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“Sim, do mundo nada se leva.
Mas é formidável ter uma porção
de coisas a que dizer adeus”.
Millôr Fernandes

Vamos, vamos, Chape!

Giordana Bonifácio

Mãe, queria lhe dizer que estou bem. Não senti nada no momento do acidente. Não esqueci de rezar. Sabia que Deus não me abandonaria. Eu e meus amigos estávamos todos muito felizes, afinal, disputaríamos nosso primeiro campeonato internacional. Vivíamos nosso melhor momento. Nosso time, que era considerado pequeno, foi grande! Estávamos voando para a glória. Tudo parecia favorável. Estávamos muito entusiasmados. Sabe, mãe, eu esperava até dedicar um gol à senhora. Seria lindo. Eu tomaria a bola no meio do campo, driblaria todos os zagueiros e ao chegar na meia-lua adversária, lançaria uma bomba indefensável no ângulo ou “onde a coruja faz o ninho”, como dizem os narradores dos jogos de futebol.
Eu queria só ver a torcida indo à loucura. Pularíamos eu e meus amigos uns sobre os outros para comemorar o gol. No fim da partida, levantaríamos a taça, nosso maior prêmio, nossa melhor aquisição. Seríamos ovacionados na nossa volta. Todos estariam a nossa espera na cidade. Seríamos recebidos como heróis. Passearíamos, em carro aberto, segurando a taça e comemorando com o povo a nossa vitória. Seria lindo. Comovente. E você, mãe, choraria cheia de orgulho de mim.
Eu sei que o time seria lembrado para sempre por nossos feitos. Era nosso ano. Tudo contribuía para que isto ocorresse. Mãe, você gabar-se-ia para todos: “esse é meu filho”. Também exibiria com orgulho as fotos da nossa vitória. Eu levaria como lembrança a camisa do time derrotado a qual o meu filho recebê-la-ia como herança.
Meus dias de glória só estariam começando. Devido ao meu destaque, seria sondado por equipes europeias. E poderia até escolher em qual jogaria no ano seguinte. E não pararia por aí. Em alguns anos, meu destaque no futebol internacional levar-me-ia à Seleção Brasileira. A próxima Copa do mundo seria nossa e eu faria os gols da final. Tite ficaria muito feliz de trazermos o Hexa tão esperado. Eu envelheceria jogando futebol. Talvez, até me tornasse técnico no futuro. Sempre ligado ao meu esporte favorito que se tornou a minha vida.
Tudo isto teria acontecido, se a morte não tivesse vindo cedo demais. Como eu dizia, está tudo bem. Mas não como você gostaria. Eu morri na queda do avião que fez todo o mundo chorar. Não ganhamos o título, não fiz o gol decisivo, não trouxemos de volta a taça. Na verdade, só meu corpo inerte e sem vida voltará, para que a senhora pranteie meu falecimento. Sei que dói. Mas não tem jeito. Quem somos nós para discutir os desígnios de Deus? Chegou a minha hora. Foi o que me disse um anjo nos meus instantes finais. Deixei que me levassem. E fui. Mas não tema, sempre estarei com vocês.
Aqui de cima, estou vendo o mundo todo entristecido pelo ocorrido. Foi um choque, admito. Também tive medo de partir. Foi difícil. Queria ficar, tinha tanto pela frente. Contudo, não pude ir contra à morte. Ninguém pode. E ela nem é tão feia quanto pintam. Não é um esqueleto cheio de ossos, coberto com uma túnica negra, armado com uma foice. É, na verdade, um anjo que nos toma no braço e leva-nos no colo, em segurança, para o lado de Deus.
Estava com medo, pensei que iria doer. Mas não dói. A gente sequer sente. Passa num segundo. De repente, a vida passou. Sei que vocês também pensam assim. Mas não creia que estão sozinhos. Eu estarei com vocês, não vou lhes abandonar jamais. A vida não acabou, ela continua. Você e os demais estão feridos, mas a dor vai passar. Não há mal que permaneça. A saudade é eterna, eu sei. Mas a vida é infinitamente pequena, não sabe o quanto. Isto só compreendi aqui em cima.
Voltaremos a estar juntos um dia. Mais rápido do que imagina. Contudo, não pense nisto. Aproveite a vida, tal qual eu fiz até os momentos finais. Fui muito feliz. Você proporcionou-me isto, mãe. Não seria nada se não fosse por você. A única que acreditou em mim desde o começo.
Eu queria poder agradecer-lhe por tudo que fez por mim, mãe. Você teve fé, foi forte nos momentos em que fui fraco e fortaleceu-me quando fraquejei. Agora sou eu que peço para que volte a ser o colosso que é. A vida tem dessas coisas, nunca esperamos que a morte ocorra. Mesmo sabendo que ela é inevitável.
Minha história passou rapidamente frente aos meus olhos e nesse momento percebi que devo muito a você, mãe. A vida que tive foi curta para dizer-lhe tudo que precisava. Nem houve tempo suficiente para lhe recompensar por tudo que foi em minha vida. Portanto, digo-lhe agora, ainda que não possa ouvir: obrigado, estou, mais perto que pode pensar, assistindo suas lágrimas, vendo sua dor. Queria consolar-lhe nesse dia tão difícil. Estarei consigo, mas não me verá. Mesmo assim, acredite, estarei aí, ao seu lado. A vida acabou para mim, mas não para você. Portanto não vá se esquecer de se cuidar. Estarei de olho!
Aqui é muito agradável. Não há dor, fome, tristeza ou qualquer sentimento angustiante. Estamos, na Terra, tão preocupados em não sofrer. Mas no pós-vida, não existe sequer a ansiedade de esperar. O tempo é relativo e, depois da morte, é muito mais estranho. Não há presente, passado ou futuro. Só há o agora. Estamos, em vida, tão preocupados com o amanhã que esquecemos de hoje. Aqui, o tempo inexiste. O medo do futuro não nos atinge. E isso é tão bom!
Mas a partida ainda está marcada. O jogo vai ocorrer nos campos do Paraíso. Temos uma pelada programada para daqui a pouco contra o time dos anjos. Vamos ganhar de goleada! Eles vão ver quem é a Chape! Ninguém segura a gente! Estamos preparados e vamos ganhar, enfim, o campeonato. Porém, o prêmio mais legal é o reconhecimento que nosso time está recebendo aí na Terra. Estamos emocionados com as demonstrações de carinho. É tudo tão lindo, estamos muito agradecidos.
Mãe, você é bastante sábia, disse para que não me preocupasse muito com o amanhã. Pois poderia acontecer de não existir um novo dia. O sol continuaria a nascer, pois não precisa de mim. Mas eu necessitava dele. Não deveria angustiar-me tão só em ter, mas em ser. Ser o mais feliz possível. Eu acredito que aproveitei bem a vida. Foi curta? Talvez, não foi suficientemente longa para viver tudo o que deveria. Mas graças a você mãe, fui muito feliz. Então, escute, estarei aqui ouvindo quando rezar aos pés da Nossa Senhora. Esperando por você, pois, logo, estaremos todos reunidos novamente. Nossa família se reencontrará aqui em cima. Não duvide nunca da bondade de Deus. Nem lamente a minha morte. A vida tem um fim. Cedo ou tarde ela termina. Ainda que nunca estejamos preparados para um término tão abrupto.
A vida é só um sopro, num suspiro profundo ela se vai. Fiquei apavorado, não vou mentir. Contudo, agora que estou aqui, estou muito calmo e satisfeito, como jamais estive. Não vá se preocupar, não há frio ou qualquer perigo que nos ameace no pós-vida. É um local ótimo para se estar. E, com os meus companheiros da Chapecoense, aguardamos um novo campeonato, aquele que se passa nos Campos Elíseos do Céu. O título é certo!
Em seu coração e nos corações de todos brasileiros vai continuar, por muito tempo, a soar o hino da Chape. Um hino que representa toda a emoção de um time cuja torcida uniu o mundo inteiro, todos juntos numa só canção. Ressoam aos meus ouvidos os gritos de “Vamos, Vamos Chape”! Mãe, diga que eu e meus companheiros estamos muito agradecidos pela comoção social que causamos. Diga a todos que a vida é efêmera. Nunca sabemos quando chegará nosso fim e, não adianta, não estamos jamais preparados para ele. Por isso, pode ser até um clichê, mas diga a todos que curtam ao máximo a vida. Posso afirmar que o céu, hoje, está mais verde. Iluminado pelas cores do clube de Chapecó.

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