Arquivo do mês: agosto 2016

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“Os nossos pais amam-nos porque somos seus filhos,
é um facto inalterável. Nos momentos de sucesso,
isso pode parecer irrelevante, mas nas ocasiões de fracasso,
oferecem um consolo e uma segurança
que não se encontram em qualquer outro lugar.”
Bertrand Russell

Meu filho

Giordana Bonifácio

Oi, você é importante, viu? Estou falando para, caso ainda pese dúvidas a este respeito, você nunca pense diferente. Eu posso não ser a melhor mãe do mundo. Afinal, não tenho tempo para estar com você. Trabalho o dia todo, quase não o vejo. Mas acredito no seu potencial, pois sempre foi tão forte, disciplinado e determinado que não me exigiu muitos cuidados. Meu filho, um tímido e dedicado estudante, cujos professores elogiam continuamente. Sei que sou uma mãe ausente. Não estava lá quando você fez aquele gol de placa e ganhou o campeonato da escola. Nem mesmo quando foi agraciado com uma medalha pelo seu desempenho nas competições escolares de matemática. Porém, mesmo que não esteja perto o tempo todo, eu tento apoiar-lhe da melhor maneira possível.
Queria estar todos os dias ao seu lado. Doar-lhe mais tempo e atenção. Contudo, é-me impossível. Lembra que quando o papai foi embora eu lhe disse: somos só nós dois agora? Falei-lhe: “faça o máximo para ajudar, pois terei de sustentar sozinha a nossa família”. É um pouco pequena, somos só eu e você, mas nem por isso há nela menos amor. Eu tive de virar seu “pãe” e criar todas as condições para que sua vida fosse feliz. É um rapaz saudável e inteligente, sinto que colaborei para isto.
Trabalho duro desde dos dezoito anos para lhe pagar uma escola particular e garantir todos os recursos para o seu futuro sucesso. Às vezes, só tomo conhecimento de suas notas, porque as exibe na porta da geladeira para que eu, ao chegar tarde da noite do trabalho, as possa ver. Eu fico radiante cada vez que sua nota é a maior da sala. Enche-me de orgulho. É meu combustível para continuar batalhando. Vejo que todo o meu sacrifício é válido. É o filho mais especial que uma mãe poderia ter. Menino ainda, você prometeu-me ser bom e ajudar em casa. Não tenho do que reclamar. É asseado e faz os serviços domésticos sem se queixar. Quando chego em casa, não me resta sequer a louça para lavar. Somos uma equipe. No fim de semana, presenteia-me com o café pronto antes de eu levantar, quando você prepara o almoço, eu faço o jantar. E estamos cada um ajudando, continuamente, o outro.
Sei que agora é diferente. Está sofrendo e não posso fazer nada para ajudar. Sou uma velha chata que não entende mais das coisas da juventude. Sei que está magoado. Meu querido, deveria ter lhe ensinado a chorar mais. É bom para colocar toda a dor para fora. Queria ter o poder de aplacar esse sentimento que tanto lhe machuca. Mas o amor é estranho mesmo. A gente faz o impossível por quem amamos. Mas nem sempre somos correspondidos. Sei que faz muito tempo desde que conheci seu pai, mas ainda sei algumas coisas a respeito. Não adianta, não há como nos fazer amados.
Fez tudo para conquistar a garotinha ruiva quando pequeno, contudo foi preterido por ela em favor de um tal de Moisés do quinto ano. Naquele tempo, pensei que esta desilusão não lhe havia afetado tanto. Estava enganada, sinto muito. Agora, quase um homem, ser novamente rejeitado, deixou você muito mal. E eu nem percebi. Será que poderia perdoar-me? Sua mãe não é perfeita. Sou fraca e agora estou fingindo ser forte para lhe fazer sentir-se melhor. Sei que é uma barra. Mas tenho uma novidade para você: dói só por alguns dias. Depois passa e fica só aquela lembrançazinha ruim que a gente evita até de pensar. O tempo é como o xarope para tosse, o gosto é ruim, mas cura tudo.
Estes dias, deveria ter percebido que sofria. Seu sorriso havia se apagado e eu não sabia o porquê. Não queria invadir sua privacidade e não consegui lhe ajudar. E você escondeu-me que sofria. Talvez porque, com todos os meus problemas, julgava eu não ser capaz de lhe auxiliar com os seus. Sinto muito por não ter feito nada quando percebi que estava diferente. Nunca imaginei que seu problema era este. Pensei que era uma crise da juventude e que logo passaria. Estava errada. E como sofro por isto. Não sabe o quanto.
Agora estou falando ininterruptamente sem saber se pode ouvir-me desta cama de hospital, desacordado, após tomar um frasco de pílulas para dormir, para tentar se matar. Meu filho que sempre foi tão perfeito, mostrava-se rachado. O coração em pedaços fez-lhe desejar a morte. E eu não percebi. Só achei seu corpo estendido, quase sem vida, quando cheguei à noite do serviço. Deixou-me uma carta em que justificava o seu ato insano. Pedindo-me desculpas por me deixar sozinha. Mas fui eu que lhe abandonei quando precisava. Precisava mais do que nunca de mim e nada fiz. Sou uma péssima mãe. Eu só queria que nada de mal lhe acontecesse. Tentei fazer de tudo para lhe proteger, mas errei feio.
Não sou onipresente, claro que algo assim me escaparia. Deveria estar ao seu lado. Se tivesse conversado comigo, dito o que tanto lhe machucava, talvez não estivesse aqui, em coma, devido a overdose de remédios para dormir que você tomou. Eram remédios que eu tomava toda a noite. Eu errei em não os ter escondido. Mas nunca imaginei o mal que lhe afligia.
Meu filho, só peço que sobreviva. Eu não vou conseguir consertar seu coração, mas pelo menos poderemos chorar juntos. O mundo não acaba depois de um fora. Você vai conhecer tantas meninas ainda, umas melhores, outras piores, mas todas vão lhe deixar uma grande lição. Estou certa que depois ainda vamos sorrir juntos disto. Quando despertar, vai ver a vida de outra maneira. Vai enxergar como é rara e frágil. Entenderá que não devemos nos desfazer de algo assim: um mistério tão complexo que ninguém jamais decifrou. Saiba que preciso mais de você que você de mim. É minha âncora, sem você, fico à deriva, sem razão para existir. Por isso, só peço que acorde, meu filho, por favor…

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“Não penses, velho. Segue o teu rumo e aceita o que vier”.

Ernest Hemingway

A Via Crucis do cotidiano

Giordana Bonifácio

Quietude. Silêncio. E o som reconfortante das ondas. O que mais me seria necessário? Um bom livro, talvez. Um sonho que me abastecesse de esperança? Muito provável. E um café amargo e quente para aquecer o coração. Pronto. Eis a cena perfeita de um dia de férias. Sob uma sombra acolhedora à beira-mar, saboreio um bom café acompanhada de um romance de Hemingway. Nem quero saber do restante do mundo. Para quê? Se a realidade em que vivemos é tão violenta e tragédias pululam nos noticiários? É tanta morte que nem sei. Melhor alienar-se, mesmo que por um instante, para provar do que a vida tem de melhor. A brisa despenteia meus cabelos, aceito este instante longe do mundo. Estou leve como uma folha a planar ao vento. Meus problemas, quem quer saber? Sequer penso neles. As ondas borbulham aos meus pés e lambe-os com doçura. La dolce vita, açucarada como deveria ser. Mas não é. Pena.
Os meus olhos abrem-se e o meu instante de felicidade já havia morrido. Estou dentro de um ônibus e um pedinte discursa na roleta. Precisa pagar o tratamento da mulher adoentada. Recolhe o dinheiro: “Deus lhe pague”. Desce duas paradas depois. O ronco do veículo é monótono e causa-me mal-estar. O sol está quente e o dia, como convém à minha Brasília, está bastante seco, tal qual os meus lábios selados em descontentamento. Ao meu lado, um passageiro discute ao celular. Alguém lhe devia uma soma em dinheiro. Um carro passa buzinando. O condutor pragueja contra o motorista do ônibus que o havia “fechado”. Nos postes, a decoração esquecida das Olimpíadas pende destroçada. Tento fechar os olhos e voltar ao meu paraíso particular, mas já estou por demais inundada de realidade. Algumas bandeiras do Brasil ainda tremulam nas janelas das superquadras. Patriotismo que só se evoca nos eventos esportivos. Ou, talvez, uma resposta à crise política do país. “Brava gente brasileira”. Na verdade, estou tão desconfortável quanto um siri na lata. Não posso esconder-me nas minhas ilusões de felicidade todo o tempo. Tenho de despertar e ver o mundo tal qual ele é. E isso dói. Sabia? A vida dói em mim. Parece um calvário. “Pobres Cristos que se crucificam todos os dias. Amém”.
Ao meu lado um homem desce cedendo lugar a um jovem que escuta funk no celular. Ele não usa um fone de ouvido, pois a Via Crucis exige sofrimento. O rapaz parece se deliciar com o penar que causa. Ah, quem me dera que não me ofuscasse a ilusão esta força inexorável do presente. Quantos heróis morrem todos os dias, porque não suportam os sons alheios a sua confortável vida? Permaneço em silêncio, aceito o barulho do mundo, ainda que muito contrafeita. Sabe-se lá o que pode vir acontecer. Mata-se por motivos tão fúteis. Melhor mesmo é abster-se. Igual aos deputados que não querem intrigar-se com nenhum dos lados em disputa na política. Para não sofrer represálias é simples: permaneça no muro sem pender. Equilibrando-se na linha tênue entre o bem e o mal. Ou entre o mal e o pior. Pois não há quem se salve nesse ninho de cobras.
O ônibus estanca num ponto no qual embarca uma grávida. Os lugares reservados estão todos ocupados por pessoas que não gozam deste direito. Mas ninguém cede o lugar à gestante. Por fim, levanto-me para a moça sentar. A barriga está bem proeminente. Ela arfa de cansaço pelo esforço de subir no coletivo. Agora em pé, seguro-me com força ao corrimão, mas o motorista não parece importar-se com os passageiros. Freia subitamente, dirige em alta velocidade e, todas as vezes que alguém tinha de descer, era necessário gritar para que o condutor parasse, pois invariavelmente passava do ponto. Uma moça observando meu sofrimento, auxilia-me levando minha bolsa.
Chega enfim minha parada. Mas não finda aí o meu sofrimento, tenho de andar um grande pedaço até o edifício em que trabalho. Várias vezes escapei por pouco de ser atropelada, pois o brasileiro não costuma usar a seta do carro. Não dá para a gente simplesmente adivinhar se o carro vai fazer a curva. Depois desta terrível prova de resistência, paro para comprar meu desjejum em um dos quiosques que rodeiam o Setor Bancário Sul. O atendente pergunta-me se desejo o de sempre. Respondo que sim e logo sou servida de um pão de queijo quentinho e um achocolatado com leite gelado para viagem. Ao chegar no meu ganha pão diário, sento-me em frente ao computador e laboro até os meus olhos arderem.
No fim do expediente, extenuada, dou-me o luxo de pegar o metrô. Caminho até a estação junto à massa de pessoas cujo dia fora muito semelhante ao meu. Uma multidão de zumbis que só esperam chegar ao acolhimento do lar e, assim, desfazerem-se dos apertados sapatos, deitarem em seus leitos ou no sofá da sala, ligarem seus televisores e assistirem à novela. Desejo o calor de minha cama e um bom livro para amenizar o meu sofrer. Um café, quem sabe? Para minha sorte, o trem já estava na estação e nem me foi preciso esperar muito por sua partida. Entrei no primeiro carro, destinado somente a mulheres. Mas, os homens, ao arrepio da lei, entravam neste vagão valendo-se do reduzido número de agentes de fiscalização. Alguns, inclusive, estavam sentados folgadamente nos assentos preferenciais. Tive de seguir em pé, pois não havia lugares vagos.
Na estação seguinte, não houve quem cedesse sua cadeira à idosa que acabara de entrar, fingiam estar adormecidos, para justificar a sua falta de caráter e de consciência. Os lugares preferenciais, mais uma vez, estavam ocupados por pessoas que não faziam jus àquele privilégio. Talvez, os mesmos que reclamam da corrupção e da indiferença da nossa sociedade. Mas na primeira oportunidade de agirem diferente, praticavam os mesmos atos contra os quais tanto se lastimavam. Pobres homens. Tolos homens. Todos os dias a serpente volta a lhes oferecer a maçã e, cotidianamente, aceitam-na sem pestanejar. Que dádiva e maldição é ter um livre-arbítrio que nos concede o direito de escolha, pois, assim, temos de assumir o peso de nossas ações. Não podemos simplesmente lavar as mãos e isentar-nos de toda culpa. A falha está em nós. E todos nós, um dia carregaremos o peso de nossas faltas.
A idosa permaneceu em pé durante todo o trajeto de vinte minutos até a estação do shopping onde desembarquei do metrô. Atravessei a longa passarela sobre a EPIA e cheguei à parada aonde pegaria o ônibus, que, por fim, deixar-me-ia próximo ao meu lar. Ela estava entulhada de lixo. Os ambulantes, que lá faziam ponto, justificavam em parte esta situação deplorável, mas o governo também não se isentava da responsabilidade, tendo em vista que só havia instalado uma pequena lixeira que não comportava o volume de lixo que se produzia naquele ambiente sempre tão movimentado. Para piorar, ratos corriam livremente entre os dejetos e as pessoas.
Após um quarto de hora, minha segunda condução parou no ponto. Estava com sorte, sentei logo e pude sacar o meu Hemingway da bolsa. Voltava o velho com o esqueleto do Marlin amarrado à pequena canoa. O peixe que mudaria a sorte do pescador fora devorado por tubarões. O velho não reclamava contra estes monstros carnívoros ou contra o mar. Nem os considerava cruéis. Pensava que o mar tudo lhe concedia na medida de suas necessidades. Também não me revolto contra os tubarões que se alimentam dos peixes que pesquei. Ainda que nada deles me reste. A vida não é calmaria, mas tempestade. Temos de navegar em suas águas revoltas, sob o risco iminente de a embarcação afundar. No fim, voltamos esgotados a nossas residências, querendo apenas um lugar quente para deitar e apagar até o outro dia.
Fecho os olhos. O mar está lá com suas ondas suaves a arder na praia, acariciando a areia em seu infinito vai e vem. A areia pinica meus pés descalços. O fim de tarde estava quente e acolhedor. A noite caia lentamente, o sol pousava carmim no horizonte. Parecia querer beijar o oceano. Após o suave ósculo, Poseidon abriga Apolo em seu reino. O sol esconde-se no mar e o dia finda levemente como numa poesia de Neruda. Então, sou despertada pelo cobrador. Já era o último ponto. Desci do coletivo e refiz o meu caminho diário entre a parada e a minha residência. Sou saudada pela cadela labradora que pertencia à vizinha, amiga leal, o animal sempre me aguardava àquela hora aos pés do portão de minha casa. Minha própria versão do cachorro de Ulisses. A fidelidade dos cães é algo assombroso. Ela recebe os meus afagos e balança feliz as orelhas. Quando entro em meu lar vem-me logo o cheiro do cuscuz que acabava de ser feito. E eu já me sentia em casa.

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“A minha mensagem àqueles de vós envolvidos nesta
batalha de irmão contra irmão é a seguinte:
pegai nas vossas armas, nas vossas facas e
nos vossos machetes, e deitem-nos ao mar.
Fechai as fábricas de morte.
Acabai com esta guerra, já!”
Nelson Mandela

Dois meninos

Giordana Bonifácio

São dois garotos apenas. Dois meninos. Um não teve tempo de crescer e o outro tenta viver em meio ao caos. Aquele queria fugir em busca de um sonho, este desaprendeu a sonhar. Nem sabe mais o que é brincar: pode ser perigoso andar, correr ou pular em meio a bombas e sob a ameaça constante da guerra. O menino que tentou escapar desta vida trágica não sabia nadar e afogou-se em sofrimento. Na praia, seu corpinho arroxeado foi recolhido por braços comovidos. São tão só crianças, nem entendem o porquê de tanta guerra, mas sofrem com suas consequências. O menino levado à ambulância de socorro, não conseguia chorar. Estava ferido, sabia disto. O cenário era aterrador e ele estava coberto da poeira dos escombros do que antes chamava de lar, mas não escorreu sequer uma lágrima de seus olhos. Quando alisou a testa, percebeu que sangrava, mas nem isto o fez agir como criança. Limpou a mão suja de sangue no assento da ambulância. Nada mais. A guerra fez deles adultos mirins. Não lhes é cabida a infância. Os adultos usurparam-na imbuídos unicamente pela sede de poder. A bomba que atingiu a casa de Omran, resgatado em meio aos entulhos de sua casa, matou-lhe o irmão. Da família do pequeno Aylan, cujo corpo hirto foi despejado pelas ondas numa praia da Turquia, somente o pai sobreviveu à arriscada travessia do Mar Mediterrâneo. São duas vítimas dentre as milhões que o conflito na Síria fez até momento. Não há refúgio. Os imigrantes são proibidos de entrar na Europa, que teme a enxurrada de pessoas sem emprego e sem lar invadindo seu mundo “cor-de-rosa”. Os que ficam, tudo perdem, até a vida.
Mas ninguém quer olhar para essa imagem tão feia. Se comovem, é claro, mas depois mudam o canal da televisão e é como se nada tivesse acontecido. As maiores vítimas dos conflitos que se desenrolam pelo mundo são as crianças. O futuro de um mundo destroçado pelos adultos que deveriam protege-las. Mas estes nem sequer pensam em resguardá-las de sua ânsia de dinheiro e poder. Vão destruir tudo para assumirem, após a vitória, um país em ruínas. Este será o prêmio desta guerra em fim. No pódio serão agraciados com a medalha da morte. Uma caveira brilhará em seu peito, para representar todas as vítimas que fizeram. O mais estranho é que eles matam seu próprio povo. Pessoas de sua descendência. Talvez seus vizinhos e antigos amigos ou colegas de classe com quem se encontravam a caminho da escola. E nem sequer hesitam em tomar-lhes brutalmente a vida. Quantos mais inocentes mortos, maior é possibilidade de vitória, não importa quem vai morrer. “Não se pode fazer uma omelete sem quebrar alguns ovos”. Talvez digam, enquanto saboreiam um charuto cubano em seu flat bem longe do epicentro do conflito. Mas o mundo, até o momento, nada fez para pôr fim à guerra na Síria. Provavelmente, porque seus olhos estejam vendados por verdes dólares advindos da venda de armamento. Enquanto isso, todos os dias outros Aylans perdem a vida no Mar Mediterrâneo, tentando fugir do terror da guerra, e outros Omrans terão seus lares destruídos por bombas, morteiros e outros instrumentos de devastação. O menino trazido pelas águas parecia dormir sob as ondas que iam e viam cobrindo e descobrindo-lhe o corpinho. Não havia pedido para nascer, como também não carregava culpa pelo conflito que lhe forçou a fuga malfadada pelo mar. O menino resgatado em meio aos escombros era inocente do sangue derramado naquela guerra. Perdera o irmão, mas não sabia chorar. A dor era tamanha que não conseguira sequer traduzi-la em lágrimas. Apenas sentou, coçou a testa e esperou. Sabe-se lá por que. Por uma paz sonhada? Por uma palavra de conforto? Ou por uma possibilidade de ser criança nem que fosse por apenas um instante? Não há como saber, pois o pai do menino convertido em símbolo de uma guerra insana, numa decisão acertada, não quer vender o drama vivido por sua família. Assim, não será possível saber o que o menino pensava naquele instante em que se viu tão próximo da morte, numa solidão desoladora que nem a presença da irmã que chegou depois foi suficiente para quebrar. Não se falaram, não se abraçaram. Ficaram calados engolindo em seco a dor, sem traduzir nada daquilo em palavras. O silêncio conversava entre os dois. Dizia sussurrando quão próximo a morte estava.
A Europa não quer acolher os filhos duma guerra que ela própria gerou. Queria uma Síria democrática, ocorre que não imaginou que a Primavera Árabe tornar-se-ia o estopim de uma guerra infinita. O mundo árabe está em conflito desde a origem dos tempos. Mulçumanos, judeus e católicos disputam o poder naquela região desde dezenas de milhares de anos. O ocidente, ao contrário de arrefecer os ânimos, instigava a guerra. Apoiando ora um lado, ora outro. Agora não sabem o que fazer com aqueles que pedem asilo nas suas fronteiras. Pessoas que sonham em construir uma nova vida, nem que seja sobre um solo em que não tenham nascido. Sob a égide de uma bandeira estrangeira, sob uma nova língua e, também, sob o peso da discriminação. Serão recebidos como cidadãos de segunda classe. Na possibilidade de conseguirem trabalho, será em subempregos numa condição muito inferior àquela que gozavam em seu verdadeiro país. Mas pela paz fazem qualquer sacrifício. Nada vale mais que poder dormir em sua cama à noite sem o perigo de uma bomba cair sobre sua cabeça. Enquanto nós do ocidente podemos deitar tranquilamente, na Síria, outros Omrans terão suas casas destruídas durante a madrugada. Se tiverem sorte, sobreviverão. Senão, viram estatística. A humanidade, no auge da sua desumanidade, converte pessoas em números. Assim se implanta a desimportância da vida. O que é 0,00000001% de baixas civis? Uma quantia extremamente baixa para os governantes. Para uma família, talvez a morte do filho mais velho em razão dos horrores da guerra. Imaginem a situação do pequeno Omran, que dormia em seu quarto, quando ouviu um som ensurdecedor. De repente, tudo vinha a baixo. Não havia aonde se esconder, o pó dos escombros cobriu-lhe o rosto, de repente, um pedaço de vidro cortou-lhe a testa. Mas ele nem sentiu, tamanha a aflição que lhe assaltava. Perdido entre um monte de ferros retorcidos e pedaços de sua casa, ele rezou baixinho para Maomé o salvar. Quando foi tomado por braços estranhos e deixado numa ambulância, onde outros homens, também desconhecidos, filmavam e fotografavam-no. Esse foi o seu drama de guerra. O qual o pai não quis vender na televisão ocidental. Poderia até receber auxílio ou asilo, mas seu orgulho impede-o de receber migalhas daqueles que rejeitam sua gente.
Agora vamos imaginar a família do pequeno Aylan, no escuro da noite, no meio do Mar Mediterrâneo, abraçados estão ele, o pai, a mãe e o irmão. Quando, subitamente, o barco que estavam naufraga pelo excesso de peso. O pai está distante, ouve as vozes da família clamando por auxílio, mas está muito escuro e não consegue localizá-los. No outro dia, nas televisões de todo mundo, a imagem do corpo do filho levado pelas ondas até o litoral da Turquia dissemina-se. Oferecem ao pai desolado a possibilidade de refugiar-se na Europa. Mas sem titubear o viúvo recusa. De que lhe vale? Não tem mais a família para proteger. A solidão pesa-lhe mais que a possibilidade de morrer na guerra. O corpinho que dorme na areia, provoca comoção entre os ocidentais. Mas só isso. Assusta a imobilidade dos que só assistem a guerra pela televisão. Enquanto isto, novos símbolos da dor surgem e são esquecidos. E a guerra continua: massacrante, terrível, mortal. A paz para estas crianças é só um sonho distante. Um desejo que fazem à noite antes de dormir. Mas Alá não pode salvá-los, pois o homem esquece sua religião quando o que está em jogo é dinheiro e poder. Omran rezou para Meca com o irmão mais velho, aquela tarde do dia fatídico. Nem desconfiava que seria a última vez que o veria com vida. Sorriram ao dividir um pedaço de pão. Mas a noite chegou mortal com bombas a despencar do céu sobre o seu lar. Nunca mais Omran rezaria ao lado do irmão. E ele não conseguiu chorar. Por que, se a dor era imensa? O menino não conseguiu converter em lágrimas o seu penar. Queria chorar, mas o medo era maior. Estava apavorado e atônito. No faz de conta, o irmão disse-lhe que viveria para sempre. Mas o pequeno menino sentado no assento da ambulância compreendeu que a vida era muito frágil e que somente a guerra era eterna. O repórter que o fotografou chorou, pois entendeu tudo isto.

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Teus risonhos, lindos campos têm mais flores
“Nossos bosques têm mais vida”
“Nossa vida” no teu seio “mais amores”.
Joaquim Osório Duque Estrada

Um novo grito às margens do Ipiranga.

Giordana Bonifácio

Erga o braço forte, impávido colosso, porque um filho seu não foge à luta! Ouça este novo grito às margens do Ipiranga. Vai Brasil, não é tão difícil assim. Nem custa muito… Você só precisa manter sua economia estabilizada e conceder educação, saúde e segurança para a sua população. “Vamos levante e ande!” Pois se até Lázaro pode vencer a morte, o que um país como você não faria? Não sabe o poder que tem. Verdade, Brasil, você é uma potência! Não perde frente à economia de muitos países que se dizem de primeiro mundo. Nada de falar que está tão só em desenvolvimento! Vamos, aumente esta autoestima, meu amigo! É um país pacífico, não sofre com guerras e nem mesmo com o temido terrorismo. Ofereceu uma das mais belas Olimpíadas do mundo e ainda se acha um coitadinho? Faça valer a força da sua cultura! Seu povo é, antes de tudo, forte! Consegue sobreviver à duras penas e o faz com um belo sorriso no rosto. Nem os problemas que assaltam a sua gente são capazes de roubar a sua felicidade. Tem um povo acolhedor e amistoso. Pessoas legais à beça! Nunca vi alguém desgostar de um brasileiro. Na verdade, a persistência e a fé do povo canarinho são as suas melhores qualidades. São gente da gente, de pé no chão, que não se deixam abater por qualquer coisa. Mas mesmo sendo fortes, se permitem chorar quando a tristeza chega ou quando a felicidade é grande. Levantam um troféu (não importa a sua origem) como um prêmio de toda fraternidade verde e amarela. São uma família só, que comemora a vitória de um de seus filhos como a sua própria. O melhor do Brasil, (desculpe repetir a máxima já bem batida), é o brasileiro. Sua gente, sua riqueza. Não vê que fazem tudo pela pátria mãe gentil? Mesmo que o montante de seus impostos vaze pelo cano quebrado da corrupção, não sei de nenhum brasileiro que resida fora de seu país, que não se emocione ao voltar a sua terra. Não dizia John Donne que “nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente?” Somos uma imensa família de negros, brancos, pardos e asiáticos. Cada um guarda um pedacinho de você Brasil. Então, não vai a nocaute, levante desta lona e lute com coragem. Sei que é difícil, mas não vai desistir agora, não é? Nenhum brasileiro que se prese deixaria vencer-se tão facilmente.
Você é um país maneiro. Antropofágico, devora a cultura de fora e converte em algo totalmente novo. Pois o legal é ser autêntico. Dizem que o seu povo é cordial, como se fosse uma espécie de depreciação. O jeitinho, próprio do brasileiro, é criticado como algo errado e ruim para a sociedade. Ocorre que, no Brasil, há uma sensação que somos uma grande família. Assim, não nos tratamos como estranhos, sem o afago e o calor tão comum aos trópicos. Conversamos, dialogamos e acordamos ao final. Damos um jeitinho, porque nem tudo é só preto e branco, mas uma sequência de cores e cinzas. Não falei nem mesmo da criatividade do brasileiro. Quantas coisas incríveis somos capazes de fazer que muitos duvidariam? Então, Brasil, honre suas calças, que você consegue, sim, sair dessa crise. Quantos relatos de sua gente simples vencendo, apesar dos pesares, não confirmam a sua força como nação? Ninguém é mais capaz que você, Brasil. Não estou dizendo que é fácil, mas que é possível. Temos um monte de problemas, não vou mentir. A violência está em níveis assustadores, mas tem raízes bem mais profundas do que aparentam. É fruto de uma desigualdade social que provém dos recônditos da sua história. Mas até isto podemos mudar. Não deve ser sempre assim. Há como termos um país mais social. Há como viver num país mais igual. Mesmo que tenhamos de cortar na própria carne. Claro que temos de vencer nosso mais difícil oponente para isto: a corrupção. Sei que é a sua batalha mais ingrata. A gente corta uma erva daninha aqui, nasce outra ali. Contudo, vamos vencer, nem que seja pela nossa teimosia. Não desistimos nunca! Então, bola no chão que o jogo só termina quando o juiz apitar. A nossa educação é subvalorizada, mas, aos poucos, o brasileiro está descobrindo a importância do conhecimento. Não que nossa gente não seja sábia. Para falar a verdade, não há nada mais perfeito que a sabedoria popular. Mas o saber que provém dos livros também é necessário para se construir um país forte. Quando os gritos dos estudantes transbordarem aos muros da escola, então você, Brasil, entrará nos trilhos e prosseguirá na linha.
Outra questão sensível para você, pátria de chuteiras, é a reforma agrária. Só que esta depende do entendimento da perversidade da manutenção de vastos latifúndios no meio rural. Tal qual nas cidades, a desigualdade social também é gritante nos campos. Essa é uma de nossas feridas mais feias. Seguem-se anos em que o coronelismo faz de arma o voto de cabresto. Porém, até isto, você pode vencer, meu Brasil. Claro que não será mamão com açúcar. Vai ser dolorido e não como uma simples dorzinha de dente, mas algo tipo um parto ou uma cólica renal. Temos de criar uma nova mentalidade para o povo. Ensiná-lo a crer em si próprio. Você, Brasil, tem uma certa mentalidade de vira-lata. Na verdade, você acredita-se menor com relação a tudo que vem de fora. Vamos fazer um pacto? Sua cultura não é pior que a dos demais, cara nação tupiniquim. Seu folclore é mágico, não me esqueço desta máxima que aprendi quando li O saci do nosso amado Monteiro, livro que abriu as portas da literatura para mim. Por isso, Brasil, quero que aprecie mais suas qualidades que não é só samba e futebol. A beleza de sua cultura é mais valorizada pelos gringos do que por si próprio. Sei que minhas palavras parecem um simples discurso de uma patriota acalorada. Mas conheço todo o seu potencial, Brasil. “Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, nossos bosques têm mais vida, nossa vida mais amores.” Faço meus os versos de Gonçalves Dias. Não há poesia mais nacional que a Canção do Exílio. Ela é a declaração de saudades de um brasileiro obrigado a afastar-se de sua terra natal. Fora dos limites de seu país, não há quem não sofra de saudades. Pois ainda que você, meu querido Brasil, tenha problemas, não conseguimos não lhe amar. Bastião da cultura popular, guarda uma alegria infinita sob o sol de quarenta graus do Rio de Janeiro. A névoa e o frio Londrinos podem ser até românticos, mas nem se compara a ouvir o Bolero de Ravel no pôr-do-sol na praia do Jacaré em João Pessoa. Portanto, gigante adormecido, acorde que já é hora. Como diz a canção: “vem vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
Então, tome o seu “lindo pendão da esperança”: a sua bandeira, “símbolo augusto da paz”, coloque nas costas e torne-se o herói da sua gente. Sei que pode e que conseguirá. Não vai deixar na mão seu povo que tanto sofre por você, não é, Terra adorada? “Entre outras mil é só você Brasil, ó pátria amada”. Acredito que pode mais. Ainda que, num primeiro momento, as coisas pareçam muito complicadas, eu sei que você vai tirar de letra. Já saímos de buracos piores. Lembra-se da hiperinflação? Mesmo que não goste de recordar fatos tristes de nossa história, sei que é o passado que constrói o futuro. Este foi um período desastroso da nossa economia, mas superamos, não foi? Disseram que o Plano Real, como os demais que vieram antes dele, não daria certo. Mas o tempo provou o contrário, não é? Pois é, Brasil, eu sei que você é duro na queda. Não vamos perder esta luta. Segure na mão de Deus e vai. Vai que seu povo está com você. Não vamos lhe abandonar. Querida pátria, sigamos juntos em busca do futuro. Pois “no seu céu risonho e límpido a imagem do cruzeiro resplandece”, iluminando o sonho intenso de sermos mais do que somos. O “verde-louro de sua flâmula” pinta os rostos dos jovens de esperança. Somos mais fortes que parecemos. E se quisermos mudar o presente, temos de nos valermos de todas as nossas armas. A sua brava gente brasileira, para longe afasta o temor servil. Pois preferem ver a pátria livre ainda que tenham de morrer por você, Brasil. Já pode até dizer aos seus guerreiros: “parabéns, ó brasileiro, já, com garbo varonil, pois do universo entre as nações resplandece você, ó meu Brasil!”. Então, afaste o fantasma da crise e o medo de falhar, porque estamos ainda no primeiro assalto e não vamos cair sem quebrar o queixo do adversário. A crise é feia, mas já superamos coisas piores. “Não tememos as ímpias falanges que apresentam face hostil, pois o peito e os braços do brasileiro são as muralhas” de sua pátria. E, no fim, zombará deles, ó meu Brasil.

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