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“A minha mensagem àqueles de vós envolvidos nesta
batalha de irmão contra irmão é a seguinte:
pegai nas vossas armas, nas vossas facas e
nos vossos machetes, e deitem-nos ao mar.
Fechai as fábricas de morte.
Acabai com esta guerra, já!”
Nelson Mandela

Dois meninos

Giordana Bonifácio

São dois garotos apenas. Dois meninos. Um não teve tempo de crescer e o outro tenta viver em meio ao caos. Aquele queria fugir em busca de um sonho, este desaprendeu a sonhar. Nem sabe mais o que é brincar: pode ser perigoso andar, correr ou pular em meio a bombas e sob a ameaça constante da guerra. O menino que tentou escapar desta vida trágica não sabia nadar e afogou-se em sofrimento. Na praia, seu corpinho arroxeado foi recolhido por braços comovidos. São tão só crianças, nem entendem o porquê de tanta guerra, mas sofrem com suas consequências. O menino levado à ambulância de socorro, não conseguia chorar. Estava ferido, sabia disto. O cenário era aterrador e ele estava coberto da poeira dos escombros do que antes chamava de lar, mas não escorreu sequer uma lágrima de seus olhos. Quando alisou a testa, percebeu que sangrava, mas nem isto o fez agir como criança. Limpou a mão suja de sangue no assento da ambulância. Nada mais. A guerra fez deles adultos mirins. Não lhes é cabida a infância. Os adultos usurparam-na imbuídos unicamente pela sede de poder. A bomba que atingiu a casa de Omran, resgatado em meio aos entulhos de sua casa, matou-lhe o irmão. Da família do pequeno Aylan, cujo corpo hirto foi despejado pelas ondas numa praia da Turquia, somente o pai sobreviveu à arriscada travessia do Mar Mediterrâneo. São duas vítimas dentre as milhões que o conflito na Síria fez até momento. Não há refúgio. Os imigrantes são proibidos de entrar na Europa, que teme a enxurrada de pessoas sem emprego e sem lar invadindo seu mundo “cor-de-rosa”. Os que ficam, tudo perdem, até a vida.
Mas ninguém quer olhar para essa imagem tão feia. Se comovem, é claro, mas depois mudam o canal da televisão e é como se nada tivesse acontecido. As maiores vítimas dos conflitos que se desenrolam pelo mundo são as crianças. O futuro de um mundo destroçado pelos adultos que deveriam protege-las. Mas estes nem sequer pensam em resguardá-las de sua ânsia de dinheiro e poder. Vão destruir tudo para assumirem, após a vitória, um país em ruínas. Este será o prêmio desta guerra em fim. No pódio serão agraciados com a medalha da morte. Uma caveira brilhará em seu peito, para representar todas as vítimas que fizeram. O mais estranho é que eles matam seu próprio povo. Pessoas de sua descendência. Talvez seus vizinhos e antigos amigos ou colegas de classe com quem se encontravam a caminho da escola. E nem sequer hesitam em tomar-lhes brutalmente a vida. Quantos mais inocentes mortos, maior é possibilidade de vitória, não importa quem vai morrer. “Não se pode fazer uma omelete sem quebrar alguns ovos”. Talvez digam, enquanto saboreiam um charuto cubano em seu flat bem longe do epicentro do conflito. Mas o mundo, até o momento, nada fez para pôr fim à guerra na Síria. Provavelmente, porque seus olhos estejam vendados por verdes dólares advindos da venda de armamento. Enquanto isso, todos os dias outros Aylans perdem a vida no Mar Mediterrâneo, tentando fugir do terror da guerra, e outros Omrans terão seus lares destruídos por bombas, morteiros e outros instrumentos de devastação. O menino trazido pelas águas parecia dormir sob as ondas que iam e viam cobrindo e descobrindo-lhe o corpinho. Não havia pedido para nascer, como também não carregava culpa pelo conflito que lhe forçou a fuga malfadada pelo mar. O menino resgatado em meio aos escombros era inocente do sangue derramado naquela guerra. Perdera o irmão, mas não sabia chorar. A dor era tamanha que não conseguira sequer traduzi-la em lágrimas. Apenas sentou, coçou a testa e esperou. Sabe-se lá por que. Por uma paz sonhada? Por uma palavra de conforto? Ou por uma possibilidade de ser criança nem que fosse por apenas um instante? Não há como saber, pois o pai do menino convertido em símbolo de uma guerra insana, numa decisão acertada, não quer vender o drama vivido por sua família. Assim, não será possível saber o que o menino pensava naquele instante em que se viu tão próximo da morte, numa solidão desoladora que nem a presença da irmã que chegou depois foi suficiente para quebrar. Não se falaram, não se abraçaram. Ficaram calados engolindo em seco a dor, sem traduzir nada daquilo em palavras. O silêncio conversava entre os dois. Dizia sussurrando quão próximo a morte estava.
A Europa não quer acolher os filhos duma guerra que ela própria gerou. Queria uma Síria democrática, ocorre que não imaginou que a Primavera Árabe tornar-se-ia o estopim de uma guerra infinita. O mundo árabe está em conflito desde a origem dos tempos. Mulçumanos, judeus e católicos disputam o poder naquela região desde dezenas de milhares de anos. O ocidente, ao contrário de arrefecer os ânimos, instigava a guerra. Apoiando ora um lado, ora outro. Agora não sabem o que fazer com aqueles que pedem asilo nas suas fronteiras. Pessoas que sonham em construir uma nova vida, nem que seja sobre um solo em que não tenham nascido. Sob a égide de uma bandeira estrangeira, sob uma nova língua e, também, sob o peso da discriminação. Serão recebidos como cidadãos de segunda classe. Na possibilidade de conseguirem trabalho, será em subempregos numa condição muito inferior àquela que gozavam em seu verdadeiro país. Mas pela paz fazem qualquer sacrifício. Nada vale mais que poder dormir em sua cama à noite sem o perigo de uma bomba cair sobre sua cabeça. Enquanto nós do ocidente podemos deitar tranquilamente, na Síria, outros Omrans terão suas casas destruídas durante a madrugada. Se tiverem sorte, sobreviverão. Senão, viram estatística. A humanidade, no auge da sua desumanidade, converte pessoas em números. Assim se implanta a desimportância da vida. O que é 0,00000001% de baixas civis? Uma quantia extremamente baixa para os governantes. Para uma família, talvez a morte do filho mais velho em razão dos horrores da guerra. Imaginem a situação do pequeno Omran, que dormia em seu quarto, quando ouviu um som ensurdecedor. De repente, tudo vinha a baixo. Não havia aonde se esconder, o pó dos escombros cobriu-lhe o rosto, de repente, um pedaço de vidro cortou-lhe a testa. Mas ele nem sentiu, tamanha a aflição que lhe assaltava. Perdido entre um monte de ferros retorcidos e pedaços de sua casa, ele rezou baixinho para Maomé o salvar. Quando foi tomado por braços estranhos e deixado numa ambulância, onde outros homens, também desconhecidos, filmavam e fotografavam-no. Esse foi o seu drama de guerra. O qual o pai não quis vender na televisão ocidental. Poderia até receber auxílio ou asilo, mas seu orgulho impede-o de receber migalhas daqueles que rejeitam sua gente.
Agora vamos imaginar a família do pequeno Aylan, no escuro da noite, no meio do Mar Mediterrâneo, abraçados estão ele, o pai, a mãe e o irmão. Quando, subitamente, o barco que estavam naufraga pelo excesso de peso. O pai está distante, ouve as vozes da família clamando por auxílio, mas está muito escuro e não consegue localizá-los. No outro dia, nas televisões de todo mundo, a imagem do corpo do filho levado pelas ondas até o litoral da Turquia dissemina-se. Oferecem ao pai desolado a possibilidade de refugiar-se na Europa. Mas sem titubear o viúvo recusa. De que lhe vale? Não tem mais a família para proteger. A solidão pesa-lhe mais que a possibilidade de morrer na guerra. O corpinho que dorme na areia, provoca comoção entre os ocidentais. Mas só isso. Assusta a imobilidade dos que só assistem a guerra pela televisão. Enquanto isto, novos símbolos da dor surgem e são esquecidos. E a guerra continua: massacrante, terrível, mortal. A paz para estas crianças é só um sonho distante. Um desejo que fazem à noite antes de dormir. Mas Alá não pode salvá-los, pois o homem esquece sua religião quando o que está em jogo é dinheiro e poder. Omran rezou para Meca com o irmão mais velho, aquela tarde do dia fatídico. Nem desconfiava que seria a última vez que o veria com vida. Sorriram ao dividir um pedaço de pão. Mas a noite chegou mortal com bombas a despencar do céu sobre o seu lar. Nunca mais Omran rezaria ao lado do irmão. E ele não conseguiu chorar. Por que, se a dor era imensa? O menino não conseguiu converter em lágrimas o seu penar. Queria chorar, mas o medo era maior. Estava apavorado e atônito. No faz de conta, o irmão disse-lhe que viveria para sempre. Mas o pequeno menino sentado no assento da ambulância compreendeu que a vida era muito frágil e que somente a guerra era eterna. O repórter que o fotografou chorou, pois entendeu tudo isto.

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