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“Não penses, velho. Segue o teu rumo e aceita o que vier”.

Ernest Hemingway

A Via Crucis do cotidiano

Giordana Bonifácio

Quietude. Silêncio. E o som reconfortante das ondas. O que mais me seria necessário? Um bom livro, talvez. Um sonho que me abastecesse de esperança? Muito provável. E um café amargo e quente para aquecer o coração. Pronto. Eis a cena perfeita de um dia de férias. Sob uma sombra acolhedora à beira-mar, saboreio um bom café acompanhada de um romance de Hemingway. Nem quero saber do restante do mundo. Para quê? Se a realidade em que vivemos é tão violenta e tragédias pululam nos noticiários? É tanta morte que nem sei. Melhor alienar-se, mesmo que por um instante, para provar do que a vida tem de melhor. A brisa despenteia meus cabelos, aceito este instante longe do mundo. Estou leve como uma folha a planar ao vento. Meus problemas, quem quer saber? Sequer penso neles. As ondas borbulham aos meus pés e lambe-os com doçura. La dolce vita, açucarada como deveria ser. Mas não é. Pena.
Os meus olhos abrem-se e o meu instante de felicidade já havia morrido. Estou dentro de um ônibus e um pedinte discursa na roleta. Precisa pagar o tratamento da mulher adoentada. Recolhe o dinheiro: “Deus lhe pague”. Desce duas paradas depois. O ronco do veículo é monótono e causa-me mal-estar. O sol está quente e o dia, como convém à minha Brasília, está bastante seco, tal qual os meus lábios selados em descontentamento. Ao meu lado, um passageiro discute ao celular. Alguém lhe devia uma soma em dinheiro. Um carro passa buzinando. O condutor pragueja contra o motorista do ônibus que o havia “fechado”. Nos postes, a decoração esquecida das Olimpíadas pende destroçada. Tento fechar os olhos e voltar ao meu paraíso particular, mas já estou por demais inundada de realidade. Algumas bandeiras do Brasil ainda tremulam nas janelas das superquadras. Patriotismo que só se evoca nos eventos esportivos. Ou, talvez, uma resposta à crise política do país. “Brava gente brasileira”. Na verdade, estou tão desconfortável quanto um siri na lata. Não posso esconder-me nas minhas ilusões de felicidade todo o tempo. Tenho de despertar e ver o mundo tal qual ele é. E isso dói. Sabia? A vida dói em mim. Parece um calvário. “Pobres Cristos que se crucificam todos os dias. Amém”.
Ao meu lado um homem desce cedendo lugar a um jovem que escuta funk no celular. Ele não usa um fone de ouvido, pois a Via Crucis exige sofrimento. O rapaz parece se deliciar com o penar que causa. Ah, quem me dera que não me ofuscasse a ilusão esta força inexorável do presente. Quantos heróis morrem todos os dias, porque não suportam os sons alheios a sua confortável vida? Permaneço em silêncio, aceito o barulho do mundo, ainda que muito contrafeita. Sabe-se lá o que pode vir acontecer. Mata-se por motivos tão fúteis. Melhor mesmo é abster-se. Igual aos deputados que não querem intrigar-se com nenhum dos lados em disputa na política. Para não sofrer represálias é simples: permaneça no muro sem pender. Equilibrando-se na linha tênue entre o bem e o mal. Ou entre o mal e o pior. Pois não há quem se salve nesse ninho de cobras.
O ônibus estanca num ponto no qual embarca uma grávida. Os lugares reservados estão todos ocupados por pessoas que não gozam deste direito. Mas ninguém cede o lugar à gestante. Por fim, levanto-me para a moça sentar. A barriga está bem proeminente. Ela arfa de cansaço pelo esforço de subir no coletivo. Agora em pé, seguro-me com força ao corrimão, mas o motorista não parece importar-se com os passageiros. Freia subitamente, dirige em alta velocidade e, todas as vezes que alguém tinha de descer, era necessário gritar para que o condutor parasse, pois invariavelmente passava do ponto. Uma moça observando meu sofrimento, auxilia-me levando minha bolsa.
Chega enfim minha parada. Mas não finda aí o meu sofrimento, tenho de andar um grande pedaço até o edifício em que trabalho. Várias vezes escapei por pouco de ser atropelada, pois o brasileiro não costuma usar a seta do carro. Não dá para a gente simplesmente adivinhar se o carro vai fazer a curva. Depois desta terrível prova de resistência, paro para comprar meu desjejum em um dos quiosques que rodeiam o Setor Bancário Sul. O atendente pergunta-me se desejo o de sempre. Respondo que sim e logo sou servida de um pão de queijo quentinho e um achocolatado com leite gelado para viagem. Ao chegar no meu ganha pão diário, sento-me em frente ao computador e laboro até os meus olhos arderem.
No fim do expediente, extenuada, dou-me o luxo de pegar o metrô. Caminho até a estação junto à massa de pessoas cujo dia fora muito semelhante ao meu. Uma multidão de zumbis que só esperam chegar ao acolhimento do lar e, assim, desfazerem-se dos apertados sapatos, deitarem em seus leitos ou no sofá da sala, ligarem seus televisores e assistirem à novela. Desejo o calor de minha cama e um bom livro para amenizar o meu sofrer. Um café, quem sabe? Para minha sorte, o trem já estava na estação e nem me foi preciso esperar muito por sua partida. Entrei no primeiro carro, destinado somente a mulheres. Mas, os homens, ao arrepio da lei, entravam neste vagão valendo-se do reduzido número de agentes de fiscalização. Alguns, inclusive, estavam sentados folgadamente nos assentos preferenciais. Tive de seguir em pé, pois não havia lugares vagos.
Na estação seguinte, não houve quem cedesse sua cadeira à idosa que acabara de entrar, fingiam estar adormecidos, para justificar a sua falta de caráter e de consciência. Os lugares preferenciais, mais uma vez, estavam ocupados por pessoas que não faziam jus àquele privilégio. Talvez, os mesmos que reclamam da corrupção e da indiferença da nossa sociedade. Mas na primeira oportunidade de agirem diferente, praticavam os mesmos atos contra os quais tanto se lastimavam. Pobres homens. Tolos homens. Todos os dias a serpente volta a lhes oferecer a maçã e, cotidianamente, aceitam-na sem pestanejar. Que dádiva e maldição é ter um livre-arbítrio que nos concede o direito de escolha, pois, assim, temos de assumir o peso de nossas ações. Não podemos simplesmente lavar as mãos e isentar-nos de toda culpa. A falha está em nós. E todos nós, um dia carregaremos o peso de nossas faltas.
A idosa permaneceu em pé durante todo o trajeto de vinte minutos até a estação do shopping onde desembarquei do metrô. Atravessei a longa passarela sobre a EPIA e cheguei à parada aonde pegaria o ônibus, que, por fim, deixar-me-ia próximo ao meu lar. Ela estava entulhada de lixo. Os ambulantes, que lá faziam ponto, justificavam em parte esta situação deplorável, mas o governo também não se isentava da responsabilidade, tendo em vista que só havia instalado uma pequena lixeira que não comportava o volume de lixo que se produzia naquele ambiente sempre tão movimentado. Para piorar, ratos corriam livremente entre os dejetos e as pessoas.
Após um quarto de hora, minha segunda condução parou no ponto. Estava com sorte, sentei logo e pude sacar o meu Hemingway da bolsa. Voltava o velho com o esqueleto do Marlin amarrado à pequena canoa. O peixe que mudaria a sorte do pescador fora devorado por tubarões. O velho não reclamava contra estes monstros carnívoros ou contra o mar. Nem os considerava cruéis. Pensava que o mar tudo lhe concedia na medida de suas necessidades. Também não me revolto contra os tubarões que se alimentam dos peixes que pesquei. Ainda que nada deles me reste. A vida não é calmaria, mas tempestade. Temos de navegar em suas águas revoltas, sob o risco iminente de a embarcação afundar. No fim, voltamos esgotados a nossas residências, querendo apenas um lugar quente para deitar e apagar até o outro dia.
Fecho os olhos. O mar está lá com suas ondas suaves a arder na praia, acariciando a areia em seu infinito vai e vem. A areia pinica meus pés descalços. O fim de tarde estava quente e acolhedor. A noite caia lentamente, o sol pousava carmim no horizonte. Parecia querer beijar o oceano. Após o suave ósculo, Poseidon abriga Apolo em seu reino. O sol esconde-se no mar e o dia finda levemente como numa poesia de Neruda. Então, sou despertada pelo cobrador. Já era o último ponto. Desci do coletivo e refiz o meu caminho diário entre a parada e a minha residência. Sou saudada pela cadela labradora que pertencia à vizinha, amiga leal, o animal sempre me aguardava àquela hora aos pés do portão de minha casa. Minha própria versão do cachorro de Ulisses. A fidelidade dos cães é algo assombroso. Ela recebe os meus afagos e balança feliz as orelhas. Quando entro em meu lar vem-me logo o cheiro do cuscuz que acabava de ser feito. E eu já me sentia em casa.

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