-se e corre para preparar o jantar. O sangue escorre do nariz quebrado e ensopa-lhe a roupa. Mas ela só se preocupa em alimentar o brutamontes do marido. Porque ela não quer mais apanhar. As amigas diziam-lhe para abandonar o esposo troglodita. Mas ela tinha medo não conseguir se manter e aos filhos. A necessidade impingia-lhe o sofrimento. O sangue não estancava e pingava sobre o piso. A pobre mulher, aflita, corria com o jantar para limpar aquela sujeira, antes de o marido perceber que ela emporcalhara o chão.
O mundo deteriora-se numa imensa podridão. O mal cheiro até rescende no ar. O homem é “um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas”. Fedendo a mijo e bosta, um bêbado grita: “de que tecido é feita a carne do coração”? Então, eu recordo-me que nosso corpo é feito de carne e osso. Só isto já justifica toda a sujeira sob o tapete da sociedade. Mas a vida resiste “a cada nova manhã nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais”, outro prematuro, desprezado no lixo, é resgatado com vida. Graças a Deus! Eu, contudo, desde logo, pergunto-me, como será a vida deste pobre menino, que já se inicia triste? Posso até vê-lo, sujo de líquido amniótico e sangue, entre restos de comida e ratos, chorando de frio e de fome. A vida, por si só, é um poema sujo. Já pré-anunciara Ferreira Gullar. Nas cidades, a poluição se estende do ar ao leito dos rios. A cidade cobre-se de lixo. O homem cobre-se de lixo. E toda a humanidade chafurda nos requintados chiqueiros que erigiu. Entre o monturo desta falsa construção minha voz se eleva: onde está a pureza que me prometia, ó Deus, Rei de toda criação? A resposta cai numa chuva chorosa, que lamenta a derrocada da civilização.

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“Hulk esmaga”!
Hulk

Foi sem querer!

Giordana Bonifácio

Pedro feria as pessoas, não importava que fosse na escola, na rua, brincando de pegar, ou, em casa, quando estava com sua família. Ficava nervoso e batia no que estivesse na frente. Nem pedia desculpas, dizia só: “foi sem querer”!
Ficava irritado por ninguém mais querer brincar com ele. Pedro estava convencido que não fazia mal a ninguém.
Sua irmãzinha tinha medo de Pedro. Quando ele se aproximava, ela fugia para os braços da mãe.
Pedro não fazia por mal. Não sabia ser cuidadoso com as pessoas. Não queria lhes ferir, mas ele não controlava sua força.
Muitas vezes, ficava com bastante raiva, por não ter biscoitos antes do almoço, por não poder assistir televisão antes de fazer o dever, então, descontava na primeira pessoa que via pela frente. Quando batia em alguém, só repetia: “foi sem querer”!
Até Salsicha, o cachorrinho da família de Pedro, sofreu com a ira do menino. Levou, de Pedro, um chute bem no bumbum e saiu latindo de dor e mágoa. O filhotinho gostava tanto do dono!
Pedro, não era mau. Era um menino normal. Gostava de sorvete de chocolate e balas de amendoim. Era fã de super-heróis e, um dia, queria salvar o mundo.
Mal sabia que antes de socorrer o mundo, tinha de salvar a si próprio. É, porque estava se tornando um menino sozinho. Ninguém queria ficar perto dele. Quem quer levar um soco sem motivo? Estar perto de Pedro era um perigo!
Pobre menino. Naquela tarde, ele empurrou um coleguinha da escola que acabou com um machucado na testa ao cair. Foi então que os professores pediram aos pais de Pedro para virem à escola.
Pedro ficou com medo. Pensou que iria ficar de castigo pelo resto da vida. Imaginou-se bem velhinho preso dentro do quarto sem poder ir jogar bola como gostava de fazer.
Mas, ainda que fosse uma falta grave, a escola não queria castiga-lo. Na verdade, queriam ajuda-lo. A professora, os pais de Pedro e uma doutora chamada pela diretora de “terapeuta” conversaram por horas, na sala do orientador, sem a presença do menino. Pedro roía as unhas de tão assustado. Foi então que o chamaram para conversar.
Pedro entrou encabulado. A terapeuta sorriu para ele. “Ela era até legal”, pensou Pedrinho. Ela perguntou se estava tudo bem e se poderiam falar um instante. Pedrinho balançou a cabeça: sim.
Então ela perguntou por que ele tinha machucado o coleguinha. Pedrinho disse:
– Eu estava com muita raiva. Joaquim tinha rasgado meu desenho.
– Joaquim era seu coleguinha, certo? Pedrinho disse que sim.
– E você acha certo o que fez? Perguntou, novamente, a terapeuta.
-Não, mas eu disse que foi sem querer! Respondeu o menino.
-Muitas vezes fazemos coisas sem querer mesmo. Como quebrar um vaso por acidente. Ou rasgar o trabalhinho do outro. O seu coleguinha rasgou seu desenho porque quis? Falou com uma voz bem tranquila a doutora.
-Não, ele queria mostrar para a professora e rasgou sem querer. Disse Pedro numa voz bem fraquinha.
– Calma, Pedrinho. Não estamos aqui para brigar com você. Na verdade, a gente quer que você aprenda a controlar sua raiva. Disse a diretora.
– Sei que as vezes a gente fica nervoso e quer descontar tudo que sentimos em alguém. Mas já pensou se fizéssemos isso? Seria uma tremenda confusão. Juntou a doutora.
– Eu disse que foi sem querer. Disse o Pedrinho já chorando.
– Nós sabemos. Temos certeza que não pensa quando faz algo assim. Sua mãe disse que você já machucou a sua irmãzinha e até chutou o cachorro. É verdade?
– Ela estava na frente e o Salsicha estava latindo. Enxugou as lágrimas com as costas da mão.
– Nem sempre a gente pode agir com raiva. Sabe o Hulk? Sua mãe disse que você gosta de super-heróis. É verdade?
– É. Tenho um monte de bonecos. Tenho o Capitão-América, o Thor, o Homem-Aranha, o Wolverine e também tenho o Hulk. Falou Pedrinho bastante orgulhoso.
– Você sabe que o Hulk só se transforma quando está com raiva, não é?
– Sei. Pedrinho estava curioso, será que ele se transformaria no Hulk?
– Bom, você também se transforma quando está nervoso. Você tem que segurar. Se não, vai machucar muita gente. O Hulk não gosta quando fere as pessoas, não é? “A doutora sabia “um monte” de super-heróis. Que legal”! Pensou Pedro.
– Não. Ele fica triste. Pedrinho, disse bem fraquinho e baixou a cabeça.
– Você fica triste quando machuca alguém, mesmo sem querer? A doutora olhou para o menino bem nos olhos e Pedro, envergonhado, disse:
– Fico.
– Então, para não ficar triste, a gente não pode ficar nervoso como o Hulk e descontar nos outros. Vou contar para você um segredo: quando fico com muita raiva eu pego uma folha de papel e amasso bem amassadinha com as mãos. Ou, então, pego uma almofada e fico batendo nela até me sentir calminha, calminha. Não podemos quebrar as coisas e machucar os bichinhos, os amigos e a irmãzinha. Quer tentar? A doutora pegou uma folha branca e deu para Pedrinho amassar.
Pedrinho pegou a folha e disse como o herói: “Hulk esmaga”! E fez uma bola de papel com toda a força.
– Agora está mais calmo? A doutora perguntou, com um sorriso. Pedro pensou que ela era mesmo muito legal e respondeu:
-Sim!
-De agora em diante, quando ficar com raiva, o Hulk só esmaga folhas de papel e a almofadas. Combinado?
– Combinado. Respondeu Pedrinho bem feliz. Não iria ficar de castigo. E o melhor, ele tinha o poder do Hulk, mas como todo super-herói, tinha de manter as pessoas a salvo. Agora, para não machucar ninguém, iria amassar folhas de papel até toda raiva passar.
-Ah, quando algum acidente acontecer, não fale que foi sem querer, mas me desculpe. Está certo? Disse a doutora com uma piscadela.
Com o tempo, Pedrinho foi aprendendo a controlar a raiva. E algum dia, sabia, ele iria salvar o mundo.

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