Arquivo do mês: novembro 2016

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“Sim, do mundo nada se leva.
Mas é formidável ter uma porção
de coisas a que dizer adeus”.
Millôr Fernandes

Vamos, vamos, Chape!

Giordana Bonifácio

Mãe, queria lhe dizer que estou bem. Não senti nada no momento do acidente. Não esqueci de rezar. Sabia que Deus não me abandonaria. Eu e meus amigos estávamos todos muito felizes, afinal, disputaríamos nosso primeiro campeonato internacional. Vivíamos nosso melhor momento. Nosso time, que era considerado pequeno, foi grande! Estávamos voando para a glória. Tudo parecia favorável. Estávamos muito entusiasmados. Sabe, mãe, eu esperava até dedicar um gol à senhora. Seria lindo. Eu tomaria a bola no meio do campo, driblaria todos os zagueiros e ao chegar na meia-lua adversária, lançaria uma bomba indefensável no ângulo ou “onde a coruja faz o ninho”, como dizem os narradores dos jogos de futebol.
Eu queria só ver a torcida indo à loucura. Pularíamos eu e meus amigos uns sobre os outros para comemorar o gol. No fim da partida, levantaríamos a taça, nosso maior prêmio, nossa melhor aquisição. Seríamos ovacionados na nossa volta. Todos estariam a nossa espera na cidade. Seríamos recebidos como heróis. Passearíamos, em carro aberto, segurando a taça e comemorando com o povo a nossa vitória. Seria lindo. Comovente. E você, mãe, choraria cheia de orgulho de mim.
Eu sei que o time seria lembrado para sempre por nossos feitos. Era nosso ano. Tudo contribuía para que isto ocorresse. Mãe, você gabar-se-ia para todos: “esse é meu filho”. Também exibiria com orgulho as fotos da nossa vitória. Eu levaria como lembrança a camisa do time derrotado a qual o meu filho recebê-la-ia como herança.
Meus dias de glória só estariam começando. Devido ao meu destaque, seria sondado por equipes europeias. E poderia até escolher em qual jogaria no ano seguinte. E não pararia por aí. Em alguns anos, meu destaque no futebol internacional levar-me-ia à Seleção Brasileira. A próxima Copa do mundo seria nossa e eu faria os gols da final. Tite ficaria muito feliz de trazermos o Hexa tão esperado. Eu envelheceria jogando futebol. Talvez, até me tornasse técnico no futuro. Sempre ligado ao meu esporte favorito que se tornou a minha vida.
Tudo isto teria acontecido, se a morte não tivesse vindo cedo demais. Como eu dizia, está tudo bem. Mas não como você gostaria. Eu morri na queda do avião que fez todo o mundo chorar. Não ganhamos o título, não fiz o gol decisivo, não trouxemos de volta a taça. Na verdade, só meu corpo inerte e sem vida voltará, para que a senhora pranteie meu falecimento. Sei que dói. Mas não tem jeito. Quem somos nós para discutir os desígnios de Deus? Chegou a minha hora. Foi o que me disse um anjo nos meus instantes finais. Deixei que me levassem. E fui. Mas não tema, sempre estarei com vocês.
Aqui de cima, estou vendo o mundo todo entristecido pelo ocorrido. Foi um choque, admito. Também tive medo de partir. Foi difícil. Queria ficar, tinha tanto pela frente. Contudo, não pude ir contra à morte. Ninguém pode. E ela nem é tão feia quanto pintam. Não é um esqueleto cheio de ossos, coberto com uma túnica negra, armado com uma foice. É, na verdade, um anjo que nos toma no braço e leva-nos no colo, em segurança, para o lado de Deus.
Estava com medo, pensei que iria doer. Mas não dói. A gente sequer sente. Passa num segundo. De repente, a vida passou. Sei que vocês também pensam assim. Mas não creia que estão sozinhos. Eu estarei com vocês, não vou lhes abandonar jamais. A vida não acabou, ela continua. Você e os demais estão feridos, mas a dor vai passar. Não há mal que permaneça. A saudade é eterna, eu sei. Mas a vida é infinitamente pequena, não sabe o quanto. Isto só compreendi aqui em cima.
Voltaremos a estar juntos um dia. Mais rápido do que imagina. Contudo, não pense nisto. Aproveite a vida, tal qual eu fiz até os momentos finais. Fui muito feliz. Você proporcionou-me isto, mãe. Não seria nada se não fosse por você. A única que acreditou em mim desde o começo.
Eu queria poder agradecer-lhe por tudo que fez por mim, mãe. Você teve fé, foi forte nos momentos em que fui fraco e fortaleceu-me quando fraquejei. Agora sou eu que peço para que volte a ser o colosso que é. A vida tem dessas coisas, nunca esperamos que a morte ocorra. Mesmo sabendo que ela é inevitável.
Minha história passou rapidamente frente aos meus olhos e nesse momento percebi que devo muito a você, mãe. A vida que tive foi curta para dizer-lhe tudo que precisava. Nem houve tempo suficiente para lhe recompensar por tudo que foi em minha vida. Portanto, digo-lhe agora, ainda que não possa ouvir: obrigado, estou, mais perto que pode pensar, assistindo suas lágrimas, vendo sua dor. Queria consolar-lhe nesse dia tão difícil. Estarei consigo, mas não me verá. Mesmo assim, acredite, estarei aí, ao seu lado. A vida acabou para mim, mas não para você. Portanto não vá se esquecer de se cuidar. Estarei de olho!
Aqui é muito agradável. Não há dor, fome, tristeza ou qualquer sentimento angustiante. Estamos, na Terra, tão preocupados em não sofrer. Mas no pós-vida, não existe sequer a ansiedade de esperar. O tempo é relativo e, depois da morte, é muito mais estranho. Não há presente, passado ou futuro. Só há o agora. Estamos, em vida, tão preocupados com o amanhã que esquecemos de hoje. Aqui, o tempo inexiste. O medo do futuro não nos atinge. E isso é tão bom!
Mas a partida ainda está marcada. O jogo vai ocorrer nos campos do Paraíso. Temos uma pelada programada para daqui a pouco contra o time dos anjos. Vamos ganhar de goleada! Eles vão ver quem é a Chape! Ninguém segura a gente! Estamos preparados e vamos ganhar, enfim, o campeonato. Porém, o prêmio mais legal é o reconhecimento que nosso time está recebendo aí na Terra. Estamos emocionados com as demonstrações de carinho. É tudo tão lindo, estamos muito agradecidos.
Mãe, você é bastante sábia, disse para que não me preocupasse muito com o amanhã. Pois poderia acontecer de não existir um novo dia. O sol continuaria a nascer, pois não precisa de mim. Mas eu necessitava dele. Não deveria angustiar-me tão só em ter, mas em ser. Ser o mais feliz possível. Eu acredito que aproveitei bem a vida. Foi curta? Talvez, não foi suficientemente longa para viver tudo o que deveria. Mas graças a você mãe, fui muito feliz. Então, escute, estarei aqui ouvindo quando rezar aos pés da Nossa Senhora. Esperando por você, pois, logo, estaremos todos reunidos novamente. Nossa família se reencontrará aqui em cima. Não duvide nunca da bondade de Deus. Nem lamente a minha morte. A vida tem um fim. Cedo ou tarde ela termina. Ainda que nunca estejamos preparados para um término tão abrupto.
A vida é só um sopro, num suspiro profundo ela se vai. Fiquei apavorado, não vou mentir. Contudo, agora que estou aqui, estou muito calmo e satisfeito, como jamais estive. Não vá se preocupar, não há frio ou qualquer perigo que nos ameace no pós-vida. É um local ótimo para se estar. E, com os meus companheiros da Chapecoense, aguardamos um novo campeonato, aquele que se passa nos Campos Elíseos do Céu. O título é certo!
Em seu coração e nos corações de todos brasileiros vai continuar, por muito tempo, a soar o hino da Chape. Um hino que representa toda a emoção de um time cuja torcida uniu o mundo inteiro, todos juntos numa só canção. Ressoam aos meus ouvidos os gritos de “Vamos, Vamos Chape”! Mãe, diga que eu e meus companheiros estamos muito agradecidos pela comoção social que causamos. Diga a todos que a vida é efêmera. Nunca sabemos quando chegará nosso fim e, não adianta, não estamos jamais preparados para ele. Por isso, pode ser até um clichê, mas diga a todos que curtam ao máximo a vida. Posso afirmar que o céu, hoje, está mais verde. Iluminado pelas cores do clube de Chapecó.

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“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração”.
(Fernando Pessoa, Autopsicografia)

Estasoueu.doc

Giordana Bonifácio

Um dia, comecei a escrever. Não tinha ideia de onde minha escrita terminaria. Escrevia sem objetivo. Como se escrever fosse verbo intransitivo. (Desculpem-me, mas citar Drummond é imprescindível a qualquer escritor). Quem necessita de complemento? Escrevo. Tão somente. Nem quero ter motivo. Faço porque faço. Nem quero saber a razão de meu desejo de escrever. Mas nem sou escritora. Sou uma menina, sim, criança ainda, no mundo das letras. Vou brincando de criar. Às vezes, surge algo bonito. Mas nem sempre. Tem hora que tenho de usar o backspace e apagar tudo com lágrimas nos olhos. Dói quando minha criatividade está em baixa. Fico frente ao computador forçando meu cérebro, como num parto por fórceps. Tem horas que não surge nada mesmo. Então deixo estar. Não sou de lutar comigo mesma. Deixo as coisas como são. Tudo é como deve ser.
Escrever é expor-se da forma mais constrangedora possível. É desnudar-se frente ao mundo. As pessoas passam a conhecer-nos o mais profundamente possível. Escrevo o que sou. E penso que sou algo muito complexo. Um emaranhado de pensamentos luminosos e apagados, como em um pisca-pisca natalino. É difícil traduzir em palavras o que sou realmente. Mas, às vezes consigo. Vem um pensamento e bum! Tomba como uma bomba sobre mim. Destrói tudo em mim a minha Rosa de Hiroshima. (O mundo pede desculpa por nossa maldade). Eu sei que escrevi algumas verdades que não deveriam ser ditas. Mas agora é tarde. Foi. Cachoeira de sentimentos que caem em nuvens de lágrimas.
O que ganho por minha sinceridade? Só a minha paz de espírito. Na verdade, nem isto. A paz não me acompanha. A minha vida é turbilhão. Afundo em mim todas as noites. Consigo recuperar um tanto dos sonhos quando acordo. Mas sempre me resta a impressão que deveria lembrar-me de algo mais. Como se minha mente quisesse dar-me um aviso. Mas as advertências que tinham de chegar-me mediante os sonhos perdem-se no minuto em que desperto. Morfeu falhou imensamente em sua missão.
Tenho medo do que escrevo. Vai que revele mais do que o gostaria? (O que invariavelmente ocorre). O que irão pensar de mim? Talvez nem pensem. As pessoas não costumam mesmo ler o que escrevo. Sou uma escritora sem leitores. Também falhei vergonhosamente em minha missão. Não tenho como repreender o Deus dos Sonhos. Quem quer saber sobre minha dor? Se fosse ao menos alguém famoso, mas uma mulher de trinta e poucos anos sem qualquer feito impressionante para constar em seu currículo? Sou humana. Sou comum. Sou. Ainda que ser seja um resumo um tanto previsível de mim. Ser é existir num mundo em que o valor é contado em capital. Sou ainda que nada tenha. Sou um buraco negro de emoções que são puxadas para mim e chegam sabe-se lá aonde.
Eu quero um casulo de livros que me afastem da realidade. A vida é real demais para mim. Quero que a literatura me guarde num sonho, num adormecer eterno do qual jamais desperte. Algo próximo à morte, mas quem pode saber se falecer não seria despertar num sonho? Será que é como desligar a televisão? Deus usa o seu controle remoto e puff!: A vida acabou para nós. Seria impressionante descobrir a vida após a morte. O que devemos pensar quando chegamos lá? Estaríamos assustados? Estaríamos apavorados ou seríamos coniventes com nossa sorte? Ah, quantas perguntas e comecei este texto falando do dia que comecei a escrever. Nesse dia, pensei que resolveria todos os meus conflitos. Ledo engano, criei ainda mais problemas cujas soluções jamais encontrei. “Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima e não uma solução”. Faço uso, novamente, do nosso fantástico Drummond. Há como se entender este planeta de loucos? Não. Nem adianta tentar. O lúcido é o ensandecido num mundo de malucos.
Escrevo porque nem sei. Escrevo porque não sou normal. Escrevo porque sou por demais sonhadora. Escrevo para tentar fazer do meu mundo um lugar melhor. Sim, é puro egoísmo. Nem sequer penso na coletividade. Sei que a escrita não tem o poder de modificar a nossa tão estranha ilusão de sociedade. Mas creio que ela, pelo menos, doura a pílula. Deixa-a engolível, por assim dizer. Escrever é um ato solitário, não escrevemos para mundo, mas para nós mesmos. Ficamos satisfeitos por abrir nossa alma. Ainda que ninguém sequer compreenda isto. É como desentupir uma pia entupida, quando a dor surge voraz canalizamos toda para o papel. Pena que pensem ser só arte. É ilusão também. E medo, e mágoa, e solidão, e dor, e silêncio, e morte. Tudo isso e mais um pouco.
Queria dizer que isto que escrevo não sou eu. Contudo sou eu. É tudo sobre mim. As tristezas foram vividas por mim. A escrita é o exercício da dor. Escrever é revelar-se nas páginas de um livro. O que digo é verdade, ao menos a maior parte. O resto invento. Mas até minhas mentiras retratam o que sou. O escritor sofre. As palavras fogem, a emoção não é perfeitamente compreendida e o riso não vem quando provocado. Não controla o autor os sentimentos que surgem com suas palavras. É uma quimera pensar estar o escritor no controle de sua obra. Na verdade, é o leitor o senhor absoluto das palavras. São eles que ditam o que vai acontecer. Por isso, concordo que a escrita é um mistério sem solução. Não devemos enganar-nos pensando que vamos domar a besta, pois ela nos fará cair no primeiro segundo. Um rodeio onde os animais ditam as regras.
Queria saber escrever o que não sou eu. Mas não posso. Pois eu sou eu o tempo todo. Nem sei ser diferente do que sou. Porque quando quero ser diferente, o mundo me obriga a ser eu. Não posso andar um passo fora do espaço milimetrado para mim. Não posso fingir ser outra pessoa. No fim, até mesmo meu personagem torna-se parte de mim. Conheço este labirinto em que me perco. Somente o silêncio traz de volta o que perdi. O passado é uma confusão de fatos que minha memória cuida de apagar. Não quero dormir. Pois no sono não sou em que me guio. Perco a direção de minha carruagem e os meus cavalos, indomáveis, levam-me para o abismo. Não quero cair nesse precipício que há em mim. A escrita é minha tábua de salvação. Os dias em que não escrevo são como sinopses imperfeitas da vida.
O mundo atual está repleto de escritores. Hoje, todo mundo pode ser um autor (ainda que, tal qual a mim, não possua leitores). Há um sem número de computadores com o Office instalado. Para ser escritor, basta ter coragem de confessar-se para uma máquina fria que não nos oferece quaisquer respostas as nossas questões. Ela só absorve o que dizemos e coloca sob símbolos num arquivo de texto: estasoueu.doc. No dia que comecei a escrever não possuía nem mesmo uma simples máquina de escrever. Fiz um manuscrito que se perdeu pela força do tempo. Seria uma ótima relíquia. Uma lembrança do passado que restaria viva. São coisas assim que deveria ter guardado, mas não o fiz. Ao invés disso, tenho um bando de pequenos souvenires que nem me lembro a situação em que os adquiri. Eu sou um caso raro a ser estudado.
Quando comecei a escrever não sabia os caminhos que trilharia, nem mesmo os objetivos que buscaria. Só sentei peguei a pena e fiz dela uma arma. “Nũa mão sempre a espada e noutra a pena”. Já dizia Camões no seu fantástico “Os Lusíadas”. Quem escreve não sabe bem porque o faz. Apenas lança os dados. A sorte dita o resto. Não posso reclamar. Tenho de me livrar de algum modo de meus monstros. “Só não vá abrir essa caixa, Pandora”! O que esperavam encontrar? Só tenho aqui um relato de viagem de uma sonhadora. Os caminhos levam-me para o mundo. E a pena acompanha-me nas minhas aventuras. Somos uma só. Pois sou o que escrevo. (Sei que já disse isto. Só queria enfatizar). E o que escrevo o que é? Uma miragem de sonhos num deserto de solidão. Quando escrevo desperto a minha alma da qual surgem as mais estranhas fantasias. Sou o médico e o monstro. Uso uma máscara da qual me livro toda vez eu vou escrever. Por isso, não me reconhecem na minha escrita. Mas sou eu. Isto sou eu. Ainda que nunca revele a ninguém. Mas, os poucos que me leem sabem da minha estranha lucidez. Um dia, alguém vai abrir o baú de sonhos e deixar escapar de mim todas as minhas facetas. São as diversas personalidades que adquiri. (Como os heterônimos de Pessoa). Todas são um tanto do que sou, são minhas criações que surgiram no dia que comecei a escrever. Quando recuperei a sanidade que, no passado, havia perdido.

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“Este é o meu Filho amado,
de quem me agrado”
Mateus 3:17

Natal do menino Jesus

Giordana Bonifácio

E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de carpinteiro? Como seria o seu Natal? Talvez, ganhasse um carrinho de madeira de presente e tivesse uma ceia simples, porém farta. Frutas da estação enfeitariam a mesa da família que vestiria roupas novas compradas na feira. Tios e tias viriam lhe visitar. Fariam um alegre amigo oculto, com produtos chineses de baixo valor, que findaria com muitas risadas. O peru, tão caro, seria substituído pelo Chester e a sobremesa seria o famoso pavê da tia Isabel. As crianças beberiam refrigerantes e brincariam com seus brinquedos enquanto os adultos, bebendo cidra Cereser, discutiriam sobre futebol e todos dormiriam após o especial da televisão. E Jesus, antes de dormir, agradeceria por sua família tão extensa e unida.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de gari? Como seria seu Natal? Creio que lhe faltariam presentes e a ceia seria ainda mais modesta. O frango substituiria as aves natalinas e faltariam as frutas e a cidra, talvez, todos bebessem refrigerantes e a família só teria a companhia dos seus dois cachorros vira-latas na sua festa. Mas, assim era até melhor, pois não teriam de comprar roupas novas. O que seria impossível com os altos preços no comércio no fim de ano. Os meninos assistiriam ao especial Natalino na velha tevê de tubo, enquanto os pais fariam as contas daquela noite tão cara para seu baixo orçamento. E Jesus, antes de adormecer, agradeceria por ainda terem o suficiente para comer.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de uma cabelereira? Como seria seu Natal? A mãe chegaria à casa muito tarde depois de ficar no salão o dia inteiro para arrumar as dondocas do Lago Sul, não teria tempo de preparar a ceia. Então, teriam de comer lasanha congelada que aqueceriam por 15 minutos no micro-ondas. Os meninos beberiam refrigerante e a mãe uma latinha de cerveja, porque era dia de festa. A cabelereira contaria histórias do salão e passariam uma noite muito agradável juntos. Não era dia de assistir a tevê diria a mãe. Assim, divertir-se-iam sem ajuda da máquina de imagens que hipnotiza as pessoas. Teriam presentes, claro, a mãe recebera um bom dinheiro no salão. Seriam agraciados com carrinhos e bonecas. E Jesus rezaria em agradecimento por ter uma mãe tão boa e generosa.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de um camelô? Como seria seu Natal? O pai chegaria em casa com frágeis presentes de procedência chinesa que, no entanto, alegrariam as crianças. A mãe prepararia uma ceia humilde, sem o requinte que criaram para a ocasião. Teriam rabanadas feitas com pão dormido e os meninos iriam se divertir bastante com as luzes e sons daqueles brinquedos que traziam conhecidas faces do ocidente, mas eram todos provenientes do oriente. Os tênis e as roupas que vestiam também tinham a mesma origem. Mas, não obstante tudo ali fosse falso, no coração daquelas pessoas, o amor era mais que verdadeiro. E o menino Jesus sentir-se-ia feliz por não haver falsidade em sua família.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de um servente de pedreiro? Como seria seu Natal? O pai chegaria com a roupa suja da construção e a esposa diria para tomar banho e juntar-se aos meninos na sala. Após a ducha, sentar-se-iam todos à mesa e Jesus pediria para que fizessem uma oração antes do jantar tão delicioso que se resumia a um frango assado e um arroz com passas. Os meninos ganhariam uma casinha como presente de Natal, a qual foi feita com restos da construção aonde o pai trabalhava. Ele fez aquela pequena obra durante os fins de semana, mesmo sacrificando seu descanso, para dar alegria aos seus filhos. O presente deixou as crianças tão felizes que trouxe lágrimas aos olhos daquele Papai Noel inusitado. E o menino Jesus, tinha um abrigo mais acolhedor que uma manjedoura para brincar. Naquela noite, de joelhos, frente a cruz, Jesus sentiu-se grato pela dádiva de ter um pai tão bom.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino e fosse filho de uma empregada doméstica? Como seria seu Natal? Naquele dia, não teriam tempo de fazer ceia, já que a mãe passou todo o dia cozinhando peru, arroz à grega, salpicão, tender, pernil, pudim de passas e outras delícias Natalinas na casa da família para quem trabalhava. Mas a patroa permitiu que a doméstica levasse um tanto do que cozinhara, exceto do peru e do pernil, para casa e também a presenteara com um Chester. Chegou em casa com quase uma dezena de potinhos que exalavam um cheiro ótimo. A festa de Natal, para a família de Jesus, seria bem farta. Enquanto assavam a ave, os meninos abririam os presentes cheios de alegria. Carrinhos e piões rodavam pela sala quando o assado ficou pronto. Jesus gostou dos novos sabores do Natal que provara aquele ano e rezou depois de saciar-se da ceia rendendo graças a Deus por terem tudo que necessitavam.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, filho de uma caixa de supermercado? Como seria seu Natal? A mãe solteira recebia, todos os anos, uma cesta com todos os produtos da ceia. Assim, só bastava cozinhar. Naquele ano, teriam peru e havia até frutas secas: nozes, quando poderiam comer nozes? Então, só tinham de se preocupar com as roupas e presentes de Natal. A mãe comprou uma bola de futebol, bonecas e bonequinhos de heróis. As crianças adoraram. A irmãzinha de Jesus, feliz com sua bonequinha, sorria de orelha a orelha, os irmãos também ficaram muito satisfeitos com seus super-heróis em miniatura e Jesus, que sempre foi dado a jogar futebol na rua com os amigos, agora tinha uma bola novinha para divertir-se. A mãe comprara tudo em dezenas de vezes no cartão, pois o 13º salário não fora o suficiente, mas estava sentindo-se muito contente de ver seus filhos felizes. Jesus abraçou a mãe cuja bondade far-lhe-ia ser assunta ao céu e disse-lhe obrigado por tudo. A caixa de supermercado pediu para o filho ter gratidão a Deus, pois lhes concedera um Natal maravilhoso. E o menino em toda sua santidade disse um “Valeu aí, Deus”, que faria qualquer Divindade se rir da espontaneidade da criança.
E se Jesus estivesse entre nós, como menino, não tivesse pais e vivesse como um mendigo? Como seria seu Natal? Não teria onde dormir, nem o que comer, naquela noite de Natal. Vestiria trapos e não uma túnica ou coroa de espinhos. Não haveria árvores enfeitadas, ou presentes, pois os reis magos não conseguiram seguir a estrela de Belém. Jesus, faminto, crucificava-se todos os dias: “moça, me dá dois reais para eu almoçar”? Muitas vezes recebera rudes recusas. Mas a fome não cala e o corpo fala. A sua maior alegria era quando os voluntários da igreja serviam sopa aos necessitados. Assim poderia comer à vontade e saciar seu corpo esquálido e faminto. Mas a Noite de Natal, para Jesus, era triste, pois sabia o que representava. Porém, não culpava a Deus pelas dificuldades que passava. Acreditava na misericórdia do Senhor. Haveria de chegar o dia que teria uma árvore de Natal e uma ceia para comemorar. Mas, apesar de muito lhe faltar, ele, humildemente, agradecia ao Pai o milagre que todos os dias presenciava: o de estar vivo. Jesus, em sua Via Crucis, vendia doces no sinal de trânsito. Sabia que nascera no dia de Natal, mas não haveria cantar dos anjos naquele dia. E sua manjedoura era uma folha de papelão. Dormiria sem jantar porque não conseguira o suficiente para comer. E, naquela noite santa, Deus iluminaria o corpinho raquítico de seu filho e diria num estrondo: “Este é o meu Filho amado, de quem me agrado”. Mas confundiriam tais dizeres com o estrondo de um trovão da chuva que começara a cair. E Jesus, no seu Natal, permaneceria esquecido.

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