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“Este é o meu Filho amado,
de quem me agrado”
Mateus 3:17

Natal do menino Jesus

Giordana Bonifácio

E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de carpinteiro? Como seria o seu Natal? Talvez, ganhasse um carrinho de madeira de presente e tivesse uma ceia simples, porém farta. Frutas da estação enfeitariam a mesa da família que vestiria roupas novas compradas na feira. Tios e tias viriam lhe visitar. Fariam um alegre amigo oculto, com produtos chineses de baixo valor, que findaria com muitas risadas. O peru, tão caro, seria substituído pelo Chester e a sobremesa seria o famoso pavê da tia Isabel. As crianças beberiam refrigerantes e brincariam com seus brinquedos enquanto os adultos, bebendo cidra Cereser, discutiriam sobre futebol e todos dormiriam após o especial da televisão. E Jesus, antes de dormir, agradeceria por sua família tão extensa e unida.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de gari? Como seria seu Natal? Creio que lhe faltariam presentes e a ceia seria ainda mais modesta. O frango substituiria as aves natalinas e faltariam as frutas e a cidra, talvez, todos bebessem refrigerantes e a família só teria a companhia dos seus dois cachorros vira-latas na sua festa. Mas, assim era até melhor, pois não teriam de comprar roupas novas. O que seria impossível com os altos preços no comércio no fim de ano. Os meninos assistiriam ao especial Natalino na velha tevê de tubo, enquanto os pais fariam as contas daquela noite tão cara para seu baixo orçamento. E Jesus, antes de adormecer, agradeceria por ainda terem o suficiente para comer.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de uma cabelereira? Como seria seu Natal? A mãe chegaria à casa muito tarde depois de ficar no salão o dia inteiro para arrumar as dondocas do Lago Sul, não teria tempo de preparar a ceia. Então, teriam de comer lasanha congelada que aqueceriam por 15 minutos no micro-ondas. Os meninos beberiam refrigerante e a mãe uma latinha de cerveja, porque era dia de festa. A cabelereira contaria histórias do salão e passariam uma noite muito agradável juntos. Não era dia de assistir a tevê diria a mãe. Assim, divertir-se-iam sem ajuda da máquina de imagens que hipnotiza as pessoas. Teriam presentes, claro, a mãe recebera um bom dinheiro no salão. Seriam agraciados com carrinhos e bonecas. E Jesus rezaria em agradecimento por ter uma mãe tão boa e generosa.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de um camelô? Como seria seu Natal? O pai chegaria em casa com frágeis presentes de procedência chinesa que, no entanto, alegrariam as crianças. A mãe prepararia uma ceia humilde, sem o requinte que criaram para a ocasião. Teriam rabanadas feitas com pão dormido e os meninos iriam se divertir bastante com as luzes e sons daqueles brinquedos que traziam conhecidas faces do ocidente, mas eram todos provenientes do oriente. Os tênis e as roupas que vestiam também tinham a mesma origem. Mas, não obstante tudo ali fosse falso, no coração daquelas pessoas, o amor era mais que verdadeiro. E o menino Jesus sentir-se-ia feliz por não haver falsidade em sua família.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de um servente de pedreiro? Como seria seu Natal? O pai chegaria com a roupa suja da construção e a esposa diria para tomar banho e juntar-se aos meninos na sala. Após a ducha, sentar-se-iam todos à mesa e Jesus pediria para que fizessem uma oração antes do jantar tão delicioso que se resumia a um frango assado e um arroz com passas. Os meninos ganhariam uma casinha como presente de Natal, a qual foi feita com restos da construção aonde o pai trabalhava. Ele fez aquela pequena obra durante os fins de semana, mesmo sacrificando seu descanso, para dar alegria aos seus filhos. O presente deixou as crianças tão felizes que trouxe lágrimas aos olhos daquele Papai Noel inusitado. E o menino Jesus, tinha um abrigo mais acolhedor que uma manjedoura para brincar. Naquela noite, de joelhos, frente a cruz, Jesus sentiu-se grato pela dádiva de ter um pai tão bom.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino e fosse filho de uma empregada doméstica? Como seria seu Natal? Naquele dia, não teriam tempo de fazer ceia, já que a mãe passou todo o dia cozinhando peru, arroz à grega, salpicão, tender, pernil, pudim de passas e outras delícias Natalinas na casa da família para quem trabalhava. Mas a patroa permitiu que a doméstica levasse um tanto do que cozinhara, exceto do peru e do pernil, para casa e também a presenteara com um Chester. Chegou em casa com quase uma dezena de potinhos que exalavam um cheiro ótimo. A festa de Natal, para a família de Jesus, seria bem farta. Enquanto assavam a ave, os meninos abririam os presentes cheios de alegria. Carrinhos e piões rodavam pela sala quando o assado ficou pronto. Jesus gostou dos novos sabores do Natal que provara aquele ano e rezou depois de saciar-se da ceia rendendo graças a Deus por terem tudo que necessitavam.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de uma caixa de supermercado? Como seria seu Natal? A mãe solteira recebia, todos os anos, uma cesta com todos os produtos da ceia. Assim, só bastava cozinhar. Naquele ano, teriam peru e havia até frutas secas: nozes, quando poderiam comer nozes? Então, só tinham de se preocupar com as roupas e presentes de Natal. A mãe comprou uma bola de futebol, bonecas e bonequinhos de heróis. As crianças adoraram. A irmãzinha de Jesus, feliz com sua bonequinha, sorria de orelha a orelha, os irmãos também ficaram muito satisfeitos com seus super-heróis em miniatura e Jesus, que sempre foi dado a jogar futebol na rua com os amigos, agora tinha uma bola novinha para divertir-se. A mãe comprara tudo em dezenas de vezes no cartão, pois o 13º salário não fora o suficiente, mas estava sentindo-se muito contente de ver seus filhos felizes. Jesus abraçou a mãe cuja bondade far-lhe-ia ser assunta ao céu e disse-lhe obrigado por tudo. A caixa de supermercado pediu para o filho ter gratidão a Deus, pois lhes concedera um Natal maravilhoso. E o menino em toda sua santidade disse um “Valeu aí, Deus”, que faria qualquer Divindade se rir da espontaneidade da criança.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, não tivesse pais e vivesse como um mendigo? Como seria seu Natal? Não teria onde dormir, nem o que comer, naquela noite de Natal. Vestiria trapos e não uma túnica ou coroa de espinhos. Não haveria árvores enfeitadas, ou presentes, pois os reis magos não conseguiram seguir a estrela de Belém. Jesus, faminto, crucificava-se todos os dias: “moça, me dá dois reais para eu almoçar”? Muitas vezes recebera rudes recusas. Mas a fome não cala e o corpo fala. A sua maior alegria era quando os voluntários da igreja serviam sopa aos necessitados. Assim poderia comer à vontade e saciar seu corpo esquálido e faminto. Mas a Noite de Natal, para Jesus, era triste, pois sabia o que representava. Porém, não culpava a Deus pelas dificuldades que passava. Acreditava na misericórdia do Senhor. Haveria de chegar o dia que teria uma árvore de Natal e uma ceia para comemorar. Mas, apesar de muito lhe faltar, ele, humildemente, agradecia ao Pai o milagre que todos os dias presenciava: o de estar vivo. Jesus, em sua Via Crucis, vendia doces no sinal de trânsito. Sabia que nascera no dia de Natal, mas não haveria cantar dos anjos naquele dia. E sua manjedoura era uma folha de papelão. Dormiria sem jantar porque não conseguira o suficiente para comer. E, naquela noite santa, Deus iluminaria o corpinho raquítico de seu filho e diria num estrondo: “Este é o meu Filho amado, de quem me agrado”. Mas confundiriam tais dizeres com o estrondo de um trovão da chuva que começara a cair. E Jesus, no seu Natal, permaneceria esquecido.

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