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A história de Larissa

Giordana Bonifácio

“Foco, Larissa, foco!” Repetia-se mentalmente. Era aquele seu grande momento. Havia passado por poucas e boas para chegar até ali. Assim era inevitável que um filme inteiro de sua vida fosse revivido em sua memória. Lembrava-se de que quando criança sua mãe trabalhava como doméstica e fora demitida por estar grávida. Legislação trabalhista? Era uma ilusão, naqueles tempos. O pai as havia abandonado e passaram fome por algum tempo, até chegar ajuda da professora de educação física da escola que ela, Larissa Fonseca Pinho, deveria estar frequentar, mas que nunca estava presente nas aulas.
A professora chegou ao barraco da família de Larissa toda agradável deixando a pequena estudante faltosa extremamente envergonhada. Ela pediu à mãe para não deixar que a filha abandonasse os estudos. Era essencial se quisessem realmente mudar de vida. Larissa no dia seguinte, atrasada, teve de correr um grande percurso para chegar antes do fechamento dos portões da escola. Não sabia que a professora do dia anterior observava-a a distância. Larissa foi apresentada aos colegas, mas logo que seguia para sua carteira, fora chamada para a sala do diretor. Ela gelou, não estava na escola nem mesmo há quinze minutos e já era chamada à diretoria. “E agora, garota?” Pensou. Mas quando chegou à jaula dos leões, pode distinguir, junto à Diretora, que a professora do dia anterior a aguardava. “A senhora aqui? Olha eu só cheguei um pouquinho atrasada, foi o ônibus…” “Não é nada disto. Ou melhor, é.” Interrompeu-a a professora. “Vi você correndo e, garota, você tem todo o porte de uma esportista de alto nível! Quero lhe convidar a treinar no grupo de atletismo da escola. Creio que você tem grandes chances de chegar a ser uma atleta olímpica!” A diretora completou: “Vamos providenciar-lhe sapatilhas e, a partir de agora, se aceitar, você vai treinar por nossa escola. E então?” “Sim, por que não?” O que ela tinha a perder? Na verdade, ela e a família só ganharam com esta decisão tão abrupta. Um sim inconsequente, mas que daria bons frutos.
Foram anos de muitos treinos, corria muito. Fazia exercícios para fortalecer os músculos, mas a professora, agora sua treinadora, providenciava tudo, às vezes às suas próprias expensas. Patrocínio sempre fora uma raridade. Mas, com o tempo, os esforços passaram a dar resultados. Lembrava-se de sua primeira competição: um honroso terceiro lugar, sua medalha mais importante, pois fora a sua primeira. A partir de então, vieram muitas, foram inúmeras maratonas e meia-maratonas, rodou o mundo correndo. Literalmente.
Com as primeiras vitórias, veio o tão desejado patrocínio e pode dar uma vida mais confortável para a família, sua irmãzinha e sua mãe, que agora viviam em uma casa de alvenaria. Não querendo plagiar o nome do romance de Carolina Maria de Jesus, mas se essa conquista fora para a escritora importante, para aquela menina pobre, que nem mesmo dinheiro para adquirir tênis de corrida possuía, ter uma casa de tijolos era estar segura dos sopros do lobo mal. Agora ele poderia soprar e soprar, mas não conseguiria pegar aquela menininha de jeito nenhum. Pelo menos, era assim que contava na história dos três porquinhos que lia para sua irmãzinha. Nesse ponto, já possuía uma coleção de medalhas, as quais gostava de ouvir tilintar quando segurava todas na mão. A mãe chorava de orgulho todas as vezes que a via competir. A irmãzinha já dizia que quando crescesse seria igual à Larissa.
Contudo, as vitórias não pararam por aí. A maratonista foi convidada a estudar numa grande universidade americana para concorrer nos seus quadros. A mãe dizia que tinha medo, afinal, não sabia conversar na língua dos gringos, mas Larissa já falava bem o inglês, tendo em vista que já competia internacionalmente há algum tempo. Foram as três para os Estados Unidos. A série de vitórias não parou, mas quando foi convidada a naturalizar-se americana, Larissa recusou. Apesar de as coisas não serem fáceis no seu país, ela tinha uma dívida para com sua gente. Tinha de dar-lhes esperança, mostrar-lhes que há sim outra via e que tudo é possível quando se acredita. O reitor ficou emocionado com o gesto da moça, médica formada graças ao poder do esporte.
Foi então que Larissa conseguiu o índice para a Olimpíada do Brasil. Voltaria a sua terra natal, para competir sob as cores de sua bandeira. Na abertura dos jogos, fora levada muitas vezes às lágrimas. Não acreditava que estava ali e nem em tudo que acontecera para chegar neste novo desafio. O maior de todos. Agora, frente aos concorrentes ela sentia que deveria vencer. Não para se provar melhor que os outros, mas para mostrar que, não importa suas origens simples, você pode vencer. As competições de atletismo foram muito disputadas, mas o ponto alto, a maratona, prova tão habitual dos jogos olímpicos e símbolo destes, traria a surpresa da competição. As quenianas não venceram desta vez. Uma menininha pobre da Estrutural, cidade satélite de Brasília, filha de uma empregada doméstica, descoberta por sua professora de educação física, foi sagrada campeã.
No momento da largada, Larissa já tinha em mente: “tenho de vencer!” E não fizera o contrário. Com uma boa estratégia, conseguira o improvável: vencer as favoritas. E quando ouviu o hino tocar e viu a bandeira do Brasil subir no ponto mais alto, sentiu-se completa e realizada em todos os seus esforços. Só queria dizer para todos que a viam naquele pódio todas as dificuldades que enfrentara, mas que conseguira superar graças ao esporte e, é claro, aos seus esforços. Larissa era símbolo de força, superação e fé.

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