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“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração”.
(Fernando Pessoa, Autopsicografia)

Estasoueu.doc

Giordana Bonifácio

Um dia, comecei a escrever. Não tinha ideia de onde minha escrita terminaria. Escrevia sem objetivo. Como se escrever fosse verbo intransitivo. (Desculpem-me, mas citar Drummond é imprescindível a qualquer escritor). Quem necessita de complemento? Escrevo. Tão somente. Nem quero ter motivo. Faço porque faço. Nem quero saber a razão de meu desejo de escrever. Mas nem sou escritora. Sou uma menina, sim, criança ainda, no mundo das letras. Vou brincando de criar. Às vezes, surge algo bonito. Mas nem sempre. Tem hora que tenho de usar o backspace e apagar tudo com lágrimas nos olhos. Dói quando minha criatividade está em baixa. Fico frente ao computador forçando meu cérebro, como num parto por fórceps. Tem horas que não surge nada mesmo. Então deixo estar. Não sou de lutar comigo mesma. Deixo as coisas como são. Tudo é como deve ser.
Escrever é expor-se da forma mais constrangedora possível. É desnudar-se frente ao mundo. As pessoas passam a conhecer-nos o mais profundamente possível. Escrevo o que sou. E penso que sou algo muito complexo. Um emaranhado de pensamentos luminosos e apagados, como em um pisca-pisca natalino. É difícil traduzir em palavras o que sou realmente. Mas, às vezes consigo. Vem um pensamento e bum! Tomba como uma bomba sobre mim. Destrói tudo em mim a minha Rosa de Hiroshima. (O mundo pede desculpa por nossa maldade). Eu sei que escrevi algumas verdades que não deveriam ser ditas. Mas agora é tarde. Foi. Cachoeira de sentimentos que caem em nuvens de lágrimas.
O que ganho por minha sinceridade? Só a minha paz de espírito. Na verdade, nem isto. A paz não me acompanha. A minha vida é turbilhão. Afundo em mim todas as noites. Consigo recuperar um tanto dos sonhos quando acordo. Mas sempre me resta a impressão que deveria lembrar-me de algo mais. Como se minha mente quisesse dar-me um aviso. Mas as advertências que tinham de chegar-me mediante os sonhos perdem-se no minuto em que desperto. Morfeu falhou imensamente em sua missão.
Tenho medo do que escrevo. Vai que revele mais do que o gostaria? (O que invariavelmente ocorre). O que irão pensar de mim? Talvez nem pensem. As pessoas não costumam mesmo ler o que escrevo. Sou uma escritora sem leitores. Também falhei vergonhosamente em minha missão. Não tenho como repreender o Deus dos Sonhos. Quem quer saber sobre minha dor? Se fosse ao menos alguém famoso, mas uma mulher de trinta e poucos anos sem qualquer feito impressionante para constar em seu currículo? Sou humana. Sou comum. Sou. Ainda que ser seja um resumo um tanto previsível de mim. Ser é existir num mundo em que o valor é contado em capital. Sou ainda que nada tenha. Sou um buraco negro de emoções que são puxadas para mim e chegam sabe-se lá aonde.
Eu quero um casulo de livros que me afastem da realidade. A vida é real demais para mim. Quero que a literatura me guarde num sonho, num adormecer eterno do qual jamais desperte. Algo próximo à morte, mas quem pode saber se falecer não seria despertar num sonho? Será que é como desligar a televisão? Deus usa o seu controle remoto e puff!: A vida acabou para nós. Seria impressionante descobrir a vida após a morte. O que devemos pensar quando chegamos lá? Estaríamos assustados? Estaríamos apavorados ou seríamos coniventes com nossa sorte? Ah, quantas perguntas e comecei este texto falando do dia que comecei a escrever. Nesse dia, pensei que resolveria todos os meus conflitos. Ledo engano, criei ainda mais problemas cujas soluções jamais encontrei. “Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima e não uma solução”. Faço uso, novamente, do nosso fantástico Drummond. Há como se entender este planeta de loucos? Não. Nem adianta tentar. O lúcido é o ensandecido num mundo de malucos.
Escrevo porque nem sei. Escrevo porque não sou normal. Escrevo porque sou por demais sonhadora. Escrevo para tentar fazer do meu mundo um lugar melhor. Sim, é puro egoísmo. Nem sequer penso na coletividade. Sei que a escrita não tem o poder de modificar a nossa tão estranha ilusão de sociedade. Mas creio que ela, pelo menos, doura a pílula. Deixa-a engolível, por assim dizer. Escrever é um ato solitário, não escrevemos para mundo, mas para nós mesmos. Ficamos satisfeitos por abrir nossa alma. Ainda que ninguém sequer compreenda isto. É como desentupir uma pia entupida, quando a dor surge voraz canalizamos toda para o papel. Pena que pensem ser só arte. É ilusão também. E medo, e mágoa, e solidão, e dor, e silêncio, e morte. Tudo isso e mais um pouco.
Queria dizer que isto que escrevo não sou eu. Contudo sou eu. É tudo sobre mim. As tristezas foram vividas por mim. A escrita é o exercício da dor. Escrever é revelar-se nas páginas de um livro. O que digo é verdade, ao menos a maior parte. O resto invento. Mas até minhas mentiras retratam o que sou. O escritor sofre. As palavras fogem, a emoção não é perfeitamente compreendida e o riso não vem quando provocado. Não controla o autor os sentimentos que surgem com suas palavras. É uma quimera pensar estar o escritor no controle de sua obra. Na verdade, é o leitor o senhor absoluto das palavras. São eles que ditam o que vai acontecer. Por isso, concordo que a escrita é um mistério sem solução. Não devemos enganar-nos pensando que vamos domar a besta, pois ela nos fará cair no primeiro segundo. Um rodeio onde os animais ditam as regras.
Queria saber escrever o que não sou eu. Mas não posso. Pois eu sou eu o tempo todo. Nem sei ser diferente do que sou. Porque quando quero ser diferente, o mundo me obriga a ser eu. Não posso andar um passo fora do espaço milimetrado para mim. Não posso fingir ser outra pessoa. No fim, até mesmo meu personagem torna-se parte de mim. Conheço este labirinto em que me perco. Somente o silêncio traz de volta o que perdi. O passado é uma confusão de fatos que minha memória cuida de apagar. Não quero dormir. Pois no sono não sou em que me guio. Perco a direção de minha carruagem e os meus cavalos, indomáveis, levam-me para o abismo. Não quero cair nesse precipício que há em mim. A escrita é minha tábua de salvação. Os dias em que não escrevo são como sinopses imperfeitas da vida.
O mundo atual está repleto de escritores. Hoje, todo mundo pode ser um autor (ainda que, tal qual a mim, não possua leitores). Há um sem número de computadores com o Office instalado. Para ser escritor, basta ter coragem de confessar-se para uma máquina fria que não nos oferece quaisquer respostas as nossas questões. Ela só absorve o que dizemos e coloca sob símbolos num arquivo de texto: estasoueu.doc. No dia que comecei a escrever não possuía nem mesmo uma simples máquina de escrever. Fiz um manuscrito que se perdeu pela força do tempo. Seria uma ótima relíquia. Uma lembrança do passado que restaria viva. São coisas assim que deveria ter guardado, mas não o fiz. Ao invés disso, tenho um bando de pequenos souvenires que nem me lembro a situação em que os adquiri. Eu sou um caso raro a ser estudado.
Quando comecei a escrever não sabia os caminhos que trilharia, nem mesmo os objetivos que buscaria. Só sentei peguei a pena e fiz dela uma arma. “Nũa mão sempre a espada e noutra a pena”. Já dizia Camões no seu fantástico “Os Lusíadas”. Quem escreve não sabe bem porque o faz. Apenas lança os dados. A sorte dita o resto. Não posso reclamar. Tenho de me livrar de algum modo de meus monstros. “Só não vá abrir essa caixa, Pandora”! O que esperavam encontrar? Só tenho aqui um relato de viagem de uma sonhadora. Os caminhos levam-me para o mundo. E a pena acompanha-me nas minhas aventuras. Somos uma só. Pois sou o que escrevo. (Sei que já disse isto. Só queria enfatizar). E o que escrevo o que é? Uma miragem de sonhos num deserto de solidão. Quando escrevo desperto a minha alma da qual surgem as mais estranhas fantasias. Sou o médico e o monstro. Uso uma máscara da qual me livro toda vez eu vou escrever. Por isso, não me reconhecem na minha escrita. Mas sou eu. Isto sou eu. Ainda que nunca revele a ninguém. Mas, os poucos que me leem sabem da minha estranha lucidez. Um dia, alguém vai abrir o baú de sonhos e deixar escapar de mim todas as minhas facetas. São as diversas personalidades que adquiri. (Como os heterônimos de Pessoa). Todas são um tanto do que sou, são minhas criações que surgiram no dia que comecei a escrever. Quando recuperei a sanidade que, no passado, havia perdido.

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