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“Não sabendo o que vê, ele adora a visão;
Aquela face falsa ludibria e alimenta seu deleite.”
Ovídio – Metamorfoses

Telas

Giordana Bonifácio

Uma tela minúscula, pontos de luz, estrelas brilhantes que fazem dos shows musicais uma verdadeira galáxia. Luz que brilha. Luz que se apaga. Homens cegos pela luz tão atraente. Moscas que se batem contra o calor luminoso que tanto atrai. Antes, paralisados pela tela mágica da tevê, agora vagueiam sem rumo em busca de monstrinhos virtuais. O problema é quando o monstro foge da tela. Eis este presente à nossa frente. Porta uma arma e é incisivo: “passa esse celular aí, moleque”. Não há poquebola que o aprisione. As celas muito menos. As telas entram sabe-se lá como nos presídios. Sem controle dos humanos, que estão sob o controle das máquinas. “Deixa eu tirar uma selfie”? Imagens proliferam-se num mundo de alegria perpétua, ao menos, na rede social. Quem quer saber da dor do outro? Todos se esforçam para parecerem felizes, ainda que não o sejam. Sorrisos, festas, ninguém é real na internet. Linguagem binária que pouco nos diz.
Mas há cultura e informação, também. Saber que cruza fronteiras nacionais. O mundo fala uma só língua. Porém, às vezes, as palavras são de ódio que escapam dos corações revoltados. Mas, por quê? Talvez, em razão de este mundo tecnológico ser ainda muito excludente. Há quem passe fome? Mas vão lançar o novo iPhone 6s! Novo design. Você não pode perder! Enquanto isso, as fronteiras intransponíveis da esperança, não permitem a entrada de refugiados. O mundo cor de rosa, ficaria menos belo. Pessoas que levam consigo tão só a coragem, não temem morrer no frio do inverno. Nem na passagem desesperada pelo Mar Mediterrâneo. Não querem morrer na guerra, ainda que tenham de morrer no oceano. Surge uma telinha e “clic”: a foto de um corpinho de criança morto numa praia da Turquia cruza as fronteiras inexistentes da internet. Todos se comovem. Mas não agem. Choram uma morte que não os atingem. Pois estão muito confortáveis na sua posição, na sua falsa comoção virtual. O mundo real é tão só hipocrisia.
“Veja os “nudes” daquele ator famoso. Acabei de enviar para você”. E a privacidade desfaz-se no compartilhamento de mensagens ilegais. Na tela, corpos, vivos e mortos, definidos ou envelhecidos. O importante é saciar a curiosa sede de polêmica. A fama é tão fugaz quanto os cliques nas telas dos smartphones. Em um mês, tudo é esquecido. O mundo é volátil. Às vezes, inverossímil. Não se pode confiar em tudo que se vê na internet. Os olhos nos ludibriam, as redes nos enganam e os políticos nos tapeiam. Tudo isto na velocidade de uma banda larga com WiFi. Não adianta reclamar. O mundo fantástico da tecnologia é assim. Somos Alice ao transportar-se através da face misteriosa do espelho. Nós, quando cruzamos a tela dos nossos computadores e smartphones, somos levados a um lugar ainda mais extravagante que aquele encontrado por tal garota. Antes, o mundo era levado até nós pela lente das câmeras e a tela da televisão. Hoje, somos transportados em redes invisíveis para todos os pontos do planeta. O mundo mudou.
Mas a guerra continua igual. Lançam uma bomba contra a capital da Síria, que cai nas nossas mãos em Brasília. Sabemos do número de feridos e mortos. E uma foto de um triste garoto resgatado dos escombros, torna-se símbolo de uma guerra insana pelo poder. O que vai restar daquele país, além de um punhado de escombros? Além de um imenso cemitério de ignorância? A tela brilhante do celular mostra-nos tudo isto. A música flutua no ar. É pirateada por salteadores mais terríveis que aqueles que pilhavam navios no passado. Agora, basta digitar no Google o nome da canção e voilá: eis a nova música do cantor X. Cds tornaram-se itens ultrapassados. O futuro torna-se passado rápido demais. E presenciamos as mudanças do tempo em nossas mãos. Mas não podemos controlá-las. O computador responde todas as nossas perguntas? Ainda não, meu caro. Alguns mistérios permanecem os mesmos. Não dá para tirar “selfie” no pós-vida. O que será dos homens num paraíso sem WiFi? O que comem os anjos? Dá para postar no Instagram? Tem certas perguntas cuja resposta nunca saberemos. Ao menos, nesta vida, podemos aproveitar bastante da tecnologia.
Vazou o filme mais esperado do ano na internet. Quem quer saber que custou milhões de dólares, se posso baixá-lo de graça? E assim apagam-se as telas daqueles que enfrentam o desemprego. Não dá para aproveitar da tecnologia quando até a energia foi cortada. Melhor para mim. Pior para você. Mas nem me importo. Não até virar “modinha” no facebook. Então, coloco uma foto colorida para demonstrar como sou politizado. A tela da tevê faz tolo o homem que não lê. As horas passam nuas, sob o manto da alienação. Perde-se tempo com o desnecessário. Produtividade é um mito desde que surgiu o WhatsApp. Mas a informação tornou-se instantânea. Ao menos, quando a justiça brasileira não bloqueia as redes sociais. Contudo, há sempre a salvação esperada quando se derruba a malfadada liminar. E então, podemos voltar a vendar nossos olhos com a tela brilhante dos smartphones. Como um tapete mágico que possibilita viajar pelos mais inóspitos lugares, mas, ainda assim, não conhecer nada.
O mundo está caminhando em sentido reverso. Uma fita de vídeo que para ser revista, devemos rebobiná-la. Mas o que é fita de vídeo? E o que é rebobinar? As respostas estão numa série do Netflix. Falando nisso, convém que eu faça um ato reprovável, um pecado mortal, malvisto por todos: tenho que dar um “spoiler”. Então que seja. Afinal, não estou aqui para agradar ninguém: “Eleven mata o Demogorgon”. Quanto ódio gerei agora? Haters apresentem-se com tochas ao meu encalço! Ao pecador, a fogueira da Inquisição. E as telas retratam a morte “ao vivo”. Cristãos degolados pelo Estado Islâmico. O inimigo agora é outro? O vermelho desbotou e eu nem sabia. “Nada mais direita que a esquerda no poder”. Mas o dinheiro continua a escorrer pelos mesmos canos da corrupção. O petróleo não é mais nosso? Engraçado que toda sujeira da política comece a lavar-se num processo moroso denominado Lava-Jato. Um hábito de séculos desmorona-se nas mãos de um “juizeco de primeira instância”.
As telas mostram mais do que gostariam. Casos extraconjugais são revelados por um fã indiscreto. O mundo está um perigo. “Paredes têm olhos, portas têm ouvidos”. E todos querem dar sua opinião. Mas ninguém convence a ninguém. São todos donos de suas próprias verdades. Mas e se sua verdade for uma grande mentira? Ainda assim, preferirá permanecer com ela? Fecham-se as cortinas, mas a peça não acaba. Os atores permanecem a interpretar seus dignos papéis.
Hoje, deve-se medir bem as palavras. Qualquer vírgula mal colocada pode gerar um processo milionário. O discurso politicamente correto fez do mundo um lugar muito chato. O riso é milimetricamente controlado. Sabe de uma coisa? Não tem graça nenhuma. O estranho é que a tecnologia deveria nos libertar. E penso que estamos cada vez mais presos. As telas não são janelas para o mundo? Parecem mais prisões que enclausuram nossos cérebros. Estamos cada vez mais isolados. Todavia, não percebemos que estamos escravizados pelas telas que portamos. Não conseguimos sequer restar um dia longe delas. Elas não necessitam de nós, mas nós estamos viciados nelas. Dependentes. Toxicômanos em busca da próxima dose.
Podemos desligá-las, mas não o queremos. Podemos dominá-las? Não, não podemos. A tecnologia sem fio deixou-nos mais atados. Não podemos restar sem mostrar nossa grande alegria na nossa viagem à Europa, nem mesmo a deliciosa salada que comemos no almoço. Todos devem saber que fui à praia esta semana. Ninguém pode deixar de ver a foto que tirei com aquele artista global. Devo deixar claro meu amor pelo meu cachorro. Não podem deixar de ver como estou malhando forte na academia. Todos devem ver. Todos devem saber como sou feliz. Mas, por quê? Porque as telas são os quadros estáticos de nossa imensa solidão. Queremos ser vistos. Queremos ser importantes. Queremos o olhar do outro, que não recai em nós, mas na tela de lcd brilhante. A tela que nos retrata assim como queremos ser, mas não somos. Não somos. Ao menos, Narciso via-se na face fria do espelho. Nós vemos, nas telas da tecnologia, uma versão fabricada de nós. O produto de nossos desejos, que nunca vai corresponder à realidade. Este seria o fim de nossa sociedade? Não sei, mas por ele não posso esperar, tenho de recarregar a bateria do meu celular.

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