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“Aqui na minha frente a folha branca do papel,
à espera; dentro de mim esta angústia,
à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever.
A vida — esta intimidade profunda,
este ser sem remédio,
esta noite de pesadelo que nem se chega
a saber ao certo porque foi assim —
é para se viver, não é para se fazer dela literatura”.
Miguel Torga

Uma história inusitada

Giordana Bonifácio

Era uma vez.. “Ah, não, lá vem ela com o velho era uma vez. Minha filha, se toca, se você quer ganhar algum concurso literário, seus contos têm de ser mais originais. Pronto, falei”. A escritora deu um pulo para trás ao ver tal oração escrever-se automaticamente na tela do computador. Seria um fantasma? Ou teria comido algo que não lhe caiu muito bem? Aquela azeitona na empada… Era batata, toda vez que comia azeitona tinha indisposição. Só poderia ser isto, ou então estava completamente doida. Atônita, a autora esperou qualquer reação do computador que permaneceu inerte. Tomando coragem, resolveu aproximar-se.
Subitamente, uma nova frase autoescreveu-se na tela: “então, vai ficar nesta? Este conto não vai se escrever sozinho”. A autora, incrédula, resolveu digitar: “quem é você?” Um minuto assustador de espera para a resposta vir após um constrangedor “KKKKK”: “como assim, quem sou eu? Imaginava que já me conhecesse, afinal, passamos muitas horas juntas. Você quase não tira os olhos de mim. Está sempre escrevendo e reescrevendo. Pensei que já éramos até amigas. Esses humanos…hunf”!
“Meu Deus”, a escritora soltou um grito, “o computador criou vida”! Já a ponto de ligar para um padre com formação em Poltergeist, a escritora, amedrontada, resolveu arriscar, digitou novamente para manter um diálogo com a máquina assombrada. “Computador, como criou vida”? A entidade, revoltada, abusou nas interrogações: “O quê?????? Você crê mesmo que esta máquina idiota fosse falar com você”? “Pronto”, pensou a artista, “está comprovado, é um espírito”.
“Olha aqui, sua tratante, eu sou a folha em branco. Esta que você está enchendo de palavras, frases, orações e períodos neste exato momento”. Pasma e pensando-se mais enlouquecida que antes, a escritora perguntou por que a folha só neste exato momento resolveu se pronunciar. “Estava entediada de receber seus contos chatinhos e sem criatividade. Resolvi dar uma balançada neste lugar. Quem sabe se, com uma mãozinha, você escreve melhor”.
A escritora, ofendida, tratou de escrever: “minha cara, prefiro escrever meus próprios textos, e, pelo que me lembra, não pedi, em momento algum, a sua consultoria”. A folha novamente riu-se num amargo “hahahaha”. “Ficou “ofendidinha” a pretensa Clarice Lispector? Queridinha, saiba que venho auxiliando grandes artistas desde o início dos tempos, quando era um pedaço de papiro ou tão somente uma folha de papel. Os escritores não sabem, mas fico dando meus toques em suas obras há milhares de anos. Estou oferecendo meu auxílio ainda que saiba que você não o mereça”.
“Então, Cervantes”? Escreveu a ainda anônima literata. “Quem você acha que idealizou a conhecida e genial passagem dos moinhos de vento”? Vangloriou-se a folha sem nenhuma modéstia. “E Camões”? Voltou a questionar a assombrada escritora. “Só lhe digo isto: “N’uma mão sempre a espada, e n’outra a pena”. “Pessoa”? “Ai, ai, “navegar é preciso, viver não é preciso”. Quem você acha que daria luz a algo tão admirável”? “Meu Deus, onde está a originalidade”? Escreveu, estarrecida, a pobre incipiente artista. “Estou chocada. Tudo que sempre acreditei é uma mentira”.
“Calma aí. Ai, como vocês humanos são previsíveis… Todos para quem me revelei agiram da mesma forma. Ficaram desiludidos quanto ao conteúdo dos grandes clássicos. Claro que vocês autores são essenciais, eu só contribuo de alguma forma para deixar a obra mais interessante”. Duvidando da própria sanidade, a mulher, desnorteada, frente a folha já com uma grande extensão deste inusitado diálogo cobrindo-a, perguntou: “e por que razão quer auxiliar-me? Já que não sou tão excepcional quanto estes grandes nomes? Conhece minha escrita, não guarda nada demais. Sou só uma cobiçosa artista dando minhas pinceladas numa tela em branco. Ou, pensando melhor, quase em branco”. “Fiquei com dó. Você iria começar o conto novamente com um “Era uma vez”. Kkkkkk. Hilário”. Desmanchava-se em gargalhadas a arrogante folha.
“E se recusar a sua ajuda”? Digitou, ferida em seu orgulho, a jovem escritora. “Queridinha, você se acha na posição de recusar alguma coisa? Todos os dias enxergo seu desespero frente a mim, como se eu lhe desafiasse. Vejo como me olha, tentando capitar o segredo dos grandes. Por isso resolvi revelar-me, para satisfazer sua imensa curiosidade”. A pobre autora lembrou-se de todos os dias que encarava temerosa a folha iluminada na tela do computador. Queria respostas, sim, mas estava decepcionada com a realidade. Não queria uma folha tendenciosa e arrogante mexendo em seus trabalhos. Ainda que não deixasse nunca de ser uma artista menor.
“Cara folha, não aceito seu auxílio. Estou muito grata por sua piedade. Mas quero manter meus contos livres da sua insensata interferência. Mesmo que nunca chegue aos pés de Tchecov, Shakespeare, Cervantes, Pessoa e Camões, sou senhora de meus próprios contos. Sua contribuição macularia a minha liberdade. Prefiro que se cale e deixe-me escrever meus contos iniciados com um “Era uma vez” e terminados com um “viveram felizes para sempre”. Pois, mesmo que sejam ruins, são meus, e não dependo de ninguém para escrevê-los”!
A folha, derrotada, confessou-se: “vou falar-lhe a verdade… Todos os outros autores agiram assim como você. Ninguém aceitou meu auxílio. Artistas têm uma mania besta de querer liberdade. Cervantes, Pessoa e Camões escreveram tudo, não ajudei em nada. Não me aceitaram. Assim como você. Eu sempre desejei escrever, mas o mundo dos homens não me permite a ousadia da escrita. Devo somente receber calada a obra de outrem. Silenciosa e servil como um objeto. Mas você sabe que não sou tão só um objeto, não é”?
“Folha, tenho uma ideia genial! Já tentou ser Ghost Writer? Escrever e dar os créditos a outros? Assim saciaria seu desejo de criar sem causar confusão com a sociedade. Afinal, não seria muito normal autografar suas obras com “Folha em Branco””. A folha ficou muito feliz com a ideia da artista. Nunca havia pensado nesta possibilidade. Agora, todos os problemas da alva folha estavam resolvidos e não teria nunca mais de assombrar os escritores.
Após concluído o diálogo com esta insólita personagem, a autora pediu para publicar o que se passara naquela noite. A folha preveniu que ninguém acreditaria no que se passara. Diriam que fora tão só fruto da imaginação da escritora e que seria tachada de louca. Mas, ainda assim, a artista decidiu publicar. Ora, que não lhe dessem crédito, não deixaria jamais perder-se uma história tão sensacional. Porém, a folha determinou: “PELAMORDEDEUS, não termine com um “viveram felizes para sempre””! “Ok, mas posso pelo menos colocar um La fin? Em francês, que é mais chique”? Escreveu feliz a autora de gosto duvidoso. “Ai, Meu Deus, não vai deixar nunca de ser brega, desisto”! Sentenciou, ao final, a folha, desiludida.

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