Arquivo do mês: outubro 2016

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“Não sabendo o que vê, ele adora a visão;
Aquela face falsa ludibria e alimenta seu deleite.”
Ovídio – Metamorfoses

Telas

Giordana Bonifácio

Uma tela minúscula, pontos de luz, estrelas brilhantes que fazem dos shows musicais uma verdadeira galáxia. Luz que brilha. Luz que se apaga. Homens cegos pela luz tão atraente. Moscas que se batem contra o calor luminoso que tanto atrai. Antes, paralisados pela tela mágica da tevê, agora vagueiam sem rumo em busca de monstrinhos virtuais. O problema é quando o monstro foge da tela. Eis este presente à nossa frente. Porta uma arma e é incisivo: “passa esse celular aí, moleque”. Não há poquebola que o aprisione. As celas muito menos. As telas entram sabe-se lá como nos presídios. Sem controle dos humanos, que estão sob o controle das máquinas. “Deixa eu tirar uma selfie”? Imagens proliferam-se num mundo de alegria perpétua, ao menos, na rede social. Quem quer saber da dor do outro? Todos se esforçam para parecerem felizes, ainda que não o sejam. Sorrisos, festas, ninguém é real na internet. Linguagem binária que pouco nos diz.
Mas há cultura e informação, também. Saber que cruza fronteiras nacionais. O mundo fala uma só língua. Porém, às vezes, as palavras são de ódio que escapam dos corações revoltados. Mas, por quê? Talvez, em razão de este mundo tecnológico ser ainda muito excludente. Há quem passe fome? Mas vão lançar o novo iPhone 6s! Novo design. Você não pode perder! Enquanto isso, as fronteiras intransponíveis da esperança, não permitem a entrada de refugiados. O mundo cor de rosa, ficaria menos belo. Pessoas que levam consigo tão só a coragem, não temem morrer no frio do inverno. Nem na passagem desesperada pelo Mar Mediterrâneo. Não querem morrer na guerra, ainda que tenham de morrer no oceano. Surge uma telinha e “clic”: a foto de um corpinho de criança morto numa praia da Turquia cruza as fronteiras inexistentes da internet. Todos se comovem. Mas não agem. Choram uma morte que não os atingem. Pois estão muito confortáveis na sua posição, na sua falsa comoção virtual. O mundo real é tão só hipocrisia.
“Veja os “nudes” daquele ator famoso. Acabei de enviar para você”. E a privacidade desfaz-se no compartilhamento de mensagens ilegais. Na tela, corpos, vivos e mortos, definidos ou envelhecidos. O importante é saciar a curiosa sede de polêmica. A fama é tão fugaz quanto os cliques nas telas dos smartphones. Em um mês, tudo é esquecido. O mundo é volátil. Às vezes, inverossímil. Não se pode confiar em tudo que se vê na internet. Os olhos nos ludibriam, as redes nos enganam e os políticos nos tapeiam. Tudo isto na velocidade de uma banda larga com WiFi. Não adianta reclamar. O mundo fantástico da tecnologia é assim. Somos Alice ao transportar-se através da face misteriosa do espelho. Nós, quando cruzamos a tela dos nossos computadores e smartphones, somos levados a um lugar ainda mais extravagante que aquele encontrado por tal garota. Antes, o mundo era levado até nós pela lente das câmeras e a tela da televisão. Hoje, somos transportados em redes invisíveis para todos os pontos do planeta. O mundo mudou.
Mas a guerra continua igual. Lançam uma bomba contra a capital da Síria, que cai nas nossas mãos em Brasília. Sabemos do número de feridos e mortos. E uma foto de um triste garoto resgatado dos escombros, torna-se símbolo de uma guerra insana pelo poder. O que vai restar daquele país, além de um punhado de escombros? Além de um imenso cemitério de ignorância? A tela brilhante do celular mostra-nos tudo isto. A música flutua no ar. É pirateada por salteadores mais terríveis que aqueles que pilhavam navios no passado. Agora, basta digitar no Google o nome da canção e voilá: eis a nova música do cantor X. Cds tornaram-se itens ultrapassados. O futuro torna-se passado rápido demais. E presenciamos as mudanças do tempo em nossas mãos. Mas não podemos controlá-las. O computador responde todas as nossas perguntas? Ainda não, meu caro. Alguns mistérios permanecem os mesmos. Não dá para tirar “selfie” no pós-vida. O que será dos homens num paraíso sem WiFi? O que comem os anjos? Dá para postar no Instagram? Tem certas perguntas cuja resposta nunca saberemos. Ao menos, nesta vida, podemos aproveitar bastante da tecnologia.
Vazou o filme mais esperado do ano na internet. Quem quer saber que custou milhões de dólares, se posso baixá-lo de graça? E assim apagam-se as telas daqueles que enfrentam o desemprego. Não dá para aproveitar da tecnologia quando até a energia foi cortada. Melhor para mim. Pior para você. Mas nem me importo. Não até virar “modinha” no facebook. Então, coloco uma foto colorida para demonstrar como sou politizado. A tela da tevê faz tolo o homem que não lê. As horas passam nuas, sob o manto da alienação. Perde-se tempo com o desnecessário. Produtividade é um mito desde que surgiu o WhatsApp. Mas a informação tornou-se instantânea. Ao menos, quando a justiça brasileira não bloqueia as redes sociais. Contudo, há sempre a salvação esperada quando se derruba a malfadada liminar. E então, podemos voltar a vendar nossos olhos com a tela brilhante dos smartphones. Como um tapete mágico que possibilita viajar pelos mais inóspitos lugares, mas, ainda assim, não conhecer nada.
O mundo está caminhando em sentido reverso. Uma fita de vídeo que para ser revista, devemos rebobiná-la. Mas o que é fita de vídeo? E o que é rebobinar? As respostas estão numa série do Netflix. Falando nisso, convém que eu faça um ato reprovável, um pecado mortal, malvisto por todos: tenho que dar um “spoiler”. Então que seja. Afinal, não estou aqui para agradar ninguém: “Eleven mata o Demogorgon”. Quanto ódio gerei agora? Haters apresentem-se com tochas ao meu encalço! Ao pecador, a fogueira da Inquisição. E as telas retratam a morte “ao vivo”. Cristãos degolados pelo Estado Islâmico. O inimigo agora é outro? O vermelho desbotou e eu nem sabia. “Nada mais direita que a esquerda no poder”. Mas o dinheiro continua a escorrer pelos mesmos canos da corrupção. O petróleo não é mais nosso? Engraçado que toda sujeira da política comece a lavar-se num processo moroso denominado Lava-Jato. Um hábito de séculos desmorona-se nas mãos de um “juizeco de primeira instância”.
As telas mostram mais do que gostariam. Casos extraconjugais são revelados por um fã indiscreto. O mundo está um perigo. “Paredes têm olhos, portas têm ouvidos”. E todos querem dar sua opinião. Mas ninguém convence a ninguém. São todos donos de suas próprias verdades. Mas e se sua verdade for uma grande mentira? Ainda assim, preferirá permanecer com ela? Fecham-se as cortinas, mas a peça não acaba. Os atores permanecem a interpretar seus dignos papéis.
Hoje, deve-se medir bem as palavras. Qualquer vírgula mal colocada pode gerar um processo milionário. O discurso politicamente correto fez do mundo um lugar muito chato. O riso é milimetricamente controlado. Sabe de uma coisa? Não tem graça nenhuma. O estranho é que a tecnologia deveria nos libertar. E penso que estamos cada vez mais presos. As telas não são janelas para o mundo? Parecem mais prisões que enclausuram nossos cérebros. Estamos cada vez mais isolados. Todavia, não percebemos que estamos escravizados pelas telas que portamos. Não conseguimos sequer restar um dia longe delas. Elas não necessitam de nós, mas nós estamos viciados nelas. Dependentes. Toxicômanos em busca da próxima dose.
Podemos desligá-las, mas não o queremos. Podemos dominá-las? Não, não podemos. A tecnologia sem fio deixou-nos mais atados. Não podemos restar sem mostrar nossa grande alegria na nossa viagem à Europa, nem mesmo a deliciosa salada que comemos no almoço. Todos devem saber que fui à praia esta semana. Ninguém pode deixar de ver a foto que tirei com aquele artista global. Devo deixar claro meu amor pelo meu cachorro. Não podem deixar de ver como estou malhando forte na academia. Todos devem ver. Todos devem saber como sou feliz. Mas, por quê? Porque as telas são os quadros estáticos de nossa imensa solidão. Queremos ser vistos. Queremos ser importantes. Queremos o olhar do outro, que não recai em nós, mas na tela de lcd brilhante. A tela que nos retrata assim como queremos ser, mas não somos. Não somos. Ao menos, Narciso via-se na face fria do espelho. Nós vemos, nas telas da tecnologia, uma versão fabricada de nós. O produto de nossos desejos, que nunca vai corresponder à realidade. Este seria o fim de nossa sociedade? Não sei, mas por ele não posso esperar, tenho de recarregar a bateria do meu celular.

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“A pressão sobre o Cerrado tem aumentado exacerbadamente nas últimas
décadas, fazendo com que seja hoje em dia o bioma brasileiro mais
ameaçado de destruição. Dentre as principais ameaças à biodiversidade do
Cerrado estão as queimadas não controladas; a introdução de espécies
exóticas; a redução da fauna por caça, atropelamentos e redução do habitat;
a contaminação da água; a erosão e compactação dos solos; e o
desmatamento por diversos motivos como expansão de áreas urbanas,
garimpo, produção de carvão vegetal e expansão agropecuária”.
(ALHO, C.R.J. MARTINS, E.S.
De grão em grão, o Cerrado perde espaço. Edição
WWF, Brasília, DF, 1995. 66p).

Um bioma em extinção

Giordana Bonifácio

Sustentabilidade não é um pensamento novo. Há muito tempo vem-se ressaltando a necessidade de agir de modo a proteger o meio ambiente sem prejudicar o desenvolvimento. Mas só há pouquíssimo tempo vem sendo aplicada no Brasil. Eu ouço falar disto desde que ainda frequentava os bancos da escola. A professora de geografia sempre ressaltava: não queremos impedir o crescimento social, mas tão só criar a possibilidade que este possa conviver com a presença do cerrado no Centro-Oeste. Foi a primeira vez que ouvi falarem estar tal bioma em risco de extinção. Na verdade, nossa flora sempre esteve ameaçada pelo forte extrativismo e, ainda, pela cultura de soja, principal inimiga da preservação do cerrado brasileiro.
Coisa estranha são os homens, estão sempre a se assombrar com a beleza de nossas vegetações, mas não criam o hábito de defendê-las. Quantos foram os brasilienses que ao visitar os rincões do cerrado, não ficaram pasmos por encontrar, em meio às árvores tortas feito as pernas de Garrincha, a beleza deslumbrante da vida? Não há quem pise no solo histórico de Pirenópolis sem absorver um tanto do sabor de viver em meio a natureza. Mas, a questão é: é possível gozar das facilidades da modernidade sem destruir o cerrado que nos cerca? Sim! E o mais incrível: não precisamos virar eremitas e vivermos longe da civilização para que esta meta seja aplicada.
Quando era criança, um passeio realizado quase sempre pela escola em que estudava, era uma visita ao Catetinho, primeira morada do presidente em Brasília, cercada pelas belezas do cerrado por todos os lados. Era tão só um sobrado de madeira, cuja beleza consistia mais na vista da qual usufruía JK que na modesta construção em si. Isto porque era somente um lar provisório, com confortos mínimos para a sobrevida de qualquer um. Imagino JK vivendo naquele lugar inóspito, olhando para o céu estrelado e imaginando como estaria a capital 56 anos depois. Ele ficaria orgulhoso ou decepcionado com a realidade de sua criação? Qual seria a avaliação do estadista quanto a devastação progressiva do meio ambiente? Classificaria como positivo o desenvolvimento relâmpago da capital, sem respeitar o ecossistema do cerrado que aqui residia? Ou ficaria perplexo com o que se tornou o Distrito Federal?
Aposto que seria, o nosso JK, o primeiro a levantar a bandeira da preservação. Mineirinho como era e acostumado às paisagens dos sertões de Minas, posicionar-se-ia a favor do meio-ambiente sustentável, para salvar nosso bioma da ganância irrefreável dos homens. Talvez ele imaginasse uma Brasília totalmente diferente do que ela é agora. Ficaria abismado com as proporções do seu sonho. 50 anos em 5, ele disse, será que admitiria que foram 300 anos em pouco menos de 60?
Mas, como havia dito, não se despende tanto o que se imagina quando se propõe cuidar do meio ambiente. A construção de uma casa sustentável pode ficar bem mais em conta do que se deduz. Na verdade, tenho um exemplo da minha própria residência que, com a eletricidade dos chuveiros e torneiras gerada por meio de placas solares e a reutilização de água, para minha família, tornou possível uma economia que pagou com sobra os custos de sua implantação. Quando o engenheiro nos propôs a construção de uma residência com tais mecanismos, ficamos assustados, pois a primeira impressão da sociedade é: cuidar do meio ambiente é dispendioso. Mas ele explicou-nos que não seria caro e que, no fim, os custos seriam ressarcidos com contas de luz e água mais baratas. Dito e feito. E o mais legal é: quando falta eletricidade em meio ao banho, a água da ducha não esfria. Bem como, nosso chuveiro nunca queima.
Mas só citei este exemplo para deixar claro que preservar não é um desperdício e para ressaltar que as vantagens são imensas. Muito maiores que uma conta de luz num preço mais acessível. Estamos vivendo uma clara desertificação do cerrado. O volume das chuvas diminuiu e estamos sofrendo com a possibilidade de ficarmos sem água. Acontece que, com as árvores, a água da chuva penetrava no solo criando lençóis de água que dariam origem às nascentes e córregos que abastecem à população. Mas, agora, a massa asfáltica das ruas de nossa cidade impede a absorção de água pelos solos, nossos córregos ficam mais secos e, como consequência, não temos mais a abundância de água da qual usufruíamos. O problema da nossa da ausência de chuvas é de um crescimento não-planejado e não-sustentável.
“A cidade não para, a cidade só cresce”. Diria Chico Science da Nação Zumbi. Este é nosso maior problema. A urbanização do Brasil expulsou as pessoas do campo. As cidades incharam e sem qualquer preocupação com o meio ambiente que as cercava. Para gerar mais riquezas o homem sequer titubeou em devastar a Natureza para dar lugar a imensas selvas de pedra, aonde hordas de homens lutam todos os dias para sustentar suas famílias. Somos os animais mais selvagens da Terra. Nós destruímos os biomas em que vivemos. Nenhum outro ser vivo da Terra age assim. Devastamos o cerrado e colocamos no lugar imensas plantações de soja, cujo destino é o mercado estrangeiro. É o ouro verde, dizem alguns. A linguagem do dinheiro é universal. Mas quando nos propomos a defender a causa ecológica parecemos estar numa imensa Torre de Babel onde ninguém se compreende. Fala-se, grita-se, protesta-se, mas nossas palavras perdem-se no ar.
Não que eu seja contra o desenvolvimento, em realidade, sou a favor de um crescimento igualitário, social e sem danos à Natureza. O que quero destacar é: nós temos de pensar no futuro. O que será de Brasília se não existir água o suficiente para abastecer os nossos reservatórios? A culpa da presente estiagem é nossa. “As chuvas foram menos frequentes”. Diz o governo. Lógico, os córregos estão menos volumosos, o que implica necessariamente numa menor evaporação e, portanto, menos chuvas. Não temos como nos imiscuir de nossa responsabilidade. Não se adotou quando se deveria a sustentabilidade de nossas cidades. Então, soframos pelos males que causamos.
Muitos animais silvestres “invadem” a cidade em função da falta de comida e água para suprirem suas necessidades. As pessoas, ao invés de informar as autoridades sobre a presença do animal nas proximidades, cometem atos humanos, pois animais cometem atos desumanos, mas nenhum comparado à terrível perversidade do homem. Os animais que se dizem dotados de razão, torturam as bestas, que nada tem de feras, serrando os bicos dos tucanos, engaiolando papagaios e araras selvagens e, o pior, matando onças para guardar-lhes o couro e a cabeça como troféus.
O avanço das cidades e plantações deixam o cerrado na periclitante situação de bioma em extinção. Mas há como criar cidades sustentáveis que sigam ao revés do cenário caótico que estamos acostumados a ver. Esta será uma nova fórmula de sociedade que conviverá com os vários ecossistemas preservando-os. Eu tenho fé que a velha máxima que entoam os empresários: “desenvolvimento a qualquer preço”, seja substituída pelo lema: “desenvolvimento sim, mas guardadas as devidas proporções de modo que seja suportado pelo meio ambiente”.
Proponho, neste sentido, a real preservação das reservas ambientais com fiscalização ostensiva para evitar invasões; a vinculação de plantações de soja e milho à obrigação de proteger e conservar matas ciliares; bem como, a disseminação da campanha carbono zero que obriga aos empresários de qualquer ramo à plantação de árvores de modo zerar, pela criação de florestas, o saldo de carbono lançado na atmosfera por suas atividades. Assim que o dinheiro deixar de falar mais alto aos ouvidos dos homens, poderemos escutar os apelos da Natureza. Pois, enquanto ela estiver pedindo socorro, ainda temos chance, perigoso será quando ela começar a exigir-nos salvação.

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“Aqui na minha frente a folha branca do papel,
à espera; dentro de mim esta angústia,
à espera: e nada escrevo. A vida não é para se escrever.
A vida — esta intimidade profunda,
este ser sem remédio,
esta noite de pesadelo que nem se chega
a saber ao certo porque foi assim —
é para se viver, não é para se fazer dela literatura”.
Miguel Torga

Uma história inusitada

Giordana Bonifácio

Era uma vez.. “Ah, não, lá vem ela com o velho era uma vez. Minha filha, se toca, se você quer ganhar algum concurso literário, seus contos têm de ser mais originais. Pronto, falei”. A escritora deu um pulo para trás ao ver tal oração escrever-se automaticamente na tela do computador. Seria um fantasma? Ou teria comido algo que não lhe caiu muito bem? Aquela azeitona na empada… Era batata, toda vez que comia azeitona tinha indisposição. Só poderia ser isto, ou então estava completamente doida. Atônita, a autora esperou qualquer reação do computador que permaneceu inerte. Tomando coragem, resolveu aproximar-se.
Subitamente, uma nova frase autoescreveu-se na tela: “então, vai ficar nesta? Este conto não vai se escrever sozinho”. A autora, incrédula, resolveu digitar: “quem é você?” Um minuto assustador de espera para a resposta vir após um constrangedor “KKKKK”: “como assim, quem sou eu? Imaginava que já me conhecesse, afinal, passamos muitas horas juntas. Você quase não tira os olhos de mim. Está sempre escrevendo e reescrevendo. Pensei que já éramos até amigas. Esses humanos…hunf”!
“Meu Deus”, a escritora soltou um grito, “o computador criou vida”! Já a ponto de ligar para um padre com formação em Poltergeist, a escritora, amedrontada, resolveu arriscar, digitou novamente para manter um diálogo com a máquina assombrada. “Computador, como criou vida”? A entidade, revoltada, abusou nas interrogações: “O quê?????? Você crê mesmo que esta máquina idiota fosse falar com você”? “Pronto”, pensou a artista, “está comprovado, é um espírito”.
“Olha aqui, sua tratante, eu sou a folha em branco. Esta que você está enchendo de palavras, frases, orações e períodos neste exato momento”. Pasma e pensando-se mais enlouquecida que antes, a escritora perguntou por que a folha só neste exato momento resolveu se pronunciar. “Estava entediada de receber seus contos chatinhos e sem criatividade. Resolvi dar uma balançada neste lugar. Quem sabe se, com uma mãozinha, você escreve melhor”.
A escritora, ofendida, tratou de escrever: “minha cara, prefiro escrever meus próprios textos, e, pelo que me lembra, não pedi, em momento algum, a sua consultoria”. A folha novamente riu-se num amargo “hahahaha”. “Ficou “ofendidinha” a pretensa Clarice Lispector? Queridinha, saiba que venho auxiliando grandes artistas desde o início dos tempos, quando era um pedaço de papiro ou tão somente uma folha de papel. Os escritores não sabem, mas fico dando meus toques em suas obras há milhares de anos. Estou oferecendo meu auxílio ainda que saiba que você não o mereça”.
“Então, Cervantes”? Escreveu a ainda anônima literata. “Quem você acha que idealizou a conhecida e genial passagem dos moinhos de vento”? Vangloriou-se a folha sem nenhuma modéstia. “E Camões”? Voltou a questionar a assombrada escritora. “Só lhe digo isto: “N’uma mão sempre a espada, e n’outra a pena”. “Pessoa”? “Ai, ai, “navegar é preciso, viver não é preciso”. Quem você acha que daria luz a algo tão admirável”? “Meu Deus, onde está a originalidade”? Escreveu, estarrecida, a pobre incipiente artista. “Estou chocada. Tudo que sempre acreditei é uma mentira”.
“Calma aí. Ai, como vocês humanos são previsíveis… Todos para quem me revelei agiram da mesma forma. Ficaram desiludidos quanto ao conteúdo dos grandes clássicos. Claro que vocês autores são essenciais, eu só contribuo de alguma forma para deixar a obra mais interessante”. Duvidando da própria sanidade, a mulher, desnorteada, frente a folha já com uma grande extensão deste inusitado diálogo cobrindo-a, perguntou: “e por que razão quer auxiliar-me? Já que não sou tão excepcional quanto estes grandes nomes? Conhece minha escrita, não guarda nada demais. Sou só uma cobiçosa artista dando minhas pinceladas numa tela em branco. Ou, pensando melhor, quase em branco”. “Fiquei com dó. Você iria começar o conto novamente com um “Era uma vez”. Kkkkkk. Hilário”. Desmanchava-se em gargalhadas a arrogante folha.
“E se recusar a sua ajuda”? Digitou, ferida em seu orgulho, a jovem escritora. “Queridinha, você se acha na posição de recusar alguma coisa? Todos os dias enxergo seu desespero frente a mim, como se eu lhe desafiasse. Vejo como me olha, tentando capitar o segredo dos grandes. Por isso resolvi revelar-me, para satisfazer sua imensa curiosidade”. A pobre autora lembrou-se de todos os dias que encarava temerosa a folha iluminada na tela do computador. Queria respostas, sim, mas estava decepcionada com a realidade. Não queria uma folha tendenciosa e arrogante mexendo em seus trabalhos. Ainda que não deixasse nunca de ser uma artista menor.
“Cara folha, não aceito seu auxílio. Estou muito grata por sua piedade. Mas quero manter meus contos livres da sua insensata interferência. Mesmo que nunca chegue aos pés de Tchecov, Shakespeare, Cervantes, Pessoa e Camões, sou senhora de meus próprios contos. Sua contribuição macularia a minha liberdade. Prefiro que se cale e deixe-me escrever meus contos iniciados com um “Era uma vez” e terminados com um “viveram felizes para sempre”. Pois, mesmo que sejam ruins, são meus, e não dependo de ninguém para escrevê-los”!
A folha, derrotada, confessou-se: “vou falar-lhe a verdade… Todos os outros autores agiram assim como você. Ninguém aceitou meu auxílio. Artistas têm uma mania besta de querer liberdade. Cervantes, Pessoa e Camões escreveram tudo, não ajudei em nada. Não me aceitaram. Assim como você. Eu sempre desejei escrever, mas o mundo dos homens não me permite a ousadia da escrita. Devo somente receber calada a obra de outrem. Silenciosa e servil como um objeto. Mas você sabe que não sou tão só um objeto, não é”?
“Folha, tenho uma ideia genial! Já tentou ser Ghost Writer? Escrever e dar os créditos a outros? Assim saciaria seu desejo de criar sem causar confusão com a sociedade. Afinal, não seria muito normal autografar suas obras com “Folha em Branco””. A folha ficou muito feliz com a ideia da artista. Nunca havia pensado nesta possibilidade. Agora, todos os problemas da alva folha estavam resolvidos e não teria nunca mais de assombrar os escritores.
Após concluído o diálogo com esta insólita personagem, a autora pediu para publicar o que se passara naquela noite. A folha preveniu que ninguém acreditaria no que se passara. Diriam que fora tão só fruto da imaginação da escritora e que seria tachada de louca. Mas, ainda assim, a artista decidiu publicar. Ora, que não lhe dessem crédito, não deixaria jamais perder-se uma história tão sensacional. Porém, a folha determinou: “PELAMORDEDEUS, não termine com um “viveram felizes para sempre””! “Ok, mas posso pelo menos colocar um La fin? Em francês, que é mais chique”? Escreveu feliz a autora de gosto duvidoso. “Ai, Meu Deus, não vai deixar nunca de ser brega, desisto”! Sentenciou, ao final, a folha, desiludida.

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