Arquivo do mês: setembro 2016

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“A cidade não para, a cidade só cresce
O de cima sobe e o de baixo desce”
Nação Zumbi, A cidade.

História urbana

Giordana Bonifácio

“Quando?” “Um dia”. “Mas que dia”? “Qualquer dia desses”. “Mas quando?” “Já disse mulher, um dia”. O homem empurrou a esposa com brutalidade. A mulher caiu por cima de uma barraca de camelô. O autônomo irritado e temeroso de perder a mercadoria gritou: “aí, xará, você vai pagar pelo que quebrou”. A mulher chorava caída sobre os produtos de origem chinesa. Um menino de rua, aproveitando-se da confusão, agarrou uma das mercadorias que jazia no chão e correu. Apesar dos apelos do camelô, o menino sumiu entre as pessoas que assistiam ao espetáculo que se apresentava em plena tarde de segunda-feira entre o Conjunto Nacional e o Conic. Injuriado, o vendedor atacou o homem: “viu, culpa sua. Ah, mas você vai pagar por tudo. Nem que eu tenha de chamar a polícia”. “Vai chama a polícia, aproveita e chama a Agefis, também, seu ambulante”. “Sou sim, mas trabalho com meu suor”. “O que mais você traz do Paraguai além dessas suas tralhas? Ein? O quê”? “Você está me insultando. Eu sou camelô, mas sou honesto…” “Ah, tá, vai lá senhor honestidade”. O homem levantou a esposa chorosa. “Vamos mulher e pare de chorar, que nem te bati nem nada”. “Ah, não vai não. Antes tem de pagar pelos meus danos”. O ambulante gritava. Em pouco tempo uma multidão reunia-se entorno da cena. “Não vou pagar por nada. Você nem tinha de estar aí. A via é pública”. De repente um grito soou ao longe: “olha o rapa”! O vendedor recolheu seus produtos antes que o prejuízo fosse maior. Saiu correndo com uma multidão de ambulantes que temiam perder a mercadoria para os agentes da Agefis. A discussão teve fim. E o homem respirou aliviado. “Viu o que você me obriga a fazer”? A mulher murmurou algo de cabeça baixa. “O quê? Repete para que eu possa ouvir”! “Nada não, desculpa”. “Ah bom. Pensava que queria me desafiar. Aí eu iria te ensinar a me respeitar. Sou seu marido. E quem paga a sua comida e a dos seus filhos, sou eu”. “Nossos filhos”. Retrucou a mulher e um tapa estalou em sua face. “Quem te ensinou a me responder, sua vagabunda”? A mulher com as mãos na face em chamas, entre lágrimas sentidas, sibilou um pedido de perdão. O homem puxou-a violentamente pelo braço a caminho da Rodoviária. “Vamos, que só me falta agora é perder o ônibus por sua causa”.
“Chip da Tim, já vem com bônus e internet”. Gritava uma vendedora. Mendigos disputavam espaço com o comércio de produtos de procedência duvidosa e passageiros que transitavam de lá para cá. “Iphone novinho. Vai querer, moça”? “Ela não vai querer nada não, rapá. Ela não tem um pau para matar uma onça”. Zombou o marido. A mulher abaixou a cabeça ressentida. O homem continuou com os insultos. “Maldita hora que fui casar com você. Mas, naquele tempo, você era bonita. Agora está aí: cheia de varizes, estrias e com um buxo enorme”. Ela ouvia resignada todos os impropérios que o marido lhe dirigia. O homem puxava violentamente a esposa pelo braço. “Se tivesse escutado minha mãe… Ela dizia: “esta aí é uma imprestável, só vai dar prejuízo”. Dito e feito. Olha você. O que você é? Nada. Só faz cozinhar e limpar e ainda faz muito mal”. As pessoas já olhavam indignadas para a violência contra aquela pobre mulher. Uma senhora bloqueou-lhes o do caminho. “Pode parar, não vou deixar você maltratar mais a sua esposa”. “Sai da frente, velha, não se mete”. Respondeu o homem, grosseiramente. “Não vou permitir. Solte o braço dela. Vamos já para a delegacia da mulher”. Insistiu a senhora corajosamente. “Não te disseram que em briga de marido e mulher não se mete a colher”? Alertou o homem à idosa e voltando-se para a cônjuge: “Olha, sua vagabunda, pelo que me faz passar”! A idosa puxou a mulher para desvencilhá-la dos braços do marido. A mulher não sabia o que fazer. Queria a salvaguarda da senhora, mas temia apanhar quando voltasse para casa. Afinal, tinha momentos que ele era bom com ela. Ficaram mais raros porque estava desempregado. E a falta de dinheiro era ruim para todo mundo. Por isso estava tão nervoso. Mas, tão logo encontrasse um trabalho fixo e não tivesse de viver de bicos, tudo iria melhorar. Pelo menos era o que, à noite, ele a prometia entre lágrimas sentidas. Não tinha coragem de abandoná-lo neste momento tão difícil. Ele precisava do auxílio dela, só não conseguia admitir frente as outras pessoas.
A mulher, então, se pronunciou. “Ele é meu marido. Está nervoso, mas, normalmente, não é assim”. A senhora ficou atônita. Não tinha como convencer à vítima da perversidade de seu algoz. E a mulher continuou, ao lado do marido, seu caminho. “Ah, se você desse só um pio contra mim, só queria ver. Iria deixar você toda roxa”. A mulher respondeu apenas que: “nunca faria nada contra ti. Sei que os tempos estão difíceis. Eu não deveria ter insistido para saber quando você levaria a Pauliane ao médico. É que ela está tão doentinha. Dói o coração ver minha filha tão fraquinha naquela cama”. “Mulher, eu já não disse que estou sem dinheiro? O médico vai mandar eu comprar remédios. E não tenho o suficiente nem para o pão de cada dia, imagina para ir na farmácia com uma lista enorme de medicamentos…” “Eu… Eu tenho medo que ela morra…” Disse a mulher com a voz embargada. “Ela não vai morrer. Não aguentou até agora? Ela suporta mais um pouquinho. Agora corre que o ônibus está saindo. Viu, no que dá as suas confusões? Se a gente perder o ônibus, você vai ver”. Correram até o veículo que já manobrava para sair da baia. Mas o motorista parou e as portas abriram-se para que o casal embarcasse. Sentaram ambos, lado a lado, em um banco frente ao cobrador. “Tomara que eu consiga aquela vaga de servente naquela empresa. Se conseguir, vou levar sua filha ao médico. Você entende, não é? Tenho medo de não sobrar nada para nós todos. São oito pessoas naquela casa. Você prefere ficar sem comer? Pois é isso que vai ocorrer. Então, vai morrer todo mundo, não só a Pauliane…” A mulher de olhos baixos, murmurou: “ela não vai morrer. Deus não vai deixar”. “Seu Deus é muito poderoso, não é? Manda ele me arranjar um emprego. Então, toda a nossa situação muda de figura. Não vou precisar mendigar pelo auxílio dos outros. Nem mesmo, aguentar insulto na rua por causa de você”. “Eu rezo todos os dias, peço que Deus nos ajude e que salve a minha menininha”. “Deus não faz nada por nós. Fica rindo do sofrimento da gente aqui na Terra”. Resmungou o homem. “Não diga isto. Deus é tão bom para nós. Estamos conseguindo viver apesar das dificuldades e tenho fé que você vai ser chamado para aquele emprego” disse a esposa esperançosa. “Fé não é o suficiente, mulher. Não é”. Por fim, completou o homem com olhos na paisagem que passava veloz pela janela do ônibus.
Após duas horas de viagem, o ônibus chegou à Santo Antônio do Descoberto. Ambos os cônjuges desceram no ponto e andaram por algum tempo até avistarem o barraco que alugavam. Entraram e cinco das seis crianças que possuíam correram para a porta. Todas a falar ao mesmo tempo. A mãe pediu calma e o mais velho pronunciou-se por todos. “A Pauliane não está bem. Ela não se mexe, nem respira. A gente tem que ir com ela para o hospital”. A mãe correu para o quarto onde menininha estava. E o que a mulher viu foi um o corpo hirto e arroxeado sobre a cama. Sem esperanças, ela abraçou o corpo da filha e chorou. Não questionou a vontade divina. Se tinha que ser daquele jeito, era porque Deus pensou ser o melhor. O homem entrou no quarto. “E aí, morreu”? A mulher balançou a cabeça, afirmativamente. “Porcaria, agora a gente tem que chamar a polícia. Vai, veste uma roupa nela. Vamos levá-la ao hospital e dizer que ela morreu quando procurávamos por socorro”. “Será que você não se ressente nem pela morte de sua filha”? Disse a mulher sem sequer levantar a cabeça “Vai agora agir cheia de sentimentalismos? Se a polícia pegar ela aqui, nós dois vamos para a cadeia”. A mulher correu para a porta, trancou-a e jogou a chave fora entre as grades da janela do quarto das crianças. E gritou: “Edirlei, vá para a casa da vizinha e liga para a polícia”. A mulher estava abraçada ao corpo da menininha. O pai dizia que iria matar a mulher para ela acompanhar à filha ao inferno. A mulher desafiou-o: “bate, vai me bate, que além da morte de sua filha você vai responder ainda por agressão”. “Você ficou doida, mulher”? A mãe abraçada ao gélido corpinho da menina, disse: “eu e você matamos nossa filha. Eu, por esperar tempo demais e você, por considerar qualquer coisa mais importante que sua família. Enquanto você só agredia a mim, estava tudo certo. Mas, ao desprezar sua filha doente, você foi longe demais. É tempo de darmos um jeito nisso”. “E seus outros filhos, o que será deles”? “Agora você pensa em NOSSOS filhos? Eles vão viver com a sua mãe. Está mais que na hora de dar para ela o prejuízo que tanto dizia”. O homem ainda tentou arrebentar a janela e a porta. Mas foi em vão. Em alguns minutos as viaturas estacionavam frente ao barraco. O homem sentou-se sob a janela, olhou o corpo da filha nos braços da mãe e chorou.

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“O Natal é um tempo de benevolência,
perdão, generosidade e alegria.
A única época que conheço, no calendário do ano,
em que homens e mulheres parecem,
de comum acordo, abrir livremente seus corações.”
Charles Dickens

Um panetone para o Natal

Giordana Bonifácio

Estava frio, era dezembro, as lojas coloridas, apresentavam papais-noéis e elfos em suas vitrines para atrair clientes, sobretudo, as crianças. Os pedintes aproveitavam os dias de festa para concentrarem-se nos centros urbanos em busca de esmolas e talvez da compaixão dos homens. Fred, particularmente, gostava deste período do ano. “As pessoas estão mais solidárias”, dizia. Mas nunca havia estado num lugar tão grande quanto Brasília, menino do interior, sempre passara as festas na fazenda do avô. Fora ele que lhe ensinara as primeiras letras. Depois, o menino mostrara-se muito inteligente, um dos melhores alunos da escola rural. Foi do avô a ideia do neto continuar os estudos na capital federal. A despedida fora difícil, todos choravam copiosamente, ainda que Fred dissesse que voltaria tão logo pudesse. Mesmo assim, o pai fez-lhe prometer que ligaria todos os dias. Quando o rapaz subiu no ônibus sentiu-se até aliviado por terminarem “as despedidas”.
A viagem foi muito confortável, nas paradas, comia algo dos mantimentos que a velha Nenê, cozinheira da família há anos, tinha-lhe praticamente obrigado a trazer consigo. Quando chegou à rodoviária de Brasília quase não tinha fome. Tomou um táxi para o Plano Piloto, 303 Sul, quadra em que o avô tinha lhe alugado um apartamento. Não teve problema em achar o prédio e ao dizer ao porteiro que ele era neto de Nhô Correia, foi muito bem tratado por aquele que lhe acompanhou até o elevador.
Fred gostou da cidade, ainda que fosse o inverso do que estava acostumado. Não havia crianças brincando nas ruas nem o som dos animais da fazenda, mas o som estridente de sirenes e dos automóveis nas largas avenidas de Brasília. Desfez as malas e guardou as roupas, andou pelo apartamento para conhecer cada canto do que chamaria de lar pelos próximos anos. Logo que tomou posse de seu “cafofo”, sentiu fome e como não havia nada nos armários e na geladeira, fora forçado a procurar uma padaria.
Não teve de andar muito, havia uma rua comercial ao lado de seu bloco. A padaria estava cheia e Fred admirou-se com a quantidade de produtos que estavam expostos, era uma infinidade de pães, bolos, doces, salgados, uma imagem relativamente nova, tendo em vista que todos mantimentos da casa eram feitos na própria cozinha da fazenda. Era-lhe comum ver uma mesa farta, mas nunca uma padaria com uma fartura tão proeminente.
O rapaz pegou alguns pães, queijo e presunto. Então, dirigiu-se para o caixa a fim de efetuar o pagamento. Porém, foi surpreendido pela imagem de uma menininha vestida de roupas puídas e sujas, que na fila do caixa, levava consigo um panetone. Fred ficou a observá-la, talvez por ter simpatizado com ela desde o início. Ela olhava de quando em quando para a mão suja na qual trazia duas moedas brilhantes. Luziam na mão suada, como duas estrelas carregadas com cuidado para não deixarem de brilhar. As demais pessoas olhavam com um discriminador desdém para aquela pobre criança. Ela era como uma rosa num jarro de margaridas. Talvez fosse até mais luzidia que os tostões que levava na mão. Não pedira nada a ninguém e esperava, um tanto sem jeito, ser atendida pela caixa. Tentava não tocar em nada, amedrontada feito um gato numa loja de cristais.
Tinha olhos profundamente castanhos e ariscos. Baixava-os constantemente numa terrível submissão. Olhava para os pés, descalços e imundos, envergonhada por não estar apresentável num lugar aonde só pessoas bem vestidas entravam. Os joelhos ralados indicavam que ela era uma menina bem ativa e, talvez, feliz. Mas não naquele momento, em que parecia humilhar-se para adquirir um panetone naquela padaria. “O dinheiro dela valia menos que o dos outros”? Pensou Fred consigo. Não, a questão crucial naquele instante particular era o confronto entre classes, os ricos habitantes do Plano Piloto, deveriam pensar que a pobreza da menininha era contagiosa pelos olhares terríveis que a desferiam. Como se dissessem: “você não deve estar aqui”. Era isto, ou a miséria era ferina demais para que fossem apresentados a ela. Aquelas moedas que trazia consigo, a menina provavelmente ganhou mendigando pelas ruas. E, agora, o panetone era algo que sempre desejara comer e nunca teve oportunidade. Estava ali, corajosa, entre os leões, correndo o risco de ser enxotada daquele lugar pelos funcionários, por sua presença não grata assustar os clientes. Ainda assim, continuava na fila, levando consigo o prêmio por sua força. Era pouco. Tinha direito a muito mais. Fred dar-lhe-ia toda a padaria tão somente por sua incomparável coragem de impor-se ovelha em meio aos lobos.
A fila andava lentamente. A criança seguia sem palavras sempre a carregar seu panetone numa mão e as moedas na outra. Enfim, chegara o momento esperado, a menina enfrentaria a atendente. Todavia, subitamente, a senhora que estava atrás da menina tentou passar-lhe a frente. A garotinha nada falou. Ficou muda com medo de uma possível retaliação caso protestasse. Então o estudante foi a seu socorro. “Senhora, desculpe-me, mas penso que a pequena senhorita aqui estava aguardando na sua frente”. Os olhos da mulher faiscaram contra o rapaz. Ela afastou-se com uma expressão de ódio e constrangimento, de modo a deixar o espaço livre para a menina passar. Mesmo deveras descontente de dar a vez para uma mendiga, que não teve acesso aos confortos e educação recebidos por uma dama da sociedade.
A caixa olhava inquisitivamente ora para o rapaz, ora para a senhora que furou a fila e ora para a menina. “Será que funcionários do comércio devem fazer um workshop para conseguir atender pessoas cuja riqueza consiste em duas moedas de 1 real na mão”? Indagou-se Fred enquanto a caixa tentava explicar à garotinha que apenas dois reais não era o suficiente para comprar um panetone que valia 10. A caixa disse que não bastava, a menina assustada, disse: “mas eu só tenho isto”. Pela primeira vez, a garotinha parecia infeliz. Aquele panetone era-lhe muito importante. Provavelmente, nunca comera um. Nem escolhera um das marcas mais caras, servia-lhe aquele feito na padaria, cujo valor era mais acessível. Mesmo que ainda lhe custasse muito. Os olhos da criança ficaram marejados. A madame que quis furar a fila, reclamou: “se não tem como comprar, deixe o produto aí, pois não podemos esperar o dia todo na fila”. A menina esteve a ponto de desistir do seu pão natalino, cujo sabor julgava valer mais que todo este constrangimento.
Nenhum outro cliente que estava na fila levantou-se a favor da menina. Seguiu-se um burburinho desconcertante. Não usaram da voz para proteger uma menor do tratamento vexatório que estava a receber. O descaso é o que destrói. Já dizia Renato Russo. A pequenina não abria mão do seu panetone. Queria-lhe muito. Mas suas moedas eram insuficientes para suprir seu desejo. Estava ali, pedindo pela misericórdia de alguém, ainda que não o expressasse em palavras. Contudo, não havia viva alma que se posicionasse a seu favor. Não queria pedir, que lhe pagassem a conta. Mas seu olhar implorava que não lhe tomassem aquele alimento. Lágrimas escorreram-lhe pela face. Abrindo caminhos paralelos no rosto encardido.
Estava prestes a devolver o produto que desencadeou toda a situação quando Fred foi auxiliá-la: pagou o restante para a garotinha. A caixa, comovida, mandou-lhes esperar um instante. Falou com o vendedor que lhe trouxe mais dois panetones que estavam meio disformes. “Estão bons, só não estão bonitos para vender”. Disse a caixa. A menininha agradeceu. “É para o Natal”. Fred perguntou onde a menininha morava: “por aí”, respondeu, meio sem jeito. “Onde está a sua mãe”? Insistiu o estudante. A menininha disse. “Com meu irmão. Ali no sinal”. Disse, apontando. E a mulher, levando consigo um bebê, pedia esmolas entre os carros. Roupas sujas e estragadas, cabelo despenteado e um olhar sofrido de quem nunca recebeu dádivas da vida. A mulher não observava o que fazia a filha, tão entretida estava com o trabalho de pedir alguns trocados entre os carros que paravam no sinal. A menininha, ao ver a mãe, correu ao seu encontro levando os panetones e apontando para Fred. Ele ficou um tanto sem jeito, pois a mulher olhou-o de forma terna e agradecida. O estudante ficou tão satisfeito por ter feito a felicidade daquela criancinha que até se esqueceu do que fora comprar na padaria. Voltou para casa faminto e feliz.
No outro dia, voltara naquele comércio para comprar o desjejum, mas a menina não estava lá. O rapaz reconheceu a senhora algoz de sua apadrinhada, mas naquele momento fora até um tanto educada. Desejou bom dia para a caixa, mas não deixou de dizer: “vocês devem selecionar melhor os clientes atendidos neste estabelecimento”. Fred pensou em protestar, em posicionar-se contra o preconceito e a ignorância daquela dama tão mesquinha. Mas preferiu dar-lhe o silêncio como resposta. Quando chegou sua vez de ser atendido, a caixa desculpou-se pela intolerância que presenciou. O estudante disse que estava tudo bem. Afinal, segundo Cervantes, “a riqueza, não se mede pelos bens que se possui, mas sim pelo bem que se faz”. E, a isto, juntou o provérbio popular que a mãe dele sempre dizia: “pobre da alma que não vive para servir, pois também não serve para viver”. Despediu-se da atendente, muito contente, desta vez, levando o seu desjejum.

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