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“Os nossos pais amam-nos porque somos seus filhos,
é um facto inalterável. Nos momentos de sucesso,
isso pode parecer irrelevante, mas nas ocasiões de fracasso,
oferecem um consolo e uma segurança
que não se encontram em qualquer outro lugar.”
Bertrand Russell

Meu filho

Giordana Bonifácio

Oi, você é importante, viu? Estou falando para, caso ainda pese dúvidas a este respeito, você nunca pense diferente. Eu posso não ser a melhor mãe do mundo. Afinal, não tenho tempo para estar com você. Trabalho o dia todo, quase não o vejo. Mas acredito no seu potencial, pois sempre foi tão forte, disciplinado e determinado que não me exigiu muitos cuidados. Meu filho, um tímido e dedicado estudante, cujos professores elogiam continuamente. Sei que sou uma mãe ausente. Não estava lá quando você fez aquele gol de placa e ganhou o campeonato da escola. Nem mesmo quando foi agraciado com uma medalha pelo seu desempenho nas competições escolares de matemática. Porém, mesmo que não esteja perto o tempo todo, eu tento apoiar-lhe da melhor maneira possível.
Queria estar todos os dias ao seu lado. Doar-lhe mais tempo e atenção. Contudo, é-me impossível. Lembra que quando o papai foi embora eu lhe disse: somos só nós dois agora? Falei-lhe: “faça o máximo para ajudar, pois terei de sustentar sozinha a nossa família”. É um pouco pequena, somos só eu e você, mas nem por isso há nela menos amor. Eu tive de virar seu “pãe” e criar todas as condições para que sua vida fosse feliz. É um rapaz saudável e inteligente, sinto que colaborei para isto.
Trabalho duro desde dos dezoito anos para lhe pagar uma escola particular e garantir todos os recursos para o seu futuro sucesso. Às vezes, só tomo conhecimento de suas notas, porque as exibe na porta da geladeira para que eu, ao chegar tarde da noite do trabalho, as possa ver. Eu fico radiante cada vez que sua nota é a maior da sala. Enche-me de orgulho. É meu combustível para continuar batalhando. Vejo que todo o meu sacrifício é válido. É o filho mais especial que uma mãe poderia ter. Menino ainda, você prometeu-me ser bom e ajudar em casa. Não tenho do que reclamar. É asseado e faz os serviços domésticos sem se queixar. Quando chego em casa, não me resta sequer a louça para lavar. Somos uma equipe. No fim de semana, presenteia-me com o café pronto antes de eu levantar, quando você prepara o almoço, eu faço o jantar. E estamos cada um ajudando, continuamente, o outro.
Sei que agora é diferente. Está sofrendo e não posso fazer nada para ajudar. Sou uma velha chata que não entende mais das coisas da juventude. Sei que está magoado. Meu querido, deveria ter lhe ensinado a chorar mais. É bom para colocar toda a dor para fora. Queria ter o poder de aplacar esse sentimento que tanto lhe machuca. Mas o amor é estranho mesmo. A gente faz o impossível por quem amamos. Mas nem sempre somos correspondidos. Sei que faz muito tempo desde que conheci seu pai, mas ainda sei algumas coisas a respeito. Não adianta, não há como nos fazer amados.
Fez tudo para conquistar a garotinha ruiva quando pequeno, contudo foi preterido por ela em favor de um tal de Moisés do quinto ano. Naquele tempo, pensei que esta desilusão não lhe havia afetado tanto. Estava enganada, sinto muito. Agora, quase um homem, ser novamente rejeitado, deixou você muito mal. E eu nem percebi. Será que poderia perdoar-me? Sua mãe não é perfeita. Sou fraca e agora estou fingindo ser forte para lhe fazer sentir-se melhor. Sei que é uma barra. Mas tenho uma novidade para você: dói só por alguns dias. Depois passa e fica só aquela lembrançazinha ruim que a gente evita até de pensar. O tempo é como o xarope para tosse, o gosto é ruim, mas cura tudo.
Estes dias, deveria ter percebido que sofria. Seu sorriso havia se apagado e eu não sabia o porquê. Não queria invadir sua privacidade e não consegui lhe ajudar. E você escondeu-me que sofria. Talvez porque, com todos os meus problemas, julgava eu não ser capaz de lhe auxiliar com os seus. Sinto muito por não ter feito nada quando percebi que estava diferente. Nunca imaginei que seu problema era este. Pensei que era uma crise da juventude e que logo passaria. Estava errada. E como sofro por isto. Não sabe o quanto.
Agora estou falando ininterruptamente sem saber se pode ouvir-me desta cama de hospital, desacordado, após tomar um frasco de pílulas para dormir, para tentar se matar. Meu filho que sempre foi tão perfeito, mostrava-se rachado. O coração em pedaços fez-lhe desejar a morte. E eu não percebi. Só achei seu corpo estendido, quase sem vida, quando cheguei à noite do serviço. Deixou-me uma carta em que justificava o seu ato insano. Pedindo-me desculpas por me deixar sozinha. Mas fui eu que lhe abandonei quando precisava. Precisava mais do que nunca de mim e nada fiz. Sou uma péssima mãe. Eu só queria que nada de mal lhe acontecesse. Tentei fazer de tudo para lhe proteger, mas errei feio.
Não sou onipresente, claro que algo assim me escaparia. Deveria estar ao seu lado. Se tivesse conversado comigo, dito o que tanto lhe machucava, talvez não estivesse aqui, em coma, devido a overdose de remédios para dormir que você tomou. Eram remédios que eu tomava toda a noite. Eu errei em não os ter escondido. Mas nunca imaginei o mal que lhe afligia.
Meu filho, só peço que sobreviva. Eu não vou conseguir consertar seu coração, mas pelo menos poderemos chorar juntos. O mundo não acaba depois de um fora. Você vai conhecer tantas meninas ainda, umas melhores, outras piores, mas todas vão lhe deixar uma grande lição. Estou certa que depois ainda vamos sorrir juntos disto. Quando despertar, vai ver a vida de outra maneira. Vai enxergar como é rara e frágil. Entenderá que não devemos nos desfazer de algo assim: um mistério tão complexo que ninguém jamais decifrou. Saiba que preciso mais de você que você de mim. É minha âncora, sem você, fico à deriva, sem razão para existir. Por isso, só peço que acorde, meu filho, por favor…

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